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História de Lagos (Portugal)

Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre a cidade no Distrito de Faro, em Portugal. Para a história de Lagos, na Nigéria, veja Lagos (Nigéria)#História.
Vista aérea de Lagos.

Lagos é uma cidade no Distrito de Faro, em Portugal. A história desta localidade atravessa cerca de 4 milénios, desde a sua provável fundação cerca de 2 mil anos antes do Nascimento de Cristo[1], tendo sido dominada pelos cartagineses[2], romanos[3] e muçulmanos.[4]. após a reconquista cristã, teve um papel preponderante nos Descobrimentos Portugueses, tornando-se a principal cidade no Algarve, posição que perdeu para Faro após o devastador Sismo de 1755.[5] A recuperação foi dificultada pelas Invasões Francesas e pela Guerra Civil Portuguesa[6], só voltando a ter alguma importância em meados do Século XIX, com o desenvolvimento das indústrias, principalmente conserveiras.[7] Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, as fábricas começam a encerrar, e intensifica-se o turismo, cuja importância económica marca a transição para o Terceiro Milénio.[8]

Mapa político e etnolinguístico da Península Ibérica, cerca de 300 a.C..

Índice

Pré-História e colonização primitivaEditar

A presença humana no território que futuramente seria Portugal iniciou-se no Paleolítico Inferior, como pode ser comprovado pelos vestígios de uma indústria lítica pré-Acheulense.[3] Durante o período anterior à época cristã, a Península Ibérica foi habitada principalmente pelo povo Ibero, e invadida pelos celtas no Século IV a.C., que acabaram por se fundir nos celtiberos.[9] Cerca de 1899 a.C., foi fundado um povoado denominado de Laccobriga ou Lacóbriga na região onde se situa a actual Lagos[1], embora a localização deste núcleo urbano não tenha sido totalmente determinada, tendo sido avançadas como hipóteses a Fonte Coberta, o Serro da Amendoeira, Paúl, Figueira da Misericórdia, e o Monte Molião, sendo este último local considerado o mais provável.[3] A Península Ibérica teve depois contacto com as civilizações fenícia, grega e cartaginesa, que estabeleceram colónias comerciais em vários pontos no litoral da península.[9] A cidade de Lacobriga foi um dos pontos onde se faziam as trocas comerciais com os povos do Oriente, o que pode ser comprovado pelos vestígios arqueológicos, como as cerâmicas fenícias encontradas na Rua da Barroca, datadas dos séculos VIII a VII a.C.[10]

A cidade foi conquistada por de cartagineses, chefiados por Amílcar Barca, numa data indefinida.[2] Após um sismo, que terá destruído a povoação no século IV a.C., a cidade foi reedificada num novo local pelo capitão cartaginês Boodes em 250 a.C.[11], embora a antiga urbe, no Monte Molião, tenha continuado a ser habitada.[12]

 
Vestígios da barragem romana da Fonte Coberta, em Lagos.

Domínio RomanoEditar

 Ver artigo principal: Lusitânia

Devido às tentativas dos cartagineses para dominar a península, os habitantes celtiberos chamaram o apoio dos romanos.[9] Iniciou-se uma série de conflitos entre os cartagineses e os romanos, conhecidos como Guerras Púnicas, que também atingiram a península.[12] Em 206 a. C., a cidade de Gades (Cádis) rendeu-se a Roma, terminando desta forma a Segunda Guerra Púnica na Península Ibérica, e o domínio de Cartago na península.[12] Porém, após a rendição de Cartago, a civilização romana iniciou uma série de campanhas militares no sentido de dominar toda a península, que demoraram cerca de 200 anos.[9] Em 155 a.C., iniciou-se a Guerra Lusitana, que opôs o poder militar de Roma às tribos lusitanas.[13] A resistência aos exércitos romanos foi inicialmente liderada por Viriato, entre 147 e 139, e depois por Quinto Sertório, contra Quinto Cecílio Metelo Pio e Cneu Pompeu Magno, a partir de 80.[14] Em 76, a cidade de Lacobriga foi cercada pelos romanos, comandados pelo procônsul Quinto Cecílio Metelo[4], cerco que foi rompido por tropas enviadas por Sertório.[15] Em 72, Sertório foi assassinado, embora a conquista de toda a Península Ibérica só tenha terminado a partir de 44.[14]

O domínio romano marcou profundamente o futuro território português[9], e a cidade de Lacobriga não foi excepção, tendo-se afirmado, durante essa época, como um importante pólo industrial[16], como pode ser comprovado pela presença, nas Ruas 25 de Abril e Silva Lopes, de vestígios de um complexo que incluía salgas, que estiveram em uso entre os Séculos II e VI, e a lixeira de uma fábrica de cerâmica romana.[17] A cidade possuía alguma influência na região, podendo o seu poder administrativo ter abrangido a povoação romana na zona da Abicada, na Ria de Alvor.[18]

Idade médiaEditar

A Idade Média foi uma época de grandes transformações na Península Ibérica, com a substituição do domínio romano por um reino visigodo, que por sua vez foi quase totalmente destruído durante as invasões muçulmanas.[19] Seguiu-se um longo período de conflitos no qual a península foi totalmente reconquistada pelas forças da cristandade, criando nos terrenos recém-conquistados vários reinos independentes, divididos por uma malha de pequenos domínios.[19] Um destes foi o Condado Portucalense, que foi a génese da nação de Portugal.[19] Todas estas fases reflectiram-se de forma intensiva no Algarve, região que devido à sua situação geográfica foi uma das primeiras a serem atingidas pela invasão muçulmana,[20] e simultaneamente a última a ser reconquistada no território português.[21]

 
Mapa da divisão da Península Ibérica em 411.

Domínio visigodo e MuçulmanoEditar

O domínio romano da Península Ibérica entrou em decadência no Século V, com as invasões dos Alanos, Vândalos e Suevos, que tinham feito um acordo em 409 com Magno Máximo, pretendente do título imperial, e em 411 dividem a península entre si com a concordância do imperador Flávio Honório, cabendo a Lusitânia aos Alanos.[22] No entanto, em 415 os romanos são forçados a pedir auxílio aos Visigodos, devido às pilhagens feitas pelos Alanos e Vândalos Silingos.[22] Os visigodos invadem assim a península, que passaram a dominar totalmente após a queda das últimas colónias de Bizâncio em 624.[23]

A monarquia visigoda na península durou cerca de 300 anos, tendo terminado no Século VIII, devido às invasões dos povos maometanos, vindos do Norte de África, e comandados por Tárique.[9] A campanha muçulmana iniciou-se em 711, e logo nesse ano derrotaram as forças visigóticas na decisiva Batalha de Guadalete.[23] A invasão muçulmana desencadeou-se de forma muito rápida, e logo em 713 já tinham tomado Sevilha, Mértola e outras cidades importantes, e no ano seguinte caíram Évora, Santarém e Coimbra, estando a península quase toda controlada pelos islamitas, conservando-se cristã apenas a Cordilheira Cantábrica, no Norte da península.[23][9] Lagos foi tomada pelos omíadas em 716, sendo entregue a Abderramão I, emir de Córdova.[20] A povoação passou, assim, a chamar-se Halaq Al-Zawaia ou Al-Zawaia, o que, segundo alguns autores, significa "Mosteiro Muçulmano".[24] Durante o domínio muçulmano, Lagos entrou em profundo declínio, sendo considerada apenas uma aldeia em 1189, quando Silves foi conquistada pela primeira vez, e a sua igreja foi doada pelo bispo de Silves ao Mosteiro de São Vicente de Fora.[4]

 
Fases da reconquista da Península Ibérica.

Reconquista Cristã e independência portuguesaEditar

 Ver artigos principais: Reconquista e Independência de Portugal

A reconquista iniciou-se pouco depois, com a decisiva vitória cristã na Batalha de Covadonga[23], embora tenha progredido lentamente, com vários avanços e recuos.[25] Foram organizadas várias campanhas espaçadas no tempo, destinadas a enfraquecer o domínio muçulmano, e a libertar os territórios controlados pelo inimigo.[25] Por exemplo, em 798 Afonso II das Astúrias lançou uma incursão contra Lisboa, e em 844, os povos Normandos fizeram várias expedições na Península, tendo atacado as cidades de Lisboa e Beja, e a região do Algarve.[25] Na Década de 1130, D. Afonso Henriques inicia uma campanha contra os muçulmanos, que culminou na Batalha de Ourique em 1139.[26] Em 1140, D. Afonso Henriques autoproclamou-se rei, embora este título só tenha sido confirmado pelo Tratado de Zamora, em 1143.[26] A reconquista prosseguiu de Norte para Sul, tendo Lisboa sido libertada em 1147[27], Évora em 1165, e Serpa em 1866.[28] Em 1189, o rei D. Sancho I fez uma incursão na costa Algarvia com o apoio de cruzados alemães e dinamarqueses, tendo conquistado os castelos de Alvor, Silves e Albufeira, que no entanto pouco depois foram retomados pelos muçulmanos.[29] O rei D. Sancho II libertou Aljustrel em 1234, Mértola em 1238, e Alvor em 1240, enquanto que o seu sucessor, D. Afonso III, reconquistou o resto da região algarvia em 1249.[21] A cidade de Lagos foi tomada entre 1241 e 1249.[30] Após a reconquista, a povoação, denominada de Lagus, terá retomado alguma da sua importância económica, motivo pelo qual D. Pedro terá reconhecido a sua independência administrativa em relação a Silves, em 1361[4], e foram concedidas várias armações de pesca a estrangeiros.[31]

 
A partida de Vasco da Gama a Índia em 1497, quadro de Roque Gameiro.

Idade modernaEditar

No Século XV, iniciou-se o grande ciclo dos Descobrimentos Portugueses, que veio trazer profundas modificações não só à sociedade portuguesa mas um pouco por todo o mundo, ao promover o contacto entre continentes, culturas e civilizações.[19][9] Também devido à sua posição privilegiada, o Algarve desempenhou um importante papel nos primeiros anos dos Descobrimentos Portugueses.[32] O auge dos Descobrimentos foi atingido com a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498, e o início da colonização do Brasil em 1500.[33] No entanto, o Século XVI assistiu à perda da independência portuguesa, com o Domínio Filipino, que durou de 1580 a 1640[9], fase que foi no entanto de grande desenvolvimento para a região do Algarve.[34] A fase após a restauração da independência ficou marcada pelo grande número de conflitos em que o país se envolveu, em defesa da metrópole e das colónias, que provocou graves problemas económicos e a perda de grandes porções do território ultramarino.[35] Embora a situação tenha melhorado durante o Século XVIII, este período ficou marcado pelo devastador Sismo de 1755.[36]

Descobrimentos PortuguesesEditar

 Ver artigo principal: Descobrimentos Portugueses
 
Estátua do navegador Gil Eanes, no Jardim da Constituição, em Lagos.

O ciclo dos Descobrimentos Portugueses iniciou-se no Século XV, com as primeiras conquistas ainda durante o reinado de D. João I, incentivadas pelos infantes D. Henrique, D. Pedro e D. Duarte, tendo este último sido o herdeiro do trono.[9] A cidade de Lagos foi um dos principais portos durante os descobrimentos, tendo sido o ponto de partida de várias expedições navais nos Séculos XV e XVI.[37] Com efeito, fez parte da primeira campanha militar contra o Norte de África, que partiu de Lisboa em 25 de Julho de 1415 para conquistar a cidade de Ceuta.[38] No dia seguinte, a armada, composta por mais de 200 barcos, parou em Lagos, e chegou a Ceuta em 21 de Agosto.[38] Em 1419, o Infante D. Henrique saiu da corte e instalou-se em Sagres, no Algarve, onde iniciou os seus planos para a futura expansão ultramarina portuguesa.[39] Sob as ordens do infante[39], o navegador Gil Eanes, natural de Lagos, dobrou o Cabo Bojador em 1434, feito considerado de grande importância no âmbito da exploração da costa de África.[40] Em 1435, Gil Eanes, em conjunto com Afonso Gonçalves Baldaia, fez outra viagem ao longo da costa africana, tendo passado novamente o Cabo Bojador, e chegado à Angra dos Ruivos ou dos Cavalos, a cerca de 50 léguas a Sul.[40]

Em 1441, já durante o reinado de D. Afonso V, foram enviadas duas expedições a África, uma de Nuno Tristão ao Cabo Branco, e outra de Antão Gonçalves até ao Rio do Ouro, tendo trazido, no regresso a Lagos, alguns dos primeiros escravos africanos.[41] Por volta de 1444, Lançarote de Lagos, escudeiro do Infante D. Henrique e almoxarife do rei em Lagos, formou a Companhia de Lagos, para fazer operações comerciais ao longo da costa africana.[42] Nesse mesmo ano, o navegador organizou uma frota de seis caravelas para uma expedição ao Golfo de Arguim, onde foram capturados centenas de escravos.[42] Estes escravos foram depois partilhados no regresso a Lagos, operação à qual assistiu o Infante D. Henrique, e que foi descrita por Gomes Eanes de Zurara na sua Crónica da Guiné: «Mas qual seria o coração, mais duro que ser pudesse, que não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquela companha? Que uns tinham as caras baixas e os rostos lavados em lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dorosamente, esguardando a altura dos céus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como se pedissem socorro ao Padre da Natureza; outros feriam o rosto com suas palmas, lançando-se estendidos no meio do chão; outros faziam lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra [...]. Mas para ser dó mais acrescentado, sobrevieram aqueles que tinham carregado da partilha e começaram de os apartar uns dos outros, a fim de porem os seus quinhões em igualeza; onde convinha de necessidade apartavam os filhos dos padres e as mulheres dos maridos e os irmãos uns dos outros. A amigos nem a parentes se guardava nenhuma lei, somente cada um caía onde a sorte o levava!» O Infante D. Henrique estava «em cima dum poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes», e levou o quinto que lhe tinha sido destacado, correspondente a «46 almas».[42] Nesse ano, Lançarote de Lagos recebeu cartas de confirmação de almirantado e de doação.[42] Em 1445, a Casa dos Tratos de Arguim começa a funcionar em Lagos, ano em que se inaugurou a feitoria de Arguim, o primeiro estabelecimento comercial português na zona da África Negra.[42] Também em 1445, Lançarote de Lagos fez uma outra expedição de Lagos até à Ilha de Tider, para combater a presença muçulmana.[43] Em Outubro de 1458, partiu de Lagos uma armada, comandada por D. Afonso V e pelo Infante D. Henrique, para a conquista de Alcácer-Ceguer, no Norte de África.[44] Em 1463, uma carta régia mudou a Feitoria do Trato de Arguim de Lagos para Lisboa.[45]

 
Castelo dos Governadores, em Lagos.

Domínio filipinoEditar

 Ver artigos principais: Descobrimentos Portugueses e Domínio Filipino

Em 1578, o rei D. Sebastião desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, tendo sido sucedido pelo seu tio, Henrique I, que no entanto faleceu em 1580.[9] Desta forma, o trono passou para o rei Filipe II de Espanha, provocando desta forma a perda da independência portuguesa.[9] No entanto, este período foi de expansão para a cidade de Lagos, com a criação do posto de Governador do Algarve, que residia no Castelo ou Paço dos Governadores, e da construção de uma rede de fortificações costeiras, de forma a defender a cidade dos corsários ingleses, que começaram a atacar a região.[34] O corsário mais importante foi Francis Drake, que em 1587 lançou uma campanha contra a costa algarvia, tendo saqueado a povoação de Sagres.[46] Um manuscrito italiano denominado de Ritrato et Riverso del Regno di Portogallo fez uma descrição do país durante o reinado de Henrique I, entre 1578 e 1580, no qual Tavira, Lagos, Faro e Silves surgiram como cidades sem bispado.[47] Os principais portos no Algarve eram Lagos, Tavira e Vila Nova (de Portimão).[47]

 
Batalha naval de 1693.

Restauração da Independência e sismo de 1755Editar

No Século XVII, iniciou-se um movimento revolucionário contra o domínio castelhano, que conseguiu restaurar a independência de Portugal em 1640.[9]

O período após a restauração da independência foi de declínio para a cidade de Lagos, o que se deveu a uma queda na produção agrícola, redução nas actividades comerciais devido a uma maior centralização em Lisboa, e uma epidemia de cólera que se iniciou em 1640.[48] O maior exemplo desta concentração do comércio na capital foi a criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil, que se baseava principalmente no Porto de Lisboa, enquanto que anteriormente o tráfego para o Brasil era feito através de vários pequenos portos ao longo de quase toda a costa, de Caminha a Lagos.[49] Desta forma, estas povoações perderam uma grande fonte de rendimentos, gerando críticas à Companhia do Brasil.[49]

As primeiras décadas após a independência foram marcadas pela continuação do processo de redução de poderio militar e económico português na América do Sul, África e Oriente para holandeses, franceses e britânicos, com a perda de algumas colónias.[35] Também continuaram os problemas internos, com a Guerra da Restauração contra Espanha, que também atingiu o Algarve, crises financeiras que levaram a várias desvalorizações de moeda, e várias ondas de fome em 1647, 1659 e 1661.[35] Este declínio continuou nas primeiras décadas do Século XVIII, com a continuação da guerra com Espanha e nas colónias, e uma epidemia de fome em Dezembro de 1708, embora se tenha verificado uma melhoria na situação financeira, especialmente devido ao comércio com o Brasil.[50]

A cidade foi palco de uma batalha naval em 1693, onde os franceses venceram as frotas britânica e holandesa.[37] Em 1759, ocorreu outra batalha naval, que resultou na vitória dos britânicos sobre os franceses.[37]

Em 1720, foram tomadas medidas preventivas na região do Algarve contra uma epidemia de cólera, que estava a espalhar-se pelo Sul de Espanha.[36]

A partir de 1719, inicia-se um período de violentos sismos, que atinge o Algarve e outras regiões do país, começando por um um 6 de Março desse ano, seguido por outros em 27 de Dezembro de 1722, 12 de Outubro de 1724, 27 de Dezembro de 1732, 2 de Fevereiro de 1734, 25 de Outubro de 1739.[36] Esta fase culminou com o sismo de 1 de Novembro de 1755 e correspondente maremoto, que foi considerada a pior catástrofe do século, e que devastou a cidade de Lisboa e muitas outras povoações em Portugal.[36] Em Lagos, o sismo destruiu a maior parte dos edifícios, e provocou um grande movimento de terras que acentou o assoreamento do Rio Molião (futura Ribeira de Bensafrim), enquanto que o grande número de mortos agravou as condições de saúde e higiene da cidade.[5] Além disso, também destruiu as embarcações de pesca, provocando uma crise económica.[5] Desta forma, a cidade deixou de ter condições para albergar os poderes administrativos e comerciais, que foram deslocados para Faro.[5] O processo de reconstrução e de recuperação económica demorou mais de meio século, embora o poderio comercial, militar e administrativo de Lagos que tinha sido ganho durante a fase dos Descobrimentos tenha sido irremediavelmente perdido.[5]

 
Litografia alusiva à implantação da república Portuguesa.

História contemporâneaEditar

O Século XIX veio trazer profundas alterações ao tecido económico, político e social em toda a Europa, devido em grande parte aos efeitos da Revolução Francesa, que em Portugal provocaram, na primeira metade do Século, a queda do antigo regime e a instauração de um novo, de tendências liberais.[51] A partir da Década de 1850 inicia-se uma fase de harmonia política que permite um grande desenvolvimento económico e social do país, embora esta estabilidade tenha-se começado a deteriorar a partir da Década de 1870, culminando na Implantação da República Portuguesa, em 1910.[52] No entanto, os primeiros anos da república foram marcados por uma grande instabilidade política e conflitos sociais, problemas que foram exacerbados pelo início da Primeira Guerra Mundial, e que acabaram pela sua substituição pela Ditadura Militar após o Golpe de 28 de Maio de 1926.[53] Portugal foi regido por um regime autoritário durante cerca de 48 anos, até ter sido derrubado pela Revolução de 25 de Abril de 1974, que levou ao regresso de um governo democrático.[54] As várias medidas instituídas após a Revolução de 1974 tiveram profundos efeitos na economia e na sociedade portuguesa, com a extinção das antigas colónias, regresso das liberdades cívicas e introdução de novas ideias, e a integração do país na Comunidade Económica Europeia.[55]

 
Mapa da Península Ibérica, durante a Guerra Peninsular.

Invasões francesas e Guerra CivilEditar

 Ver artigos principais: Guerra Peninsular e Guerra Civil Portuguesa

A partir do século XIX, continuou a recuperação económica da cidade, que foi interrompida pelas Invasões Francesas, entre 1807 e 1810.[6] Em 16 de Junho de 1808, iniciou-se a Revolta de Olhão, entre a população do Algarve e as tropas francesas, que conseguiu tomar Faro no dia 19.[56] No dia seguinte, foi feita uma reunião onde se decidiu informar as restantes localidades da região sobre o sucesso da revolta, tendo sido destacado como mensageiro para a zona do Barlavento Sebastião Duarte da Ponte Negrão, que correu todas as terras de Faro até Lagos em apenas 48.[56] Devido à fadiga da viagem, não conseguiu continuar além de Lagos, tendo em vez disso enviado emissários até Lagos e a costa Oeste, tendo depois regressado a Faro.[56] Posteriormente, foram formados corpos de infantaria em vários pontos do Algarve, incluindo o de Lagos, que foi um dos destacados para socorrer a cidade de Beja e continuar a revolução na região do Alentejo, sendo parte do exército do Sul, que apesar das suas reduzidas dimensões desempenhou um importante papel durante a expulsão dos franceses.[57] Em 1808, o desembargador Belchior da Costa saiu de Lagos num caíque para se encontrar com o comandante Wellington na foz do Rio Mondego, tendo regressado a Lagos na fragata inglesa Bullark, com algum armamento.[58]

Em 1828, iniciaram-se as Guerras Liberais, opondo os partidários do rei absolutista D. Miguel aos liberais constitucionalistas, e que duraram até à Convenção de Évora-monte, em 26 de Maio de 1834.[59] No entanto, em 1836 o comandante miguelista José Joaquim de Sousa Reis, mais conhecido por Remexido, iniciou uma série de campanhas de guerrilha contra vários pontos do Algarve, incluindo Lagos, que foi por diversas vezes atacada e cercada.[6] José Joaquim de Sousa Reis foi fuzilado em 1838.[60]

Entre 1828 e 1834, houve uma guerra civil em Portugal, durante a qual a cidade de Lagos foi atacada e cercada durante vários meses por um comandante miguelista, José Joaquim de Sousa Reis, mais conhecido por Remexido.[6]

 
Postal com a estação de Lagos, nos primeiros anos.

Da regeneração à Segunda Guerra MundialEditar

Desde meados do Século XIX e até cerca de 1960, Lagos foi uma cidade dominada pela indústria, devido ao facto da cidade deter mão-de-obra em grande quantidade, uma ligação directa ao interior algarvio, de aonde provinham matérias-primas e trabalhadores, e um porto para o escoamento dos produtos. De entre as actividades industriais, a que deteve mais impacto foi, sem dúvida, as conservas alimentares, devido ao facto da cidade deter uma indústria piscícola em plena actividade. A primeira fábrica conserveira em Lagos foi a F. Delory, que se estabeleceu em 1882.[7] Junto com as conserveiras também se estabelecem várias fábricas que confeccionavam produtos de suporte, como latas para a conserva, chaves para abrir as latas, cestas de vime, apetrechos de pesca, azeite, caixas de madeira, entre outros. A indústria atingiu o seu auge em 1920, existindo 32 empresas a laborar em Lagos naquele ano.[7] A necessidade intensiva de mão-de-obra para as indústrias provocou um êxodo rural no concelho. Além do rejuvenescimento económico, também se assistiu a uma evolução nos transportes, com a construção da Estrada Nacional 125 e da estação ferroviária, em Agosto de 1922.[61]

Entretanto, em 5 de Outubro de 1910, dá-se uma revolução em Lisboa, que derrubou o regime monárquico e instaurou a República Portuguesa.[62]

Foi neste período que se iniciaram as primeiras actividades turísticas na cidade; em 1913, foi publicado um folheto da Sociedade de Propaganda de Portugal, anunciando a construção do Lagos Palace Hotel, que, no entanto, não chegaria a ser construído, apesar do apoio da Câmara Municipal de Lagos.[63] O transporte ferroviário permitiu a chegada de turistas à cidade, e estabeleceram-se as primeiras unidades de alojamento, em casas particulares e em parques de campismo.[64]

 
Secção da Avenida dos Descobrimentos, avistando-se ao fundo o Jardim da Constituição.

Pós-Guerra à actualidadeEditar

Após a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), a concorrência dos produtos estrangeiros, a deslocalização das indústrias para o Norte de África, o assoreamento do porto de Lagos e a diminuição da produção piscatória, matéria-prima para a indústria conserveira, provocaram o declínio desta actividade,[65] e de outras indústrias que dela dependiam. Assistiu-se assim, a uma decadência económica e social, que só seria afastada nos anos 1980 e 90, com o desenvolvimento da actividade turística na cidade. Apesar do turismo já ser conhecido na cidade desde inícios do século XX, foi com a inauguração do Aeroporto de Faro, em 1965 que se verificou um aumento no número de visitantes. Esta tendência para as actividades turísticas verificou-se em quase todo o litoral Algarvio.[66]

Assistiu-se, igualmente, à construção da Avenida dos Descobrimentos e ao restauro do Forte da Ponta da Bandeira, entre outros empreendimentos de cariz patrimonial e urbano, nos anos 50 e 60, já se prevendo um incremento nas actividades turísticas na cidade. Em 28 de Fevereiro de 1969, verificou-se um sismo de intensidade elevada, provocando avultados prejuízos materiais na região. O antigo edifício da Câmara Municipal de Lagos foi bastante afectado, tendo as reparações tido lugar em 1982.[67] Em 25 de Abril de 1974, dá-se a Revolução dos Cravos, que extinguiu o Estado Novo e restaurou um regime democrático em Portugal.[68]

Nas últimas décadas do século XX e início de XXI a cidade mudou a ritmo acelerado, com renovação do centro histórico e expansão da periferia. Foram criados novos bairros residenciais e equipamentos respectivos (comércio, saúde, educação, desporto...); foi levada a cabo a construção da Marina de Lagos e respetiva zona habitacional e comercial; foram criadas novas unidades hoteleiras, instalações administrativas, etc..

Ver tambémEditar

ReferênciasEditar

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BibliografiaEditar

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Leitura recomendadaEditar

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  • MAGALHÃES, Joaquim Romero (2004). Foral de Lagos de 1504. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 206 páginas. ISBN 972-99121-2-2 
  • PINHARANDA, João Lima; SOARES, António Martins (2005). Lagos, anos 60-80. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 125 páginas 
  • VELOSO, José (2010). Lagos: Brevíssima foto-história da cidade marítima: Ao longo do século XX, memória da cidade bela 3.ª ed. [S.l.]: Edição do autor. 36 páginas 


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