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Gramática Contextualizada

Publicado em 2014, Gramática contextualizada – limpando “o pó das ideias simples” é uma obra de autoria da linguista brasileira Irandé Antunes. A obra realiza um percurso esclarecedor sobre o que é gramática contextualizada e o que não é, nisso, a proposta da autora é bastante objetiva: toda a gramática é contextualizada, por tanto, o ensino de língua portuguesa deve ser contextualizado, trabalhando a língua de maneira interacional. A medida em que as questões pontuadas pela autora vão sendo discutidas, a didática prática e a linguagem clara utilizada por Irandé Antunes em sua obra são fatores importantes no que diz respeito a compreensão geral das ideias propostas pela autora.

Inicialmente, no âmbito conceitual, a gramática enquanto elemento constitutivo da língua, é sempre contextualizada, uma vez que nada do que dizemos – oralmente ou por escrito – pode acontecer fora de uma situação concreta de interação. Existe sempre um contexto em qualquer situação social para produzir sentido e cumprir uma função comunicativa. Portanto, toda atuação verbal da qual a gramática é parte essencial, é inevitavelmente contextualizada, isto é, a linguagem não é algo que existe “fora de contexto”. Em um sentido geral, uma gramática contextualizada é uma gramática dos usos, ou seja, aquilo que as pessoas escrevem em textos dos mais variados tamanhos, tipos e funções. Dessa forma, é possível afirmar que o contexto é parte do poder de significação da linguagem.

Mais especificamente, este livro quer tratar de questões ligadas ao ensino da gramática, que, na tradição escolar, tem-se tornado o vetor da atividade pedagógica e, geralmente, sua dificuldade maior. Nesse particular, pretende contribuir para aclarar o entendimento do que seria, no exercício pedagógico do trabalho com a linguagem, uma gramática contextualizada. Irandé Antunes vai enfim reconhecer à gramática seu lugar no ensino, estabelecendo-a como necessária, mas nunca suficiente, ao mesmo tempo em que descortina à escola toda a extensão de sua tarefa político-social.

Já no meio pedagógico, a gramática contextualizada é uma expressão utilizada para determinar o ensino da gramática em textos, além de caracterizar uma tentativa de fugir do estudo de uma gramática sem contexto particular, centrada em análises e regras de linguagem. Outro princípio fundamental para compreender a gramática contextualizada é entender que trata-se de uma estratégia metodológica de análises das funções de categorias na construção dos sentidos do texto. É, portanto, uma perspectiva que pretende surpreender os usos reais que são feitos da língua e, por essa razão, pretende fazer do texto o objeto de ensino-aprendizagem, e mais, considerando os usos reais, orais e escritos, do português contemporâneo.

Irandé Antunes é uma linguista brasileira com doutorado em Linguística pela Universidade de Lisboa, e mestre em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco. É autora de Aspectos da coesão do texto (1996), o primeiro livro dedicado exclusivamente à questão da coesão no Brasil. Publicou também Aula de português - encontro & interação (2003), Lutar com palavras (2005), Muito além da gramática - por um ensino de línguas sem pedras no caminho (2007), Língua, texto e ensino - outra escola possível (2009), Análise de texto - fundamentos e práticas (2010), Território das palavras - o estudo do léxico em sala de aula (2012), Gramática Contextualizada - limpando "o pó das ideias simples" (2014), e muitos outros artigos em revistas especializadas.


Ensino de gramática: algumas considerações empregadas na obraEditar

Questões ligadas ao ensino da gramática nas escolas sempre foram alvo de discussão, o domínio das capacidades orais, escritas e linguístico-comunicativas aparentam ser, ao longo dos anos, a maior dificuldade/desafio das atividades pedagógicas na tradição escolar que conta com programas de gramática secularmente fixados como prioridade de ensino. Tratando de tais questões ligadas ao ensino da gramática, a autora Irandé Antunes em sua obra intitulada “Gramática contextualizada – limpando “o pó das ideias simples”, aborda contribuições do que seria, no trabalho com a linguagem, uma gramática contextualizada.

A princípio, como afirma Irandé Antunes, muitas razões históricas e culturais, ao longo dos séculos concederam a gramática uma condição entendida, unicamente, como um conjunto de normas e prescrições. A normatização da gramática como fator determinante de superioridade linguística, condicionaram o domínio da gramática como um divisor de classes sociais, discriminando os que “sabem” dos que não “sabem” falar, dos mais e dos menos inteligentes, dos mais e dos menos capazes.

Diante dessas considerações, Irandé Antunes nos lembra que, as atividades propostas, mesmo por professores graduados em Letras ou Pedagogia permanecem no decorrer dos anos conservando ideias de ensino de uma linguagem descontextualizada, sem intenções e exclusivamente submetidas as regras da gramática normativa. É importante enfatizar que a autora defende a gramática como um dos componentes que constituem a língua, a gramática é necessária e parte da atividade da fala e da escrita ou qualquer atividade verbal. No entanto, defende ao mesmo tempo que a gramática mesmo sendo necessária, não é suficiente, ou seja, em outras palavras, seguindo o pensamento de Irandé Antunes, a gramática seria uma das partes que compõe um “todo”.

Índices obtidos em diferentes instrumentos de avaliação, nos permite observar que grande parte dos alunos que concluem o ensino fundamental não sabem ler nem escrever, e esta lacuna no ensino de língua portuguesa perpetua, consequentemente, nos seguintes anos de formação de estudantes, como nos mostra o MEC, 7 de cada 10 alunos do ensino médio têm nível insuficiente em português. Para Antunes, o ensino focado da gramática (descontextualizada) é um fator que influência diretamente nessa realidade negativa, e sair dessa perspectiva de ensino para destinar-se a atividades de oralidade, leitura, análise e escrita de textos seria o primeiro passo para a transformação esses dados. Uma solução para aderir as novas propostas do ensino da linguagem sem deixar de lado as antigas práticas fixas de gramática, se deu, segundo Antunes, na junção entre texto e gramática, e essa conciliação entre ambas as partes chamou-se de “gramática contextualizada”, que inicialmente, de texto e de gramática abordava muito pouco.

Irandé Antunes relata que o texto trabalhado nessa primeira concepção de gramática contextualizada – incluía gêneros multimodais como por exemplo, tiras, cartuns, publicidades etc., mas servia apenas como um material posto para retirar frases e palavras e serem analisadas sob as velhas práticas de antes. Como diz Mariza Lajolo (1986: 52), o texto era apenas o “pretexto” para a permanência das lições de gramática. O termo gramática contextualizada surgiu a partir desse acordo entre texto e gramática, utilizando o texto para garantir os mesmos métodos de ensino da gramática, falhando na missão de fazer do texto o objeto de ensino-aprendizagem e fazer da gramática apenas um dos componentes desse processo.

Gramática Contextualizada: O que é? como funciona?Editar

A gramática contextualizada não deve ser considerada como uma forma de corrigir o modelo tradicional de ensino da gramática; deve ser vista como uma estratégia que explora os componentes gramaticais do texto considerando seus valores, funções e os efeitos provocados nos usos da fala e da escrita. Na prática, a exploração de uma gramática contextualizada na escola pretende, como destaca Irandé Antunes, nada mais nada menos que a compreensão de como os itens gramaticais significam no texto, quais efeitos de sentido provocam, que funções desempenham e como acontecem. Por outro lado, ao analisarmos um cenário escolar que trabalha a gramática contextualizada, nota-se que se faz preciso considerar a dimensão global do texto, ou seja, não perder no texto o seu propósito comunicativo, seu gênero ou suporte onde o texto está inserido. Isolar itens do texto e dar autonomia apenas a partes isoladas, não correspondem as práticas de uma gramática contextualizada que trabalha com sentidos e intenções em qualquer interação de linguagem.

Para Antunes, toda a nossa atividade com linguagem é irremediavelmente contextualizada, do contrário não é linguagem, pois a linguagem não pode ocorrer se não estiver vinculada a uma prática social, ou seja, sempre que falamos, lemos ou escrevemos estamos inseridos em algum lugar, com objetivos. Não se pode deixar de ver o texto como um todo, seu tema global, sua finalidade, informações básicas, seu gênero e padrões de construção. Os textos orais e escritos em toda a sua variedade de gêneros textuais, deveriam ser o foco do trabalho pedagógico em torno da língua, porque é exatamente nos textos que vemos como a língua ocorre, nas suas múltiplas funções.

Para deixar ainda mais claro como funcionaria na prática uma metodologia de ensino que priorize uma gramática contextualizada, a BNCC (base nacional comum curricular), aborda em um vídeo, os avanços metodológicos do ensino de língua portuguesa, afirmando que não dá mais para pensar em um ensino de gramática que seja que não flui como deveria, em que o aluno aprende regras de concordância e depois não consegue utiliza-las em suas produções. É necessário pensar na centralidade do texto, pois, é no texto que língua se concretiza, a importância da escola trabalhar com uma variedade de gêneros textuais também é tratada no vídeo, dessa forma, caberia ao professor definir alguns gêneros de texto para se aprofundar nos assuntos, visto que, deve-se considerar o tempo das aulas de língua portuguesa e a impossibilidade de se trabalhar, dentro desse tempo, com todas as variedades de gêneros textuais existentes. Levando isso em conta, a escolha de gêneros textuais que reflitam, por exemplo, na formação do estudante como cidadão, como faz o artigo de opinião, ajusta-se como um bom exemplo de gênero textual para ser aprofundado em sala de aula devido as suas inúmeras vantagens, dentre essas, podemos destacar a importância social que esse gênero textual carrega em sua construção.

BNCC na Prática de Língua Portuguesa: como ensinar gramática de forma contextualizada: (link) youtube.com/watch?v=Nma9wZ3Xw-g


"Limpar o pó das ideias simples"Editar

Irandé Antunes sintetiza no capítulo intitulado "limpar o pó das ideias simples" tudo o que foi proposto ao longo de sua obra, destacando vinte práticas de ensino e aprendizagem a partir da perspectiva da gramática contextualizada, dentre elas estão:

a) aprendizagem de uma gramática contextualizada,ou seja, a abordagem da gramática como um dos componentes de usos linguísticos;

b) aprendizagem vinculada ao exercício da compreensão de sentidos e intenções, com o objetivo de perceber como os itens gramaticais concorrem para a significação do texto, além dos efeitos de sentido, as funções que desempenha, por que e como acontece e como estão presentes no texto devido a alguma função ou de algum sentido pretendido;

c) aprendizagem centrada no concreto do existente, para a observação da língua real, seja na literatura, na imprensa, nos usos cotidianos dos mais diversos gêneros e contextos sociais;

d) aprendizagem critica, que busque desenvolver a habilidade de "perguntar", levantar hipóteses, desmitificar etc;

e) aprendizagem decorrente de um ensino "honesto", que respeite dados reais, assumindo uma postura mais descritiva que normativa ou prescritiva;

f) aprendizagem que toma a norma da linguística como regularidade, do que por obrigatoriedade;

g) aprendizagem aberta e flexível que aceite as alterações que surgem nos vocabulários e na gramática;

h) aprendizagem bem fundamentada, que ao perceber a língua de diferentes pontos de vista, reconhece a correção gramatical como algo meramente ideológico e cultural, dos grupos humanos;

i) aprendizagem da totalidade que busque inserir o mundo fantástico do léxico e sua dinamicidade e que se recuse, principalmente, a utilizar a gramática como foco principal do ensino;

j) aprendizagem da relevância discursiva, com estudos que vão além da frase, incluindo o estudo de textos, recursos de coesão, coerência, relevância de informações e a intertextualidade do texto;

k) aprendizagem plural, que busque acolher a diversidade linguística;

l) aprendizagem de diferentes possibilidades de significação;

m) aprendizagem que se apoia no exercício persistente de atividades de leitura, escrita, fala e escuta, que trabalhe a linguagem como interação e que possui propósitos sociocomunicativos;

n) aprendizagem vinculada a um ensino instigante, que estimule a compreensão da atuação verbal como forma de participação nossa na construção de um mundo (linguisticamente) mais justo, mais humano, mais tolerante e respeitador;

o) aprendizagem libertadora, que leve os alunos a crescerem sua autoestima, sua autonomia comunicativa, que leve os alunos a acreditar em seu potencial no mundo da interação;

p) aprendizagem e ensino libertadores também para os professores, que busquem não apenas transmitir conhecimento, mas, sobretudo, gerar conhecimento;

q) aprendizagem participativa, que utiliza a voz como forma de atuação social;

r) aprendizagem e ensino "a perder de vista", que nos façam crer na eterna novidade contida na vida cotidiana e refletida na linguagem;

s) aprendizagem e ensino da fantasia, do encantamento, dos deslimites das palavras, promovendo o encontro do aluno com o mundo das obras literárias;

t) aprendizagem, enfim, que abre horizontes, que leva os alunos a descobrirem, ao lado da complexidade da linguagem, o seu fascínio pela faculdade da linguagem;

Diante das discussões expostas, conclui-se que existem diversas dificuldades a serem superadas acerca do exercício do magistério, especificamente ao professor de língua portuguesa; em vista disso, a gramática contextualizada mostra-se como uma esperança perante a luta de conscientização da comunidade escolar sobre a importância da linguagem enquanto interação social, sobre a importância de exploração dos usos da língua, sobre desmitificar a ideia de que português é só "gramática normativa" e a partir da efetuação dessas ideias buscar não só construir, mas sobretudo difundir o fato de que a linguagem é um vasto campo de possibilidades, pois como nos lembra Irandé Antunes "nada é, pois, mais coletivo que a atividade da linguagem".

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar

MOSER, Sandra Maria C. de S.; BATATA, Marta. GRAMÁTICA PELA GRAMÁTICA OU GRAMÁTICA CONTEXTUALIZADA? http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2013/2013_uem_lem_artigo_marta_batata.pdf

SOUZA, Gerivaldo Matias de; O USO DA LEITURA COMO ESTRATÉGIA PARA O ENSINO CONTEXTUALIZADO DA GRAMÁTICA. http://www.editorarealize.com.br/revistas/fiped/trabalhos/d7a84628c025d30f7b2c52c958767e76.pdf


REFERÊNCIASEditar

[1]

  1. Antunes, Irandé, 1937 - Gramática Contextualizada : limpando 'o pó das ideias simples'/Irandé Antunes. - 1. ed. - São Paulo : Parábola Editorial, 2014.