João Guilherme Christiano Müller

João Guilherme Christiano Müller ou Johann Wilhelm Christian Müller (Gotinga, Baixa Saxônia, 12 de maio de 1752 - Lisboa, Portugal, 15 de março de 1814) foi um General de Portugal, Diretor da Academia Real das Sciencias de Lisboa e pastor luterano.[1] [2]

João Guilherme Christiano Müller
Ocupação militar

Educação e FamíliaEditar

 
Johann David Köhler, avô de João Guilherme Christiano Müller.

João Guilherme Müller foi o primeiro filho de João Miguel Müller e de Bárbara Margarida Catharina Köhler. Seu pai, oriundo da família Müller de Augsburgo, foi professor de matemática da Universidade de Giessen e nomeado Engenheiro Mór dos Ducados de Grubenhagen e de Calemberg. Sua mãe, por sua vez, era da "nobilíssima"[3] Casa Köhler de Nuremberga.[1]

Durante a infância de João Guilherme Müller, seu pai realizava preleções públicas sobre temas diversos das Matemáticas Pura e Aplicada. Seu avô materno, João David Köhler, era professor de grande reputação em Filosofia e História, também na Universidade de Giessen. Por sua vez, João Daniel Müller, seu tio paterno, era um teólogo de grande prestígio. Já seu tio materno, João Tobias Köhler, também dava aulas de História e Filosofia e tornou-se Mestre em Artes. Diante disso, João Guilherme Müller cresceu num ambiente altamente intelectualizado, mas não se podia esperar que ele dominasse, com vantagem, áreas de conhecimento tão distintas.[4]

Por essa razão, a família decidiu observar as inclinações e capacidades de suas crianças para determinar qual educação lhes dariam. Assim, decidiram que João teria estudos voltados à Literatura e suas ramificações, e seu irmão mais novo, Christiano Gottlieb Daniel Müller, estudaria as ciências matemáticas. Portanto, ainda menino, João já aprendia em casa as línguas francesa, inglesa e os rudimentos do Latim. E, também, mostrava grande gosto pela leitura, tendo o hábito de estudar sobriamente o que lia.[5]

Aos 8 anos de idade, em 1760, João Guilherme Müller ingressou num Curso de Humanidades da Escola Pública de Gotinga. Em 1766, deu continuidade a tal estudo, unido à Filosofia e algumas línguas orientais, no conhecido Archigymnasio Susatense, o mais famoso da Vestfália. E, quatro anos depois, na cidade de Soest, João defendeu suas primeiras conclusões publicamente: De Studiis Veterum Grammaticis.[5] Nesse opúsculo, ele defende a necessidade de se unir estreitamente os conhecimentos relativos à linguagem e às ciências e, também, uma educação que ensine a dependência entre tais conhecimentos.

Logo após, João retornou à sua terra natal e ingressou no curso de Teologia na Universidade de Gotinga, concluindo-o dois anos depois. E, por indicação do Dr. Miller, sucessor de Dr. Mosheim no cargo de Reitor da célebre universidade em que se formou, João foi escolhido para pastorear o povo de Lisboa. Sua ordenação ocorreu na cidade de Stade, em 5 de novembro de 1772, segundo o rito da Igreja Luterana. Assim, passou por um exame de teologia, mas foi dispensado do tradicional Sermão de prova: recebeu uma atestação do Ministério da Catedral de Bremen -- onde foi convidado ao púlpito pouco antes- pela "graça e eloquência" de sua pregação. Depois, foi ao porto de Hamburgo e dirigiu-se à capital portuguesa.[6]

Em PortugalEditar

 
Praça do Comércio, Lisboa.

Como disse Francisco d'Aragão Morato, segundo o livro Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, a capital portuguesa tinha muitas coisas que podiam interessar um jovem estrangeiro como João Müller:

Em contraposição ao severo clima do Norte da Allemanha, á gothica construcção dos seus Edificios, e ao delgado vinculo da confederação, que unicamente unia as suas principaes Cidades, elle começava a habitar hum clima delicioso, via huma grande Capital resurgindo mais formosa d'entre as suas proprias ruinas, e hum governo unido e providente [...] Assim não podia o Sr. Müller deixar de se applaudir da resolução que havia tomado, de fixar por algum tempo a sua residencia em Lisboa. Despido de todo o genero de orgulho, e de certas impressões menos favoraveis, que podessem ser effeito da sua educação litteraria ou religiosa, procurava conseguir a benevolencia e a amizade dos Portuguezes [...] [7]

Segundo o contrato que assinara, João Müller tinha a obrigação de permanecer apenas três anos em Lisboa. Porém, decorrido algum tempo, optou por renovar seu prazo em mais três anos. E, por fim, renunciou aos seus primeiros planos, mesmo com os excelentes empregos que poderia encontrar em outros países europeus: prorrogou por tempo indeterminado sua estada em Portugal e casou-se com a lisboeta Ana Isabel Möller, filha de Henrique Möller.

Na Academia Real das Sciencias de LisboaEditar

No dia 14 de outubro de 1787, em Assembléia da Academia Real das Sciencias, João Guilherme Christiano Müller foi nomeado sócio supernumerário. Assim, começam seus trabalhos literários na Academia:

  • em 1788, ficou responsável pela direção e classificação das medalhas do museu da Academia, escrevendo Memoria sobre as Medalhas Portuguezas -lida em assembléia;
  • em novembro de 1788, foi lida sua Memoria sobre origens Orientaes de palavras Portuguezas;
  • em 1790, por seus conhecimentos em língua hebraica, publicou suas Notas e Memorias em adição aos estudos sobre a Litteratura Sagrada dos Judeos Portuguezes, de Antonio Ribeiro dos Santos;
  • e, em 1792, foi responsável pela composição de extratos de obras da Academia, para publicá-los em jornais da Alemanha.

Durante tais trabalhos, algumas cartas redigidas por João Guilherme Müller demonstravam sua afeição pela Academia e, ao mesmo tempo, o sofrimento advindo de um ministério que passou a chamar de "escravidão" -- por impedir-lhe de ter maior dedicação aos estudos literários. Porém, quando já estava decidido a abandonar o pastorado, aprouve à Coroa Portuguesa convocá-lo a seu serviço e, prontamente, ele aceitou a oportunidade. Assim, por decreto de 29 de dezembro de 1790, a Rainha Maria I de Portugal concedeu a João Guilherme Müller uma pensão vitalícia de 800 mil réis.[8]

Dessa maneira, a única coisa faltante para João Guilherme Müller gozar plenamente dos direitos de Vassallo Portuguez era abandonar o Protestantismo. Fé que aprendeu desde sua infância com mestres de renome e que ele mesmo ensinou por 18 anos de sua vida. Mas, como um "espirito de duvida" já o fazia reexaminar, livre e imparcialmente, sua vida religiosa, no dia 23 de novembro de 1791 ele fez sua "solemne profissão de Fé Catholica Romana".[9]

Cargos concedidos pela Coroa PortuguesaEditar

Buscando atender às expectações da Coroa Portuguesa, João Guilherme Müller assumiu alguns notáveis cargos. Assim, por Decreto de 16 de maio de 1792, Sua Majestade lhe conferiu o cargo de Deputado da Real Mesa da Commissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros. Ali, João Müller trabalhou incansavelmente e, após sua morte, foram encontrados diversas anotações sobre a mudança dos tempos. Porém, sendo a Revolução Francesa ainda recente, tal órgão foi extinto por Decreto de 17 de dezembro de 1794. E, mesmo assim, Müller continuou a receber integralmente o soldo de Deputado e foi nomeado Censor Regio pela Mesa do Desembargo do Paço.[10][11]

Por Carta Patente de Sua Magestade, datada de 30 de junho de 1795, Müller foi nomeado Traductor de Linguas na Secretaria do Concelho do Almirantado e, logo após, lhe foram concedidos a graduação de Official Maior e o uniforme de Capitão de Fragata. Por ocasião de guerras marítimas, era necessário que um homem versado em diversos idiomas europeus colaborasse como intérprete dos estrangeiros que dirigiam-se ao Almirantado e, também, traduzisse processos e documentos escritos nos mais variados idiomas. Porém, pela mudança da sede do governo português e reforma do Concelho do Almirantado, tal cargo foi extinto.[12]

Logo após, Müller recebeu uma posição ainda mais relevante: por Ordem especial da Corte, foi encarregado de assistir a Sua Alteza Sereníssima o Príncipe Christiano de Waldeck, Marechal dos Exércitos Portugueses, durante sua estadia em Portugal. E assim foi, até a prematura morte desse Príncipe em terras lusitanas. Sendo a apresentação verbal de suas últimas representações ao Soberano de Portugal, um dos últimos serviços a ele prestados.[13]

GaleriaEditar

ReferênciasEditar

  1. a b Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]).
  2. Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa. [S.l.]: Typogr. da Academia. 1 de janeiro de 1816 
  3. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). p. LVII
  4. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). pp. LVII e LVIII
  5. a b Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II. Lisboa: [s.n.] pp. LVIII e LIX 
  6. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). pp. LXI a LXIII
  7. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). pp. LXIII e LXIV
  8. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). p. LXVII
  9. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). p. LXVII
  10. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). pp. LXVIII e LXIX
  11. Pimenta Velloso, Monica (2015). Corpo: identidades, memórias e subjetividades. Rio de Janeiro: Mauad Editora Ltda. 47 páginas 
  12. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). p. LXIX
  13. Morato, Francisco Manoel Trigozo d'Aragão (1815). Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Volume 1, Tom. IV, Part. II (Lisboa [s.n.]). pp. LXIX e LXX