Diferenças entre edições de "Ameaça comunista no Brasil"

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'''Ameaça comunista no Brasil''' é uma uma [[teoria da conspiração|teoria conspiratória]] que expressa a crença de que o país corre o perigo iminente de virar para um [[Estado comunista]], seja através de uma revolução, seja através da conversão ideológica. No uso corrente é uma expressão inespecífica, englobando supostas ameaças por qualquer tendência de [[esquerda (política)|esquerda]]. É um equivalente de '''perigo vermelho''', '''ameaça vermelha''', '''perigo comunista''' e outras. A expressão encarna um fenômeno recorrente na história política e social do país, sendo divulgada por correntes [[conservadorismo|conservadoras]] de modo alarmista para criar um ambiente de medo e insegurança na população a respeito de um perigo que nunca teve a dimensão e iminência com que foi divulgado, e muitas vezes para justificar a introdução de [[estado de exceção|medidas de exceção]] de caráter autoritário e antidemocrático, alegadamente necessárias para combater a suposta ameaça.
 
== Definição e premissas ==
{{AP|Anticomunismo|Conservadorismo no Brasil}}
 
Uma crítica conscienciosa do comunismo não negará a existência de corrupção, violência e desmandos em regimes onde a ideologia foi posta em prática, como a União Soviética,<ref name="Falabret"/><ref>Querido, Fábio Mascaro. [https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/entrevista2016_08_03_15_33_58.pdf "Para uma história marxista do marxismo: passado e presente – Entrevista com André Tosel"]. In: ''Crítica Marxista'', 2015 (40): 141-150</ref><ref>Betim, Felipe & Marreiro, Flávia. [https://brasil.elpais.com/brasil/2020-10-31/a-esquerda-radical-brasileira-desenterra-o-debate-sobre-o-socialismo-real-e-ganha-adeptos-nas-redes.html "A esquerda radical brasileira desenterra o debate sobre o socialismo real e ganha adeptos nas redes"]. ''El País'', 31/10/2020</ref><ref name="Lauria"/> onde se desenvolveu uma realidade que foi em muitos aspectos opressiva e brutal, distante das imagens idílicas e edênicas divulgadas pela propaganda pró-soviética.<ref>Dobrenko, Evgeny. [https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142017000300025 "A cultura soviética entre a revolução e o stalinismo"]. In: ''Estudos Avançados'', 2017; 31 (91)</ref> Um dos problemas da teoria conspiratória é, como já foi mencionado, a tendência de atribuir à esquerda o monopólio das maldades, sem reconhecer que abusos e distorções ocorrem em todos os sistemas e regimes políticos criados pelo homem.<ref name="Falabret"/><ref>Ferreira Filho, Manoel Gonçalves. [http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rda/article/view/44482 "A corrupção como fenômeno social e político"]. In: ''Revista de Direito Administrativo'', 1991 (185)</ref> Para Ericson Falabret, "não há justificativas e desculpas para a violência [[stalinista]], como também não deveria haver indulgência para o silêncio complacente diante da violência perpetrada difusamente pelos aparatos de poder que sustentam as democracias liberais, [...] uma violência oficializada e normalizada, que sustenta a desigualdade e, por isso mesmo, prefere a propriedade à vida, [...] e, cotidianamente, prende, tortura e mata pobres, negros, índios e minorias sob a tutela da nossa consciência liberal".<ref name="Falabret">Falabret, Ericson Sávio. [https://revistas.pucsp.br/index.php/teoliteraria/article/view/49625 "Violência e história: o Lebenswelt da política"]. In: ''TeoLiterária'', 2020; 10 (21)</ref>
 
== Origens ==
{{AP|Comunismo|Socialismo|Esquerda (política)}}
 
Embora enfrentasse diversas resistências e críticas, o governo de Vargas sustentou consistentemente o mito da ameaça comunista e de modo geral tornou plausível para a população a ideia da "salvação nacional" à custa da democracia, representando um momento de consolidação da aliança entre as Forças Armadas, a questão da segurança nacional e o combate ao comunismo, e garantindo para o Exército um papel de liderança na construção da ideia de nação e no combate, no imaginário coletivo, do comunismo como o grande inimigo, abrindo o caminho para seu crescente intervencionismo na cena política, como revelado em seu desempenho na derrubada do próprio Vargas em 1945, nas crises de 1954 e 1955, e depois na crise de 1964, que resultou numa [[ditadura militar no Brasil|ditadura militar]].<ref>Marques, pp. 189-192</ref>
 
== Retorno da "ameaça" no pós-guerra ==
{{AP|Guerra Fria}}
 
Do outro lado do espectro, continuavam fortes no Brasil as doutrinas de direita e conservadoras, e diante do exemplo de Cuba os grupos anticomunistas brasileiros intensificaram seu ativismo.<ref name="Patto"/> A teoria da ameaça comunista serviu como argumento decisivo para a realização de golpes e implantação de ditaduras militares na América Latina.<ref name="Tamiris"/> Tomava-se a Revolução Cubana como exemplo paradigmático da barbárie, da loucura e do caos que alegadamente seriam típicos do comunismo, retratando o povo cubano como um joguete inocente nas mãos de seu "perverso" e "perigoso" líder [[Fidel Castro]]. Essa pintura distorcida e tendenciosa foi um mote frequente na imprensa do Ocidente na época, demonizando os comunistas como os destruidores da civilização, comparando-os até mesmo aos [[Cavaleiros do Apocalipse]] e associando-os a profecias de catástrofes inimagináveis que poderiam se espalhar por todo o mundo através da sua influência corrompedora e destrutiva. Segundo Andréia Carvalho, "no quadro de crise em que se encontravam os países latino-americanos, e em particular o Brasil, a alternativa cubana parecia viável, um caminho para o futuro. Neste sentido tornou-se importante para os jornais mais à esquerda maximizar as benesses atribuídas à Revolução Cubana, enquanto a imprensa de tendência mais à direita procurava maximizar os males, demonizando e difamando as conquistas da ilha".<ref name="Andréia"/>
 
== Anos 1960 ==
{{AP|Golpe de Estado no Brasil em 1964|Ditadura militar brasileira}}
 
Ao longo das duas décadas da ditadura o governo e seus apoiadores insistiram no discurso da ameaça comunista usando em essência os mesmos argumentos repisados desde muito antes, e que falseavam ou distorciam os fatos, dramatizavam magnificadamente a suposta ameaça, e estimulavam as delações, criando um clima de tensão, paranoia e medo permanentes e uma cultura do terror,<ref name="Andréia">Carvalho, Andréia S. de. [http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/6o-encontro-2008-1/Visoes%20do%20Inferno.pdf "Visões do Inferno: imprensa e o 'câncer' comunista na América Latina"]. In: ''6º Encontro Nacional da ALCAR''. Niterói, 2008</ref><ref name="Caluz"/><ref name="Mangini">Fernandes, Julio Mangini. [http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300857774_ARQUIVO_JulioManginiFernandes.pdf "Cultura do medo e terror: as práticas repressivas da ditadura civil-militar brasileira aos exilados brasileiros na década de 1970"]. In: ''Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH''. São Paulo, 2011</ref> consolidando o termo comunista, como disse Julio Fernandes, "como sinônimo de, entre outras coisas, terrorista, assassino, sequestrador e comedor de criancinhas. [...] O questionamento das desigualdades sociais ou que propusesse mudanças para a sociedade eram taxadas de ideais comunistas. [...] Para os militares, qualquer sinal de crítica da sociedade e do período ditatorial era enquadrado como 'terrorismo' e, portanto, considerado crime grave e que deveria ser prontamente reprimido e eliminado. [...] Essa repressão e perpetuação da ideia do comunista que ameaçava constantemente os brasileiros, provocava uma desejada paralisia na sociedade, com claro intuito de legitimar as ações dos líderes ditatoriais e eliminar toda e qualquer oposição que não fosse consentida".<ref name="Mangini"/> A partir da edição do [[AI-5]], a repressão recrudesceu e o regime entrou em sua fase mais dura com base na doutrina da segurança nacional.<ref name="Tamiris"/> A consequência desta política foi uma prolongada onda de censura, perseguições, cassações, expurgos, prisões, torturas e assassinatos,<ref name="Caluz">Ferrari, Julio Cesar; Pereira, Rafael Caluz; Fernandes, Paulo Sérgio. [http://www.unisalesiano.edu.br/encontro2009/trabalho/aceitos/PO21949907802.pdf "A imposição da ditadura militar na sociedade brasileira – uma breve analogia do comportamento Estado/Oposição"]. In: ''II Encontro Científico do Simpósio de Educação''. Lins, 2009</ref><ref name="Feijó">Feijó, Sara Duarte. [https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/4431 "Em teu nome... e Batismo de sangue: formas cinematográficas de representar o exílio na ditadura brasileira"]. In: ''Projeto História — Revista de Estudos Pós-Graduados em História'', 2011 (43)</ref><ref>Cavalcanti, pp. 205-207</ref><ref>[http://www.nonada.com.br/2019/03/para-nunca-esquecer-8-relatos-de-vitimas-da-ditadura-militar-no-brasil/ "Para nunca esquecer: 8 relatos de vítimas da ditadura militar no Brasil"]. ''Nonada'', 31/03/2019</ref> levando de 5 a 10 mil pessoas ao exílio.<ref>[http://memorialdademocracia.com.br/card/exilio-e-a-saida-para-milhares-de-brasileiros "Exílio é a saída para milhares de brasileiros"]. Memorial da Democracia</ref>
 
== Cenário recente ==
{{AP|Onda conservadora|Marxismo cultural|Negacionismo da ditadura militar brasileira}}
 
O cenário atual do combate à temida ameaça do comunismo continua muito semelhante ao que foi em tempos passados, e, como antes, continua muito desvinculado da realidade e do plano do debate intelectual, negando qualquer aspecto positivo às esquerdas, usando argumentos simplistas e maniqueístas, recorrendo constantemente ao medo, à difamação, ao exagero, a distorções, a teorias conspiratórias e à divulgação de falsidades, agora potencializadas pela internet e suas [[redes sociais]].<ref name="Batista"/><ref name="Capital">Cunha, Magali. [https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/os-bichos-papoes-que-assombraram-eleitores-religiosos-nas-eleicoes/ "Os bichos-papões que assombraram os eleitores religiosos em 2020"]. ''Carta Capital'', 02/12/2020</ref><ref name="Modesto"/><ref name="Girelli">Girelli, Luciana Silvestre. [https://biblioteca.incaper.es.gov.br/digital/bitstream/123456789/3591/1/discursoscontralula-pt.pdf "Discursos contra Lula e o PT: expressões do ódio no cenário político brasileiro no pré-impeachment de Dilma Rousseff"]. In: ''Idealogando — Revista de Ciências Sociais da UFPE'', 2018; 2, 2 (2)</ref><ref name="Menezes">Menezes, Eduardo Silveira de. [https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2016/06/a-neurose-obsessiva-do-discurso-antipetista-por-eduardo-silveira-de-menezes/ "A neurose obsessiva do discurso antipetista"]. ''Sul 21, 11/06/2016</ref><ref name="pânico"/><ref>Machado, Marília Gabriella Borges. [https://revistas.uece.br/index.php/CadernosdoGPOSSHE/article/view/2229/2575 "Gramsci e a Educação do Educador: a saída é Gramsciana. Não é Gramscista"]. In: ''Cadernos do GPOSSHE — Grupo de Pesquisa Ontologia do Ser Social, História, Educação e Emancipação Humana'', 2020; 3 (2)</ref> Hoje no Brasil muitas vezes são taxados de comunistas ou, empregando um neologismo corrente, de "esquerdopatas", aqueles que defendem os [[direitos humanos]], os que pregam a necessidade de reformas sociais e econômicas, os que promovem a [[inclusão]] social e a [[Diversidade cultural|diversidade]], os que defendem o fim do [[racismo no Brasil|racismo]] e da violência.<ref name="Capital"/><ref name="Girelli"/> Segundo Magali Cunha, "emergiu uma nova face do anticomunismo: o antipetismo e todos os partidos de esquerda do país colocados no mesmo pacote imaginário. Este bicho-papão foi a base da campanha eleitoral de 2018, [...] e em 2020 foi acionado novamente para impor o medo e controlar eleitores que tendiam a dar votos a candidatos de esquerda no segundo turno das eleições municipais".<ref name="Capital"/> Em pesquisa entre simpatizantes da direita, Luiz Signates encontrou que "em todas as entrevistas, ocorreu a vinculação da condição de esquerdista com práticas criminosas e/ou de lesa-sociedade. Ser esquerdista é, além de sinônimo de comunista, alguém que pratica atos terroristas e/ou criminosos em geral. O discurso adotado pelos entrevistados revelou que a simples adoção de uma ideologia à esquerda já sentencia o indivíduo a ser encarado como uma brecha para que o crime rumine".<ref>Signates, Luiz. [https://www.revistas.usp.br/novosolhares/article/view/153583 "Nostalgia e demonização: o senso comum do apoio ao intervencionismo militar no Brasil antes de Bolsonaro"]. In: ''Novos Olhares'', 2019; 8 (1)</ref>
 
== Ver também ==
* [[História do Brasil]]
* [[Política do Brasil]]
 
{{Referências|col=2}}
{{Teorias conspiratórias}}
{{Portal3|Brasil|Comunismo|Política}}
 
[[Categoria:Anticomunismo]]