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Imperador e Galileu
Imperador e Galileu.[1][2][3]
'Kejser og Galilæer'
Autor(es) Henrik Ibsen
Idioma norueguês
País  Noruega
Gênero teatro
Linha temporal anos 300 A.D.
Localização espacial Roma
Editora Copenhague: Gyldendalske Boghandel (F. Hegel)
Lançamento 16 de outubro de 1873
Cronologia
A União dos Jovens
Os Pilares da Sociedade

Imperador e Galileu (Kejser og Galilæer) é uma peça teatral do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, publicada em 1873.[4] A peça marca o fim da fase romântica e histórica de Ibsen; a peça subsequente, Os Pilares da Sociedade, marca o início da sua fase realista.

Índice

EnredoEditar

Parte 1 - A apostasia de CésarEditar

Ato 1

 
Juliano, o Apóstata presidindo uma conferência, por Edward Armitage, no Walker Art Gallery

O primeiro ato acontece na Constantinopla cristã, governada pelo Imperador Constâncio II. Os habitantes da cidade estão divididos quanto ao que é o cristianismo correto, enquanto a corte do imperador é corrupta.

Juliano, um primo do imperador Constâncio II, vive na corte da Constantinopla cristã, cercado por constante vigilância, e tem uma alma pesquisadora, que quer respostas para as questões centrais da vida. Ele é visitado por seu amigo de infância Agathon, que é um cristão honesto. Juliano, por sua vez, ama a Grécia Antiga e se pergunta por que o cristianismo tem destruído a beleza do pensamento grego. Ele segue Libânio, seu professor em Atenas. Agathon, por outro lado, fala a Juliano sobre uma visão que teve - ele acredita que se referia a Juliano e esse concorda, na medida em que mostrou Deus designando-o para "romper com os leões".

O mentor de Juliano, um professor de teologia chamado Ekivoly, teme o impacto que o sofista Libânio possa ter sobre Juliano e assim distribui poemas pela cidade, hostis a Juliano e atribuídos a Libânio. Juliano descobre a verdade sobre os poemas, que são de Agathon, filho de um vinicultor da Capadócia.

Constâncio anuncia a sua vontade - seu herdeiro será seu primo Gallus, meio-irmão de Juliano - e o banimento de Libânio para Atenas. Juliano, em seguida, pede permissão para estudar em Pérgamo, concedida por Constâncio, embora pareça ser um desejo estranho. No entanto, sem o conhecimento de Constâncio, Juliano vai para Atenas.

Ato 2 O segundo ato se passa em Atenas, onde Juliano fala com Libânio e com os padres Basílio de Cesareia e Gregório de Nazianzo, que exercem cada vez menos influência sobre ele. Os três são membros do círculo intelectual que se reúne em torno de Juliano, e ele se torna popular na Academia Grega, participando de discussões e debates. Juliano torna-se, porém, desencantado com o seu professor, e não encontra o que ele estava realmente procurando - a verdade. Ele ouve rumores de um místico chamado Máximo, e decide deixar Atenas para encontrá-lo.

Ato 3 Este ato ocorre em Éfeso, onde o místico Máximo criou um meio misterioso para Juliano se comunicar com o outro mundo e, assim, descobrir o significado de sua vida. Aqui Juliano encontra pela primeira vez uma voz na luz, dizendo-lhe que ele deve "estabelecer o reino da liberdade". A voz também afirma que "liberdade e necessidade são uma coisa só" e que Juliano deverá fazer "o que for preciso", e fala de um "terceiro reino" que está por vir. Juliano tem uma visão dos dois grandes negadores, Caim e Judas Iscariotes. Imediatamente chega a notícia de que o herdeiro ao trono imperial, Gallus, está morto e que Juliano foi nomeado César do Império Romano. Juliano leva isso como um sinal de que ele irá estabelecer o reino referido na visão.

Ato 4 Este ato ocorre em Lutetia, onde Juliano fez-se impopular com o imperador por causa de um equívoco causado por um chefe tribal local, que veio a pagar-lhe tributo como "César". Gallus é suspeito de tentar assassinar o imperador, e assim Juliano chega ao poder. Ele se casa com Helena, irmã de Constâncio e filha de Constantino, mas não usufrui de sua vida familiar por muito tempo — os assassinos de Constâncio envenenam Helena em uma conspiração, e em seus delirantes momentos finais, ela revela a Juliano ter amado seu irmão morto, e que havia traído Constâncio. Os soldados convencem Juliano a ir para Constantinopla e tomar o poder.

Ato 5 O ato acontece em Viena, onde Juliano está à espera de notícias das intrigas em torno do leito do imperador enfermo e novidades a partir do místico Máximo. O ato é uma longa luta, que termina com Juliano, finalmente, fazendo uma completa rejeição do cristianismo em favor do neo-platonismo puro. Termina com ele fazendo uma oferenda para Helio, enquanto é proclamado imperador do Império Romano.

Parte 2 - O imperador JulianoEditar

Depois de se tornar imperador, Juliano revela o seu compromisso com o paganismo. Ele não só restaura os templos pagãos, mas também restringe os direitos dos cristãos e abertamente os persegue enquanto eles se rebelam.

HistóricoEditar

A peça foi concebida por Ibsen em 1864, e durante os quatro anos que passou em Roma, de 1864 a 1868, ele recolheu material histórico. Mudou-se da Itália para a Dresden, Alemanha, em 1868, até começar a escrever a peça em 1871, sendo finalmente concluída e publicada em 1873. Foi planejada e escrita, portanto, durante nove anos.[5]

Inicialmente, Ibsen planejara a peça em três partes, sendo a primeira intitulada "Juliano e seus amigos em sabedoria". Essa parte foi concluída até o final de 1871. A segunda parte, intitulada "A apostasia de Juliano", terminou em 1872, e começou a terceira parte, "Juliano no trono imperial", mas decidiu combinar as duas primeiras partes, que finalmente se tornaram a primeira parte da obra, "A Apostasia de César", em cinco atos. A terceira parte, que se tornou parte II, "O imperador Juliano", também foi escrita em cinco atos, no período entre 21 de novembro de 1872 e 13 de fevereiro de 1873.[6]

Ibsen a considerava como sua principal obra, mas, embora o próprio Ibsen sempre tenha olhado essa peça como a pedra angular de sua obra inteira, muito poucos partilharam a sua opinião, e suas obras seguinte seriam muito mais aclamadas. Atualmente passou a ser, porém, melhor considerada pelos críticos.[7]

Estreia teatralEditar

 
Nationaltheatret, em Oslo, onde a peça "O Imperador e Galileu" estreou na Noruega, em 1903. Ladeando o teatro, as estátuas de Henrik Ibsen e Bjørnstjerne Bjørnson.

Como no caso de Brand e Peer Gynt, "Imperador e Galileu" parece não ter sido escrito para o palco, pois um drama com dez atos ambientados no Império Romano do século IV era difícil de ser realizado e de agradar tanto os diretores de teatro como as audiências. Várias adaptações da peça, porém, encontraram seu caminho para o palco.

A peça estreou no "Stadttheater", em Leipzig, a 5 de dezembro de 1896. A adaptação consistiu em seis atos e foi um trabalho de Leopold Adler. O desempenho durou quatro horas, e foi dito que causou uma impressão muito forte - embora os críticos encontraram um grande número de pontos fracos.

A primeira apresentação na Noruega foi no Nationaltheatret, em Oslo, a 30 de março de 1903.[8] Desta vez, apenas a primeira parte, "A Apostasia de César", foi encenada.[9]

PublicaçãoEditar

"Imperador e Galileu" apareceu nas livrarias em 16 de outubro de 1873, pela Gyldendalske Boghandel (F. Hegel), em Copenhague. A primeira edição consistia de 4000 exemplares e foi rapidamente vendida, e em 16 de dezembro do mesmo ano, foi feita uma reedição de 2000 exemplares.

TraduçõesEditar

Tradução para a língua inglesaEditar

Em inglês, a tradução foi feita por Michael Meyer na década de 1960, e revista em 1980, mas não foi realizada no palco, apesar de ter sido transmitida na BBC Radio 3 em 30 de março de 1990, com Robert Glenister interpretando Juliano.[10]

A primeira apresentação em inglês foi de uma nova versão criada por Ben Power, no National Theatre, em Londres, a 9 de junho de 2011: Juliano foi interpretado por Andrew Scott, e Ian McDiarmid interpretou Maximus.[11][12]

Tradução em língua portuguesaEditar

2008: Fernando Paz. Conforme o diretor Sérgio Ferrara, que produziu a peça "Imperador e Galileu" em 2008, esta é a primeira tradução deste texto no Brasil, feita por Fernando Paz.[13] O texto, que é inédito no Brasil, nunca havia sido encenado ou mesmo traduzido no país.[14]

CaracterísticasEditar

 
Henrik Ibsen, autor de "Imperador e Galileu"

Em extensão, "Imperador e Galileu" é a maior peça de Ibsen, dividindo-se em duas partes, cada uma com cinco atos. A peça é tão longa que, quando foi levada para ser representada na Alemanha, teve de ser bipartida, sendo representada em duas noites.[15]

O enredo dramatiza a vida e os tempos do imperador romano Juliano, o Apóstata, que viveu entre os anos 331 e 363, cujo desejo era trazer o império de volta aos antigos valores romanos.

Última peça que pertence ao período histórico e romântico de Ibsen, que a chamou de "drama mundial em duas partes", dirigindo-se à ordem mundial, ao estado de fé, e ao que constitui um governo ideal, entrelaçando estas três questões umas com as outras, com a personalidade de Juliano e com uma reconstrução artística da época histórica. Origina-se a ideia de um "Terceiro Império", posta na boca do filósofo Máximo, como um ideal moral e político formado por uma espécie de síntese entre o reino da carne no paganismo, e o reino da espírito do cristianismo. O autor escreve que o futuro tinha de ser marcada por tal síntese, visualizando-o como uma comunidade de desenvolvimento harmonioso e de nobre liberdade, produzindo uma sociedade na qual nenhuma pessoa pode oprimir outra e que esse futuro tinha de ser atingido por uma revolução no espírito e um renascimento interno. No entanto, a vida real que ele apresenta na peça sugere que essas idéias são apenas sonhos idealistas, e que o choque do paganismo e do cristianismo cria apenas sofrimento. Há especulações sobre o fato de esta peça ter sido inspiração para Hitler e o "Terceiro Reich".[16]

Considerações críticasEditar

Para Carpeaux,[7] a peça apresenta a luta entre paganismo e cristianismo, e Ibsen empresta sua voz ao mago Maximus, que fala de “uma esperança vaga, de um reino além das forças em luta, de um terceiro reino, em que o sonho pagão-cristão de Goethe, do segundo Fausto, seria realizado”.

Carpeaux observa, também, que a peça é apoiada nos estudos históricos anti-cristãos de David Friedrich Strauss e Bruno Bauer, e nela Ibsen continua “a luta dos românticos franceses e dos radicais alemães contra o passadismo, o culto do passado”.[17]

Ruggero Jacobbi, em seu comentário “Introdução a Ibsen”,[18] considera que “Imperador e Galileu” é “sua obra pior, porém mais interessante do ponto de vista ideológico”.

Imperador e Galileu no BrasilEditar

2008Editar

Em São Paulo, a peça foi apresentada no Teatro imprensa e no SESC Santana, protagonizada por Caco Ciocler, Sylvio Zilber, Abrahão Farc, Nelson Peres, Julio Machado, Joaz Campos, Ronaldo Oliva, Igor Kovalewski, Liza Scavone e Dan Rosseto, com direção de Sérgio Ferrara.[19][20] Em Porto Alegre, foi encenado no teatro do CIEEE.[21]

Referências

  1. Oliveira, Vidal de. «In: IBSEN, Henrik. O Pato Selvagem». Biografia e comentários sobre a obra de Ibsen. [S.l.]: Editora Globo 
  2. Oscar Guanabarino, em seu comentário "Sant’Anna — Casa de Boneca", escrito para o jornal "O Paiz", no Rio de Janeiro, em 30 de maio de 1899 (Artes e Artistas, p. 2), defende o nome de "Rei da Galileia" para a peça. In: SILVA, p. 159
  3. O jornal "Correio Paulistano", de 20 de março de 1928, p. 7, por ocasião do comentário anônimo "O Primeiro Centenário de Ibsen: A Obra e a Vida do Genial Escandinavo", defende para a peça o título "Imperador de Galileia". In: SILVA, p. 234
  4. Vida e Obra - Henrik Ibsen. In: IBSEN, Henrik. Casa de Bonecas. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2003. Encarte. ISBN 85-13-01165-7.
  5. Ibsen.net: Processo criativo de "Imperador e Galileu"
  6. Ibsen.net: Processo criativo de “Imperador e Galileu”
  7. a b Carpeaux, Otto Maria. Estudo Crítico Henrik Ibsen. [S.l.]: Editora Globo. 51 páginas 
  8. MAKE IT NEW: Why "Emperor and Galilean Still Matters
  9. Ibsen.net: Processo criativo de “Imperador e Galileu”
  10. Ibsen, Henrik. Traduzido por Michael Meyer (1986), Imperador e Galileu. London: Methuen, ISBN 0 413 60490 X
  11. Entrevista com Andrew Scott
  12. Entrevista com Ben Power
  13. Correio do Povo
  14. Folha UOL
  15. VÍTOR, Nestor. H. Ibsen. Cometário publicado no jornal Estado de São Paulo, em 29 de março de 1928, p. 6. In: SILVA, p. 242
  16. Ibsen and Hitler: The Playwright, the Plagiarist, and the Plot for the Third Reich
  17. CARPEAUX, Otto Maria. Defesa de Ibsen. Rio de Janeiro: Correio da Manhã, 1942. In: SILVA, p. 266
  18. A Expressão Dramática. São Paulo: MEC, Instituto Nacional do Livro, 1956. pp. 42-58. In; SILVA, p. 290
  19. Entretenimento UOL[ligação inativa]
  20. «Portal SESC». Consultado em 30 de outubro de 2011. Arquivado do original em 4 de março de 2009 
  21. Correio do Povo

BibliografiaEditar

  • CARPEAUX, Otto Maria (1984). Estudo Crítico - Henrik Ibsen. Rio de Janeiro: Editora Globo. [S.l.: s.n.] ISBN [[Special:BookSources/n.c. In IBSEN. Henrik. O Pato Selvagem|n.c. In IBSEN. Henrik. [[O Pato Selvagem]]]] Verifique |isbn= (ajuda) 
  • OLIVEIRA, Vidal de (1984). Biografia e comentários sobre a obra de Ibsen. Rio de Janeiro: Editora Globo. [S.l.: s.n.] ISBN [[Special:BookSources/n.c. In IBSEN. Henrik. O Pato Selvagem|n.c. In IBSEN. Henrik. [[O Pato Selvagem]]]] Verifique |isbn= (ajuda) 
  • SILVA, Jane Pessoa da (2007). Ibsen no Brasil. Historiografia, Seleção de textos Críticos e Catálogo Bibliográfico. São Paulo: USP. [S.l.: s.n.] ISBN Tese Verifique |isbn= (ajuda) 
  • SILVA, Jane Pessoa da (2003). Casa de Bonecas. São Paulo: Nova Cultural. [S.l.: s.n.] ISBN 85-13-01165-7. Encarte: Vida e Obra Henrik Ibsen Verifique |isbn= (ajuda) 
  • Moi, Toril (2006) Birth of Modernism (Oxford University Press) ISBN 978-0-19-929587-6
  • Ferguson, Robert (1996) Henrik Ibsen: A New Biography (Richard Cohen Books) ISBN 978-1860660788
  • McFarlane, James (1994) The Cambridge Companion to Ibsen (Cambridge University Press) ISBN 978-0521423212

Ligações externasEditar