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Júlio César Ribeiro de Sousa

inventor brasileiro

Infância e juventudeEditar

De família pobre, Júlio Cézar Ribeiro de Souza estudou no seminário do Carmo em Belém (PA). Praça voluntária em 28 de maio de 1861, transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro, à época capital do Império Brasileiro, onde completou o curso preparatório da Escola Militar. Em 1866, seguiu para Montevidéu, para combater na Guerra do Paraguai. Em 1870, retornou ao Pará, passando e dedicar-se ao jornalismo, à poesia e, a partir de 1874, ao estudo das "ciências aeronáuticas".

A Memória sobre a navegação aéreaEditar

 
Manuscrito de Júlio Cézar Ribeiro de Souza contendo estudos aeronáuticos próprios.

Após seis anos de pesquisas, Ribeiro de Souza concluiu que os balões deveriam ter formato assimétrico, com o centro de empuxo à frente. Após realizar uma conferência no Pará acerca do sistema de navegação aérea que idealizara, viajou para o Rio de Janeiro, onde conheceu o Barão de Tefé, respeitado na comunidade científica brasileira, e entregou-lhe a Memória sobre a Navegação Aérea que escrevera. O Barão de Tefé analisou os estudos de Julio Cezar Ribeiro de Souza, ficou entusiasmado e pesquisou por um mês material europeu sobre aeronáutica. Redigiu um parecer favorável ao sistema do paraense e o documento foi assinado por dois consócios do Instituto Politécnico Brasileiro, então a maior instituição científica da América Latina. Graças a esse apoio, Ribeiro de Souza conseguiu uma verba (20 contos de réis) da província do Pará.

O Le VictoriaEditar

Com estes recursos, Souza embarcou para a França e na Casa Lachambre, em Paris, encomendou a construção do balão Le Victoria, assim chamado em homenagem à esposa, Victoria Philomena Hippolita do Valle. Conferenciou acerca do sistema de dirigibilidade que criara na Sociedade Francesa de Navegação Aérea, não sem antes patentear o projeto do balão dissimétrico. Registrou o invento nos seguintes países: França, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Rússia, Portugal, Bélgica, Áustria e Brasil. Em 8 de novembro de 1881, em Paris, foi realizado o primeiro voo público e cativo do aeromodelo, que subiu avançando para frente, feito repetido no dia 12. Aparentemente, presenciando tais experiências em Paris, esteve também o capitão francês Charles Renard, que presidira a Sociedade Francesa de Navegação Aérea até junho de 1881, e que ao assistir o balão avançar contra o vento, haveria afirmado: "Como eu lamento que o inventor não seja um francês!".[2] No Brasil, foram feitas demonstrações no dia 25 de dezembro de 1881, no Pará, e em 29 de março de 1882, no Rio de Janeiro, sendo que nesta última o balão sofreu um rombo, ficando seriamente avariado.

O Santa Maria de BelémEditar

Júlio Cézar Ribeiro de Souza conseguiu no Pará a liberação de mais 36 contos de réis. Retornou a Paris e encomendou a construção de um grande balão, com 52 m de comprimento e 10,4 m de maior diâmetro. Em 12 de julho de 1884, na Praça da Sé em Belém, ele fez uma tentativa de ascensão com o balão, denominado Santa Maria de Belém. A fim de produzir o hidrogênio necessário para inflar o balão, ele contou com a ajuda de pessoas esforçadas, mas inexperientes. Os materiais e equipamentos foram manipulados de forma incorreta, o que acabou por danificar e impossibilitar a experiência. Menos de um mês depois, dois capitães franceses, Charles Renard e Arthur Constantin Krebs, a bordo do balão La France, que media 50,4 m de comprimento por 8,4 m de maior diâmetro , executaram o primeiro circuito fechado em um balão.

Plágio?Editar

Semelhanças entre o La France e o Santa Maria de BelémEditar

Em 9 de agosto de 1884, na França, os capitães Renard e Krebs decolaram do campo militar de Chalais Meudon no balão La France, de 1864 m³, provido dum motor elétrico de 9 cv. Retornaram ao ponto de partida após percorrerem 7.600 m em 23 minutos, numa média de 20 km/h, fato amplamente noticiado pela imprensa. A notícia chegou ao Brasil no mês seguinte, sendo divulgada pelo jornal A Província do Pará de 19 de setembro. Ao tomar conhecimento do acontecido, Julio Cezar Ribeiro de Souza imediatamente supôs haver sido plagiado. Quando viu o desenho do La France, constatou que o formato do balão francês era o mesmo do Le Victoria e do Santa Maria de Belém. Convenceu-se então de que fora vítima de plágio. Escreveu um extenso protesto intitulado A direção dos balões, publicado em três partes no jornal paraense A Província do Pará, nos dias 23, 24 e 25 de outubro de 1884. Uma versão em francês foi publicada em duas partes pelo mesmo jornal no mês seguinte (dias 01 e 9 de novembro), sob o título La direction des ballons, quando foram incluídas gravuras dos balões Le Victoria, La France e do balão de Dupuy de Lôme. Ainda em dezembro de 1884, o periódico inglês Invention and Inventors' Mart publicou um artigo com um resumo do protesto, incluindo o desenho tanto do balão de Ribeiro de Souza como daquele de Renard e Krebs. O periódico britânico registrou que Ribeiro de Souza havia exposto por meio de seu protesto robusta prova de ser ele o inventor do sistema comum aos dois balões, e dispunha-se a publicar a defesa de Renard e Krebs. A edição da Enciclopédia das Enciclopédias – Dicionário Universal Português, publicada em Lisboa, imediatamente posterior a estes fatos, reproduziu na íntegra o protesto do brasileiro.  O comentarista da publicação portuguesa afirmou que, embora não se pudesse deixar de reconhecer o mérito dos capitães franceses Renard e Krebs, é lamentável que não tenham feito ao engenhoso inventor paraense a devida justiça, conservando-lhe perante o mundo científico a glória indiscutível da idéia por eles aproveitada. Prosseguia o comentarista dizendo que o maior argumento para a condenação dos franceses era seu silêncio diante de tão veemente protesto realizado por Ribeiro de Souza, dirigido às sociedades e às publicações científicas de todo o mundo culto da época. Tanto o Le Victoria e o La France foram construídos sob orientação de uma mesma pessoa: Henri Lachambre.

Diferenças entre o La France e o Santa Maria de BelémEditar

O La France possuía diferenças em relação ao Santa Maria de Belém: a hélice era tratora, enquanto no balão brasileiro era propulsora; o balão francês era movido por um motor elétrico de 9 cv, e para o Santa Maria de Belém estava previsto um motor a vapor de apenas 4 cv; o La France possuía um leme vertical, o Santa Maria de Belém não; o La France não empregava planos laterais móveis, o Santa Maria de Belém sim; a cubagem do La France era de 1.864 m, e a do balão brasileiro, de 2.882.

O CruzeiroEditar

Em 1886, Júlio Cézar Ribeiro de Souza conseguiu da Assembleia do Governo do Pará a quantia de 25 contos de réis e com esses recursos retornou à França e construiu um último balão: o Cruzeiro, com o qual realizou demonstrações públicas. Ao chegar a Paris, propôs debates com Renard e Krebs na Sorbonne e na Academia de Ciências da França, mas foi ignorado pelos militares. No editorial de 13 de maio de 1886, o jornal parisiense L'Opinion publicou um histórico das realizações de Ribeiro de Sousa, desde a aprovação de suas teorias no IPB no início de 1881 até aquela data, mencionando que o protesto do brasileiro havia merecido comentários favoráveis dos países que o receberam, e fazendo votos de que se fizesse justiça a quem de direito. Este artigo foi enviado pelo próprio Ribeiro de Sousa a membros do governo e às academias francesas, a Renard e Krebs, e a toda a imprensa parisiense, sem ter recebido nem apoio nem contestação durante esta que foi a sua última estada na França.

Doença e morteEditar

Julio Cezar Ribeiro de Souza morreu pobre em Belém a 14 de outubro de 1887, vítima de beribéri.

HomenagensEditar

  • Ocupa a cadeira número 17 dentre os Patronos do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica - INCAER.
  • Uma importante avenida da cidade de Belém recebeu o nome de Avenida Júlio César.
  • A Lei nº 12.446, de 15.7.2011, inscreveu o nome de Júlio Cezar Ribeiro de Souza no Livro dos Heróis da Pátria.
  • A Lei nº 12.228, de 13.4.2010, denominou o principal aeroporto de Belém como "Aeroporto Internacional de Belém / Val-de-Cans / Julio Cezar Ribeiro".
  • Julio Cezar Ribeiro de Souza recebeu (post morten) a Ordem do Mérito Aeronáutico, no Grau de Grande-Oficial, em 23 de outubro de 2013.

DocumentárioEditar

O inventor Julio Cezar Ribeiro de Souza é a personagem do documentário O Homem do Balão Extravagante ou as Tribulações do Paraense que Quase Voou, um dos ganhadores do concurso DOC-TV 2005, dirigido por Horácio Higuchi (biólogo e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi).

Ver tambémEditar

Notas

  1. Nos poucos documentos conhecidos e assinados por Ribeiro de Souza, o nome do inventor é sempre grafado Julio Cezar Ribeiro de Souza.
  2. Teffé, Almirante Barão de. O Brasil – Berço da ciência aeronáutica. Imprensa Naval. Rio de Janeiro, 1924, p. 105.

BibliografiaEditar

  • AGUIAR, Pinto de. Júlio Cesar Ribeiro de Sousa, Os precursores brasileiros da aeronáutica. Civilização Brasileira. Brasília, 1975, pp. 29–52.
  • AMARAL, Fernando Medina do. Do voo dos pássaros à dirigibilidade da navegação aérea. 1ª edição. Conselho Estadual de Cultura. Coleção Cultura Paraense. Série Theodoro Braga. Belém, Pará, 1987.
  • AMARAL, Fernando Medina do. Julio Cesar – o verdadeiro arquiteto da aeronáutica. 1ª edição. Editado pela família do autor. Niterói, Rio de Janeiro, 1989.
  • AMARAL, Fernando Medina do; CRISPINO, Luís Carlos Bassalo; e SOUSA, Júlio César Ribeiro de. "Júlio César Ribeiro de Sousa – Memórias sobre a Navegação Aérea". Série Memórias Especiais, Vol. II. Organizadores: BASSALO, José Maria Filardo; ALENCAR, Paulo de Tarso dos Santos; CRISPINO, Luís Carlos Bassalo; e BECKMANN, Clodoaldo Fernando Ribeiro. Editora da Universidade Federal do Pará, Pará, 2003.
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  • BASSALO, José Maria Filardo; ALENCAR, Paulo de Tarso dos Santos; CRISPINO, Luís Carlos Bassalo; BECKMANN, Clodoaldo Fernando Ribeiro. Júlio César Ribeiro de Sousa - Memórias sobre a Navegação Aérea. Belém do Pará: Editora da UFPA, 2003.
  • CUNHA, Raymundo Cyriaco Alves da. Júlio César Ribeiro de Sousa, Paraenses ilustres. Jablonski, Vogt e Cia. Paris, 1896, pp. 111–121.
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Ligações externasEditar