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O padre Giordani quando jovem.
Monumento ao padre Giordani defronte à Igreja de São Pelegrino.

Eugênio Ângelo Giordani (Encantado, 10 de julho de 1910 — Caxias do Sul, 6 de março de 1985) foi um professor, político e padre católico brasileiro. Ganhou notoriedade como uma das principais lideranças comunitárias de Caxias do Sul em meados do século XX.[1][2][3][4]

Foi o primeiro pároco da Paróquia de São Pelegrino, criada pelo bispo dom José Barea em 27 de fevereiro de 1942 com o desmembramento da Paróquia da Catedral, e ali atuou até falecer. Promoveu a construção da Igreja de São Pelegrino, substituindo uma capela fundada em 1891 pelos imigrantes Rafael Buratto e sua esposa Amália Sartori a partir da doação de uma imagem do santo por Salvador Sartori, pai de Amália, e que havia sido ampliada em 1938. A pedra fundamental foi lançada em 19 de março de 1944, sendo inaugurada com grande pompa em 2 de agosto de 1953. O padre também organizou os trabalhos de sua decoração interna, afamada pelo grande ciclo de afrescos e telas de Aldo Locatelli e seu colaborador Emilio Sessa.[5][6][7] Em função da importância dessa decoração, que é tida como o principal legado artístico de Locatelli,[8] em 1964 Giordani fundou a Associação de Cultura e Arte Aldo Locatelli, dedicada a preservar a memória do artista.[7] A Igreja de São Pelegrino tornou-se uma das grandes atrações turísticas da cidade[9] e foi declarada Patrimônio Cultural do Estado em 2000. Em 2003 seus 50 anos de inauguração foram homenageados na Câmara dos Deputados em Brasília.[10]

A despeito de sua condição de eclesiástico, foi ativo também na política, sendo vereador pelo Partido Democrático Cristão em duas legislaturas entre 1956 e 1963,[7] fato raríssimo na história política do estado.[11] Segundo o historiador Alvino Brugalli, "Giordani costumava defender que os princípios filosóficos de uma política sadia são semelhantes à doutrina cristã, pois visam ao bem comum, à igualdade e à promoção social".[2] Porém, tinha opiniões fortes e desencadeou muitas polêmicas na cidade pelo seu conservadorismo, gerando folclore,[2][12][1] Era um paladino intransigente da moral tradicional, proibia as mulheres de entrar na igreja sem véu e usarem roupas decotadas, condenava o aborto, o divórcio e a liberdade sexual, os movimentos progressistas e liberais, as esquerdas em geral e particularmente o comunismo, do qual era ferrenho opositor, e tampouco aceitava algumas das reformas da Igreja Romana, como a dispensa do uso da batina.[2] Seu discurso e posturas exerciam influência sobre políticos, empresários e sindicatos patronais, bem como sobre os católicos tradicionalistas, tendo significativa penetração na sociedade e sendo um agente essencial na articulação das relações da Igreja com o empresariado.[1][13] No tempo da ditadura militar foi um grande apoiador do regime. Conseguiu aprovar na Câmara uma moção de repúdio à visita de Luis Carlos Prestes à cidade e atuou como informante dos comandos militares a respeito de possíveis subversivos. Em vista disso, sofreu repreensões do bispo dom Benedito Zorzi.[1][14][15]

Como professor por muitos anos deu aulas de latim, história do Brasil e ciências no Colégio São Carlos,[16] do qual foi um dos fundadores junto com as irmãs carlistas, mantenedoras do educandário. Tinha grande interesse pela educação em geral, apoiou a instalação no bairro dos irmãos lassalistas e colaborou na construção das escolas Madre Joana de Camargo, Ana Fadanelli e Dom Vital, hoje escolas públicas. Também foi um dos fundadores do Convento Carmelita, e engajou-se em inúmeras ações assistencialistas, promovendo doação de roupas e mantimentos para os pobres, ajudando doentes e comunidades carentes e organizando loteamentos para habitação popular.[2] Liliane Viero Costa o considera um "precursor dos direitos sociais e defensor dos direitos humanos. Os atos sociais que ele realizava eram pautados pelos princípios de vida. Era uma pessoa preocupada com a educação dos jovens, buscando a construção de escolas na cidade, e solucionando problemas nos bairros pobres de Caxias do Sul. Lutava pela habitação popular e pela implantação de centros de saúde".[17]

Segundo Rodrigo Lopes, a história do bairro São Pelegrino está tão impregnada de sua presença "que hoje é impossível falar nele e não associá-lo a Eugênio Ângelo Giordani, ou simplesmente padre Giordani".[2] Valdir dos Santos o chamou de "líder comunitário incansável e de larga folha de serviços prestados",[3] e para Roni Rigon ele foi "uma das maiores lideranças comunitárias e religiosas da cidade".[4] Pela sua atuação marcante em vários níveis, o padre foi homenageado com um monumento, criado pelo escultor Bruno Segalla.[18][19] Foi homenageado pela Câmara Municipal com a atribuição de seu nome a um largo diante da igreja, onde está seu monumento,[18] com o título de Cidadão Caxiense[6] e com a Honraria Especial Aldo Locatelli: 100 anos de história e legado.[7] Em Encantado seu nome batiza uma rua. Seu legado é preservado na Casa de Memória da Paróquia de São Pelegrino.[6]

Referências

  1. a b c d Gomes, Fabrício Romani. Sob a Proteção da Princesa e de São Benedito: identidade étnica, associativismo e projetos num clube negro de Caxias do Sul (1934-1988. Dissertação de Mestrado. Unisinos, 2008, pp. 135-136
  2. a b c d e f Lopes, Rodrigo. "O legado de quem acreditou". O Caxiense, 08-09/07/2010
  3. a b Santos, Valdir dos. "Fatos Históricos de hoje, 06/03" Arquivado em 19 de novembro de 2016, no Wayback Machine.. Jornal Ponto Inicial, 26/02/2016
  4. a b Rigon, Roni. "Padre de vestido". Pioneiro, 03/06/2008
  5. Luz, Rogério P. D."Igreja de São Pelegrino na Serra Gaúcha, um museu de arte". Crônicas Macaenses, 05/07/2015
  6. a b c Lopes, Rodrigo. "São Pelegrino e o novo espaço da Casa de Memória". Pioneiro, 01/08/2015
  7. a b c d Rausch, Fábio. "Câmara Municipal agracia cinco personalidades com a Honraria Especial Aldo Locatelli: 100 anos de história e legado". Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal de Caxias do Sul, 18/08/2015
  8. Griffante, Ariel Rossi. "O homem que deu rosto à imigração". In: Revista UCS, 2016; 3 (19)
  9. Maino, Daniela Barbosa. "As sete maravilhas do município de Caxias do Sul". In: Métis: história & cultura, 2012; 11 (21):399-410
  10. Transcurso do 50º aniversário de existência da Igreja de São Pelegrino em Caxias do Sul, Estado do Rio Grande do Sul. Câmara dos Deputados, 16/09/2003
  11. Oro, Ari Pedro. "Religião e política nas eleições 2000 em Porto Alegre". In: Debates do NER, 2001; 2 (3)
  12. Valduga, Gustavo. "Coturnos da Ordem: o regime militar de 1964 na região colonial italiana do Rio Grande do Sul (2)". Associação dos Historiadores das Comunidades Ítalo-Brasileiras, 06/04/2014
  13. Mincato, Ramone. A Igreja Católica na formação política de Caxias do Sul de 1964 a 1985. Tese de Doutorado. UFRGS, 2004, p. 18
  14. Valduga, Gustavo. "Coturnos da Ordem: o regime militar de 1964 na região colonial italiana do Rio Grande do Sul (5)". Associação dos Historiadores das Comunidades Ítalo-Brasileiras, 27/04/2014
  15. Pozza, Rosilene. "A Igreja estava dividida entre apoiar ou enfrentar o regime militar". Pioneiro, 28/03/2014
  16. Paz, Valéria Alves. História do Colégio São Carlos de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul (1936-1971). Dissertação de Mestrado. Universidade de Caxias do Sul, 2013, p. 93
  17. Costa, Liliane Maria Viero. A escola municipal de Belas Artes de Caxias do Sul : histórias e memórias (1949 a 1967). Dissertação de Mestrado. Universidade de Caxias do Sul, 2012, p. 146
  18. a b Prefeitura Municipal de Caxias do Sul. Praça São Pelegrino: Diagnóstico Temático Arquivado em 19 de novembro de 2016, no Wayback Machine., 2007.
  19. "Os Brunos em Segalla: escultor retratou a fé e a maternidade". UCS Notícias, 18/10/2016

Ver tambémEditar