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Incidente das capas postais da Apollo 15

Uma "capa Sieger", levada para a Lua e assinada por Scott, Worden e Irwin após a missão.

O incidente das capas postais da Apollo 15 foi um escândalo da NASA em 1972 envolvendo os astronautas da Apollo 15, que levaram aproximadamente quatrocentas capas postais não autorizadas para o espaço e até a superfície da Lua a bordo do módulo lunar Falcon. Alguns dos envelopes foram vendidos pelo comerciante de selos alemão Hermann Sieger por preços altos, ficando conhecidos como "capas Sieger". Os astronautas David Scott, Alfred Worden e James Irwin concordaram em aceitar pagamentos para levarem as capas, porém devolveram o dinheiro e foram repreendidos pela NASA. A imprensa realizou uma grande cobertura do incidente e a tripulação foi convocada para depor diante de um comitê do Senado. Os três nunca mais voltaram para o espaço e deixaram a NASA até 1977; as capas apreendidas foram devolvidas em 1983.

Os três astronautas mais seu conhecido Horst Eiermann concordaram em fazerem as capas e levá-las para o espaço. Cada um dos membros da tripulação receberia por volta de sete mil dólares. Scott conseguiu fazer com que as capas fossem carimbadas na manhã do lançamento da Apollo 15 em 21 de julho de 1971. Elas foram embaladas e entregues a ele enquanto se preparava. As capas não foram incluídas na lista de itens pessoais que estariam carregando por causa de um erro. Todos os envelopes ficaram desde 30 de julho até 2 de agosto a bordo do Falcon na superfície lunar. Elas foram carimbadas novamente em 7 de agosto, o dia da amerrissagem, a bordo do navio de resgate USS Okinawa. Cem foram enviadas para Eiermann, que as repassou para Sieger; as restantes foram divididas entre os astronautas.

Worden tinha concordado em carregar 144 capas adicionais, principalmente para seu conhecido F. Herrick Herrick; estas foram aprovadas para serem levadas para o espaço. A Apollo 15 levou aproximadamente 641 capas. A NASA descobriu no final de 1971 que as capas de Herrick estavam sendo vendidas, com Donald Slayton, o supervisor dos astronautas, avisando Worden para evitar maiores comercializações daquilo que tinha sido permitido que fosse levado para o espaço. Slayton removeu os três astronautas da tripulação reserva da Apollo 17 assim que soube do acordo com Sieger, mesmo com Scott, Worden e Irwin já tendo recusado a compensação de Eiermann e Sieger. A questão tornou-se de conhecimento público em junho de 1972. A cobertura da imprensa foi ampla, com alguns afirmando que astronautas não deveriam colher lucros pessoais sobre as missões espaciais. O incidente fez a NASA rever sua regulamentação sobre que tipos de itens pessoais os astronautas podiam levar em missões.

Índice

AntecedentesEditar

Astrofilatelia, coleção de selos relacionada com o espaço, começou logo depois do lançamento do Sputnik 1 em 4 de outubro de 1957 e do início da Corrida Espacial. Países como os Estados Unidos e a União Soviética emitiram selos postais comemorativos mostrando espaçonaves e satélites. A astrofilatelia alcançou seu auge de popularidade durante os anos das alunissagens do Programa Apollo entre 1969 e 1972.[1] Colecionadores e comerciantes começaram a procurar por itens filatélicos relacionados com o programa espacial dos Estados Unidos, frequentemente através de envelopes especialmente desenhados conhecidos como capas. A anulação de capas enviadas pelo público tornou-se uma das principais tarefas dos funcionários da agência dos correios do Centro Espacial John F. Kennedy nos dias de lançamento.[2]

 
Uma capa postal da Apollo 12, datada do dia do lançamento em 14 de novembro de 1969 e assinada pelos três astronautas.

Os astronautas norte-americanos participavam na criação de colecionáveis. Harold G. Collins, chefe do Escritório de Suporte de Missão no Centro Espacial Kennedy, arranjou a partir do final da década de 1960 que envelopes especialmente desenhados fossem criados para as diferentes missões e anulados nas datas de lançamento.[3] Essas capas filatélicas frequentemente eram dadas de presente para amigos dos astronautas ou para funcionários da NASA e seus contratantes.[4] Quinze astronautas do Programa Apollo antes da Apollo 15 tinham chegado a um acordo com um alemão chamado Horst Eiermann para autografarem quinhentos itens filatélicos (cartões postais ou selos) em troca de 2500 dólares, porém isto só foi revelado publicamente em setembro de 1972. Esses incluíam um membro de cada missão desde a Apollo 7 em 1968 até Apollo 13 em 1970. Estes itens não foram levados para o espaço.[5]

Os astronautas tinham permissão para levarem durante a missão Kits de Preferências Pessoais, pequenas sacolas cujos conteúdos eram limitados em tamanho e peso. Elas normalmente eram preenchidas por itens pessoais que os astronautas queriam que voassem como lembranças da missão. O fascínio público por itens que haviam voado para o espaço foi crescendo, assim como seus preços, a medida que as missões do Programa Apollo aproximavam-se de seu objetivo final: um pouso tripulado na Lua.[6]

 
Scott anulando um envelope postal na Lua em 2 de agosto de 1971.

Capas foram preparadas pelas tripulações da Apollo 11, Apollo 13 e Apollo 14 e voaram para o espaço nessas missões. Edgar Mitchell, o Piloto do Módulo Lunar da Apollo 14, levou uma para a superfície lunar dentro de seu Kit de Preferências Pessoais.[7] Essas capas frequentemente ficavam na posse dos astronautas por muitos anos. Por exemplo, Neil Armstrong da Apollo 11 manteve a sua até morrer em 2012, com ela só sendo colocada a venda em 2018,[8] quando vendeu pelo valor de 156 250 dólares.[9]

O lançamento da Apollo 15 ocorreu no Centro Espacial Kennedy em 26 de julho de 1971 e ela terminou quando o módulo de comando Endeavour foi recuperado no Oceano Pacífico em 7 de agosto pelo navio de assalto anfíbio USS Okinawa. Os astronautas foram David Scott, Alfred Worden e James Irwin, respectivamente o Comandante, Piloto do Módulo de Comando e Piloto do Módulo Lunar. Scott e Irwin tinham pousado na Lua em 30 de julho a bordo do módulo lunar Falcon, permanecendo na superfície por pouco menos de 67 horas. A missão estabeleceu vários recordes espaciais e foi a primeira a utilizar o Veículo Explorador Lunar. Os dois astronautas exploraram a área de Hadley–Apennine em três períodos de atividade extraveicular.[10] Scott, em 2 de agosto pouco antes de encerrar sua última caminhada na Lua, usou um dispositivo especial para anular uma capa postal proporcionada pelo Serviço Postal dos Estados Unidos com dois selos novos, cujos desenhos mostravam astronautas e o Veículo Explorador, comemorando o décimo aniversário do programa espacial.[11] Esta capa foi devolvida para o Serviço Postal ao final da missão,[12] estando hoje em exibição no Museu Nacional dos Correiros em Washington, D.C..[11]

PreparaçãoEditar

Eiermann conhecia um comerciante de selos chamado Hermann Sieger da cidade de Lorch, Alemanha Ocidental.[13] Os dois tinham se conhecido por acaso enquanto viajavam de ônibus para assistirem o lançamento da Apollo 12 em novembro de 1969. Eiermann reconheceu o sotaque suábio de Sieger e percebeu que os dois vinham da mesma parte da Alemanha, convidando-o para sua casa. Sieger teve a ideia das capas lunares ao descobrir que os astronautas da Apollo 12 tinham levado consigo uma Bíblia. Eiermann contou que conhecia muitos dos astronautas do Programa Apollo, com Sieger propondo que uma das tripulações poderia ser persuadida a levar as capas postais para a Lua. Eiermann não achava que os astronautas aceitariam o dinheiro para fazerem isso, porém concordou em perguntar a respeito depois de Sieger ter caracterizado os pagamentos como investimentos para os filhos dos astronautas. Eiermann não mencionou o nome de Sieger ao abordar o assunto com seus conhecidos da NASA.[14][15]

 
Scott, Worden e Irwin, a tripulação principal da Apollo 15 em 28 de junho de 1971.

Eiermann vivia na época em Cocoa Beach, Flórida, e era um representante da Dyna-Therm Corporation,[16] uma contratante da NASA.[17] Segundo Scott, Donald Slayton, o supervisor dos astronautas e Diretor de Operações de Tripulações de Voo, convidou a tripulação da Apollo 15 para jantar na casa de Eiermann alguns meses antes do lançamento; Scott descreveu Eiermann como um amigo de longa data de Slayton.[18] Worden também afirmou que os astronautas foram convidados para jantar lá, porém disse que foi Scott quem convidou seus colegas de missão, não mencionando envolvimento de Slayton.[19] Scott descreveu Eiermann em 1972 durante um testemunho diante de um comitê do Congresso dos Estados Unidos como um "amigo nosso", alguém com quem havia jantado e que conhecia muitas pessoas no Centro Espacial Kennedy, incluindo vários astronautas.[20] Scott também disse ao comitê que tinha conhecido Eiermann em uma festa, em vez de através de outro astronauta.[21]

Foi proposto durante o jantar por Eiermann que os astronautas levassem até a Lua cem capas postais especiais. Worden afirmou anos depois que foi garantido a ele e Irwin, que nunca tinham voado para o espaço anteriormente, que essa era uma prática comum dentro do programa espacial. Worden comentou que foi dito aos astronautas que as capas não seriam vendidas até algum tempo no futuro depois do Programa Apollo ter se encerrado. Eles receberiam sete mil dólares cada. Os três foram informados que outras tripulações da Apollo tinham já tinham fechado e lucrado a partir de acordos desse tipo. Astronautas de missões anteriores tinham recebido seguros de vida da revista Life, porém este benefício já não estava mais disponível na época da Apollo 15. Worden também falou que os astronautas aceitaram o acordo com o objetivo de garantir que suas famílias fossem sustentadas, dados os grandes riscos e perigos relacionados com suas profissões, com os três planejando guardar o pagamento para seus filhos.[22][23] Na época, o salário mensal de astronauta de Scott era de 2 199 dólares, o de Worden era 1 715 dólares e de Irwin era 2 235 dólares.[24]

Segundo Scott, os astronautas decidiram que as capas seriam bons presentes e pediram por adicionais, com o número total chegando em por volta de quatrocentas. Ele indicou em seu testemunho que, após conversar com seus colegas de tripulação, os três esperavam que as capas fossem uma "aventura bem particular e não-comercial". Também falou que "Eu admito que isto está errado. Eu compreendo claramente agora. Porém na época, por algum motivo ingênuo e impensável, eu não compreendi sua significância".[25] Irwin escreveu alguns anos depois que o primeiro encontro com Eiermann ocorreu em maio de 1971 e que os astronautas se encontraram com ele mais duas vezes depois disso.[26] Eiermann repassou as instruções de Sieger sobre como preparar as capas: elas deveriam ser carimbadas duas vezes, uma no Centro Espacial Kennedy no dia do lançamento e a outra no navio de resgate depois da amerrissagem com esta data, além de ter uma declaração assinada pelos astronautas e certificada por um tabelião.[14] A certificação permitiria que as capas fossem vendidas na Europa, onde tabelião é uma profissão jurídica que certifica documentos, não apenas assinaturas.[27]

Outras 144 capas foram levadas a bordo depois de um acordo firmado entre Worden e F. Herrick Herrick, um ex-diretor de cinema e colecionador de selos de Miami.[28] Segundo James C. Fletcher, o Administrador da NASA na época, Herrick era amigo dos três astronautas e tinha pedido a Worden, também um colecionador, que comprasse um álbum cheio de selos, propondo que a tripulação levasse capas para o espaço. Estas então seriam divididas e guardadas por alguns anos, depois vendidas.[29] Worden afirmou décadas depois que conheceu Herrick em um almoço cerimoniado pelo piloto de corrida Jim Rathmann e que foi o ex-diretor quem propôs a ideia das capas. Worden salientou sua insistência de que as capas fossem guardadas até depois do Programa Apollo terminar e que ele se aposentasse da NASA e da Força Aérea dos Estados Unidos: "Eu não queria fazer nada que me envergonharia ou a NASA, e eu acreditei que Herrick manteria sua palavra. Foi um grande lapso de julgamento da minha parte confiar em um estranho. Eu era muito velho para acreditar em Papai Noel".[30] Ele descreveu Herrick em seu testemunho diante do Congresso como um amigo com quem tinha lidado no passado e com quem ele discutiu a possibilidade de capas comemorativas.[31] Segundo um relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos de 1978, Herrick tinha aconselhado Worden antes do voo da Apollo 15 que levar as capas para a Lua seria um investimento prudente porque elas tornariam-se valiosas para colecionadores.[32]

Uma controvérsia entre a NASA e o Congresso surgiu durante o treinamento da Apollo 15 e envolvia medalhões de prata que a Apollo 14 tinha levado para a Lua. A privada Casa da Moeda Franklin, que tinha criado os medalhões em questão, derreteu alguns depois deles voltarem para a Terra. Estes então foram misturados com grandes quantidades de outros metais e novos medalhões foram cunhados a partir dessa massa, sendo usados com o objetivo de atrair pessoas para entrarem no Clube de Colecionadores da Casa da Moeda Franklin. O fato de que algumas partes dos itens tinham voado para a Lua foi usado nas propagandas.[33][34] A tripulação da Apollo 14 não foi disciplinada pois não tinham aceitado dinheiro para levarem os medalhões.[35] Slayton reduziu pela metade o número de medalhões que cada membro da Apollo 15 poderia levar.[33] Ele avisou os astronautas contra levarem para o espaço itens que poderiam render dinheiro para eles ou para outros.[35] Slayton tinha emitido em agosto de 1965 regulamentações que exigiam que os itens que todos os astronautas planejavam levar fossem listados, aprovados por ele e checados para segurança no espaço caso itens similares nunca antes tivessem voado.[36] Cada tripulante estava proibido, por padrões de conduta da NASA emitidos em 1967, de usar sua posição a fim de ganhar dinheiro para si ou para outros.[37]

Criação e vooEditar

 
O emblema da Apollo 15.

Eiermann deveria criar o desenho para as capas especiais que tinha proposto, porém ficou sem tempo e Scott acabou desenhando. Ele usou o emblema da Apollo 15 e o entregou para Collins no Escritório de Suporte de Missão. Este arranjou para que a Brevard Printing Company de Cocoa reproduzisse o desenho em envelopes regulares e leves. A empresa realizou o trabalho e cobrou a Alvin B. Bishop Jr. os valores de 156 dólares pelos envelopes leves e 209 pelos normais.[38] Bishop era um executivo de relações públicas especializado na indústria aeroespacial e conhecia muitos astronautas, criando capas especialmente desenhadas para várias missões Apollo, que ele entregava apenas para a tripulação e suas famílias.[22] Na época ele trabalhava na Hughes Enterprises em Las Vegas; a empresa pagou a conta.[39]

Herrick garantiu os serviços do artista comercial Vance Johnson,[40] com quem Worden discutiu o desenho, resultando em cem envelopes que mostravam as fases lunares. O astronauta listou essas capas como parte dos conteúdos de seu Kit de Preferências Pessoais para aprovação de Slayton, junto com outras 44 capas de primeiro dia que possuía.[30][41] A Ad-Pro Graphics, Inc. de Miami imprimiu as capas de Herrick junto com cartões dizendo que os envelopes foram carregados pela Apollo 15. Herrick pagou cinquenta dólares e também conseguiu selos postais para as capas e carimbos com as datas de lançamento e amerrissagem.[42] Os desenhos foram impressos em rótulos que foram colados nos envelopes.[43] Nem todas as capas de Herrick são idênticas, já que foram usadas combinações diferentes de desenhos, carimbos e selos.[44] Worden também levou consigo uma capa carimbada em 1928 e autografada por Orville Wright.[45]

Além das capas levadas por Scott e Worden, Irwin também levou consigo outras 96 capas: uma com a temática "voada para a Lua", oito com o desenho da Apollo 15 e 87 homenageando a Apollo 12, levadas como um favor para Barbara Gordon, esposa do astronauta Richard Gordon da Apollo 12.[46][47] Barbara era uma colecionadora de selos e tinha pedido para seu marido levar capas durante sua missão, porém ele recusou.[48] A capa "voada para a Lua" era um favor para um amigo dos Gordon.[43] A Apollo 15 também transportou uma capa autorizada do Serviço Postal para ser anulada na superfície da Lua. Uma reserva também foi enviada e guardada no módulo de comando e serviço com outro dispositivo de anulamento, para ser usado na jornada de volta caso Scott não conseguisse carimbar a capa lunar.[49]

 
Slayton (de azul) observa Scott enquanto este descansa antes do lançamento da Apollo 15 em 26 de julho de 1971.

Todas as capas com a exceção do grupo de quatrocentas foram aprovadas por Slayton,[50] que afirmou em seu testemunho que quase certamente também as teria aprovado caso tivesse sido pedido, contanto que seu peso fosse negociado com o Gerente de Voo e sob a condição de que elas permanecessem no módulo de comando e serviço e não fossem para a superfície lunar.[51] Depois da história ter sido revelada, William Hines do Chicago Sun-Times chegou a escrever que "a ideia de que essa complicada alcaparra poderia ser realizada sem o conhecimento e pelo menos a tácita permissão de Slayton é considerada absurda por pessoas familiares com a NASA. É lendária a rédea curta de Slayton sobre seus por vezes rebeldes incumbentes".[52]

A tripulação comprou centenas de selos de dez centavos da série "Primeiro Homem na Lua".[4] Estes foram fixados nos envelopes leves por secretárias do Escritório dos Astronautas.[53] Collins tinha arranjado para o correio do Centro Espacial Kennedy abrir às 1h00min EDT no dia do lançamento – não era incomum para esse correio abrir tão cedo na manhã de um lançamento da Apollo – e trouxe consigo centenas das capas já com os selos. Os envelopes passaram pela máquina de anulamento e então foram levados para o alojamento dos astronautas, onde membros da Equipe de Suporte da Tripulação de Voo os selaram hermeticamente em embalagens de fibra de vidro coberta de teflon a fim de deixá-los a prova de fogo para o espaço. Normalmente, se a Equipe de Suporte da Tripulação de Voo descobrisse um item que não estava na lista do Kit de Preferências Pessoais dos astronautas, eles o colocariam dentro e então procurariam que fosse aprovado. Entretanto, James L. Smotherman, o líder da equipe, afirmou que cometeu um erro, explicando que tinha confundido as quatrocentas capas com os envelopes Herrick, que tinham sido aprovados por Slayton.[54][55][56] Como as quatrocentas capas não foram aprovadas por Slayton, elas foram consideradas não autorizadas.[43] Scott afirmou que "Eu nunca tive a intenção de contrabandear as capas. Se eu tivesse a intenção de contrabandear as capas, eu certamente não teria permitido que o Sr. Collins lidasse com elas e que o resto das pessoas me ajudassem".[57] As capas foram colocadas nos bolsos do traje espacial de Scott, assim como outros itens como seus óculos de sol, e mostrada a ele antes disso pelos técnicos que o estavam ajudando a vestir-se.[58] Elas foram divididas em dois pacotes e juntas tinham cinco centímetros de espessura e pesavam 850 gramas; elas entraram na espaçonave dentro do bolso de Scott.[59] A Apollo 15 decolou às 9h34min de 26 de julho de 1971, tendo a bordo os três astronautas e 641 capas.[60][61]

[Scott:] O que é isso, Jim?
[Irwin:] Não!
[Worden:] Bom. Muito bom.
[Scott:] Certo?
[Worden:] Sim. Você precisa– sim. Nós já assinamos essas, não assinamos? Não assinamos estas? Não faz muito diferença, não é?
[Scott:] Não.
[Worden:] Eu acho que não precisamos assiná-las agora. Podemos fazer isso a qualquer hora.
[Worden (continuação):] Sim, essas– essas capas teriam sido infinitamente mais valiosas, eu acho.
[Scott:] Oh, bem.
[Worden:] Talvez, Dave, talvez nós não tenhamos.
[Irwin:] Certo.

Transcrição de conversa a bordo do módulo de comando Endeavour, em órbita no lado oculto da Lua, 3 de agosto de 1971. Tempo da missão: 196h22min11s a 196h23min21s.[62]

As quatrocentas capas foram transferidas para o módulo lunar Falcon em algum momento na viagem para a Lua; Scott reconheceu durante seu testemunho que isso era contra as regras. Ele afirmou que não se lembrava como a transferência ocorreu e que tinha certeza de que elas foram para a superfície da Lua pois estavam na sacola de itens tirados do Falcon em preparação para o retorno para a Terra. Worden falou em seu testemunho que eles estavam cientes da presença dos envelopes no módulo de comando e serviço Endeavour depois do lançamento, porém não se lembrava se elas estavam entre os itens levados para o módulo lunar em preparação para a alunissagem; ele também acreditava que a questão não fora discutida durante o voo.[63] Worden escreveu anos depois que a noite em que firmaram o acordo com Eiermann "fora a última vez que eu ouvi ou pensei sobre as capas até depois do voo... Quais quer que tenham sido os arranjos que Dave, Eiermann e Sieger fizeram para colocarem as capas no voo, eu só fui saber depois. Dave depois contou a um comitê congressional que tinha colocado-as no bolso de seu traje espacial, porém ele nunca compartilhou isso comigo".[64] Ele indicou que as capas que tinha levado a bordo, incluindo as de Herrick, permaneceram dentro de seu Kit de Preferências Pessoais no Endeavour durante toda a missão.[65] Vários indivíduos, incluindo os astronautas, indicaram no testemunho diante do Congresso que a presença das capas não afetou de forma alguma o andamento da missão.[66]

A Apollo 15 amerrissou aproximadamente 540 quilômetros de Honolulu, Havaí, às 4h46min EDT de 7 de agosto; a tripulação foi resgatada por helicópteros do USS Okinawa.[10] Scott tinha pedido para que um suprimento de selos espaciais do desenho que tinha anulado na Lua fosse disponibilizado no Okinawa; Forrest J. Rhodes, que comandava os correiros do Centro Espacial Kennedy, escreveu em 14 de julho para o suboficial encarregado da agência dos correiros do navio. A embarcação respondeu no dia 20 dizendo que os selos podiam ser obtidos em tempo.[67] Os selos foram adquiridos dos correiros de Pearl Harbor;[68] quatro mil selos foram enviados de helicóptero para o Okinawa,[54] supostamente na custódia de um oficial que se juntaria à tripulação do navio.[69] Os astronautas não tinham dinheiro consigo, assim as compras foram pagas por altos oficiais da embarcação e depois reembolsados. Os astronautas tiveram ajuda de tripulantes do Okinawa para fixar os selos nas quatrocentas capas para que fossem anuladas pelos correiros do navio.[70] As capas de Irwin não foram carimbadas, nem no lançamento ou amerrissagem.[44] Worden comentou posteriormente que nunca viu as capas que Scott levou até os três estarem em um avião voltando para Houston. Entretanto, como Scott mencionou que as carimbaria com a data da amerrissagem, Worden fez com que o mesmo ocorresse com as suas capas. Os quatrocentos envelopes foram autografados pelos três astronautas durante o voo;[71] as capas de Herrick também foram assinadas no caminho.[72] Irwin afirmou que o processo demorou horas.[73]

DistribuiçãoEditar

C.G. Carsey, uma escrivã do Escritório dos Astronautas, escreveu em 31 de agosto certificações para cem capas com a ajuda de outros funcionários da NASA. As certificações afirmavam que as capas estavam na Lua a bordo do Falcon. As capas já tinham uma afirmação escrita a mão por Scott e Irwin de que elas pousaram na Lua em 30 de julho. Carsey depois falou que, ao assinar as certificações como uma tabeliã do Texas, sua intenção era apenas certificar que as assinaturas eram genuínas.[74] Crawford Martin, o Procurador-Geral do Texas, chegou a investigar se Carsey tinha certificado impropriamente as capas que tinham alunissado, algo que ela não tinha conhecimento pessoal.[75] A certificação de uma tabeliã cumpria a última exigência de Sieger.[14] Scott enviou em 2 de setembro cem envelopes por correio a Eiermann. Ele repassou as capas para Sieger e recebeu uma comissão de quinze mil dólares, dez por cento do lucro esperado.[76] As trezentas capas restantes foram colocadas aos cuidados de um colecionador de selos de Houston, que fez com que uma gráfica local criasse uma inscrição no canto superior esquerdo afirmando que a dada capa esteve na Lua. A gráfica descobriu que haviam 298 capas e não trezentas; o colecionador foi falar com Scott, que disse que não havia problema.[77] Uma das capas de Irwin do grupo de oito, com um desenho de trevo, foi dada a Rhodes, enquanto outra foi entregue para o presidente da Sociedade Filatélica do Centro Espacial Kennedy; o astronauta afirmou que ficou de posse das outras seis.[78]

Sieger pouco depois informou seus vários clientes regulares por correio sobre a disponibilidade das capas, vendendo-as ao preço de 4 850 marcos alemães (1 500 dólares, em valores da época), com um desconto para aqueles que comprassem mais de uma. Ele guardou uma para si mesmo e conseguiu vender as outras 99 até novembro.[79] Sieger as numerou e assinou a parte de trás dos envelopes no canto inferior esquerdo para atestar suas genuinidades.[69]

 
Uma das capas de Herrick.

Worden afirmou décadas depois que enviou a Herrick logo depois de voltar para a Terra as 44 capas que tinha originalmente concordado em levar. Ele também enviou outras sessenta dais quais era dono para que pudessem serem guardadas,[80] entregando 28 para seus amigos.[32] Herrick consignou setenta capas para Robert A. Siegel, um proeminente comerciante de Nova Iorque. Siegel vendeu dez capas por um valor total de 7 900 dólares, recebendo de Herrick uma comissão de 25 por cento. Herrick vendeu por conta própria três por 1 250 cada, colocando várias outras em comissão na Europa.[81]

Um comprador em potencial de uma das capas de Herrick escreveu para a NASA no final de outubro de 1971 perguntando sobre suas autenticidades. Slayton respondeu em 5 de novembro, afirmando que a NASA não podia confirmar se eram genuínas. Ele avisou Worden para que garantisse que seus envelopes não fossem mais comercializados.[82] O astronauta escreveu uma carta furiosa a Herrick.[83] Este instruiu Siegel em junho de 1972 que enviasse as sessenta capas de Worden para Houston, que ele fez por correio. Até esse momento Siegel achava que as sessenta capas pertenciam a Herrick.[82][84]

Os astronautas receberam e completaram toda a papelada necessária para que abrissem contas em um banco de Stuttgart e recebessem os sete mil dólares; isto ocorreu provavelmente antes de uma viagem oficial que fizeram pela NASA em novembro. Segundo o testemunho de Scott, os três souberam enquanto estavam na Europa que as capas de Sieger estavam sendo vendidas comercialmente. Scott ligou para Eiermann, que prometeu averiguar. Os três indicaram que receberam no começo de 1972 cadernetas de poupança.[85] Irwin descreveu alguns anos depois que, antes da viagem para a Europa, Scott foi falar com ele e disse "Jim, estamos com um problema– eles estão começando a vender os envelopes aqui", dizendo que isto poderia manchar a viagem.[86] Scott afirmou que os astronautas conversaram sobre o assunto entre si e decidiram que era impróprio receberem o dinheiro. Eles devolveram as cadernetas para Eiermann no final de fevereiro de 1972, que disse que mesmo assim os três deveriam receber algo por seus esforços.[87] Howard C. Weinberger, em um relato sobre as capas da Apollo 15, considerou que a recusa dos astronautas em receber o dinheiro era "um esforço para salvarem suas carreiras e reputações".[15] Os astronautas inicialmente concordaram em receber álbuns cheios de selos com a temática aeroespacial para seus filhos, incluindo edições comemorativas da Apollo 15. Scott relatou que também acharam isso inapropriado e afirmaram que não queriam nada. Esta última recusa ocorreu em abril de 1972.[27] Worden depois afirmou: "fizemos isso antes da NASA nos perguntar qualquer coisa sobre o negócio com Sieger – antes da mesmo da NASA saber a respeito".[88]

EscândaloEditar

 
Uma das capas apreendidas pela NASA e devolvidas para os astronautas em 1983.

Discussões sobre os envelopes em publicações filatélicas europeias alertaram colecionadores nos Estados Unidos.[89] Lester Winick, presidente de um grupo astrofilatélico, enviou em 11 de março de 1972 uma carta para o conselheiro legal da NASA fazendo várias perguntas sobre as capas de Sieger. A carta foi repassada para Slayton, que casualmente mencionou o assunto a Irwin no mesmo mês; o astronauta lhe disse para falar com Scott.[90] Slayton então falou com Worden achando que as capas se referiam a aquelas do grupo de 144, porém Worden disse que isso não era necessariamente o caso e que ele deveria conversar com Scott. Slayton foi falar com Scott em meados de abril, pouco antes do lançamento da Apollo 16. O astronauta lhe disse que existiam quatrocentas capas que não estavam na lista de itens aprovados e que cem tinham sido entregues a um amigo.[91] Slayton escreveu décadas depois que tinha confrontado Scott e Worden sobre o que chamou de um "maldito escândalo regular"; "eles me contaram qual era o acordo e eu fiquei muito zangado. Eu estava farto de Scott, Worden e Irwin. Depois que a [Apollo] 16 amerrissou, eu os chutei para fora da tripulação reserva da [Apollo] 17".[92] Um dos motivos pela raiva era que ele tinha defendido os astronautas enquanto os rumores sobre os preços das capas começaram a circular; segundo o historiador Andrew Chaikin, Slayton "se esforçou para defender seu pessoal".[93] Ele respondeu a Winick, dizendo que a nave espacial tinha levado capas, porém que a NASA não podia confirmar se os envelopes em questão eram genuínos; não foi dito que capas não autorizadas tinham voado na missão. Slayton enviou uma cópia de sua resposta para o escritório do conselheiro legal na sede da NASA em Washington, D.C., que não tomou ação alguma. Ele não informou Fletcher, o vice-administrador George Low ou seu próprio superior, Christopher C. Kraft, sobre o incidente ou sobre a ação disciplinar contra os astronautas.[94]

Low soube no início de junho sobre a possibilidade de que capas que voaram na Apollo 15 estarem sendo vendidas na Europa. Ele pediu para o administrador adjunto Dale D. Myers investigar a informação. Low manteve Fletcher informado na situação enquanto ela se desenvolvia. Myers entregou um relatório temporário para Low no dia 16. A história foi revelada pelo The Washington Star dois dias depois, antes que ele pudesse entregar seu relatório final em 26 de junho. Kraft falou com Scott no dia 23. Low ordenou em 29 de junho uma investigação completa pela Divisão de Inspeções da NASA. Os três astronautas foram oficialmente repreendidos por mau julgamento em 10 de julho,[95][96] algo que tornou extremamente improvável que qualquer um dos três algum dia fosse selecionado para retornar ao espaço.[97] O historiador Richard S. Lewis comentou que "na atmosfera de rodar e lidar que caracterizou as relações governamentais agência–contratante industrial na Era Espacial, o transporte não autorizado que a Apollo 15 levou para a lua foi uma travessura juvenil. Porém, na retórica dos críticos do programa espacial, foi marcada como uma exploração para ganho pessoal do desenvolvimento tecnológico mais custoso da história. Na imprensa, os astronautas foram tratados como anjos caídos".[98] Kraft tempos depois contou que Slayton lhe disse que "Eles fizeram. Não esconderam. Dave disse que sim, não há nada de errado, certo?"[99] Scott reconheceu que "cometemos um erro ao até mesmo considerá-lo",[100] porém achou que a reação "estava se tornando uma caça às bruxas".[101] Worden admitiu culpa por ter entrado no negócio, mas achou que a NASA não lhe deu apoio suficiente e que Scott não assumiu responsabilidade completa por seu papel.[102] Irwin afirmou que a NASA não tinha outra escolha a não ser repreendê-los. Ele tornou-se um pastor evangelista depois de se aposentar como astronauta e disse que esperava transformar essa experiência para usá-la em sua nova função, que dessa forma o ajudasse a simpatizar com outros que também cometeram erros.[103]

Outra controvérsia que estourou em meados de julho foi uma disputa sobre a estatueta do Astronauta Caído, deixada na Lua por Scott como um tributo aos astronautas e cosmonautas mortos nos programas espaciais norte-americano e soviético. O artista belga Paul Van Hoeydonck esperava poder vender publicamente cópias da obra, mesmo sobre as objeções dos astronautas.[104] O Comitê do Senado para Ciências Aeronáuticas e Espaciais estabeleceu um audiência para 3 de agosto, tendo ouvido a respeito das controvérsias e estando preocupado sobre a aparente comercialização da Apollo 15. Vários funcionários da NASA foram convocados a depor, incluindo os astronautas, Slayton, Kraft, Fletcher e Low.[105] Worden lembra que houve perguntas duras feitas sobre a conduta dos astronautas, porém parte da preocupação do comitê era porquê a gerência da NASA permitiu que outro incidente ocorresse tão rapidamente depois da controvérsia sobre a Casa da Moeda Franklin e a Apollo 14. Os senadores também queriam saber como a cadeia de comando da NASA permitiu que as alegações contra os astronautas não fossem relatadas para os superiores.[106] O senador Clinton Presba Anderson, presidente do comitê, invocou uma raramente usada regra do Senado dos Estados Unidos, para quando um testemunho pode impactar a reputação de testemunhas ou outros, a fim que a audiência ocorresse à portas fechadas.[107] Kraft comentou que enquanto ele e Low foram pressionados pelo comitê, os senadores trataram os astronautas "como deuses".[108]

ConsequênciasEditar

"Os outros astronautas ficaram divididos em suas opiniões. Alguns enxergaram simplesmente como um erro idiota. Outros acharam que Scott, como o comandante da missão, deveria ir para uma corte-marcial. Para alguns, era uma área cinzenta. Astronautas tinham vendido seus autógrafos, por exemplo, e lucrado de sua fama por modos menos dramáticos. Porém havia muito dinheiro envolvido desta vez, e tudo tinha vindo à público. Tinha manchado o corpo de astronautas. Que tudo havia sido feito pelo diligente e honesto Dave Scott, cuja missão fora um ponto tão alto para a Apollo, apenas fez com que o choque fosse maior... Para melhor ou para pior, o mito do Astronauta Perfeito tinha ruído."

Andrew Chaikin[109]

Nenhum dos tripulantes da Apollo 15 voltou para o espaço de novo.[110] Scott foi nomeado consultor técnico do projeto Apollo–Soyuz, a primeira missão espacial conjunta entre Estados Unidos e União Soviética, e se aposentou da Força Aérea em 1975. Ele então tornou-se diretor do Centro de Pesquisa de Voo Dryden e se aposentou da NASA em outubro de 1977, entrando no setor privado.[111] Worden foi transferido para o Centro de Pesquisa Ames na Califórnia, permanecendo no posto até se aposentar da NASA e da Força Aérea em 1975, também indo depois trabalhar no setor privado.[112] Irwin se aposentou em 1972 e fundou um grupo evangélico.[113]

Fletcher pediu para os astronautas ainda com a NASA, e até para aqueles que já tinham saído, que entregassem todas as capas que tinham levado em suas missões, pendendo uma determinação se eram propriedade do governo.[114] Kraft relatou que houve resistência por parte dos astronautas, porém "nós as confiscamos, algumas sob pressão".[115] Estas capas foram devolvidas depois do Departamento de Justiça escolheu não tomar ação e "o que quer que tenha acontecido com elas foi mantido quieto".[116] Dentre os astronautas interrogados pela NASA estava John Swigert da Apollo 13, que negou ter lidado com envelopes; ele posteriormente admitiu o contrário e foi removido da Apollo–Soyuz por Low.[117]

Kraft suspendeu quinze astronautas que "tinham quebrado a fé conosco e ignoraram uma ordem em vigor de [Slayton]"; alguns, tendo se desculpado e servido suas suspensões, voaram no Skylab.[115] O incidente resultou em um preconceito na Força Aérea contra ex-astronautas, já que todos os tripulantes da Apollo 15 tinham servido nesse ramo. Isto impediu que Stuart Roosa da Apollo 14 voltasse para a Força Aérea depois de se aposentar da NASA, forçando-o a seguir para o setor privado.[118] Apesar de Charles Duke da Apollo 16 ter levado capas para a Lua em abril de 1972, mudanças instituídas pela NASA impediram que qualquer uma fosse levada na Apollo 17 em dezembro.[7] Atualmente, os astronautas do programa espacial norte-americano estão proibidos por regulamentações federais de levarem para o espaço itens filatélicos como lembranças.[119]

As capas restantes dos astronautas da Apollo 15, 298 do grupo de quatrocentas e mais 61 de Worden, foram mantidas pela NASA em meio a investigação; Worden disse que entregou as suas a pedido da Kraft sob o entendimento de que elas seriam devolvidas assim que a investigação terminasse, porém em vez disso os envelopes foram transferidos em agosto de 1973 para os Arquivos Nacionais.[120] Houve uma investigação do Departamento de Justiça sobre as capas. Sua Divisão Criminal decidiu em 1974 que não era necessário um processo judicial, porém a Divisão Civil decidiu no ano seguinte que as capas seriam retidas pelo governo.[121] Kraft escreveu: "era questionável que qualquer lei tinha sido quebrada e [o Departamento de Justiça] percebeu que arrastar os astronautas para o tribunal não seria um passatempo popular".[115] O departamento emitiu um relatório em 1978 indicando que apesar do governo poder ter alguma reivindicação sobre as capas de Herrick por elas aparentemente terem sido criadas com o objetivo de ganhar dinheiro, ele provavelmente não tinha para as 298 capas, que os astronautas afirmaram que tinham a intenção de serem usadas como presentes.[122][123] O departamento informou a NASA em 1979 que o governo provavelmente perderia caso os astronautas entrassem com um processo judicial pelas capas. Havia oposição entre senadores pelo devolvimento dos envelopes, com uma resolução sendo aprovada no Senado em fevereiro de 1980 afirmando que o governo deveria manter as capas para evitar comercialização. O projeto morreu na Câmara dos Representantes.[124] Worden entrou com um processo em 1983 e o governo concordou em devolvê-las para os três astronautas.[125] O governo achou que não conseguiria defender bem sucedidamente o processo, e também que a NASA autorizou que as capas fossem levadas ou que sabia de sua existência.[126]

Algumas das capas foram vendidas anos depois pelos astronautas. Uma do grupo das 298 tomadas pela NASA e apreendidas pelo governo e pertencente à filha de Scott foi vendida em um leilão em novembro de 2008 por quinze mil dólares.[127][128] Uma das capas de Sieger foi vendida em 2014 por mais de 55 mil dólares, o preço mais alto já pago por uma delas; o leiloeiro salientou que era uma de apenas quatro capas Sieger a ser vendida publicamente desde a distribuição original.[15][129] Worden vendeu muitas das capas de Herrick para pagar dívidas decorrentes de uma candidatura sua para o Congresso em 1982.[15] Ao ser perguntado em 2011 sobre a localização das capas, ele disse: "Só Deus sabe. Algumas foram vendidas, algumas ainda estão em uma caixa de depósito seguro. Elas provavelmente estão agora por todo o mundo.[110]

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BibliografiaEditar