Abrir menu principal

O Capitão Fernão Pires de Andrade (também referido como Fernão Peres de Andrade[1]) foi um navegador, guerreiro e mercador português do século XVI, farmacêutico e diplomata oficial sob ordens do governador de Malaca Afonso de Albuquerque e uma das personagens de maior relevo da História Oriental de Portugal.

Índice

BiografiaEditar

Em Agosto de 1505 combateu na tomada de Mombaça sob as ordens de D. Francisco de Almeida, pelo qual, aos 16 anos, fora armado Cavaleiro. No ano seguinte encontramo-lo a servir na armada de D. Lourenço de Almeida. Sendo dedicado a D. Francisco de Almeida, tomou o partido deste nas contendas com Afonso de Albuquerque, nisso acompanhado por seu irmão Simão de Andrade. Os dois reconciliaram-se depois com Afonso de Albuquerque e os dois se acharam no mal sucedido ataque a Calicute, bem como nos combates com os Indianos de Goa. Ambos fizeram oposição a Afonso de Albuquerque a propósito das providências que este tomou para reprimir os abusos a bordo dos navios da frota; ambos foram a Malaca, em cuja tomada Fernão Peres de Andrade sofreu ferimentos sem importância, ao passo que seu irmão foi ferido com gravidade. Simão de Andrade regressou depois à Índia, partindo ao mesmo tempo que Afonso de Albuquerque, enquanto Fernão Peres de Andrade ficou em Malaca, com o cargo de Capitão-Mor do Mar. No exercício dessas funções derrotou e fez fugir para Java o Chefe Jau Pate Quetir, que pretendia tomar-lhes a cidade. Em fins de 1512 destruiu totalmente uma grande frota de juncos Malaios do Soberano de Japara, em Java, a quem os cronistas Portugueses dão o nome de Pate Unuz ou Pateonuz, a qual viera com o intuito de conquistar Malaca. E porque a fortaleza, depois dessa estrondosa vitótia, ficava segura, e se acabara o ano que prometera a Afonso de Albuquerque de ficar em Malaca, além de que estava descontente com o Governador da praça, Rui de Brito, partiu-se para a Índia em Janeiro de 1513.[2]

Em 1516 foi encarregado de ir iniciar as relações comerciais com a China, devendo enviar à capital desse país um Embaixador do Rei de Portugal, que seria Tomé Pires, outrora Boticário do Príncipe Herdeiro D. Afonso de Portugal, homem curioso e investigador, desejoso de conhecer muitas drogas que lhe diziam haver na China, e que fora até aí encarregado de escolher, na Índia, as drogas medicinais que deviam ser enviadas para a metrópole. Várias contrariedades impediram Fernão Peres de Andrade de realizar esse ano a sua missão e, por isso, voltou a Malaca, donde partiu em Junho de 1517 com uma frota de oito navios. Quando começava a entrar pelas ilhas adjacentes ao porto da cidade de Cantão, encontrou-se com uma armada Chinesa de muitas velas, sob as ordens dum Capitão que, por ordenança da cidade, andava em guarda da costa, a fim de que os navios que demandassem o porto não fossem roubados pelos corsários que, às vezes, vinham andar naquela paragem. Atiraram-lhe os Chineses alguns tiros, para saberem se era homem de guerra, se de paz. Ele não respondeu com a sua artilharia, antes se deixou ir todo aquele dia embandeirado, mandando tocar as trombetas e fazer todos os sinais de paz, se bem que se achasse apercebido para combater, no caso de os Chineses passarem a mais que aquela simples demonstração. No dia seguinte, sempre seguido pela armada Chinesa, aportou na ilha Tamou, a que os Mouros chamavam da Veniaga. Conhecendo aí, pelo Português Duarte Coelho, de que natureza era aquela frota, mandou um recado ao Capitão dela, fazendo-lhe saber quem era, e como vinha com uma Embaixada do Rei de Portugal ao Imperador da China. Respondeu-lhe o Capitão que fosse bem vindo, e que se entendesse com o Almirante seu superior, que se achava em Nantó. Com calma firmeza, Fernão Peres de Andrade conseguu, apesar das astúcias do Almirante, chegar a Cantão em fins de Setembro, com toda a galhardia e festa que pôde, salvando à terra. Aí assistiu à entrada pomposíssima dos três Governadores da cidade, que se achavam fora. Desembarcou o Embaixador Tomé Pires com mais sete Portugueses que o acompanhavam, fez negociar as mercadorias que trouxera e, no fim de Outubro, retirou para a ilha da Veniaga. Daí enviou Jorge Mascarenhas às ilhas dos Léquiós, e Duarte Coelho a Malaca, a dar novas de como fora recebido o Embaixador que levara. Antes de se fazer ao mar, Fernão Peres de Andrade mandou lançar pregões de que ia partir e que, se houvesse pessoa que dalgum Português tivesse recebido algum dano ou lhe devesse alguma coisa, viesse a ele para lhe mandar satisfazer tudo. Foi isto muito apreciado pelos naturais, que passaram a considerar os Portugueses como homens de muita verdade e de justiça. Partido Fernão Peres de Andrade com toda a sua frota no fim de Setembro de 1518, chegou finalmente a Malaca (diz João de Barros) mui próspero em honra e fazenda, coisas que poucas vezes juntamente se conseguem, porque há poucos homens que por seus trabalhos as mereçam pelo modo que Fernão Peres naquelas partes as ganhava.[3]

O seu contacto com a Dinastia Ming em 1517 — após contactos iniciais por Jorge Álvares e Rafael Perestrelo em 1513 e 1516, respectivamente — marcou o início dos contactos directos comerciais e diplomáticos da Europa com a China. Apesar da missão ter sido inicialmente um sucesso, levando a Embaixada directamente a Pequim, as relações deterioraram-se devido a acontecimentos que geraram uma impressão muito negativa dos portugueses na China. Estes incluíram actos de seu irmão Simão de Andrade, e rumores sobre os Portugueses aliados a factos reais da conquista de Malaca, então um estado tributário da Dinastia Ming. O comércio e relações regulares entre Portugal e a dinastia Ming ocorreriam apenas no fim da década de 1540 e por fim com o estabelecimento do domínio português em Macau em 1557.

Regressado a Cochim, viveu ali principescamente, dando festas sumptuosas que excitavam a inveja e a cobiça dos outros Portugueses, os quais já não pensavam senão em ir à China. Veio, finalmente, para a metrópole e foi comandar uma nau da armada que transportou a Itália a Infanta D. Beatriz de Portugal, Duquesa de Saboia. Em 1535 tornou ao Oriente, como Comandante duma frota. Em 1538 já estava de novo em Portugal quando se divulgou a notícia de que uma poderosa esquadra Turca passara à Ásia com o objectivo de destruir o nosso domínio. D. João III de Portugal tratou de preparar gente em todo o Reino para socorro ao Governador da Índia, que era então Nuno da Cunha. Fernão Peres de Andrade foi enviado ao Porto. Esses preparativos foram, porém, interrompidos, por se vir a reconhecer que não eram precisos. Fernão Peres de Andrade voltou à Índia com uma frota de sete naus, indo a comandar uma delas seu filho Simão Peres de Andrade. Daí em diante nada se sabe dele, desconhecendo-se a data e o local da sua morte.[4]

Fernão Pires de Andrade era referido como um "Folangji" (佛郎機) nos arquivos dinásticos Ming. Folangji, de Franques ou Francos, o nome genérico pelo qual os Muçulmanos se referiam aos Europeus desde as Cruzadas, que declinou no termo Indiano e Sul-Asiático Ferengi. Os Chineses adoptaram este termo.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Williams, 77.
  2. Vários. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. [S.l.]: Editorial Enciclopédia, L.da. pp. Volume 2. 533 
  3. Vários. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. [S.l.]: Editorial Enciclopédia, L.da. pp. Volume 2. 533-4 
  4. Vários. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. [S.l.]: Editorial Enciclopédia, L.da. pp. Volume 2. 534 

NotasEditar

BibliografiaEditar

  • Brook, Timothy. (1998). The Confusions of Pleasure: Commerce and Culture in Ming China. Berkeley: University of California Press. ISBN 0-520-22154-0 (Paperback).
  • Dames, Mansel Longworth. (2002) The Book of Duarte Barbosa. New Delhi: J. Jelley; Asian Educational Services. ISBN 81-206-0451-2
  • Dion, Mark. "Sumatra through Portuguese Eyes: Excerpts from João de Barros' 'Decadas da Asia'," Indonesia (Volume 9, 1970): 128–162.
  • Douglas, Robert Kennaway. (2006). Europe and the Far East. Adamant Media Corporation. ISBN 0-543-93972-3.
  • Madureira, Luis. "Tropical Sex Fantasies and the Ambassador's Other Death: The Difference in Portuguese Colonialism," Cultural Critique (Number 28; Fall of 1994): 149–173.
  • Needham, Joseph (1986). Science and Civilization in China: Volume 5, Chemistry and Chemical Technology, Part 7, Military Technology; the Gunpowder Epic. Taipei: Caves Books Ltd.
  • Nowell, Charles E. "The Discovery of the Pacific: A Suggested Change of Approach," The Pacific Historical Review (Volume XVI, Number 1; February, 1947): 1–10.
  • Williams, S. Wells. (1897). A History of China: Being the Historical Chapters From "The Middle Kingdom". New York: Charles Scribner's Sons.
  • Wills, John E., Jr. (1998). "Relations with Maritime Europe, 1514–1662," in The Cambridge History of China: Volume 8, The Ming Dynasty, 1368–1644, Part 2, 333–375. Edited by Denis Twitchett, John King Fairbank, and Albert Feuerwerker. New York: Cambridge University Press. ISBN 0521243335.
  • Wolff, Robert S. "Da Gama's Blundering: Trade Encounters in Africa and Asia during the European 'Age of Discovery,' 1450-1520," The History Teacher (Volume 31, Number 3; May of 1998): 297–318.

Ligações externasEditar

  Este artigo sobre uma pessoa é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.