Abrir menu principal
Disambig grey.svg Nota: Para outros significados de Hanno, veja Hanno (desambiguação).
Text document with red question mark.svg
Este artigo ou secção contém fontes no fim do texto, mas que não são citadas no corpo do artigo, o que compromete a confiabilidade das informações (desde outubro de 2019). Ajude a melhorar este artigo inserindo fontes.
Gravura de Hanno em um panfleto de Roma, Natura, 1514

Hanno (c. 15108 de Junho de 1516), ou Annone em italiano, foi o elefante branco, ou albino, mascote do papa Leão X, oferecido, na ocasião da sua coroação, por El-Rei D. Manuel I. O seu nome ter-lhe-ia sido dado em honra do general cartaginense com o mesmo nome.

Chegada a RomaEditar

 
Esboços de Rafael, a giz vermelho, no Museu Ashmolean de Oxford
 
Hanno e o seu mahout. Caneta e tinta, Museu das Belas-Artes de Angers.

Hanno fazia parte da aparatosa embaixada enviada pelo monarca, chefiada por Tristão da Cunha. D. Manuel tê-lo-ia recebido como um presente do rei de Cochim, ou pedido a Afonso de Albuquerque, o seu Governador da India, para comprá-lo. Conta-se que Hanno era de cor branca, e chegou numa nau, enviado de Lisboa a Roma em 1514, com cerca de quatro anos de idade.

A sua chegada foi comemorada na poesia e nas belas-artes.

Ao Belvedere perante o grande Pastor

Foi conduzido o elefante domado
Dançando com tal graça e tal amor
Que dificilmente melhor poderia ter bailado um homem
E com a sua tromba, tal grande clamor
Fez, que todo o lugar ensurdeceu:
E esticando-se no solo para ajoelhar
Depois se inclinou em reverência ao Papa,

E ao seu séquito.
— Pasquale Malaspina

Para a mesma ocasião viria um rinoceronte, que seria retratado por Albrecht Dürer em uma famosíssima xilografia, conhecida como Rinoceronte de Dürer. Apesar de nunca o ter visto, o artista baseara-se numa descrição extremamente precisa do animal. O barco com o rinoceronte terá naufragado ao mesmo tempo que Hanno chegava de Lisboa.

Na embaixada manuelina, que atravessou a cidade para deleite dos romanos, vinham também dois leopardos, uma pantera, alguns papagaios, perus raros e cavalos indianos. Hanno carregava um palanque de prata no seu dorso, em forma de castelo, contendo um cofre com os presentes reais, entre os quais paramentos bordados com pérolas e pedras preciosas, e moedas de ouro cunhadas para a ocasião.

O papa recebeu o cortejo no Castelo de Santo Ângelo. O elefante ajoelhou-se três vezes em sinal de reverência e depois, obedecendo a um aceno do seu mahout (tratador) indiano, aspirou a água de um balde com a tromba e espirrou-a sobre a multidão e os cardeais.

 
Gravura, contemporânea, de Manuel I de Portugal O elefante Hanno

Inicialmente Hanno foi mantido em um pátio belvedere, mas depois passou para um edifício especialmente construído para o efeito, entre a Basílica de São Pedro e o Palácio Apostólico, perto de Borgo Sant'Angelo (uma estrada no rione Borgo).

O elefante tornou-se num favorito da corte papal, alegadamente fazendo habilidades para o seu divertimento e participando em procissões. Rafael e Pietro Aretino desenhavam o fascinante animal, que custava cem ducados por ano aos cofres papais. Os cronistas da época falavam dele como sendo extraordinariamente inteligente, que dançava e lançava água pela tromba, entre outras brincadeiras.

MorteEditar

Dois anos depois de chegar a Roma, Hanno adoeceu subitamente com angina, devido ao clima húmido da cidade. Trataram-no com um purgante mas morreu em 8 de Junho de 1516, com o papa ao seu lado, e foi sepultado no Cortile del Belvedere.

Raffaello Santi criou um fresco memorial (já não existente), e o próprio papa compôs o epitáfio, que Francisco de Holanda reproduziu no seu caderno de anotações, entre 1539 e 1540:

 
Esboço do epitáfio memorial de Hanno (Francisco d'Olanda, 1539 ou 1540)
Sob esta grande colina jaz enterrado

Poderoso elefante que El-Rei Manuel,
Tendo conquistado o Oriente
Enviou cativo ao Papa Leão X,
Que o povo romano maravilhou,
Uma besta não vista há muito tempo.

E no meu bruto seio perceberam sentimentos humanos.
O destino invejou a minha residência na bendita Latium
E não teve a paciência de me deixar servir o meu senhor três anos completos.
Mas eu desejo, ó deuses, que o tempo que a Natureza me deu,
E o Destino me arrebatou,
O acrescentem à vida do grande Leão.

Ele viveu sete anos
Ele morreu de angina
Ele media doze palmos de altura.
Giovanni Battista Branconio dell'Aquila,
Camarlengo privado do Papa
E provoste da guarda do elefante,
Eregiu neste em 1516, no 8 de Junho,
No quarto ano do pontificado de Leão X

O que a Natureza arrebatou,

Rafael de Urbino com a sua arte restaurou.

Na culturaEditar

 
Caricatura satírica sobre Hanno e os poderes da sua época

Mesmo depois da morte, o paquiderme continuou a inspirar obras:

  • Pietro Aretino escreveu um panfleto intitulado A Última Vontade e Testamento do Elefante Hanno. O testamento fictício satirizava as principais figuras políticas e religiosas de Roma da época, incluindo o próprio papa Leão X, e fez tanto sucesso que lançou a carreira de Aretino e lhe deu o renome de satirista, que resultou no cognome de o Flagelo do Príncepes.
  • Foi também protagonista do livro The Pope's Elephant: An Elephant's Journey from Deep in India to the Heart of Rome por Silvano A. Bedini.

BibliografiaEditar

O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Hanno (elefante)