Ida Pfeiffer

Ida Laura Pfeiffer (Viena, 14 de outubro de 1797 - Viena, 27 de outubro de 1858) foi uma exploradora e escritora de livros de viagens austríaca.[1]

Ida Pfeiffer
Nascimento Ida Reyer
14 de outubro de 1797
Viena
Morte 27 de outubro de 1858 (61 anos)
Viena
Sepultamento Cemitério Central de Viena, Cemitério de São Marcos
Cidadania Império Austríaco, Monarquia de Habsburgo
Cônjuge Mark Anton Pfeiffer
Filho(s) Oskar Pfeiffer, Alfred Pfeiffer, Bertha Pfeiffer
Ocupação explorador, escritora, naturalista, editor, viajante
Causa da morte malária
Assinatura
Die Gartenlaube (1897) b 683 (cropped).jpg

Até os 45 anos era uma dona-de-casa que sonhava em viajar. Quando conseguiu criar seus filhos, vendeu sua casa e seu piano, e com esse dinheiro começou suas viagens de exploração do mundo. Ao retornar lançou um livro de viagens com as anotações de seu diário, o que lhe rendeu alguma notoriedade. Conforme foi se tornando mais conhecida, obtinhas passagens gratuitas em navios estadunidenses e alemães. Geralmente viajava com pouco dinheiro, dormia e comia na casa de pessoas comuns, fazia anotações sobre as coisas que via, usando como base para posteriores livros de viagem e visitava lugares fora das rotas turísticas tradicionais, algumas vezes explorando regiões perigosas. Foi a primeira mulher a ser aceite como membro honorário nas sociedades geográficas de Berlim e Paris. foi laureada pelo rei da Prússia com uma medalha de ouro por sua contribuição às artes e às ciências.[2]

Primeira viagem ao redor do mundoEditar

Ida Pfeiffer partiu de Viena em maio de 1846, pegando um veleiro em Hamburgo para o Rio de Janeiro, onde desembarcou a 17 de setembro de 1846 após dois meses e meio de viagem. Em fevereiro de 1847 fez o temido percurso marítimo pelas águas tempestuosas ao redor do Cabo Horn até Valparaíso no Chile ("A aparência de Valparaíso é banal e monótona" "As classes inferiores são notadamente feias".[3] Atravessando o Pacífico e fazendo escala no Tahiti ("jamais testemunhei cenas tão vergonhosas de depravação pública"), onde foi recebida pela rainha, ela chegou a Macau, depois a Hong Kong e Cantão ("eles comem cães, gatos, camundongos e ratos, os intestinos das aves, e o sangue de todo animal" "os chineses são inimigos dos banhos e da lavagem" "os chineses são acusados de matar vários de seus recém-nascidos" "talvez não exista nação na face da terra igual aos chineses na diligência e aplicação"). Nesses lugares, a aparição de uma mulher branca foi um evento extraordinário, e ela várias vezes se viu cercada de pessoas curiosas, a ponto de se sentir ameaçada. Passando por Singapura ("A cidade de Singapura e seus arredores contêm mais de 20 mil habitantes. As ruas me pareceram amplas e arejadas, mas as casas não são bonitas.") prosseguiu até o Ceilão ("as ruas [de Kandy] são bonitas, largas e limpas; as casas, com apenas um andar, são cercadas de varandas e colunatas"), de lá, após longas excursões, atingiu no final de outubro de 1847 o sul da Índia. As principais paradas de sua viagem pelo subcontinente indiano foram Calcutá, Benares e Bombaim ("Na Índia, sob o chamado 'governo inglês livre', achei uma triste prova de que a posição dos escravos no Brasil é melhor que a dos camponeses livres aqui"). Ela foi recebida nas casas dos indianos ricos e eminentes, participou de uma caça ao tigre, mas também percorreu longas distâncias em carros de boi. Em abril de 1848, prosseguiu viagem para a Mesopotâmia e Pérsia ("Nenhum país do mundo tem mais montanhas e menos rios do que a Pérsia"), visitou Bagdá, acompanhou caravanas através do deserto, viu as ruínas da Babilônia e Nínive e foi ameaçada por ladrões. O cônsul britânico em Tabriz, um conhecedor da região, ficou profundamente impressionado com a ousadia de suas aventuras. Passando pela Armênia, Geórgia, Odessa ("Os russos e os cossacos têm traços rudes e estúpidos, e seu comportamento corresponde completamente ao que sua aparência indica"), Constantinopla e Atenas voltou para casa, chegando em Viena em novembro de 1848, preocupada com os desdobramentos da Revolução de 1848. O registro dessa viagem, Eine Frauenfahrt um die Welt (Viagem de uma mulher ao redor do mundo), foi publicado em Viena em 1850 em três volumes. A tradução inglesa, A Woman's Journey round the World, foi publicada em Londres em 1850.

Nessa viagem Ida Pfeiffer visita o Rio de Janeiro, onde desembarca a 17 de setembro de 1846 após permanecer dois meses e meio a bordo de um veleiro. De todos os viajantes estrangeiros que estiveram no Rio no século XIX, Ida Pfeiffer talvez ofereça a imagem mais negativa da cidade. “Talvez resida nessa atitude crítica e em grande parte depreciativa do país a razão do fato de ser o seu nome e a sua obra menos conhecidos e considerados por estudiosos brasileiros, apesar dos valiosos dados que contém.”[4] Mas embora ache a Praia dos Mineiros (entre o Largo do Paço, atual Praça XV, e o Arsenal da Marinha), onde desembarcou, “suja e repugnante, habitada por umas dúzias de negros igualmente sujos e repugnante”, o Paço Imperial um “edifício grande mas prosaico, como uma casa particular, sem pretensão a gosto ou beleza arquitetônica”, o Largo do Paço, “sujo, servindo à noite de local de dormir para muitos negros pobres e livres, que de manhã fazem ali suas necessidades, sem nenhum pudor, na frente de todos” e o Campo de Sant’Ana “o mais sujo de todos os lugares”, onde viu “corpos de cães e gatos em decomposição” e lavadeiras na fonte “lavando e secando e berrando”, de modo que "uma pessoa se sente feliz de deixar o lugar", Ida reconhece a beleza e imponência do aqueduto, semelhante a uma “obra romana”, admite que “o destino dos escravos não é tão ruim como muitos europeus acreditam” e que “a vida dos escravos no todo é melhor que a dos camponeses russos, poloneses ou egípcios que sequer consideramos escravos”, reconhece que a cidade é “muito bem iluminada” e que é seguro andar nas ruas à noite e surpreende-se com o interior do Teatro da Ópera (o Imperial Teatro de São Pedro de Alcântara, onde fica o atual Teatro João Caetano), com suas “salas amplas e magníficas, um palco grande e profundo, capacidade para mais de 2 mil pessoas e quatro lances de camarotes espaçosos”. Ida descreve a imponência das festas, entre elas a do batizado da princesa imperial e do aniversário do imperador. Passeia nos arredores da cidade – Alto da Boa Vista, Jardim Botânico, Corcovado (onde “se descortinou diante de nossos olhos um panorama semelhante ao qual o mundo tem poucos a oferecer”), Palácio de São Cristóvão – e excursiona até cidades próximas naquela época recém-criadas por colonos europeus como Petrópolis e Nova Friburgo. A caminho de Petrópolis, ela e seu acompanhante escaparam por um triz do ataque de um escravo furioso por ter sido espancado pouco antes pelo dono. Se a urbe carioca em si não a impressionou tanto, Ida reconhece os tesouros "com que a natureza adornou de forma realmente abundante os arredores desta cidade”.[5] Ao prosseguir viagem até Valparaíso, quando o veleiro fez escala no porto de Santos, Ida aproveitou para subir em lombo de burro até a cidade de São Paulo, então com 22 000 habitantes mas já "um local de grande importância para o comércio interno do país".

Segunda viagem ao redor do mundoEditar

Em 1851 ela foi para a Inglaterra e para a África do Sul, com a intenção de penetrar no interior. Isso se revelou impraticável, mas ela foi para o arquipélago Malaio, passando dezoito meses nas Ilhas da Sonda, onde visitou os Dyaks de Bornéu e foi uma das primeiras pessoas a relatar o comportamento dos Bataks em Sumatra e dos habitantes das Ilhas Molucas. Depois de uma visita à Austrália, Madame Pfeiffer passou para a Califórnia, Oregon, Peru, Equador, Nova Granada e voltou para o norte até os Grandes Lagos, chegando em casa em 1854. Sua narrativa, Meine zweite Weltreise ("Minha segunda viagem ao redor do mundo"), foi publicada em Viena em 1856. A tradução inglesa, Second Journey round the World, foi publicada em Londres em 1857.

Chegada de New York, depois de uma curta estadia em Londres, partiu a 20 de novembro de 1854 numa embarcação de transporte de laranja (a escuna Royal Blue Jacket, de Bristol) com destino a Ponta Delgada, nos Açores, onde ao tempo vivia o seu filho Oscar Pfeiffer, um reputado pianista e compositor.[6][7] Chegou aos Açores a 31 de dezembro, após 20 dias de viagem, desembarcando em Ponta Delgada a 2 de janeiro de 1855. Permaneceu na ilha de São Miguel até 21 de maio daquele ano de 1855, tendo visitado o vale das Furnas e outros locais de interesse. Viajou para Viena via Lisboa e Londres. O relato desta viagem, que contém uma interessante descrição da vida social, vestuário e costumes da ilha, constitui o capítulo final da sua obra Meine zweite Weltreise.[8]

Referências

  1. PFEIFFER, Ida Laura (1861). The Last Travels of Ida Pfeiffer (em inglês). Nova Iorque: Harper & Brothers 
  2. WATT, Helga Schutte (1991). The German Quarterly : Ida Pfeiffer: A Nineteenth-Century Woman Travel Writer (em inglês). Nova Iorque: Wiley-Blackwell 
  3. Esta e as citações seguintes são de Ida Pfeiffer, Eine Frauenfahrt um die Welt.
  4. Bispo, A.A.(Ed.). “Ida Pfeiffer (1797-1858) no Brasil e no Madagáscar sob o signo dos problemas da Imigração/Colonização e do Colonialismo.Costumes, dança e música como indicadores de processos transculturais”. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 154/11 (2015:02).http://revista.brasil-europa.eu/154/Ida_Pfeiffer_Brasil_Madagascar.html.
  5. Citações extraídas de Ida Pfeiffer, Eine Frauenfahrt um die Welt. Mais detalhes sobre as impressões de Ida acerca do Rio de Janeiro podem ser obtidos no artigo da Revista Brasil-Europa citado na nota anterior.
  6. Music in Gotham: Oscar Pfeiffer.
  7. Susana Serpa Silva, «Aspectos da vida social e cultural micaelense na segunda metade do século XIX» in Arquipélago - História, 2ª série, vol. IV, n.º 2 (2000), p. 340.
  8. Meine Zweite Weltreise, volume 4, pp. 171-191. Carl Gerold's Sohn, Wien, 1856.

Ligações externasEditar

 
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