Francisco Franco

ditador espanhol
Disambig grey.svg Nota: Para o escultor português, veja Francisco Franco de Sousa.
Francisco Franco
Caudilho da Espanha
Período 1 de Outubro de 1936
até 20 de Novembro de 1975
Antecessor Manuel Azaña Díaz (Presidente da República Espanhola, de 10 de Maio de 1936 a 28 de Fevereiro de 1939)
Sucessor Juan Carlos I a título de Rei de Espanha
Presidente do Governo da Espanha
Período 30 de Janeiro de 1938
até 8 de Junho de 1973
Antecessor Juan Negrín
Sucessor Luis Carrero Blanco
Dados pessoais
Nome completo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde Salgado-Araujo y Pardo de Lama
Nascimento 4 de dezembro de 1892
Ferrol, Galiza
Espanha
Morte 20 de novembro de 1975 (82 anos)
Madrid, Espanha
Nacionalidade espanhol
Progenitores Mãe: María del Pilar Bahamonde Pardo de Andrade
Pai: Nicolás Franco Salgado-Araújo
Alma mater Academia de Infantaria de Toledo
Cônjuge Carmen Polo de Franco
Filhos Carmen Franco
Partido FET y de las JONS
Religião Católico
Profissão Militar
Assinatura Assinatura de Francisco Franco
Serviço militar
Lealdade Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Reino da Espanha
Flag of Spain (1945–1977).svg Estado Espanhol
Serviço/ramo Forças Armadas da Espanha
Anos de serviço 1907-1975
Graduação Capitão-General dos exércitos de terra e ar
Conflitos Guerra do Rif
Revolução de 1934
Guerra Civil Espanhola
Guerra de Ifni

Francisco Franco GColTEGCBTO (Ferrol, 4 de dezembro de 1892Madrid, 20 de novembro de 1975) foi um militar, chefe de Estado e ditador espanhol.[1] Conhecido como "Generalíssimo" ou simplesmente Franco. Em julho de 1936 integrou o golpe de Estado em Espanha contra o governo da Segunda República, o que deu início a Guerra Civil Espanhola.[2] Foi nomeado como chefe supremo da tropa sublevada em 10 de outubro de 1936, exercendo como chefe de Estado de Espanha desde o final do conflito até seu falecimento em 1975, e como chefe de Governo entre 1938 e 1973.

Em 1912 foi colocado em Marrocos onde iniciou uma carreira notável de promoções meteóricas por feitos, valentia e coragem em combate. Franco conquistou rapidamente o respeito das tropas indígenas, que o reconheciam como um líder honesto, sensato e equilibrado, que seguia os regulamentos, tendo ficado conhecido como um purista do cumprimento das regras[3][4] Em 1926, com apenas 33 anos, foi promovido a General tendo-se tornado no General mais jovem de toda a Europa. Embora fosse católico e de convicções monárquicas, Franco evitou sempre envolver-se em qualquer tipo de conspirações políticas mantendo sempre uma postura profissional e apolítica até 1936.[5][6]

A 13 de Julho de 1936, na sequência de um período turbulento, em que foram assassinadas centenas de pessoas, sobretudo religiosos, as forças policiais, que supostamente eram responsáveis por manter a ordem e proteger os civis, assassinaram o líder do Partido Monárquico espanhol, José Calvo Sotelo, o que desencadeou um golpe militar que vinha sendo preparado pelo General Emilio Mola. O golpe iria ter como figura de proa o General José Sanjurjo, mas este morre num acidente de aviação em Portugal quando se preparava para se juntar aos golpistas. A sublevação falhou, tendo-se dado início a uma sangrenta guerra civil, com atrocidades cometidas pelos dois bandos. Franco que estava colocado nas Canárias e que estava ao corrente da conspiração mas que não tinha feito parte da organizaçao[7] tomou o partido dos sublevados e viajou para o Norte de África para liderar as tropas de Marrocos. Devido ao seu prestígio conseguiu o apoio de Adofo Hitler e Mussolini. Franco acaba por assumir a liderança das tropas sublevadas e leva-las à vitória em 1939, após um processo sangrento, com milhares de mortos, e atrocidades cometidas pelas duas partes da contenda.

Ao contrário de Hitler e Mussolini, o governo Franco, devido à teórica neutralidade na Segunda Guerra Mundial, resistiu ao conflito. Mas Franco liderava um país industrialmente atrasado, bem mais pobre que outras nações europeias. Contudo, a partir da década de 1960, a Espanha passou por um período de forte crescimento económico, o que elevou sua popularidade.[8] Este crescimento, contudo, foi acompanhado por um aumento no aparato repressivo do Estado franquista, perseguindo dissidentes e ativistas, ao mesmo tempo que implementou uma política de repressão cultural no seu país. A posição ferrenha contra o comunismo trouxe de volta parte do apoio internacional e na década de 1970 a Espanha já era uma das nações que mais cresciam, economicamente, na Europa. Isso não impediu que, ainda em meados dos anos 70, a oposição interna pedisse com mais veemência sua renúncia, apoiada pela comunidade internacional.

Durante o seu mandato à frente do Exército Espanhol e da Chefia do Estado, especialmente durante a Guerra Civil e os primeiros anos do seu regime, tiveram lugar múltiplas violações dos direitos humanos, segundo assinalam numerosas pesquisas históricas e denúncias de pessoas.[9] A cifra total de vítimas mortais durante seu governo varia em torno de 200 mil mortes,[10][11][12][13][14] na maioria em campos de concentração, execuções extrajudiciais ou em prisões.[15][16][17]

Depois de um governo de quase quarenta anos, Franco restaurou a monarquia em 1975 e deixou o Rei Juan Carlos I como seu sucessor. Juan Carlos liderou a transição para a democracia, deixando a Espanha com seu atual sistema político.

Infância e formação militarEditar

Nasceu a 4 de Dezembro de 1892 na cidade galega de Ferrol, local de uma importante base naval, que havia sido a pátria dos Franco desde 1730. Herdou uma forte tradição dos seus antepassados que durante seis gerações tinham sido oficiais de marinha, tendo alguns deles chegado ao posto de Almirante. O seu pai, Nicolás Franco Salgado-Araujo foi oficial da administração naval e no final da carreira alcançou o posto de Intendente Geral (equivalente a vice almirante). A sua mãe Maria do Pilar Bahamonde y Pardo de Lama-Andrade filha de um alto oficial do corpo de intendência naval, descendia de uma longa linhagem de oficiais de marinha.[18]

Em 1907 inciou os seus estudos militares na Academia de Infantaria de Toledo tendo-se graduado como Alferes com apenas desasete anos.[19] Quando ingressou na academia, com apenas 14 anos era um dos cadetes mais jovens, a maioria dos cadetes tinha entre 16 e 18 anos. Devido à sua tenra idade, baixa estatura (em adulto apenas alcançou 1,67m) e extrema magreza, ficou conhecido como "franquito", e foi vitima preferencial de praxes militares por parte dos cadetes mais veteranos. Mais tarde Franco recordaria aquela época da sua vida como um "verdadeiro calvário" e criticou duramente a falta de disciplina da academia, bem como a irresponsabilidade dos directores ao juntarem cadetes de idades tão distintas.[20]

Guerra do Rif, Franco torna-se o general mais jovem da EuropaEditar

Em 1912 é colocado em Marrocos onde incía uma carreira notável de promoções meteóricas por feitos, valentia, frieza e coragem em combate; qualidades que aliava a uma personalidade meticulosa nos detalhes logísticos.[21][3] Franco conquistou rapidamente o respeito das tropas indigenas, que o reconheciam como um líder honesto, sensato e equilibrado, que seguia os regulamentos, tendo ficado conhecido como um purista do cumprimento das regras[3] No início de 1914, com 22 anos, é promovido a Capitão, tendo-se tornado no capitão mais jovem do exército espanhol.[22] As tropas indigenas diziam que Franco tinha «baraka», uma espécie de benção divina que lhe permitia escapar ileso dos combates mais sangrentos. Dos 42 oficiais regulares colocados em Marrocos em 1912, apenas sete continuavam vivos em 1915, Franco era um deles.[23] Contudo em 1916, na batalha de El Biutz, Franco acaba por ser ferido em combate, trespassado por uma bala que o atinge no ventre e sai pelas costas.[24]. Nessa época, sem antibióticos, em Marrocos, uma ferida desta natureza significava morte certa, mas Franco, que era conhecido por ter uma saúde de ferro, sobrevive miraculosamente[25] e é condecorado com Cruz de Maria Cristina de Primeira Classe.[26]

Após uma estada de três anos em Oviedo, onde conheceu a sua futura mulher, Carmen Polo, Franco é convidado pelo então tenente-coronel Millán Astray para regressar a Marrocos e criar um corpo de elite de voluntários estrangeiros, para combater nas guerras do Norte de África. A Legião foi criada por Decreto Real de 28 de Janeiro de 1920, com o nome de Tercio de Extranjeros (Terço de Estrangeiros). Millán Astray era na época um heroi militar, ferido por 4 vezes na guerra de Marrocos, onde perdeu o braço esquerdo e o olho direito, muito popular mas sem as qualidades de um organizador, é assim que Franco, com reconhecidas habilidades para preparar e disciplinar torpas, recebe o segundo posto de comando.[27] Em pouco tempo, sob o comando de Millán Astray e de Francisco Franco "La Legion" ganhou a fama de ser a unidade mais bem preparada e mais resistente do exército espanhol.[27]

Em 1923, casou-se com Carmen Polo, de uma família da burguesia das Astúrias, tendo tido o Rei Afonso XIII como padrinho.

Destinado novamente a Marrocos com a patente de tenente-coronel, assumiu o comando da Legião Espanhola em 1923 e participou activamente no desembarque na baía de Alhucemas e na reconquista do Protectorado que culminaram com a derrota de Abd o-Krim e a ocupação e pacificação total da zona espanhola do Protetorado. Nenhum outro oficial se havia notabilizado tanto como Franco e como reconhecimento Franco é promovido a General de Brigada, com apenas 33 anos tornando-se assim no general mais jovem de qualquer exército da Europa e convertendo-se no general mais célebre do Exército Espanhol.[28][21]

Director Geral da Academia Geral MilitarEditar

Em 1927 o ditador Miguel Primo de Rivera apercebendo-se que a desunião existente entre os vários corpos de oficiais do exército, com as suas várias academias, era um foco de instabilidade política, resolve promover uma unificação de todas as academias militares criando a Academia Geral Militar em Saragoça elegendo Franco para dirigi-la. Era o reconhecimento de que Franco para além da sua extraordinária bravura no campo de batalha, possuía também qualidades mentais de organização e liderança. Nesta escolha pesou também o facto de Franco nunca ter participado em conspirações ou movimentações políticas. Primo de Rivera considerou que Franco era o homem ideal para imbuir os jovens militares de espírito patriótico, profissionalizar o exército, retirando-lhe a carga política.[29]

Em 12 de abril de 1931 celebraram-se as eleições municipais, onde os monárquicos obtiveram vantagem nas zonas rurais, mas os republicanos ganharam nas grandes cidades. Embora os republicanos não tivessem ganho as eleições a nível nacional conseguiram no entanto passar a ideia que nas cidades havia mais consciencia política e como tal eram os legítimos vencedores. Os monárquicos abandonaram o seu Rei, o General Sanjurjo, chefe da Guarda Civil anunciou que os homems que estavam baixo o seu comando não participariam em qualquer tipo de confrontos para defender o seu Rei. Os republicanos sairam à rua a celebrar a pretensa vitória e o Rei Afonso XIII decidiu abandonar o país, sem renunciar aos seus direitos, com o intuito de evitar uma guerra civil.[29] Franco ficou horrorizado, pensava que a maioria dos espanhois seguiam apoiando a coroa, embora nas grandes cidades não fosse assim, e considerou a declaração da república uma usurpação, uma espécie de pronunciamento pacífico.[29]

Não obstante os seus sentimentos monárquicos, no dia 15 de Abril de 1931, Franco dirigiu-se aos seus cadetes para lhes anunciar a proclamação da república, destacando a necessidade de manter a disciplina e o respeito pelos poderes recem instituídos.[30] Desde o advento da república Franco manteve sempre a sua linha de profissional obediente disciplinado e apolítico, independente dos seus sentimentos pessoais, e manteria esta sua conduta de fidelidade ao poder instituído por toda a sua vida até ao estalar da guerra civil.[31][32]

Um General votado ao ostracismoEditar

 
Franco em 1930.

A 30 de Outubro de 1931, Manuel Azaña, na qualidade de Ministro da Guerra, ordena o encerramento da Academia Geral Militar, deixando Franco desolado. Franco, embora contrariado, acatou as ordens, e em Abril disse aos cadetes:

Se neste centro sempre reinou a disciplina e cumprimento rigoroso do dever, tal é ainda mais necessário hoje, quando o exército, sereno e unido, necessita sacrificar todo o pensamento e ideologia a bem da nação e da tranquilidade de pátria.[33]

e no discurso de encerramento, em Junho de 1931, voltou a fazer um apelo aos seus cadetes que actuassame sempre com disciplina, sobre tudo nas ocasiões em que o pensamento e o coração não estavam em sintonia com as ordens de uma autoridade superior imbuída de erros,

Disciplina!...,nunca bem compreendida.Disciplina!...que não encerra mérito quando a condição do mando não é grata e fácil.Disciplina!..., que se reveste do seu verdadeiro valor quando o pensamento aconselha o contrário do que nos ordenam, quando o coração pugna por levantar-se em íntima rebeldia, ou quando a arbitrariedade ou o erro vão associados à acção do mando. Esta é a disciplina que vos inculcamos, esta é a disciplina que praticamos. Este é o exemplo que vos oferecemos.[34]

Franco termina o seu discurso com um "Viva Espanha" em vez de um mais político "Viva a República"[35]

Manuel Azaña não gostou do discurso de Franco e reprendeu-o oficialmente, algo que nunca lhe havia ocorrido ao longo da sua carreira. Franco desagradado escreveu a Azana e chegou a encontrar-se pessoalmente com ele, tendo lembrado que jamais se havia envolvido em política e que sempre fora um profissional disciplinado e apolítico. Contudo após o encerramento da Academia Geral Militar, Franco esteve oito meses sem qualquer cargo, tendo passado esse período retirado nas sua casa nas Astúrias.[36] Após um longo período de inactividade Franco acaba por ser destacado para os governo militar da Corunha e mais tarde das Baleares.

A 10 de Agosto de 1932 da-se o pronunciamento fracassado do general Sanjurjo ('Sanjurjada'), o único pronunciamento militar ocorrido até o estalar da guerra civil. O General Sanjurjo é detido em Huelva, quando tentava fugir para Portugal. Julgado e condenado à morte, o Presidente da República comuta-a em cadeia perpétua. Franco evitou qualquer envolvimento na Sanjurjada o que lhe valeu o reforço do reconhecimento como militar apolítico.[37]

Em 1933, perante uma forte contestação contra a governação da esquerda o presidente Alcalá Zamora nomeia Alejandro Lerroux com a missão de prepara um governo de base social mais alargada e mais moderado. Lerroux chama imediatamente Franco e convida-o para o cargo de Ministro de Guerra. Franco tinha credenciais militares impares e tinha sempre mantido uma postura profissional e apolítica, contudo Franco declinou o convite.[38]

Da Revolta das Astúrias a Chefe do Estado MaiorEditar

Em Novembro de 1933 uma coligação liderada pela Confederação Espanhola de Direitas Autônomas ganha as eleições sem contudo alcançar maioria parlamentar necessária para poder formar governo. A esquerda republicana pediu ao presidente Alcalá Zamora que anulasse as eleições, não por considerar que tivessem sido fraudulentas mas sim com o argumento que a República era um projecto da esquerda e como tal não podia ser governada pela direita.[39]

Em Outubro de 1934 a esquerdas liderada pelo PSOE e pela UGT, desencadeiam uma greve geral e uma insurreição a nível nacional. O motivo é a não aceitação da entrada para o governo de três ministros do La CEDA, o partido mais votada nas eleições. Os revolucionários tiveram maior exito nas Asturias onde pilharam e saquearam Oviedo, roubaram bancos e assassinaram entre 50 e 100 civis inocentes.[40] Entre as vítimas encontram-se 34 padres, homens de negócios, agentes policiais e seis estudantes seminaristas, com idades compreendidas entre os 18 e os 21 anos, que mais tarde, em 2019, viriam a ser beatificados na Catedral de Oviedo.[41] O Ministro Diego Hidalgo apressou-se a tentar sufocar a revolta e para tal nomeou Franco como seu assessor pessoal. Franco recomendou a mobilização das tropas de Marrocos. O ministro Hidalgo queria enviar Franco para o teatro de operações nas Asturias mas o Presidente Alcalá Zamora insistiu para que as operações fossem lideradas por um militar completamente identificado com os princípios liberais e a escolha acabou por cair sobre o General Lopez de Ochoa um liberal maçom.[40] Sob as orientações de Franco desde Madrid, a revolta foi esmagada tendo a esquerda feito uma campanha na imprensa internacional, com o apoio de Willi Münzenberg, o primeiro chefe da Internacional Comunista, denunciando atrocidades e maus tratos. Contudo a repressão, para os padrões europeus da época, foi relativamente suave.[42] Os líderes da revolta foram tratados com benevoléncia, os Socialistas não foram proscritos, e a maioria dos deputados de esquerda pôde voltar a ocupar os seus assentos no Parlamento.[42] Franco foi condecorado com a Gran Cruz do Mérito Militar e foi nomeado Comandante Chefe das Tropas de Marrocos.[42]

Quando José María Gil-Robles ocupou o Ministério da Guerra, foi nomeado Chefe do Estado-Maior Central (1935).

 
Francisco Franco junto ao presidente Dwight Eisenhower dos Estados Unidos.

A Guerra de 1936 a 1939Editar

Em 1936 a esquerda republicana forma a Frente Popular e assume o poder na sequência de um processo eleitoral exercido em ambiente de violência[43] e que segundo alguns académicos foi fraudulento e com irregularidades.[44][45][46]

Na noite 13 de Julho de 1936, culminando um largo período ilegalidades, violência, centenas de mortes, perseguições religiosas e desordem pública, forças policiais, cuja missão seria a de proteger os cidadão, dirigem-se a casa do líder da oposição, José Calvo Sotelo, e assassinam-no com um tiro na nuca. Este facto afectou Franco significativamente. Segundo o historiador Stanley Payne é este episódio que leva Franco, até aí sempre um prudente defensor da ordem e obediência às instituições, a aderir à sublevação militar, iniciada poucos dias depois, a 18 de Julho de 1936 e liderado pelo General Emílio Mola.[5] O historiador Paul Preston diz que Fanco só se decidiu a aderir ao golpe militar cinco dias antes do golpe ter estalado.[47] O historiador Espanhol Javier Tussell afirma que não só Franco não fez parte da conspiração mas que para os conspiradores a posição de Franco foi sempre uma incógnita até ao último minuto.[6]

Franco que estava colocado nas Canárias toma então o partido dos sublevados e viaja para o Norte de África para liderar as tropas de Marrocos, à data as unidades mais eficazes do Exército Espanhol. Embora Franco tenha sido lento a comprometer-se com o golpe militar, uma vez tendo tomado a decisão de sublevar-se, Fanco demonstrou as suas qualidades de líder militar: sangue frio glacial em situaçoes de grande tensão, uma determinação inabalável e um optimismo contangiante.[47] A sua mera presença tinha um efeito contangiante na moral das suas tropas.[47]

Como a Marinha tinha mantido a sua fidelidade à República, Franco deparou-se com o problema de ter que transportar as suas tropas de Marrocos para Espanha. Nesta altura Franco, sem hesitar, actuou como sendo o líder dos revoltados e não como se fosse apenas um líder regional. Franco enviou emissários a Berlim e a Roma e conseguiu o apoio de Hitler e de Mussolini. O facto de Franco ter conseguido estes apoios internacionais é demonstrativo das suas qualidades de liderança e da superioridade de Franco em relação a Emílio Mola e Queipo de LLano.[47] Franco atravessou o Estreito de Gibraltar com meios precários (aviões cedidos por Mussolini e Hitler e navios de pouca tonelagem) e avançou até Madrid por Mérida, Badajoz e Talavera de la Reina, com as suas tropas mouras a semearem um clima de terror nos pontos por onde passavam.[47]

Em 28 de Setembro, Franco opta por atrasar a entrada em Madrid e desvia as forças Nacionalistas para terminarem o cerco Republicano ao Alcázar de Toledo, defendido por José Moscardó desde 22 de Julho - uma conquista sem muito significado estratégico mas que foi logo revestida de características lendárias (o filho de Moscardó teria sido fuzilado após haver pedido ao pai, ao telefone, que se rendesse) o que se tornou nun dos mitos do regime franquista.[48] O atraso na entrada em Madrid permitiu às forças republicanas armarem-se e organizarem-se o que terá atrasado o desfecho da guerra e permitiu ao bando republicano levar cabo purgas sangrentas, como foi o caso dos Massacres de Paracuellos onde foram fuzilados milhares de civís, muitos dos quais religiosos. Franco foi criticado por este erro estratégico e pela lentidão com que, a partir de então, as suas tropas avançaram no terreno, mas Franco preferiu sempre manter a sua estratégia de avanços cautelosos, tendo explicado que “numa guerra civil, é preferivel una ocupação sistemática de territorio, acompanhada por uma limpeza necesária, a uma rápida derrota dos exércitos enemigos que deixe o país infectado de adversarios".[49]

Em 1936 Franco conseguiu a direcção militar e política da guerra, e em 1 de Outubro de 1936 converteu-se em Chefe do Estado.

Em Abril de 1937 uniu os falangistas da Falange Espanhola das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista, FE de las JONS, e colocou-se à frente da nova organização como seu Chefe Nacional Caudilho.

Anos mais tarde, disse que apenas prestaria contas da sua atividade "perante Deus e perante a História".

Pós guerra e presidênciaEditar

Terminada a guerra, Franco, não só não quer contar com os vencidos para esta tarefa, mas também a repressão e os fuzilamentos se prolongam durante, pelo menos, um lustro. Cria um estado católico, autoritário e corporativo que recebe o nome de franquismo.

  Aqueles que me pressionam para aliar-me à Alemanha estão errados, muito errados. Os ingleses não se renderão; lutarão sempre e, se forem expulsos da Grã-Bretanha, continuarão a lutar no Canadá. Farão com que os norte-americanos os sigam. A Alemanha ainda não ganhou a guerra.  

—Franco, após a Queda da França em 1940.[50]

Apesar das suas estreitas relações com a Alemanha e a Itália,mantém a neutralidade espanhola durante a Segunda Guerra Mundial.Terminada esta,os vencedores isolam o regime franquista.Contudo,este foi se consolidando na base da promulgação das novas Leis Fundamentais: criação das Cortes Espanholas(1942), o Foro dos Espanhóis (1945),Lei do Referendo Nacional(1945), Lei da Sucessão na Chefia do Estado(1947) etc.

Em 1953 são restabelecidas as relações diplomáticas com os Estados Unidos e, em 1955, o regime de Franco é reconhecido pela Organização das Nações Unidas.[51] Recebeu a Banda das Três Ordens a 14 de fevereiro de 1962. Em 1966 promulga uma nova lei fundamental às já existentes, a (Lei Orgânica do Estado) e três anos mais tarde apresenta às Cortes, como sucessor a título de Rei, o Príncipe Juan Carlos, neto de Afonso XIII. Em Junho de 1973 cede a presidência do Governo ao seu mais directo colaborador, Luis Carrero Blanco. A morte deste num atentado, poucos meses depois, é o princípio da decomposição do regime.

Sob sua liderança, a economia espanhola inicialmente sofreu. Ao fim da década de 1950, Franco substituiu os ministros ideológicos por tecnocratas apolíticos que implementaram diversas reformas. Assim, a economia do país prosperou pelos próximos anos no que ficou conhecido com o "Milagre Espanhol". Ao mesmo tempo, a repressão política se intensificou e opositores eram cassados sem misericórdia. Qualquer voz dissidente ou movimento antigovernista era reprimido com brutalidade. Isso gerou um fluxo emigratório, com milhares de pessoas deixando o país para outros cantos da Europa e para a América do Sul. A economia, contudo, continuou no caminho do crescimento especialmente devido ao capital estrangeiro. Empresas multinacionais abriram fábricas na Espanha, puxando o desemprego para baixo. Essas empresas viam benefícios em fazer negócios em solo espanhol devido a mão de obra barata, ausência de leis trabalhistas (como o direito a greve) e outras despesas (como seguro de saúde para trabalhadores). Quando Franco morreu, a Espanha era a economia que mais crescia na Europa Ocidental. Ao mesmo tempo, a disparidade entre ricos e pobres, apesar de ter encolhido bastante, continuava alta para os padrões europeus na década de 1970.[52]

 
Franco e sua esposa, Carmen Polo.

Apesar do autoritarismo do seu regime, apoio no Mundo Ocidental para a Espanha cresceu após a segunda grande guerra, principalmente devido ao seu cunho anticomunista, que agradava os Estados Unidos e sua política de contenção. Ainda no âmbito externo, tentou inicialmente preservar o império colonial espanhol. Contudo, após fracassos militares e diplomáticos, foi pressionado pela ONU e teve que abrir mão dos poucos territórios ultramarinos que o país ainda possuía (como Guiné Equatorial e Ifni).[52]

Internamente ainda teve que lidar com movimentos que buscavam autonomia para diversas regiões na Espanha além de mais tarde ser responsabilizado pela morte de 23 mil pessoas.[53] Opositores e separatistas foram reprimidos na Catalunha e no País Basco. Outras regiões, como a Galiza, também viram sua autonomia diminuir. Repressão cultural e linguística também ocorreu.

Franco morre após longa doença num hospital de Madrid, em 20 de novembro de 1975.[54] Foi sepultado no Vale dos Caídos. Em 24 de outubro de 2019, o corpo de Franco foi exumado e seus restos mortais foram transladados para o cemitério de Mingorrubio.

Franco e PortugalEditar

Quando em Julho de 1936 deflagrou a Guerra Civil Espanhola Salazar não hesitou em apoiar Franco desde a primeira hora, o que permitiu a Portugal ganhar um enorme prestígio junto das hostes Franquistas. Salazar começou por nomear em 1937 Pedro Teotónio Pereira de “Agente Especial” do Governo Português junto de Franco. A 28 de Abril de 1938 Salazar anunciou na Assembleia da República o reconhecimento de jure do Governo de Franco e em 20 de maio de 1938 Teotónio Pereira foi formalmente nomeado embaixador e entregou credenciais a Franco em 20 de junho do mesmo ano. Este reconhecimento diplomático do governo de Franco foi muito bem acolhido em Burgos e Franco respondeu nomeando como embaixador em Lisboa o seu irmão, Nicolás Franco[55]

Quando Teotonio Pereira chegou a Salamanca a 19 de Janeiro de 1938 encontrou uma atmosfera de grande simpatia para com os diplomatas alemães e italianos e de hostilidade para com os diplomatas dos restantes países. Teotónio Pereira cedo começou a contrariar este ambiente e Portugal veio a ter um papel fundamental na dissuasão do alinhamento da Espanha com as Potencias do Eixo, na criação do um bloco Ibérico neutro e na aproximação da Espanha aos Aliados. A 17 de março de 1939, após longas negociações foi assinado o Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol, também conhecido com Pacto Ibérico, seguido de um Protocolo Adicional assinado a 29 de Julho de 1940, reiterando a neutralidade peninsular. Este tratado e a diplomacia Portuguesa viriam a ter um papel importante na criação do um bloco Ibérico neutro e na aproximação da Espanha aos Aliados. Este papel de Salazar e de Teotónio Pereira foi objecto de vários elogios por parte do historiador Carlton Hayes, Embaixador Americano em Madrid durante a guerra no seu livro Wartime mission in Spain,1942-1945[56]

A 30 de Junho de 1939 Franco recebeu o Grande-Colar da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito a mais elevada ordem honorífica de Portugal, no mais alto grau.[57]

Em 1945 reconhecendo o papel de Teotónio Pereira no apoio ao bando nacionalista e na criação de um bloco ibérico neutro, o Governo de Espanha concede-lhe a Gran Cruz da Ordem de Carlos III, a mais alta condecoração civil Espanhola.[58]

A 13 de Janeiro de 1958, em entrevista ao jornal Francês “Le Figaro”, Franco afirmaria que: “O homem de Estado mais completo, mais respeitável de entre todos os que conheci, eu dir-lhe-ei: Salazar. Tenho aqui um personagem extraordinário, pela sua inteligência, o sentido político, a humanidade. O seu único defeito é, talvez, a modéstia”.[59]

LegadoEditar

Ele governou a Espanha com punho de ferro por quase quarenta anos, se tornando um dos ditadores mais notórios da Europa ocidental.[carece de fontes?]

O legado de Franco, na Espanha e pelo mundo, permanece controverso. Seu regime foi caracterizado por violações constantes de direitos humanos e seu autoritarismo fascista era reconhecido e desdenhado.[60] Franco serviu de modelo para vários ditadores anticomunistas na América do Sul. Augusto Pinochet, por exemplo, era um grande admirador de Franco.[61] Para muitos espanhóis, ele era um déspota sanguinário, mas para outros ele salvou a Espanha do caos e a colocou no caminho da prosperidade.[62][63]

LiteraturaEditar

 
Um estátua de Franco removida em 2008 pelo Governo espanhol.

Com seu próprio nome, em 1922 editou o livro (despretensiosamente verídico) o «Diario de una bandera». Com o pseudónimo de Jaime de Andrade, escreveu a novela «Raza», que em 1942 inspirou o filme com o mesmo título. Também com pseudónimo, só que de Jakim Boor, publicou uma série de artigos antimaçónicos e anti-semíticos no boletim então já da Falange Espanhola Tradicionalista (Falange), o diário «¡Arriba!», publicados todos eles mais tarde no livro «Masonería».

Mais tarde, já no governo, em 1940 decretaria que todos os maçons de seu país estavam condenados a 10 anos de prisão.[64]

No livro Origem,[65] o escritor Dan Brown cita, em várias passagens, características do Governo Franquista na Espanha, citando, inclusive, o Valle de los Caídos, local onde esteve o corpo do Ditador Espanhol.

Cronologia sumáriaEditar

 
Antigo Túmulo de Francisco Franco no Vale dos Caídos.
caçaHitlerRevolução de 1934 (Espanha)Legião Estrangeira EspanholaCeutaPrimeira Guerra Mundial 

A barra verde simboliza o intervalo de tempo em que foi Chefe do Estado.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Encyclopædia Britannica: Or, A Dictionary of Arts, Sciences, and Miscellaneous Literature, Enlarged and Improved (em inglês). [S.l.]: Archibald Constable. 1823. 484 páginas 
  2. Payne (2000), p. 67
  3. a b c Payne & Palacios 2014, p. 39.
  4. Tussell 1996, p. 15.
  5. a b Payne & Palacios 2014, pp. 151-153.
  6. a b Tussell 1996, p. 28.
  7. Tussell 1992, p. 32.
  8. Reuter, Tim (19 de maio de 2014). «Before China's Transformation, There Was The "Spanish Miracle"». Forbes. Consultado em 30 de dezembro de 2017 
  9. El Norte de Castilla «El Norte de Castilla: «Garzón recibe 130.000 nombres de desaparecidos». www.nortecastilla.es » Acessado em 6 de fevereiro de 2012
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BibliografiaEditar

Ligações externasEditar

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