Gonçalo Mendes Sacoto

Gonçalo Mendes Sacoto
Capitão de Tânger
Período 26/09/1533 - 04/10/1536
Antecessor D. Álvaro de Abranches
Sucessor D. Duarte de Meneses
Dados pessoais
Morte .

Gonçalo Mendes Sacoto ou Gonçalo Mendes Caçoto foi militar e poeta, viveu na corte durante os reinados de D. João II e D. Manuel I. Destacou-se depois em várias batalhas no Norte de África, vindo a ocupar os cargos de alcaide-mor de Safim, adail-mor de Portugal, capitão de Azamor, e capitão de Tânger.

Capitão de Azamor (1521-1523)Editar

Em 1522 Gonçalo era capitão de Azamor. Francisco de Andrade, na sua Crónica do rei D. João III, diz que "Gonçalo Mendes Caçoto sendo avisado que Alemimero mouro principal da enxouvia , e tão poderoso nella que de sua casa tinha mil de cavallo , e ajuntava cinco mil cada vez que queria" , tinha partido ajuntar-se com o rei de Fez, para algum intento, "detri­minou de ir dar nelle antes que concruisse o concerto , (...) para o que hum sabado primeyro dia de Novembro ( 1 de novembro de 1522) sahio da cidade com duzentos de cavallo , em que entravão vinte , que lhe mandara António Leite capitão de Mazagão (Marrocos) com seu cunhado António das Neves , e cem besteyros , e espingardeiros , e o mouro Acoo com cincoenta de cavallo, e mil de pé todos de pazes , e muytos camellos carregados de mantimentos , e ha terça feira seguinte foy amanhecer com toda essa gente duas legoas para cá de Çalé , donde foy correr aos mouros em tempo que o Alemimero não estava aly, por ser ido a falar cos embaixadores del Rey de Fez , porem estavão muytos dos Xeques da sua companhia, nos quais inda que achou boa resistencia , não bastou para depois de huma bem travada peleja deixarem de ser todos mortos , e cativas suas molheres , e filhos : os principais des­tes Xeques, e que o eram de toda a enxouvia, se chamavão locef ben Mafamede, Barahoo , Aly ben Narbian, locef ben Buciba el­ Gueila, Mafamede ben Abuu, Azuz ben Mafamede ben Maleque, Hamede ben Maleque Barahao , e da outra gente que morreo se não foube o número : foy aquy tambêm cativa a molher do Alemimero mãe dos seus filhos , que erão dous, e ficarão ambos feridos , e as molheres e filhos delles tambêm forao cativas , com passante de outras  seiscentas pessoas , e deixarão de ser muytas mais , porque se acolherão a huma ribeyra fragosa, que estaua daly muyto perto. A presa deste dia foy de muyta sustancia , porque os camellos sómente forão estimados em dous mil , e as cabeças do gado miudo em vinte mil afora hum muyto fermoso des­pojo de capelhares, marl­otas , camisas de zarza gitania , muytas es­tribeiras ricas, cabeçadas de prata , e grande cantidade d'alcatifas , e de trigo , e cevada , que o capitão fez carregar pondo a bandeyra no meyo da algella , com que se deteve mais de coatro oras em recolher o campo (...). Quando o capitão partio da cidade tomou o caminho do sertão (...), e ha coarta feira feguinte (5 de novembro de 1522) encontrou huma coadrilha de almogaveres de pé , que erão de Çalé, e deixavão salteado na barra d'Azamor hum barco de Castella em que matarão nove homens, e levavão três cativos : os nossos em os vendo arremeterão logo a elles, (...) e matarão os nossos sete e cativarão cinco , a que o capitão , por serem grandes almocadens , e terem feito muyto mal por aquella terra , mandou tambêm dar a morte inda que era contra as leis da boa guerra , por lho assy pidirem todos os que hiao com elle , (...) para se verem livres dos males que delles recebiao. Ao outro dia passando por Anafé fe apartou com alguns de cavallo e foy dar vista ha cidade, e dentro nella achou onze mouros de que tomou os sete, e os coatro se esconderao de maneyra , que os não pode achar. Com toda esta pres­a caminharão os nossos cinco dias até se recolherem em Azamor , sem em todo elle tempo acharem quem lhe defendesse o caminho , nem verem mais gente de guerra que o mesmo Alemimero que com os doze de cavallo acudio ao rebate, e esteve ha fala com a nossa gente. E neste feito , que foy assaz bem pelejado , não ouve da nossa parte mais dano , que dous cavallos, que os mouros matarão , e coatro homens feridos , que em pouco tempo forao sãos.[1]"

Capitão de TângerEditar

Diz D. Fernando de Menezes, na sua História de Tânger : "Com a ordem delRei; D. Álvaro de Abranches deixou o governo a Gonçalo Mendes Sacoto, adail mor do Reino, em 26 de Setembro de 1533. Aquella mesma noite, estando para sahir Dom Álvaro, houve um rebate, por os mouros terem subido o muro, servindo-se de uma escadeira colocada junto à porta da Traíção. Acudiu muita gente, em particular D. Jorge de Abranches, filho de Dom Álvaro, que, atacando os mouros, que eram só dois, resultou com uma lançada, e Domingues Gonçalves com duas punhaladas. Os mouros, levando um negro, voltaram para baixo, sem mais dano que deixar a escada.[2]"

"Em 11 de Outubro do ano seguinte, Gonçalo Mendes, ajuntou-se com D. João Coutinho, que aínda governava Arzila, em Portalfreije, que fica a igual distancia de uma e outra cidade.[2]"

"também em 13 de outubro de 1535, sabe-se que veio D. João Coutinho a Tânger, onde ficou também o dia seguinte, voltando para Arzila ao anoitecer."

"Do tempo que governou Gonçalo Mendes Sacoto, não encontramos outros feitos de referir. Conserva-se seu nome num bosque de corcho, que chamam de sacoto, e fica entre a Serra de Benamagras e o rio de Porto-Largo. Não seria isto sem causa ; antes nos parece devia haver para elle algum assinalado motivo, que, com outros muitos, ficou igualmente esquecido.

"Sucedeu-lhe D. Duarte de Meneses, que o 4 de Outubro de 1536 tomou possessão do governo[2]".

Dados genealógicosEditar

Gonçalo casou com Joana de Sousa, filha de Jorge de Sousa, comendador de Melres e teve uma filha, Catarina Sacoto.

Notas

  1. Francisco de Andrade : Cronica do muyto alto e muito poderoso Rey destes reynos de Portugal Dom João o III. deste nome..., Impresa em Lisboa, 1613. CAP. XXXII. Gonçalo Mendez Caçoto capitão de Azamor faz huma entrada em terra de mouros , e o que lhe socede
  2. a b c História de Tânger durante la dominacion portuguesa, por D. Fernando de Menezes, conde de la Ericeira, etc. traduccion del R. P. Buanaventura Diaz, O.F.M., Misionero del Vicariato apostólico de Marruecos. Lisboa Occidental. Imprenta Ferreiriana. 1732. Aqui de novo revertido em português. p. 75-76

FontesEditar

  • Anselmo Braamcamp Freire : Brasões da sala de Sintra, Coimbra, imprensa da universidade, 1921.
  • Francisco de Andrade : Cronica do muyto alto e muito poderoso Rey destes reynos de Portugal Dom João o III. deste nome..., Lisboa, 1613.
  • História de Tânger durante la dominacion portuguesa, por D. Fernando de Menezes, conde de la Ericeira, etc. traduccion del R. P. Buanaventura Diaz, O.F.M., Misionero del Vicariato apostólico de Marruecos. Lisboa Occidental. Imprenta Ferreiriana. 1732.
Precedido por
Álvaro de Abranches
Capitão de Tânger
15331536
Sucedido por
D. Duarte de Meneses