Diferenças entre edições de "Lewis Henry Morgan"

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Entre seus estudos destaca-se o do parentesco, no qual Morgan tenta estabelecer conexões de sistemas de parentesco em escala global (''Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family'', 1871) ; e o estudo sobre a evolução das sociedades humanas consagrado em ''Ancient Society'' (1877), no qual distingue três estados de evolução da humanidade: selvageria, bárbarie e civilização.
 
Lewis Morgan, nos finais do sec. xix, foi o pioneiro na sistematização dos estudos sobre o parentesco - um conjunto de nomenclaturas utilizadas para designar um certo tipo de tratamento social. São estes estudos que o conduzem ao interesse pelas instituições e pela família - no que respeita à primeira, o autor vai opor duas formas de organização - Societas e Civitas. Esta teoria assenta numa visão evolucionista que postula a passagem de uma organização democrática, sem Estado, baseada no parentesco, para uma outra em que o território e a propriedade assumem papel fundamental, cedendo a democracia os seus direitos ao Estado. Quanto à família, o autor entende que as formas que esta foi sucessivamente adquirindo resulta dos “grandes sistemas de consanguinidade e de afinidade que subsistiram até aos nossos dias(...), os quais ilustram “as relações de parentesco existentes na família nos diversos períodos em que cada um deles se formou.”(Morgan, 1973:9).
A teoria evolucionista de Morgan constitui também uma forte oposição ao paradigma bíblico, uma vez que este defende a “impossibilidade de continuar a evocar a teoria da degradação humana para explicar a existência de selvagens e bárbaros”(Morgan, 1973:18). Pelo que então já se conhecia das sociedades australianas, polinésias, ameríndias e das civilizações grega e romana, o autor considerou que estas eram “excelentes exemplos das seis grandes etapas da história da humanidade (constantando que) o progresso foi essencialmente o mesmo nas tribos e nações com igual estádio de desenvolvimento, embora vivendo em continentes diferentes e separadas umas das outras.”Este argumento leva o autor a concluir pela “unidade de origem do género humano” (Morgan, 1973:29-30), pelo que Morgan é levado a formular as etapas do processo evolutivo da seguinte forma:
a) Selvajaria
- inferior (estado de total promiscuidade, ligado à ausência de regras de parentesco e de
organização social)
- média
- superior
b)Barbárie
-inferior
-média
- superior
c) Civilização
 
Na selvajaria média e superior e na barbárie domina o critério do parentesco na constituição de gens, fratrias, tribos e confederação de tribos - a Societas; na civilização triunfa o critério da classe e da propriedade - a Civitas.
 
O trabalho efectuado por Morgan ultrapassa assim os limites dos dois grandes domínios onde se centram as preocupações da sua época (o da família e o da religião), abrangendo outros aspectos da organização humana. Na sua recolha de informações, junto do povo Iroquês, Morgan irá constatar que no seu sistema terminológico é aplicada uma forma diferente de tratamento entre os primos paralelos e os primos cruzados cruzados (G=PX). No seguimento do seu trabalho, descobre que a mesma forma de tratamento sucede com outros povos ameríndios, e desta constatação irá alargar o seu estudo a outros pontos do globo (onde, para além da ajuda de outros “informantes”, recorre aos trabalhos de Max Muller e de MacLennan). Através da realização de investigações com a ajuda de missionários, a recolha de uma grande massa de informação irá, mais tarde, e num plano mais interpretativo, considerar que existem essencialmente dois grandes sistemas de parentesco: sistemas classificatórios (o mesmo termo é aplicado a uma mesma classe de parentes) e sistemas descritivos (a nomenclatura do parentesco segue o parentesco biológico, utilizando um termo para cada membro da família nuclear, que não é utilizado fora desta).
Assim, após o estudo efectuado através da observação directa dos Iroqueses e de outras tribos ameríndias, o autor irá construir uma teoria sobre os sistemas de consanguinidade e de afinidade (Sistems of Consanguinity an Afinity of the Human Family, 1871), cujo seguimento posterior dará lugar à obra de síntese do seu pensamento (The Primitive Society, 1877), que influenciou marcadamente o pensamento antropológico posterior. O autor classifica as “quatro categorias de factos que acompanham, em linhas paralelas, os caminhos do progresso humano do estado selvagem à civilização” (Morgan, 1973:9). Estas categorias compreendem essencialmente os pontos seguintes:
 
1. A estreita associação entre a organização dos meios de subsistência e as tecnologias resultantes da relação do Homem com o meio ambiente, no âmbito da qual terá igualmente havido uma correspondência directa entre o grau de desenvolvimento técnico e o grau de desenvolvimento social. O autor refere como ponto de transição entre os diversos estádios evolutivos, as inovações e as descobertas tecnológicas. Estas “estão em directa relação com o progresso da humanidade, assinalando a sua marcha por uma série de etapas sucessivas” (Morgan, 1973:8).
 
2. A organização das instituições sociais e civis, que se foram desenvolvendo “a partir de certos germes elementares do pensamento”(Morgan, 1973:14), primeiro em torno das relações de parentesco, passando pela gradual instituição da transmissão hereditária de cargos e de bens - através do reconhecimento e da consolidação dos laços de sangue -, para chegar à afirmação da individualidade, com o aumento de bens e da propriedade privada. À transição de uma fase para a outra, o autor vai fazer corresponder duas diferentes formas de organização política (a democracia primitiva, sem Estado, que designa por Societas, e a organização Civitas, onde a democracia cede lugar ao Estado).
 
3. A família, que “tomou sucessivamente formas diferentes, dando origem aos grandes sistemas de consanguinidade e afinidade que subsistiram até aos nossos dias(...) permitem compreender “as relações de parentesco existentes na família, nos diversos períodos em que cada um deles se formou” (Morgan, 1973: 9). Com base nos sistemas que conseguiu identificar, Morgan irá deduzir as formas de família que lhes estão subjacentes. Deste modo, estabelece a identificação de “cinco formas diferentes e sucessivas de família, caracterizando-se cada uma delas por uma instituição matrimonial específica” (Morgan, 1974:122), nas quais distingue três principais (as restantes formas enquadram-se apenas em estádios de transição):
 
a) A família consanguínea (casamento de irmãos e irmãs, carnais e colaterais, no seio de um grupo)
 
b) A família punaluana (casamento colectivo de grupos de irmãos e irmãs, carnais e colaterais, no seio de um grupo)
 
c)A família monogâmica (união de um só casal, com coabitação exclusiva dos cônjuges)
Nestas três formas faremos corresponder respectivamente os sistemas malaio (G=P=X), turaniano ou ganowiano (G =PX) e ariano (GPX).
 
4. “A idéia de propriedade teve a mesma evolução e o mesmo desenvolvimento. Desconhecida durante o estado selvagem, a paixão e o interesse pela propriedade, símbolo das riquezas acumuladas, dominam presentemente o espírito humano das raças civilizadas.” (Morgan, 1973:9)
Segundo o autor, quanto mais simples forem as artes de subsistência menos objectos se produzem; no seu desenvolvimento até chegar à produção excedentária, estes objectos passam a ser apropriados individualmente, dando origem à propriedade e às regras de herança.
 
Fontes:
 
Morgan, Lewis Henry, A Sociedade Primitiva, Editorial Presença, 1973\74;
 
Marx, Leo, Bruce Mazlich (editions), 1996, Progress: Fact or Ilusion?, Ann Arbor: The University of Michigan Press;
 
Stocking Jr., George, 1982 (1965), On The Limits of ‘Presentism’ and ‘Historicism’ in The ‘Historicism’ in The Historiography
 
Stocking Jr., George, 1987, Vitorian Antropology, New York: Free Press
 
Evans-Pritchard, E. E., História do Pensamento Antropológico, Edições 70, 1989