Feitura de santo

Feitura de santo, no Candomblé e no Batuque significa a iniciação de alguém no culto aos orixás.

Iniciação no candomblé.

A iniciação no culto aos orixás representa um renascimento, um novo começo. A pessoa está nascendo novamente, nascendo para o orixá, para o mundo espiritual e para uma vida em busca da realização pessoal (pessoal, não material ou financeira), em algumas casas inclusive a pessoa recebe até um novo nome pelo qual será chamada dentro da comunidade do Candomblé. Por meio da iniciação, nos preparamos e formamos para uma conectividade firme, sagrada e permanente com o Divino, o Criador, a natureza e suas funções protetoras e consequentemente com nós mesmos. É como se fizessemos um acordo com o orixá, em que dizemos que para sempre vamos cultuá-lo e adorá-lo, e o orixá irá nos ajudar em toda nossa trajetória, em vida e até depois dela. Através do apoio divino, o ser humano tem condições para vencer as dificuldades internas e externas e a construção de um futuro melhor.

A iniciação é um processo extremamente complexo e individual. Diversos são os motivos que levam uma pessoa a iniciação, os mais comuns são:

• O orixá dizer que a pessoa necessita de iniciação através do oráculo de Ifá;

• A pessoa entrar em um transe profundo (como um desmaio) durante uma cerimônia aos orixás, que significa que o orixá está pedindo a iniciação. Nesse caso, o sacerdote consulta o jogo de búzios para saber qual é o caso, qual o orixá e suas condições, se pode esperar ou se é um caso urgente. Normalmente são feitos acordos com o orixá até a pessoa ter condições financeiras e férias de seu trabalho para poder se iniciar;

• A pessoa ter um carinho e apreço pela religião e pelos orixás, encontrado no culto um local em que sinta que é o seu lugar e se sentir acolhida, e decidir se iniciar de coração e por amor aos orixás;

• Alguma doença difícil de ser curada e com grande risco de morte que necessite da iniciação para resolvê-la;

Lembrando que em nenhum caso a pessoa é obrigada a se iniciar, ela deve se iniciar de coração e não por alguém dizer a ela que deve se iniciar.

Há casos em que as pessoas buscam os orixás pelas dificuldades do próprio caminho; outros ainda, buscam fugir às religiões tradicionais por concluírem que muitas delas estão tão voltadas para o dia a dia dos homens e para os seus interesses imediatos que acabam por fugir à sua real finalidade: promover o encontro do ser com a Divindade, ampará-lo em suas dificuldades espirituais e consequentemente, também as materiais. Alguns ainda são provenientes de outras religiões ou filosofias espiritualistas.

Após a decisão sobre a iniciação, o primeiro passo é consultar o oráculo de Ifá, para recebermos as orientações e procedimentos necessários para que tudo aconteça. Definida a data e chegado o momento de iniciar-se, começam os rituais, que variam de pessoa para pessoa. A iniciação tem por início o recolhimento, que é a reclusão dentro do terreiro, que varia de 16 a 21 dias, longe da vida profana, devendo concentrar-se na iniciação, no orixá e nos aprendizados. Corpo físico, mente e alma são ritualisticamente preparados para os componentes da manifestação divina. São feitos os ebós que foram apurados pelo jogo de búzios, são tomados banhos com folhas sagradas e o aprendizado começa, a rezar, dançar, cantar e etc. A pessoa também faz o seu kelê, seus fios de conta, contreguns e demais adornos que irá usar. Conhecimentos acerca de seu próprio orixá são-lhe ministrados: a maneira adequada de cultuá-lo, as suas proibições (ewò), as virtudes que deverão ser cultivadas e os vícios que deverão ser evitados para atrair influências benéficas e uma relação harmoniosa com a divindade pessoal. Será feito o ritual de bori (dar de comer ao Ori), onde é cultuado e ofertado o primeiro orixá que se deve ser cultuado, o nosso próprio Ori. Suspenso o bori depois de 3 dias normalmente, começa a iniciação própriamente dita, que é a catulagem (cortar o cabelo), dependendo da casa esse processo é feito no rio, durante um ritual em que se faz alguns ebós e juramentos, e na volta é ensinado o orixá (que normalmente incorpora nesse ritual, se a pessoa for médium, mas não sendo obrigatório ele incorporar) o caminho de volta para o terreiro, e em outras casas é feita com as águas das quartinhas dos orixás, varia de casa para casa e do carinho do sacerdote. Após esse processo, de volta ao terreiro, é feito a raspagem total de cabelos, simbolizando o nascimento e são feitos as curas, para preparar o corpo e cabeça da pessoa para receber a energia enorme do orixá (Não significa que a pessoa vai incorporar o orixá), e a pessoa recebe o seu kelê. Após isso, é feito o assentamento do orixá, são feitos sacrifícios de animais, onde através das rezas e cânticos, evolui o espírito do animal que está sendo sacrificado e o encaminha para o Orum, devendo toda iniciação ser oferecido pelo menos um animal de 4 pés (animal caprino), flores, frutas e comidas apuradas pelo jogo de búzios, devendo a carne dos animais assim como as frutas e outras comidas, distribuídas e repartidas com a comunidade. Após a iniciação, você e o orixá se tornam uma coisa só, você passa a ser o templo vivo do orixá. Mesmo se não incorporar, você ainda assim terá toda a energia, o axé e o orixá dentro de você, ele só não vai se manifestar através do transe.

Saída de IaôEditar

A festa ritualística que marca o término deste período é denominada Saída de Iaô, neste momento ele será apresentado à comunidade. Ele será acompanhado por uma autoridade à frente de todos para que lhe sejam rendidas homenagens. Se for um Ogan ou uma Ekedje, deverá acompanhá-lo o orixá que determinou que este fosse o Ogan/Ekedje dele. Deitado sobre uma esteira, ele saudará com reverência e paó, que são palmas compassadas que serão dadas a cada reverência feita pelo iaô e acompanhadas por todos presentes, como demonstração de que a partir daquele momento ele nunca mais estará sozinho na sua caminhada. Primeiramente saudará o mundo, neste momento a localização da esteira é na porta principal da casa. No seu interior, ele saudará o axé (normalmente fica no centro do barracão) onde estão os fundamentos da casa e do sacerdote, os atabaques, o sacerdote que o iniciou, e no caso de ser um Ogan ou Ekedje, saudará também o orixá que lhe escolheu. Nesse ritual o corpo do filho de santo é pintado com pó branco (efun), azul (waji) e vermelho (osun), ele usa na cabeça uma pena vermelha chamada Ekodidé. Essa saída é feita normalmente em 3 dias seguidos. No primeiro dia, o Iaô sai com roupas todas brancas e com o corpo pintado apenas com Efun, homenageando Oxalá. No segundo dia, o Iaô sai pintado com waji e efun. No terceiro, com efun, waji e osun, representando o orixá indo para a guerra, pintado para assustar os inimigos. Após estes, vem a última saída, que é aberta a pessoas de fora da comunidade, depois das reverências, é a hora do Orixá incorporado gritar seu orunkó (nome). O sacerdote escolhe alguém para ser o padrinho de Orunkó, que é a pessoa que vai ouvir o nome do Orixá. No caso de um Ogan ou uma Ekedje, o orixá que te suspendeu dirá o nome do seu orixá e escolherá o padrinho.

Porém o iaô ainda não terminou as obrigações terá ainda que cumprir um preceito normalmente de três meses, dependendo do orixá, e continuar usando o kelê (uma gargantilha de contas) que foi colocada em seu pescoço no início da feitura de santo. Durante esses três meses o Iaô continuará dormindo numa esteira, usará roupas brancas e seguir uma série de restrições denominada de preceito ou resguardo como: não ter relações sexuais, não se olhar no espelho (Lembrando que nesse momento, você e o orixá se tornam um só, e até tirar o kelê, é como se tudo que você fizesse fosse o orixá fazendo) não comer carne vermelha, não beber bebidas alcoólicas, não fumar, e mais algumas, dependendo do orixá da pessoa. Aquele que descumprir o preceito deverá fazer a maioria dos processos da iniciação novamente, pois não valerá de nada se ele não cumpriu o preceito, além de não merecer o sagrado, pois prefere se divertir nos prazeres carnais ao invés de colocar o orixá em primeiro lugar. É o período mais difícil para o Iaô que precisa voltar a trabalhar, muitos se iniciam no período de férias do trabalho e quando termina as férias precisam voltar para um ambiente onde sem dúvida será notado por todos, discriminado por alguns e terá que se manter calado, terá muitos problemas na hora das refeições, pois está proibido de comer em bares e restaurantes, terá que levar uma marmita, comer no chão e aceitar os olhares de curiosidade. Algumas casas atualmente por esse motivo têm feito alguns acordos com os orixás para que o iaô que precisa trabalhar já saia do terreiro sem o kelê, mas terá que cumprir todos os itens do resguardo nos mínimos detalhes. Nesse caso não precisará usar somente branco, poderá usar roupas de cores claras. Existem casos de empresas que o uniforme é preto, marrom, azul marinho, nesses casos o Orixá permite, não vai querer que seu filho perca o emprego. Terminado o período de kelê, é feita a retirada do mesmo e outro ritual é feito para comemorar a comumente chamada "caída de kelê".

Referências

Ligações externasEditar

Ver tambémEditar


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