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Forte de Santa Cruz de Itamaracá

forte em Itamaracá, Brazil
(Redirecionado de Forte Orange)
Forte de Santa Cruz de Itamaracá
Forte de Santa Cruz de Itamaracá (Forte Orange) - Ilha de Itamaracá, Pernambuco, Brasil
Construção (1631)
Conservação Bom
Aberto ao público Sim
Nome oficial: Forte Orange
Classificação: Edificação
Processo: 0101-T-38
Livro do tombo: Histórico e Belas Artes
Número do registro: 041 e 086
Data de registro: 24 de maio de 1938

O Forte de Santa Cruz de Itamaracá, mais conhecido como Forte Orange, é uma fortificação localizada na ilha de Itamaracá, no litoral do estado brasileiro de Pernambuco, 34 km ao norte do Recife.[1]

No contexto da segunda das invasões holandesas do Brasil situava-se numa pequena ilhota (hoje desaparecida) em frente à ponta sudeste da ilha de Itamaracá, de onde dominava a barra sul do canal de Santa Cruz.

HistóriaEditar

Antecedentes: o forte neerlandêsEditar

Foi iniciado, a partir de maio de 1631, como uma fortificação de campanha, por forças neerlandesas,[2] sob o comando de Steyn Callenfels, tendo recebido a denominação de Forte Orange, em homenagem à Casa de Orange-Nassau, que então governava os Países Baixos. O objetivo era a conquista da Vila da Conceição, atual Vila Velha,[3] então defendida pelas forças de Salvador Pinheiro.

 
Forte de Santa Cruz de Itamaracá: vista do interior.
 
Parte externa da edificação.

Em faxina e taipa, ficou guarnecido por um destacamento de 366 homens sob o comando do capitão polonês Crestofle d'Artischau Arciszewski. Este efetivo resistiu ao ataque das forças portuguesas sob o comando do conde de Bagnoli que, afinal derrotado (1632), retirou-se abandonando a sua artilharia: quatro peças de bronze trazidas do Arraial Velho do Bom Jesus. Após essa conquista (1633), o forte foi reparado e ampliado, sob o comando de Sigismund van Schoppe.[4]

Sobre esta estrutura, Maurício de Nassau reportou:

"(...) Dentro da barra [da ilha de Itamaracá] apresenta-se em primeiro lugar o forte Orange, situado sobre um baixo de areia separado de terra firme por uma angra, que é vadeável de baixa-mar. Este forte domina a entrada do porto, visto que como os navios que entram têm que passar por diante dele a tiro de arcabuz. É quadrado, com quatro baluartes [nos vértices], e ultimamente foi elevado e reparado, mas quase não tem fossos, nem estacada ou paliçada, o que é necessário que se faça, bem como convém aprofundar o fosso e cercar o lado exterior com uma contra-escarpa. Diante deste forte, do lado do Norte, por onde o inimigo pode se aproximar, há um hornaveque."[5]

Essa descrição é complementada pela de van der Dussen, que lhe atribui duas companhias, com um efetivo de 182 homens:

"(...) o forte Orange, na entrada sul do canal, que é o principal porto da Ilha [de Itamaracá]. É um forte quadrangular com 4 baluartes, elevado, tendo em certo trecho um fosso, mas pouco profundo e seco; está cercado por uma forte estacada. Aí estão 12 peças, a saber: 6 de bronze e 6 de ferro. As de bronze são: 1 de 26 libras, 1 de 18 lb, 3 de 12 lb e 1 de 6 lb; as de ferro são: 2 de 5 lb e 4 de 4 lb."[6]

BARLÉU (1974) transcreve a informação:

"(...) o [forte] de Orange, na boca meridional do porto. Tem quatro bastiões e é cercado de uma estacada, por falta de água nos fossos. Está armado de 12 canhões, 6 de bronze e 6 de ferro."[7] Atribui-lhe o mesmo efetivo de 182 homens.[8] Com relação à estacada, foi esta determinada por Nassau na iminência do ataque de uma frota espanhola ao nordeste holandês (c. 1639): "(...) Protegeu Maurício também o forte de Orange, na ilha de Itamaracá, cingindo-o de estacada (...)."[9]

Esta posição integrava o sistema defensivo da ilha composto, a sul pela vila Schoppe, diversos redutos e por um grande alojamento, e a norte pelo Fortim da Ponta de Catuama.[10]

De acordo com BENTO (1971), quando da contra-ofensiva portuguesa à ilha da Itamaracá, em junho de 1646, pelas forças combinadas do Mestre-de-Campo André Vidal de Negreiros (1606-1680) e do Mestre-de-Campo João Fernandes Vieira (1602-1681), o Sargento-mor Antônio Dias Cardoso foi o encarregado de atacar e arrasar as fortificações holandesas, o que foi cumprido, apresando dezoito peças de artilharia, e organizando redutos fronteiros à ilha com algumas dessas peças.

Embora não esteja claro se este forte em particular foi conquistado ou não, na ocasião sofreu pesados estragos, tendo sido reconstruído a partir de 1649.

O forte portuguêsEditar

 
Canhões no Forte de Santa Cruz de Itamaracá.

Após a capitulação holandesa em Recife (1654), o forte foi abandonado e subsequentemente ocupado pelas forças portuguesas sob o comando do Coronel Francisco de Figueiroa.[11] Sobre a sua estrutura, a engenharia militar portuguesa ergueu o atual forte, sob a invocação da Santa Cruz: o Forte de Santa Cruz de Itamaracá.

Apesar de sofrer reparos nos anos de 1696 - quando sua guarnição se compunha de um Sargento-mor, um Capitão, um Tenente, um Sargento, um Condestável, e duas companhias dos Terços do Recife, estando artilhado com vinte e cinco peças dos calibres de 20 a 12[12] -, e de 1777, em 1800, abandonado, encontrava-se em ruínas. Nova restauração foi providenciada em 1817, ano em que foi ocupado pelas forças do padre Tenório, no contexto da Revolução Pernambucana (1817). SOUZA (1885), à época (1885), atribuiu-lhe vinte e três peças, apontando-lhe a ruína.[13]

Os nossos diasEditar

Tombado em 1938 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, pequenas intervenções de consolidação foram efetuadas em 1966 e em 1973, época em que a ilha começou a se projetar enquanto balneário turístico. Em 1971, o Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco procedeu-lhe prospecção parcial, identificando os espaços da Cozinha, da Capela, dos Quartéis e dos Paióis, e recuperando diversos objetos de uso pessoal, munições e canhões de vários calibres. O Ministério do Exército iniciou-lhe reformas no início da década de 1980, passando a sua administração para a Prefeitura Municipal de Itamaracá (1984). É deste período que data o envolvimento do ex-presidiário e artesão José Amaro de Souza Filho com a guarda e manutenção autônomas do monumento, mediante a receita gerada pela venda de artesanato local, situação que perdurou até 1992. A partir de 1991, com a criação, por José Amaro, da Fundação Forte Orange, esta entidade passou a se encarregar da administração do forte, até 1998. Nesta altura, o imóvel foi retomado da Prefeitura sendo passado para o Ministério da Cultura (1998), que por sua vez o repassou para a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco - FADE/UFPE.

A FADE, empresa privada sem fins lucrativos, a partir de 2000 coordenou o projeto de pesquisa arqueológica da UFPE (Projeto Forte Orange), com recursos da MOWIC Foundation, do Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos, do Ministério da Cultura do Brasil - através do IPHAN, e do Governo do Estado de Pernambuco.

De janeiro a março de 2002, e de outubro de 2002 a junho de 2003 duas novas campanhas de prospecção arqueológica tiveram lugar. Os trabalhos compreenderam ainda a construção de defesas contra o mar, com recursos da Prefeitura Municipal, bem como intervenções de restauro e a instalação de um Museu com os testemunhos arqueológicos encontrados nas escavações, com recursos do Governo do Estado de Pernambuco e do IPHAN. Em 2010, uma nova campanha, também sob a responsabilidade do Laboratório de Arqueologia da UFPE, pesquisou o espaço da praça de armas, identificando o primitivo portão de armas e a casa de pólvora.[14]

O forte esteve fechado durante oito anos para reformas, que foram estimadas em 11 milhões de reais. No final de julho de 2018 foi reaberto para visitações.

CaracterísticasEditar

Embora historiograficamente se considere que a engenharia militar portuguesa apenas realizou trabalhos de reforma e ampliação da praça neerlandesa, como por exemplo revestindo com alvenaria de pedra a primitiva muralha de terra, a pesquisa arqueológica constatou que efetivamente se trata de duas estruturas diferentes. Embora com estrutura similar, o atual forte apresenta maiores dimensões, com as dependências internas justapostas à contramuralha (a parede interna da fortificação), ao contrário da primitiva estrutura, onde se encontravam separadas. O portão de armas neerlandês, erguido em alvenaria de tijolos trazidos dos Países Baixos, era voltado para o canal de Santa Cruz, sendo entaipado por um muro de pedra pelos portugueses que, entretanto, rasgaram o atual voltado para terra.[15] Em alvenaria de pedra de calcário e cal, o atual forte apresenta planta na forma de um polígono quadrangular regular com baluartes pentagonais nos vértices no sistema Vauban, guaritas de cantaria, portão armoriado, além de quartéis para a tropa, Casa de Comando e paióis ao abrigo das muralhas, envolvendo o terrapleno.

Referências

  1. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 2010, p. 56-57.
  2. BARRETTO, 1958:133.
  3. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 210, p. 56-57.
  4. ALBUQUERQUE, 2010:37.
  5. NASSAU, Maurício de. Breve Discurso. 14 de janeiro de 1638.
  6. Adriaen van der Dussen. Relatório sobre o estado das Capitanias conquistadas no Brasil. 4 de abril de 1640.
  7. Op. cit, p. 143.
  8. Op. cit., p. 146.
  9. Op. cit., p. 159.
  10. ALBUQUERQUE, 2010:37.
  11. GARRIDO, 1940:62.
  12. GARRIDO, 1940:62.
  13. Op. cit., p. 81.
  14. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 2010, p. 56-57.
  15. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 2010, p. 56-57.

BibliografiaEditar

  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Arqueologia do Forte Orange". in Revista DaCultura, ano IX, nº 15, junho de 2009, p. 37-47.
  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Arqueologia do Forte Orange II". in Revista DaCultura, ano X, nº 16, abril de 2010, p. 44-51.
  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Arqueologia do Forte Orange: o forte holandês". in Revista DaCultura, ano X, nº 17, agosto de 2010, p. 36-43.
  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Forte Orange e seu cotidiano material". in Revista DaCultura, ano XII, nº 19, janeiro de 2012, p. 26-35.
  • BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 418p. il.
  • BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368p.
  • BENTO, Cláudio Moreira (Maj. Eng. QEMA). As Batalhas dos Guararapes - Descrição e Análise Militar (2 vol.). Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1971.
  • GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
  • MELLO, José Antonio Gonsalves de (ed.). Fontes para a história do Brasil holandês (v. 1). Recife: Parque histórico-nacional dos Guararapes; MEC/SPHAN/Fundação Pró-Memória, 1981. 264p.
  • SOUZA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
  • TEIXEIRA, Paulo Roberto Rodrigues. "Forte Orange". in Revista DaCultura, ano VII nº 12, junho de 2007, p. 51-60.

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar