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Estação Arqueológica de Monte Molião

povoado em Lagos, Portugal


Estação arqueológica de Monte Molião
Vista do Monte Molião e parte da estação arqueológica
Construção Séculos IV a.C. - II d.C.
Aberto ao público Não
Património Nacional
Classificação Logotipo Anta Vilarinho PT.png Imóvel de Interesse Público
(Dec. n.º 26 A/92)
Data 1 de Junho de 1992
DGPC 74224
SIPA 2836
Estado de conservação Regular
Geografia
País Portugal Portugal
Estação Arqueológica de Monte Molião
Localização do sítio arqueológico
37° 06′ 52,85″ N, 8° 40′ 30,46″ O

A Estação arqueológica de Monte Molião, também conhecida como Sítio Arqueológico do Molião ou Povoado do Monte Molião, é um sítio arqueológico localizado junto à cidade de Lagos, na região do Algarve, em Portugal. Corresponde a um castro ou povoação fortificada construído durante a segunda Idade do Ferro, nos finais do século IV a. C.[1] Conheceu uma fase de ocupação intensiva durante o período romano, embora tenha perdido progressivamente a sua importância com a transição do núcleo urbano para a outra margem da Ribeira de Bensafrim, que foi a génese da moderna cidade de Lagos.[1] Ainda assim, verificaram-se vestígios da sua utilização até ao período medieval islâmico.[1] Devido à sua identificação como o local primitivo da cidade de Lacóbriga, as ruínas do Monte Molião são vistas como um ex-libris da cidade de Lagos.[2]

Índice

Interior da cisterna

DescriçãoEditar

Localização e composiçãoEditar

O sítio arqueológico está situado no Monte Molião, uma pequena elevação com cerca de 30 m de altitude, na margem esquerda da Ribeira de Bensafrim, perto da moderna cidade de Lagos.[1]

Corresponde a uma povoação fortificada, como pode ser comprovado pela existência de várias estruturas residenciais, e de uma grande amurada.[3] O povoado também incluía uma cisterna de forma elíptica com cerca de sete metros de comprimento e quatro metros de profundidade.[3]

EspólioEditar

Entre o espólio encontrado no local, estão fragmentos de cerâmica, moedas do período romano, e uma estátua do deus Mercúrio de bronze .[3] A maior parte das peças do Monte Molião foram preservadas no Museu Municipal de Lagos.[4]

ProtecçãoEditar

O monumento foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 26-A/92, de 1 de Junho.[5]

 
Vista parcial do Monte Molião, em 2017

HistóriaEditar

 Ver artigo principal: História de Lagos (Portugal)

As várias sondagens arqueológicas no local permitiram a determinação das várias fases de ocupação no local, começando nos finais do século IV a. C., durante a II Idade do Ferro, e terminando nos finais do século II d. C., durante a era romana.[1] Verificou-se uma utilização posterior, de forma menos intensiva, até ao domínio islâmico.[1]

FundaçãoEditar

De acordo com os vestígios encontrados no local, o povoado começou a ser ocupado desde a segunda Idade do Ferro, relativo ao período entre os finais do século IV até aos finais do III a.C..[6] O Monte Molião foi apontado como o sítio mais provável para a localização da antiga cidade de Lacóbriga, referida pelos geógrafos durante a antiguidade.[6] A data apontada para a fundação de Lacóbriga é o ano de 1 899 a.C., pelos povos Cónios.[7] A identificação do Monte Molião com a cidade de Lacóbriga deve-se à presença de importantes vestígios arqueológicos, e à sua localização num sítio privilegiado, que devido à sua altura e posição facilitava a defesa[8] e possibilitava a vigilância de uma grande porção de território, incluindo a costa de Lagos e as zonas mais interiores.[1] Ao mesmo tempo, a sua situação perto da ria, com acesso ao oceano, facilitava a exploração dos recursos fluviais e marítimos[1], como a criação de bivalves.[8] Nessa altura, o estuário da Ribeira de Bensafrim seria de dimensões muito superiores, rodeando quase totalmente a colina, excepto pelo lado Norte.[1] Nos seus primeiros anos, a povoação deve ter sido de dimensões consideráveis, possuindo evidentes características típicas do urbanismo e arquitectura mediterrânicos.[1] Esta ligação também está expressa nas peças de cerâmica recolhidas, oriundas da cidade de Cádis e da região do Mediterrâneo, revelando que a povoação do Monte Molião estava inserida nas rotas comerciais.[1]

 
Entrada da estação arqueológica em 2017, vendo-se ao fundo a Rua do Monte Molião

Período cartaginês e romanoEditar

Lacóbriga foi posteriormente conquistada pela civilização cartaginesa cartagineses, sob o comando de Amílcar Barca.[9] A povoação original foi destruída por um terramoto no século IV a.C., levando à sua relocalização para a outra margem da ribeira pela capitão cartaginês Boodes por volta de 250 a.C..[10] A nova localização do centro urbano era mais vantajosa, devido principalmente a uma maior proximidade em relação ao oceano.[1]

A cidade de Lacóbriga foi conquistada pelos romanos durante o período republicano, no Século II a.C., numa fase em que se verificou uma progressiva instalação de cidadãos da Península Itálica na região do Algarve.[1] No Monte Molião foram descobertas várias estruturas da fase romana, organizadas em ruas, e que tinham funções residenciais ou industriais, incluindo fornos para cerâmica, zonas de produção metalúrgica, e cetárias, que eram utilizadas na preparação de produtos de peixe.[1] A cisterna também pode ter sido construída pelos romanos.[11] A presença romana também é evidenciada pela existência de vários materiais daquela época, incluindo moedas[3] e de uma necrópole, já destruída, onde foram encontrados vestígios de rituais de inumação e incineração, e peças votivas do Século I d. C. ao III d. C..[1] Como se pode comprovar pelos vestígios encontrados, o povoado terá mantido uma intensa ligação comercial com o exterior, tanto a nível regional como com o Mediterrâneo.[1] A ocupação intensiva durou até à época Imperial de Roma, no Século II,[1] tendo sido abandonado de forma progressiva, especialmente do ponto de vista habitacional, ao mesmo tempo que se desenvolvia a povoação na margem oposta, que deu origem à moderna cidade de Lagos.[1] Como se podia comprovar pela existência de peças do Século III na necrópole romana, está terá continuado a ser frequentada pelos habitantes, que provavelmente viviam perto do monte.[1] Junto ao Monte Molião situa-se a Ponte D. Maria, que liga as duas margens da Ribeira de Bensafrim, e que pode ter origem numa ponte do período romano.[12]

Ocupação posteriorEditar

Desde os inícios do Século II que não se verificou uma ocupação intensa do Monte Molião, embora a área não tenha sido totalmente abandonada.[11] Com efeito, foram descobertos vestígios de ocupação durante a antiguidade tardia, no Século IV, e o domínio islâmico.[1] A colina foi depois utilizada para agricultura, tendo sido cultivados os terrenos e construídas habitações rurais.[11]

 
Vestígios de edifícios no Monte Molião, em 2017.

RedescobertaEditar

O sítio foi escavado pelo arqueólogo Estácio da Veiga durante a segunda metade do século XIX, durante os seus estudos para a produção da Carta Arqueológica do Algarve.[3] Registou a descoberta de várias estruturas, incluindo uma cisterna e vestígios de muros, e de diversos objectos, incluindo fragmentos de cerâmica, moedas romanas e uma estátua em bronze.[3] Nos princípios do século XX, foram novamente feitas escavações no local, sob o acompanhamento do padre José Joaquim Nunes, tendo sido encontrada uma necrópole romana.[3] Esta necrópole foi depois estudada pelos arqueólogos António dos Santos Rocha e José Leite de Vasconcelos.[3] Posteriormente, uma grande parte do sítio arqueológico, incluindo a necrópole romana, foi destruída devido a obras na Estrada Nacional 125.[3]

Em 2006, foi feita uma parceria entre a Câmara Municipal de Lagos e a Universidade de Lisboa para a organização de várias campanhas de escavações no Monte Molião.[4] As pesquisas começaram no Verão do mesmo ano, com grande sucesso, tendo sido encontrados vestígios da presença pré-romana no Monte Molião, teoria que tinha sido avançada por investigadores no passado, mas que até então ainda não tinha sido sustentada por sondagens no terreno.[11] As escavações foram divididas em três zonas, tendo na primeira sido encontrados restos de muros e de paredes, que podiam ser estruturas de defesa ou pertencer a um edifício público, e no seu interior estão vestígios de edifícios e ruas, de forma organizada, que foram construídos no Século I e nos princípios do Século II, durante o período imperial romano.[11] Também foram recolhidas algumas moedas e peças em vidro.[11] A segunda zona situou-se mais acima no monte, no lado Sudoeste, perto da cisterna, e onde foram descobertos restos de edifícios mais antigos, escavados e encaixados no solo rochoso, e que datam do período republicano de Roma, nos Séculos II e I a.C..[11] Na terceira zona, no cume da colina, também foram escavadas estruturas da época romana republicana, e foram encontrados vestígios de habitação do Século IV ao III a.C., durante a Idade do Ferro, incluindo restos de animais marinhos, como amêijoa da ria e berbigão, e fragmentos de cerâmica oriunda da Grécia e do Norte de África.[11]

Em 2010, a autarquia criou a iniciativa anual Jornadas de Portas Abertas, onde o sítio arqueológico é aberto ao público.[13] Em finais de 2016, foi promovida a internacionalização do Projecto Molião, através da sua integração do programa espanhol Investigação, Desenvolvimento e inovação, que englobava outros sítios arqueológicos dos mesmos períodos históricos.[2] No caso específico do Monte Molião, procurou-se estudar as técnicas construtivas utilizadas nos edifícios, de forma a distinguir entre as que foram utilizadas ao longo da ocupação do povoado, e as que pertencem às fases de transição entre os períodos pré-romano, republicano, imperial e do baixo império.[2] Desta forma, iriam-se melhorar os processos de restauro e conservação tendo em vista as diferentes épocas de construção, conhecimento que iria valorizar não só as ruínas do Monte Molião mas que podia ser igualmente utilizado noutros monumentos dos mesmos períodos.[2]

GaleriaEditar

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t «Estação Arqueológica de Monte Molião». Portal do Arqueólogo. Consultado em 23 de Agosto de 2019 – via Direcção Geral do Património Cultural 
  2. a b c d «Arqueologia: Lagos internacionaliza Monte Molião». Postal do Algarve. 13 de Dezembro de 2016. Consultado em 23 de Agosto de 2019 
  3. a b c d e f g h i «Estação arqueológica de Monte Molião». Património Cultural. Consultado em 23 de Agosto de 2019 – via Direcção Geral do Património Cultural 
  4. a b «Povoado do Monte Molião / Estação Arqueológica do Monte Molião». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Consultado em 23 de Agosto de 2019 – via Direcção Geral do Património Cultural 
  5. PORTUGAL. Decreto n.º 26-A/92, de 1 de Junho de 1992. Presidência do Conselho de Ministros, Publicado no Diário da República n.º 126, 2º Suplemento, Série I-B, de 1 de Junho de 1992.
  6. a b «Sítio Arqueológico do Molião». Câmara Municipal de Lagos. Consultado em 23 de Agosto de 2019 
  7. PAULA 1992, p. 21.
  8. a b COUTINHO 2008, p. 9-17.
  9. ROCHA 1910, p. 19.
  10. CARDOSO 1997, p. 32.
  11. a b c d e f g h «Monte Molião poderá ser a origem da cidade de Lagos». Barlavento. 12 de Outubro de 2006. Consultado em 24 de Agosto de 2019 
  12. PAULA, 1992:216
  13. «Descubra Monte Molião com o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa». Barlavento. 14 de Agosto de 2017. Consultado em 23 de Agosto de 2019 

BibliografiaEditar

  • CARDOSO, Maria Teresa (1997). Estudo do Manuscrito Anónimo do Séc. XVIII. Descrição da Cidade de Lagos. Amadora: Livro Aberto, Editores Livreiros Lda. 72 páginas. ISBN 9725930118 
  • PAULA, Rui Mendes (1992). Lagos: Evolução Urbana e Património. Vila Real de Santo António: Câmara Municipal de Lagos. 392 páginas. ISBN 972-95676-2-X 
  • COUTINHO, Valdemar (2008). Lagos e o Mar Através dos Tempos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 95 páginas 
  • ROCHA, Manoel João Paulo (1910). Monographia. As Forças Militares de Lagos nas Guerras da Restauração e Peninsular e nas Pugnas pela Liberdade. Porto: Typographia Universal. 488 páginas 

Leitura recomendadaEditar

  • ARRUDA, Ana Margarida, SOUSA, E., BARGÃO, P. e LOURENÇO, P. (2008). «Monte Molião (Lagos): resultados de um projecto em curso. In Actas do 5º Encontro de Arqueologia do Algarve, (Silves, Outubro de 2007)». Xelb. Volume I (8). Silves: Câmara Municipal de Silves. p. 137‐168 
  • ARRUDA, Ana Margarida (2007). Laccobriga. A Ocupação Romana na Baía de Lagos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 80 páginas 
  • CARDO, Mário (1998). Lagos Cidade. Subsídios para uma Monografia. Lagos: Grupo dos Amigos de Lagos. 80 páginas 
  • SOUSA, E. R. B. de; SERRA, M. (2006). «Resultados das Intervenções Arqueológicas realizadas na Zona de Protecção do Monte Moleão (Lagos). Actas do 3º Encontro de Arqueologia do Algarve, (Silves, 20 a 22 de Outubro de 2005)». XELB. Volume I (6). p. 11–26 
 
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Ligações externasEditar