Grão-Canato de Rus

Grão-Canato ou Grão-Canado de Rus foi uma cidade-estado que floresceu durante um período pouco documentado da história da Europa Oriental, entre o final do século VIII e o início do século IX.[1] O grão-canato é visto por muitos historiadores como um predecessor da Rússia de Quieve. A população da cidade-Estado nessa época era composta por etnias eslava, finlandesa e norueguesa, considerando-se como grupo dominante os Rus.

Grão-Canato de Rus

Grande Canato de Rus • Caganato de Rus

Cidade-Estado

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830 — 899 
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Mapa mostrando, em meados do século IX, os povoados varegues ou rus (em vermelho) e a localização das tribos eslavas (em cinza). A influência dos Cazares é indicada por um contorno azul.
Capital Desconhecida
Atualmente parte de  Rússia
 Ucrânia

Línguas oficiais
Religiões

Forma de governo Monarquia

Período histórico Idade Média
• 830  Fundação
• 899  Dissolução

De acordo com fontes contemporâneas, o monarca ou monarcas da cidade-estado podem ter utilizado o título de grão-cã, originário da língua turcomana antiga.[2][3][4] A questão da localização exata da cidade-estado está ainda em aberto.

Evidência documentalEditar

 
Hóspedes de além-mar, um quadro pintado em 1899 por Nicholas Roerich mostrando as primeiras aventuras varangianas na Rússia

O líder dos Rus é chamado pelo título de "grão-cã" em diversas fontes históricas, na sua maioria, textos estrangeiros do século IX, existindo ainda outras fontes eslavas dos séculos XI e XII.

A mais antiga referência europeia ao grão-canato vem dos Anais de São Bertino, em francônio. Os Anais mencionam um grupo de Viquingues, que se auto-denominavam Rhos (qi se, id est gentem suam, Rhos vocari dicebant) e visitaram Constantinopla por volta do ano 838.[5] Temendo regressar à terra natal pelas estepes, onde estariam ulneráveis a ataques dos Magiares, estes Rhos viajaram através da Alemanha acompanhados de embaixadores gregos enviados pelo imperador bizantino Teófilo. Quando questionados pelo imperador franco Luís I, o Piedoso em Ingelheim, eles informaram que o seu líder era conhecido como chacanus (a palavra latina para "grão-cã")[6] e que viviam no norte da Rússia, mas o imperador descobriu que a terra natal dos viajantes era a Suécia (comperit eos gentis esse sueonum).[7]

Trinta anos mais tarde, na primavera de 871, os imperadores do Oriente e do Ocidente, Basílio I e Luís II, disputaram o controle de Bari, que havia sido conquistada conjuntamente aos árabes. O Imperador Bizantino enviou uma carta furiosa ao seu homólogo ocidental, repreendendo-o por usurpar o título de Imperador. Ele argumentou que os líderes francos eram simples reges, enquanto o título imperial aplicava-se apenas ao líder supremo dos Romanos, ou seja, ao próprio Basílio. Também afirmou que cada nação possuía um título próprio para o seu líder: por exemplo, o título de chaganus aos líderes dos ávaros, cazares (Gazari), e "nórdicos" (Nortmanno). A este argumento, Luís II respondeu que conhecia apenas os grão-cãs ávaros, mas não tinha informações sobre os grão-cãs dos cazares e dos nórdicos .[8] O conteúdo da carta de Basílio, desaparecida no tempo, é reconstruído a partir da resposta de Luís II, reproduzida integralmente na Crônica de Salerno.[9] Isto indica que pelo menos um grupo de Escandinavos possuía um líder com o título de "grão-cã".

Amade ibne Rusta, um geógrafo muçulmano da Pérsia, escreveu que o grão-cã dos Rus ("khaqan rus") vivia numa ilha sobre um lago.[2][10] Constantine Zuckerman comenta que ibne Rusta, utilizando um texto de autoria anónima dos anos 870, tentou organizar com precisão os títulos de todos os governantes descritos pelo seu autor, o que torna a evidência ainda mais preciosa.[11] O geógrafo muçulmano menciona apenas dois grão-cãs em seu tratado — o da Cazária e o dos Rus. Uma outra evidência quase contemporânea aos Rus' vem de Iacubi, que escreveu em 889/890 que montanhistas do Cáucaso, quando sitiados pelos Árabes em 854, pediram ajuda aos líderes (saíbe) de Arrum (Bizâncio), Cazária, e al-Saqaliba (Eslavos).[12] Hudude Alalam, um texto geográfico de autoria anônima escrito no fim do século X,refere-se ao rei dos Rus como grão-cã.[13] Como o autor desconhecido de Hudude Alalam se baseava em numerosas fontes do século IX, incluindo ibne Cordadebe, é possível que a referência ao grão-cã dos Rus' tenha sido copiada de textos mais antigos, pre-ruríquidos, em vez de refletir a realidade da época.[14] Um geógrafo persa do século XI, Abuçaíde Gardizi menciona o "grão-cã dos rus" na sua obra Zayn al-Akbar. Como outros geógrafos muçulmanos, Gardizi baseava-se em tradições no datamento do século IX.[15]

Existe uma base sólida para acreditar que o título de "grão-cã" ainda era lembrado pela Rússia de Quieve no período cristão. O Metropolita Hilário de Quieve aplicou o título de "grão-cã" a Vladimir I de Quieve e Jaroslau I, o Sábio no exemplar ancestral e ainda sobrevivente, da literatura russa antiga, Slovo o Zakone i Blagodati ("Sermão em Lei e Graça"), escrito por volta de 1050.[16] Numa inscrição na Galeria norte da Catedral de Santa Sofia de Quieve lê-se: "Ó Deus, salve nosso grão-cã", aparentemente em referência a Esvetoslau II de Quieve (1073–1076).[17] Até o final do século XII, O conto da campanha de Igor menciona de passagem "grão-cã Olegue",[15] tradicionalmente identificado como Olegue I de Czernicóvia.[18]

PeríodoEditar

 
A pedra de Kälvesten data do século IX e é a pedra mais antiga conhecida que fala das expedições ocidentais

Fontes primárias ainda existentes tornam plausível acreditar que o título de grão-cã foi aplicado aos líderes dos Rus durante um curto período, entre a missão a Constantinopla (838) e a carta de Basílio I (871). Todas as fontes bizantinas após Basílio I referem-se aos líderes dos Rus como arcontes. Mais tarde, os autores quievanos mencionados anteriormente parecem ter ressuscitado o termo "grão-cã" mais como alternativa a cnezo do que como um termo político real.[19]

A datação da existência do Grão-canato tem sido matéria de debate entre estudiosos e ainda não é precisa. Omeljan Pritsak determina a fundação do grão-canato entre 830–840. Nos anos 1920, o historiador Russo Pavel Smirnov sugeriu que o grão-canato dos Rus existiu apenas temporariamente por volta de 830 e foi logo destruído pela migração das tribos confederadas Magiares-Cabares em direção aos Cárpatos.[20] Independentemente da precisão destas estimativas, não existem fontes primárias que mencionem os Rus ou os seus grão-cãs antes dos anos 830.[21]

O título de grão-cã não é mencionado nos Tratados entre Rus e bizantinos (907, 911, 944), ou em Sobre as Cerimônias, um tratado de cerimoniais que documenta os títulos de líderes estrangeiros quando da recepção a Olga de Quieve na corte de Constantino VII em 945. Além disso, Amade ibne Fadalane, na sua descrição detalhada dos Rus (922), designa o seu líder supremo como malique ("rei"). A partir desse facto, Peter Golden concluiu, por um argumentum ex silentio, que o Grão-canato entrou em colapso entre 871 e 922.[22] Zuckerman argumenta que a ausência da referência ao título de "grão-cã" no tratado de 911 prova que o Grão-canato já havia sido dissolvido à época.[11]

Referências

  1. e.g., Christian 338.
  2. a b Christian 338.
  3. Franklin and Shepard 33–36.
  4. Dolukhanov 187.
  5. Jones, Gwyn. A History of the Vikings. 2ª edição London: Oxford Univ. Press, 1984. pp249–250.
  6. Haquino (Håkan ou Haakon) era um nome utilizado entre os Escandinavos desse período, e julgou-se possível que os Rhos descritos nos Anais se referissem ao seu rei por esse nome.
  7. Bertin 19–20; Jones 249–250.
  8. Monumenta Germaniae 385–394.
  9. Dolger T. 59, №487.
  10. Brøndsted (1965), pp. 267–268
  11. a b Zuckerman, "Deux étapes" 96.
  12. Laurent and Canard 490. De acordo com Zuckerman, ibne Cordadebe e outros autores árabes confundiam frequentemente os termos Rus e Sacaliba quando descreviam as expedições dos Rus ao mar Cáspio nos séculos IX e X. Dessa maneira, "o governante de al-Saqualiba" em 852 referrir-se-ia provavelmente ao grão-cã dos Rus.
  13. Minorsky 159.
  14. See, e.g., Minorsky xvi.
  15. a b "Rus", Encyclopaedia of Islam
  16. Ilarion, "Sermon on Law and Grace" 3, 17, 18, 26; para discussão, veja Brook 154. Ilarion se referiu a Vladimir como "o grande grão-cã da nossa terra" e a Jaroslau como o "nosso devoto grão-cã."
  17. Noonan, "Khazar" 91–92.
  18. A maioria dos críticos segue a interpretação de Dmitry Likhachev. Tamatarcha era uma antiga possessão cazar e as tradições cazares podem ter ali persistido por um longo período. É sabido que, enquanto reinava em Tamatarcha, Olegue I assumiu o título de "arconte de toda a Cazária". Outros candidatos incluem Olegue de Novogárdia e Igor I de Novogárdia Sevéria. Veja: Zenkovsky 160; Encyclopaedia of The Lay 3–4.
  19. Brook 154.
  20. Smirnov 132–45
  21. Pritsak, Origin of Rus' passim.
  22. Golden 87, 97.