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História de Lagos (Portugal)

Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre a cidade no Distrito de Faro, em Portugal. Para a história de Lagos, na Nigéria, veja Lagos (Nigéria)#História.
Vista aérea de Lagos.

Lagos é uma cidade no Distrito de Faro, em Portugal. A história desta localidade atravessa cerca de 4 milénios, desde a sua provável fundação cerca de 2 mil anos antes do Nascimento de Cristo[1], tendo sido dominada pelos cartagineses[2], romanos[3] e muçulmanos[4]; após a reconquista cristã, teve um papel preponderante nos Descobrimentos Portugueses, tornando-se a principal cidade no Algarve, posição que perdeu para Faro após o devastador Sismo de 1755.[5] A recuperação foi dificultada pelas Invasões Francesas e pela Guerra Civil Portuguesa[6], só voltando a ter alguma importância em meados do Século XIX, com o desenvolvimento das indústrias, principalmente conserveiras.[7] Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, as fábricas começam a encerrar, e intensifica-se o turismo, cuja importância económica marca a transição para o Terceiro Milénio.[8]

Índice

Da fundação à reconquista cristãEditar

Pré-História e colonização primitivaEditar

A história de Lagos principia com a fundação de Laccobriga ou Lacóbriga, uma povoação fortificada fundada pelos Cónios cerca de 1899 a.C..[1] A localização deste núcleo urbano não foi determinada, tendo sido avançadas, como hipóteses, a Fonte Coberta, o Serro da Amendoeira, Paúl, Figueira da Misericórdia, e o Monte Molião, sendo este último local considerado o mais provável.[3]

A sua prosperidade económica, resultante da exportação de produtos piscícolas salgados e de outros produtos alimentares provindos do interior Algarvio, resultou num incremento das comunicações com outros povos. Destacam-se os fenícios, dos quais se descobriram vestígios dos séculos VIII e VII a. C. junto à Rua da Barroca.[9] A cidade foi conquistada por de cartagineses, chefiados por Amílcar Barca, numa data indefinida.[2] Após um sismo, que terá destruído a povoação no século IV a.C., a cidade foi reedificada num novo local pelo capitão cartaginês Boodes em 250 a.C.[10], embora a antiga urbe, no Monte Molião, tenha continuado a ser habitada.[11]

 
Estação romana da Quinta da Abicada com a Ria de Alvor ao fundo

Domínio RomanoEditar

Em 76, um cerco por parte dos exércitos romanos[12], comandados pelo procônsul Quinto Cecílio Metelo[4], é rompido por tropas enviadas por Sertório.[12] A cidade foi, no entanto, posteriormente conquistada, tendo-se tornado num centro industrial importante[13]; isto é comprovado pela presença, nas Ruas 25 de Abril e Silva Lopes, de vestígios de um complexo que incluía salgas, que estiveram em uso entre os Séculos II e VI, e a lixeira de uma fábrica de cerâmica romana.[14] A cidade detinha alguma influência na região, podendo o seu poder administrativo ter abrangido a povoação romana na zona da Abicada, na Ria de Alvor.[15]

Domínio MuçulmanoEditar

Após a queda do Império Romano, a cidade seria tomada pelos omíadas em 716, sendo entregue a Abderramão I, emir de Córdova.[16] A povoação passou, assim, a chamar-se Halaq Al-Zawaia ou Al-Zawaia, o que, segundo alguns autores, significa "Mosteiro Muçulmano".[17] Este período foi marcado por uma menor prosperidade económica; com efeito, em 1189, quando Silves foi conquistada pela primeira vez, Lagos era considerada apenas como uma aldeia, tendo a sua igreja sido doada pelo bispo de Silves ao Mosteiro de São Vicente de Fora[4]

Idade Média e Descobrimentos PortuguesesEditar

 
Rua Garrett, em Lagos. Este arruamento fez parte do novo centro da cidade, formado pela expansão urbana extramuros.

Reconquista Cristã e Baixa Idade MédiaEditar

A povoação foi tomada pelos cristãos entre 1241 e 1249, sendo a sua conquista parte de uma campanha militar levada a cabo por D. Sancho II e D. Afonso III.[18] Após a reconquista, a povoação, denominada de Lagus, terá retomado alguma da sua importância económica, motivo pelo qual D. Pedro terá reconhecido a sua independência administrativa em relação a Silves, em 1361[4], e foram concedidas várias armações de pesca a estrangeiros.[19]

Descobrimentos PortuguesesEditar

 
Estátua do navegador Gil Eanes, no Jardim da Constituição, em Lagos.

Inicialmente, a maior parte dos produtos vindos de África eram vendidos na Casa da Guiné, um entreposto comercial em Lagos criado especificamente para este fim.[20]

A importância de Lagos aumentou durante o Domínio Filipino, entre 1580 e 1640, tendo sido estabelecido o posto de Governador do Algarve, que residia no Castelo ou Paço dos Governadores; foi estabelecida uma rede de fortificações para defesa da cidade e da costa, contra os corsários ingleses, que então assolavam a área.[21]

Do final dos Descobrimentos Portugueses até à transição para o Século XXIEditar

Declínio UrbanoEditar

A cidade começou a sofrer sinais de decadência após a restauração da independência, devido a uma quebra na produção agrícola, redução das actividades comerciais provocados pela centralização em Lisboa, e uma epidemia de cólera que grassou a partir de 1640.[22] O auge do declínio urbano deu-se, no entanto, quando a cidade foi devastada pelo Terramoto de 1755 e subsequente tsunami.[5] A destruição da maior parte das construções, o assoreamento do rio Molião (actualmente Ribeira de Bensafrim), acentuado devido ao movimento de terras durante o maremoto, a deslocação do poder administrativo e comercial para Faro, os problemas de saúde devido ao número de mortos, agravamento das condições de higiene e a destruição das embarcações de pesca provocaram uma profunda recessão económica. Durante mais de meio século, assistiu-se a um esforço de reconstrução e recuperação económica, embora o poderio comercial, militar e administrativo de Lagos conquistado durante os Descobrimentos tenha sido irremediavelmente perdido.[5]

A partir do século XIX, a recuperação económica da cidade é interrompida pelas Invasões Francesas (1807-1810) e pela Guerra Civil Portuguesa (1828-1834); José Joaquim de Sousa Reis, apelidado de Remexido, comandante miguelista, ataca e cerca a cidade durante vários meses.[6]

 
Vestígios da fábrica de conservas Algarve Exportador, uma das maiores unidades industriais em Lagos..

Da Revolução Industrial até à Segunda Guerra MundialEditar

Desde meados do Século XIX e até cerca de 1960, Lagos foi uma cidade dominada pela indústria, devido ao facto da cidade deter mão-de-obra em grande quantidade, uma ligação directa ao interior algarvio, de aonde provinham matérias-primas e trabalhadores, e um porto para o escoamento dos produtos. De entre as actividades industriais, a que deteve mais impacto foi, sem dúvida, as conservas alimentares, devido ao facto da cidade deter uma indústria piscícola em plena actividade. A primeira fábrica conserveira em Lagos foi a F. Delory, que se estabeleceu em 1882.[7] Junto com as conserveiras também se estabelecem várias fábricas que confeccionavam produtos de suporte, como latas para a conserva, chaves para abrir as latas, cestas de vime, apetrechos de pesca, azeite, caixas de madeira, entre outros. A indústria atingiu o seu auge em 1920, existindo 32 empresas a laborar em Lagos naquele ano.[7] A necessidade intensiva de mão-de-obra para as indústrias provocou um êxodo rural no concelho. Além do rejuvenescimento económico, também se assistiu a uma evolução nos transportes, com a construção da Estrada Nacional 125 e da estação ferroviária, em Agosto de 1922.[23]

Foi neste período que se iniciaram as primeiras actividades turísticas na cidade; em 1913, foi publicado um folheto da Sociedade de Propaganda de Portugal, anunciando a construção do Lagos Palace Hotel, que, no entanto, não chegaria a ser construído, apesar do apoio da Câmara Municipal de Lagos.[24] O transporte ferroviário permitiu a chegada de turistas à cidade, e estabeleceram-se as primeiras unidades de alojamento, em casas particulares e em parques de campismo.[25]

 
Secção da Avenida dos Descobrimentos, avistando-se ao fundo o Jardim da Constituição.

Pós-Guerra ao Século XXIEditar

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a concorrência dos produtos estrangeiros, a deslocalização das indústrias para o Norte de África, o assoreamento do porto de Lagos e a diminuição da produção piscatória, matéria-prima para a indústria conserveira, provocaram o declínio desta actividade,[26] e de outras indústrias que dela dependiam. Assistiu-se assim, a uma decadência económica e social, que só seria afastada nos anos 1980 e 90, com o desenvolvimento da actividade turística na cidade. Apesar do turismo já ser conhecido na cidade desde inícios do século XX, foi com a inauguração do Aeroporto de Faro, em 1965 que se verificou um aumento no número de visitantes.

Assistiu-se, igualmente, à construção da Avenida dos Descobrimentos e ao restauro do Forte da Ponta da Bandeira, entre outros empreendimentos de cariz patrimonial e urbano, nos anos 50 e 60, já se prevendo um incremento nas actividades turísticas na cidade. Em 28 de Fevereiro de 1969, verificou-se um sismo de intensidade elevada, provocando avultados prejuízos materiais na região. O antigo edifício da Câmara Municipal de Lagos foi bastante afectado, tendo as reparações tido lugar em 1982.[27]

Nas últimas décadas do século XX e início de XXI a cidade mudou a ritmo acelerado, com renovação do centro histórico e expansão da periferia. Foram criados novos bairros residenciais e equipamentos respetivos (comércio, saúde, educação, desporto...); foi levada a cabo a construção da Marina de Lagos e respetiva zona habitacional e comercial; foram criadas novas unidades hoteleiras, instalações administrativas, etc..

Ver tambémEditar

ReferênciasEditar

  1. a b Paula, 1992:21
  2. a b Rocha, 1910:19
  3. a b Coutinho, 2008:9
  4. a b c d Coutinho, 2008:10
  5. a b c Coutinho, 2008:42
  6. a b Paula, 1992:78
  7. a b c Coutinho, 2008:77
  8. Coutinho, 2008:80, 83
  9. «Fenícios viveram em Lagos há 2800 anos». Região Sul. 28 de Julho de 2009. Consultado em 24 de Outubro de 2009 
  10. Cardoso, 1997:32
  11. Coutinho, 2008:19
  12. a b Arruda, 2007:20
  13. Coutinho, 2008:9, 10
  14. VARELA, Ana Sofia (16 de Julho de 2008). «Mais vestígios de salgas romanas foram descobertos em Lagos». Barlavento Online. Consultado em 24 de Outubro de 2009 
  15. TIAGO, João (23 de Junho de 2006). «Ruínas romanas da Abicada estão ao abandono». Barlavento Online. Consultado em 24 de Outubro de 2009 
  16. Cardo, 1998:41
  17. Paula, 1992:35
  18. Cardo, 1998:44
  19. Paula, 1992:34
  20. Coutinho, 2008:37
  21. Cardo, 1998:83
  22. Cardo, 1998:87
  23. Cardo, 1998:132
  24. Paula, 1992:245
  25. Coutinho, 2008:82
  26. Coutinho, 2008:80
  27. VASQUES, José Carlos (2000). «Os Paços do Concelho e os Passos que a Câmara Deu». Centro de Estudos Marítimos e Arqueológicos de Lagos. Consultado em 24 de Outubro de 2009 

BibliografiaEditar

  • ARRUDA, Ana Margarida (2007). Laccobriga. A Ocupação Romana na Baía de Lagos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 80 páginas 
  • CARDO, Mário (1998). Lagos Cidade. Subsídios para uma Monografia. Lagos: Grupo dos Amigos de Lagos. 80 páginas 
  • CARDOSO, Maria Teresa (1997). Estudo do Manuscrito Anónimo do Séc. XVIII. Descrição da Cidade de Lagos. Amadora: Livro Aberto, Editores Livreiros Lda. 72 páginas. ISBN 9725930118 
  • COUTINHO, Valdemar (2008). Lagos e o Mar Através dos Tempos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 95 páginas 
  • PAULA, Rui Mendes (1992). Lagos. Evolução Urbana e Património. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 392 páginas. ISBN 9789729567629 
  • ROCHA, Manoel João Paulo (1910). Monographia. As Forças Militares de Lagos nas Guerras da Restauração e Peninsular e nas Pugnas pela Liberdade. Porto: Typographia Universal. 488 páginas 


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