Hoje é dia de janeiro

Este dia de janeiro
É de grandes merecimentos,
Por ser o dia primeiro
Em que Deus passou tormentos.

recolha de Teófilo Braga, in Cantos Populares do Arquipélago Açoriano (1869)[1]

"Hoje é dia de janeiro"[Nota 1] é o incipit de uma conhecida quadra tradicional portuguesa. A sua temática é a circuncisão de Jesus[1], celebrada tradicionalmente no 1.º de janeiro. Por essa razão faz parte de várias cantigas de janeiras.

InterpretaçãoEditar

 
Circuncisão de Jesus (1651) por José de Avelar Rebelo.

O tema dos versos é a circuncisão de Jesus. De acordo com a tradição cristã este evento é de especial relevo, uma vez que é considerado a primeira das ocasiões em que Jesus Cristo derramou o seu sangue no processo de Redenção da Humanidade. Este simbolismo, surge já no século XIV na célebre Lenda Dourada de Jacopo de Varazze:

Quinque enim vicibus sanguinem pro nobis effudit, primo in circumcisione, et haec effusio fuit nostrae redemptionis initium.[2]
Por cinco vezes [Jesus] verteu sangue por nós, primeiro na circuncisão e este derramamento foi o início da nossa redenção.

— Jacopo de Varazze

O sermão Xavier Dormindo e Xavier Acordado: Dormindo[3] do padre António Vieira publicado em 1694 usa a mesma terminologia que os versos:

Seis vezes […] derramou Cristo seu preciosíssimo sangue: na Circuncisão, no Horto, nos açoutes, na coroação, na Cruz e na lançada. Saibamos; E de todo este sangue tantas vezes e por tantos modos derramado, ouve algum que tivesse alguma excelência, alguma ventagem, alguma prerrogativa ou quando menos alguma diferença pela qual mereça ser estimado, honrado e venerado com mais particular amor, com mais particular devoção, com mais particular afeto? Toda a Teologia mística, que é a que mais alcança de Deus, responde que sim e dá esta excelência e prerrogativa ao sangue que Cristo derramou no Horto. Mas, porquê? Que mais teve o sangue do Horto que o da Cruz, que o da coluna, que o da coroa de espinhos e mais tormentos?

VersõesEditar

A quadra foi recolhida inserida em diversas cantigas, principalmente janeiras, nas regiões da Beira Alta[4][5], Beira Baixa[carece de fontes?], Baixo Alentejo[6] e Algarve[7] e no arquipélago dos Açores[1]. A mais conhecida, "Hoje é dia de janeiro" é proveniente da Beira Alta[5] e foi harmonizada pelo compositor português Fernando Lopes-Graça para a sua Segunda Cantata do Natal terminada em 1961[8].

 
Grupo de janeireiros em Proença-a-Velha, Beira Baixa.
Algarve
(1917)
Mértola
(1970)
Beira Alta

Esta noite é de janeiras
É de grande mer'cimento,
Por ser a noite primeira
Em que Deus passou tormento.

Esta noite é de janeiras
E dum grande mer'cimento,
Por ser a noite primeira
Em que Deus passou tormento.

Hoje é dia de janeiro
E de grande merecimento,
Por ser o dia primeiro
Que Jesus passou tormento.

Tormentos que Deus passou
Foi porque os quis passar,
Suas carnes cortou,
Suas carnes deixou cortar.

Os tormentos que passou
Eu lhes digo a verdade,
O seu sangue derramou
P'ra salvar a Cristandade.[6]

Lá no céu está uma escada
Feita mesmo à maravilha,
Os senhores desta casa
Digam todos viva, viva!

O seu sangue derramou,
Seu sangue deixou derramar;
Essas três pingas de sangue
Deus as queira aproveitar.

Despedidas queremos dar
Como Cristo em Belém,
Com as lágrimas nos olhos
Se despede quem quer bem![9]

Da primeira se faz o pão,
Da outra o vinho cristal,
A outra que sobeja
Espalhai p'la Cristandade.[7]

Ver tambémEditar

Notas

  1. Ou, noutras variantes, "Esta noite é de janeiras", "Este dia de janeiro", "O primeiro de janeiro".

Referências

  1. a b c Braga, Teófilo (1869). Cantos Populares do Archipelago Açoriano 1 ed. Porto: Typ. da Livraria Nacional 
  2. Voragine, Jacobi a (1801). Legenda Aurea. vulgo historia lombardica dicta (em latim). Lipsiae: Imprensis Librariae Arnoldianae. p. 82 
  3. Vieira, Pe. António (1694). «Xavier dormindo: Sonho terceiro (VI)». Xavier Dormindo e Xavier Acordado: Dormindo. Em tres Oraçoens Panegyricas no Triduo da sua Festa. 8 1 ed. Lisboa: Officina de Miguel Deslandes. p. 121. 536 páginas 
  4. Correia Silva (1920). «As Janeiras». Lisboa: Livraria Clássica Editora. Revista Lusitana. 23 (1-4). 189 páginas 
  5. a b Chão de Couge, Associação de Cultura, Recreio e Beneficência de (1967). Cantos Regionais Portugueses. pelo Coro da Academia de Amadores de Música 1 ed. Lisboa: Cromotipo 
  6. a b Giacometti, Michel; Fernando Lopes-Graça (1981). Cancioneiro Popular Português 1 ed. Lisboa: Círculo de Leitores 
  7. a b Gasgon, José António Guerreiro (1917). «As Janeiras e os Reis (Algarve)». Lisboa: Livraria Clássica Editora. Revista Lusitana. XX (3-4). 177 páginas 
  8. Paula de Castro; Miguel Azguime, et al. «Segunda Cantata do Natal». Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa. Consultado em 5 de novembro de 2015 
  9. «10. Hoje é dia de Janeiro». Comsonante. Consultado em 5 de novembro de 2015