Glória (malacologia)

O termo glória é uma denominação portuguesa e pouco usual[7][8][9], derivada da nomenclatura vernácula inglesa, aplicada a uma série de cinco espécies de moluscos marinhos, da família Conidae e gênero Conus, habitantes principalmente do Indo-Pacífico, cujas conchas foram, ou ainda são, extremamente cobiçadas pelos conquiliologistas dedicados ao colecionismo; estendendo-se, por conseguinte, também ao estudo malacológico.

Como ler uma infocaixa de taxonomia"Glória"
Em ordem de leitura, as cinco "glórias" do gênero Conus: Conus gloriamaris Chemnitz, 1777, Conus bengalensis (Okutani, 1968), Conus granulatus Linnaeus, 1758, Conus milneedwardsi Jousseaume, 1894 e Conus glorioceanus Poppe & Tagaro, 2009; espécies, estas, que já foram de muito raras a notórias em algum momento entre o final do século XVIII e o início do século XXI.
Em ordem de leitura, as cinco "glórias" do gênero Conus: Conus gloriamaris Chemnitz, 1777, Conus bengalensis (Okutani, 1968), Conus granulatus Linnaeus, 1758, Conus milneedwardsi Jousseaume, 1894 e Conus glorioceanus Poppe & Tagaro, 2009; espécies, estas, que já foram de muito raras a notórias em algum momento entre o final do século XVIII e o início do século XXI.
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Mollusca
Classe: Gastropoda
Subclasse: Caenogastropoda
Ordem: Neogastropoda
Superfamília: Conoidea
J. Fleming, 1822
Família: Conidae
J. Fleming, 1822[1]
Gênero: Conus
Linnaeus, 1758[2]
Distribuição geográfica
A região do Indo-Pacífico é a principal área de distribuição dos Conidae denominados "glória".
A região do Indo-Pacífico é a principal área de distribuição dos Conidae denominados "glória".
Espécies
ver texto
Conus bengalensis (Okutani, 1968) (à esquerda, espécime de museu de Houston, Texas, EUA) e Conus gloriamaris Chemnitz, 1777 (à direita, espécime de museu de Phuket, Tailândia). No passado, ambos colocados no subgênero, ou até mesmo elevados à categoria de gênero, Cylinder Montfort, 1810; a mesma categoria do bem conhecido Conus textile Linnaeus, 1758[3] e de Conus glorioceanus Poppe & Tagaro, 2009.[4]
Em imagem similar à inicial, aqui os principais Conus denominados "glória", incluídos em coleções entre os séculos XVIII e início da segunda metade do século XX, com a inclusão de Conus bengalensis (Okutani, 1968), abaixo, à esquerda. A coleção real de conchas, para fins estéticos ou científicos, tem pouca história definitiva até o século XVII, sendo principalmente associada à chamada "era de ouro" da exploração, do colonialismo e do comércio, neste século citado. Por esta época, o valor de muitas conchas exóticas, por sua estética, exotismo, raridade e durabilidade, garantiu que apenas os ricos pudessem acumular importantes espécimes e coleções.[5] A invenção de equipamentos autônomos de mergulho, como o Aqualung, em 1943, modificou este panorama de coletas.[6]

Isto se iniciou, no passado, após a identificação (o ato de dar uma identidade) de uma espécie denominada Conus gloriamaris pelo clérigo dinamarquês Johann Hieronymus Chemnitz, em 1777, na obra Von einer ausserordentlich seltenen Art walzenförmiger Tuten oder Kegelschnekken, welche den Namen Gloria maris führt. Beschäftigungen der Berlinischen Gesellschaft Naturforschender Freunde 3:321-331, pl. 8.[10][11]; sendo este o único táxon que Chemnitz conseguira inserir no sistema de classificação científica[12], ao obedecer corretamente as regras de nomenclatura binominal criadas por Carl von Linné em sua obra Systema Naturae; onde fora inserida a espécie Conus granulatus, em 1758[13], e que viria a ser conhecida como "a glória do Atlântico" (Glory of the Atlantic Cone) – após Chemnitz – por ocorrer do sul dos Estados Unidos e Bahamas até o mar do Caribe.[14][15][16][17]

O holótipo de Conus gloriamaris pertencera a um gabinete de curiosidades holandês, de um homem de nome Schluyter, e fora mencionado em um catálogo de vendas de 1757 (sua primeira aparição em leilão), onde fora listado como Gloria maris ("glória do mar"); sendo adquirido pelo conde Adam Gottlob Moltke, que, vinte anos depois, o emprestara a Chemnitz juntamente com uma gravura do artista e naturalista Franz Michael Regenfuss. Depositada no Museu Zoológico da Universidade de Copenhague, essa concha é bastante modesta (9.2 centímetros) e danificada.[11][18]

Sua popularidade para o colecionismo, devida à sua raridade, gerou lendas e anedotas. Está citado que um britânico, chamado Hugh Cuming, encontrou dois ou três espécimes vivos, em 1837, num recife raso em Bohol, nas Filipinas. Pouco depois disso, espalhou-se a falsa notícia de que o tal recife havia sido destruído por um tsunâmi, o que levou o famigerado Conus a ser declarado extinto. Uma segunda história fora contada pelo naturalista inglês Samuel Pickworth Woodward, em meados do século XIX; a de que um famoso colecionador dinamarquês, Chris Hwass, possuía um espécime, que ele acreditava ser o único do país, pagando uma grande quantia para obter uma segunda concha, em leilão, e que, assim que a obteve, esmagou-a para que o seu outro espécime se valorizasse.[8][11][19] Em 1951, durante uma exibição do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, um Conus gloriamaris também fora roubado, gerando notícia nos jornais.[11][20]

Em 1957, quase duzentos anos depois, apenas duas dúzias de espécimes de Conus gloriamaris, a "glória-do-mar" (Glory of the Sea Cone)[14][21], eram conhecidos.[11][19] Dez anos depois desta data, o número de espécimes conhecidos triplicou assim que os coletores descobriram suas regiões de coleta, na Nova Guiné. Em 1964, 48 espécimes já haviam sido descobertos, nesta área, até que, em 1969, um par de mergulhadores encontrou de quase a mais de cem – os relatos divergem – espécimes vivos, em Guadalcanal, nas ilhas Salomão, e então a raridade do Conus gloriamaris se tornou uma história lendária, sendo a sua concha considerada de rara para incomum e tornando-se bem mais acessível. No entanto, desde o seu início, o significado histórico e sua mística continuaram denominando outros moluscos similares, cujas conchas, além de adquirir grande beleza, se tornaram extremamente cobiçadas por sua raridade.[19][20][21][22][23]

Séculos XIX e XX: novas espéciesEditar

1894Editar

No ano de 1894 o malacologista francês Félix Pierre Jousseaume[24] nomeara uma nova espécie, Conus milneedwardsi, o Conus "glória-da-Índia" (Glory of India Cone)[15][25]; também denominado Drap d'Or Pyramidal, no passado, significando "pano da pirâmide de ouro", em francês[26]; citada como CONUS MILNE-EDWARDSI (em caixa alta) no texto "Diagnoses des Coquilles de Nouveaux Mollusques"; publicado no Bulletin de la Société Philomathique de Paris, 8(6): 98-105[27]; nomeada em homenagem a Alphonse Milne-Edwards, diretor do Museu de História Natural de Paris, França (onde está seu holótipo), e com sua localidade-tipo registrada em Adem[26][27][28]; estando entre as mais raras conchas do mundo, durante o século XX.[29] É citada como "uma das descobertas mais importantes do gênero durante o século XIX".[26]

1968Editar

Na década de 1960 o malacologista japonês Takashi A. Okutani, em 1968, descrevera o Conus bengalensis, a "glória-de-Bengala" (Glory of Bengal Cone)[15][30][31]; cujo holótipo havia sido pescado, dez anos antes, por um navio de pesquisa japonês, e posteriormente colocado no Laboratório Regional de Pesquisa Pesqueira de Tokai (Tóquio)[15]; sendo nativa do nordeste do oceano Índico, no golfo de Bengala e mar de Andamão[14][31]; estando colocada entre as mais raras conchas do mundo, durante o século XX[32], e sendo um item de colecionador muito valorizado.[33] Esta espécie está intimamente relacionada com o Conus gloriamaris, mais do aque as outras com a denomiação glória durante o século XX; tendo, ambas, sido colocadas no mesmo subgênero, Cylinder; em certo momento até mesmo elevado à categoria de gênero. [34][35]

Século XXIEditar

A história das denominações glorificantes de conídeos parecia estar acabada quando, na primeira década do século XXI, em junho de 2009, Poppe & Tagaro resolvem publicar a nomeação um único espécime, por eles descoberto na região de Zamboanga, sudoeste das Filipinas, com o nome Conus glorioceanus, a "glória dos oceanos" (Glory of the Oceans Cone), no texto A spectacular new Conus (Conidae) from the Philippines, sendo uma terceira espécie do subgênero Cylinder. Por sua beleza e aparente raridade, a partir de então fora submetida a falsificações; utilizando-se, para isso, as conchas de uma espécie de formato similar: Conus ammiralis.[4][36]

Referências

  1. «Conidae» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  2. «Conus Linnaeus, 1758» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  3. «Cylinder Montfort, 1810» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  4. a b «Conus glorioceanus Poppe & Tagaro, 2009» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  5. DUNCAN, Peter F.; GHYS, Arne (2019). Shells as Collector’s Items. Goods and Services of Marine Bivalves (em inglês). Germany: Springer. ISBN 978-3-319-96775-2. Consultado em 9 de abril de 2021 
  6. «Our Timeline» (em inglês). Aqualung. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  7. Domaneschi, Osmar; Penna-Neme, Licia; Grantsau, Rolf Karl-Heinz. «Familia CONIDAE Rafinesque, 1815» (PDF). Informativo SBMa - Sociedade Brasileira de Malacologia. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021. A beleza singular de muitos conídeos tropicais, combinada à sua raridade, transformou-os nos objetos mais cobiçados em coleções malacológicas, ao lado das cipréias. A mais famosa das conchas é a do lendário Conus gloriamaris Chemnitz, 1777, a "glória-dos-mares", tida como a espécie mais espetacular do Reino Animal. 
  8. a b FRÉDÉRICK, Robert (1965). Naturama. Curiosidades do Mundo Animal. Rio de Janeiro: Editorial Codex S. A. p. 84. 248 páginas 
  9. «Conus milneedwardsi glória da Índia de concha do mar - Imagem em Alta Resolução» (em inglês). iStock. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  10. «Conus gloriamaris Chemnitz, 1777» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  11. a b c d e López, Carmen Martínez (27 de setembro de 2019). «El caracol más codiciado de la historia» (em espanhol). Museo Nacional de Ciencias Naturales. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  12. «Conchylomania» (em inglês). Encyclopaedia Romana. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  13. «Conus granulatus Linnaeus, 1758» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  14. a b c ABBOTT, R. Tucker; DANCE, S. Peter (1982). Compendium of Seashells. A color Guide to More than 4.200 of the World's Marine Shells (em inglês). New York: E. P. Dutton. p. 269. 412 páginas. ISBN 0-525-93269-0 
  15. a b c d «The "Glory of..." Cone Shells» (em inglês). Encyclopaedia Romana. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  16. «The "Glory of" Gang of Cones» (em inglês). Man and Mollusc. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  17. «Glory-of-the-Atlantic Cone - Conus granulatus» (em inglês). IUCN. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  18. «Conchylomania» (em inglês). Encyclopaedia Romana. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  19. a b c Colla, Phillip. «Glory Of The Seas Cone Photos, Conus gloriamaris» (em inglês). Oceanlight.com. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  20. a b CATTANEO-VIETTI, Riccardo; DONEDDU, Mauro; TRAINITO, Egidio (2016). MAN and SHELLS. Molluscs in the History (em inglês). Xarja, Emirados Árabes Unidos: Bentham Science Publishers - Google Books. p. 180-181. 340 páginas. ISBN 978-1-68108-226-4. Consultado em 9 de abril de 2021 
  21. a b WYE, Kenneth R. (1989). The Mitchell Beazley Pocket Guide to Shells of the World (em inglês). London: Mitchell Beazley Publishers. p. 135. 192 páginas. ISBN 0-85533-738-9 
  22. «Conus gloriamaris Chemnitz, 1777; The Glory-of-the-Seas Cone» (em inglês). Jacksonville Shells. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  23. SAUL, Mary (1974). Shells. An Illustrated Guide to a Timeless and Fascinating World (em inglês). London: Country Life. p. 43. 192 páginas. ISBN 0-600-38048-3 
  24. «Félix Pierre Jousseaume» (em inglês). PeoplePill. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  25. ABBOTT, R. Tucker; DANCE, S. Peter (Op. cit., p.246.).
  26. a b c «Spired Conesː C. gloriamaris, C. milneedwardsi, C. excelsus» (em inglês). Encyclopaedia Romana. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  27. a b Jousseaume, D. (1894). «Diagnoses des Coquilles de Nouveaux Mollusques» (em latim). Bulletin de la Société philomathique de Paris (Biodiversity Heritage Library). p. 99. Consultado em 9 de abril de 2021 
  28. «Conus milneedwardsi distribution» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  29. STIX, Hugh; STIX, Marguerite; ABBOTT, R. Tucker; LANDSHOFF, H. (1968). The Shell. Five Hundred Million Years of Inspired Design (em inglês). New York: Harry N. Abrams, Inc. 188 páginas. ISBN 9780810904750 
  30. «Conus bengalensis (Okutani, 1968)» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  31. a b «Cone Snail case» (PDF) (em inglês). Natural History Museum of Utah. 9 de abril de 2021. p. 3. 6 páginas. Consultado em 14 de abril de 2020 
  32. FERRARIO, Marco (1992). Guia del Coleccionista de Conchas (em espanhol). Barcelona, Espanha: Editorial de Vecchi. p. 164. 220 páginas. ISBN 84-315-1972-X 
  33. WYE, Kenneth R. (Op. cit., p.141.).
  34. «Cylinder bengalensis (Okutani, 1968)» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  35. «Cylinder gloriamaris (Chemnitz, 1777)» (em inglês). World Register of Marine Species. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  36. «Leptoconus glorioceanus Poppe & Tagaro, 2009» (em inglês). Conchology.be. 1 páginas. Consultado em 9 de abril de 2021 
  Este artigo sobre gastrópodes, integrado no Projeto Invertebrados é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.