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José Clemente Pozenato Machado
Nome completo José Clemente Pozenato
Nascimento 22 de maio de 1938
[São Francisco de Paula (Rio Grande do Sul)
Nacionalidade Brasil brasileira
Ocupação professor, escritor, tradutor

José Clemente Pozenato (São Francisco de Paula, 22 de maio de 1938) é um escritor, tradutor e professor brasileiro. Tem vasta produção no gênero da crônica e diversos livros de poesia e ficção, onde explora crítica e realisticamente o cenário e as tradições da região de colonização italiana do Rio Grande do Sul. Sua obra mais aplaudida é o romance histórico O Quatrilho, que recebeu versão cinematográfica indicada para o Oscar.

Índice

CarreiraEditar

Mudou-se para Caxias do Sul ainda jovem, ali ingressando no Seminário, depois aperfeiçoando seus estudos no Seminário Maior de Viamão, obtendo um bacharelado em Filosofia.[1] Fez mestrado em Estudos de Literatura Brasileira pela Universidade Federal de São Carlos, e doutorou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com a tese-romance A Babilônia. Dispensado do sacerdócio, deu aulas de literatura na Universidade de Caxias do Sul, onde foi pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional. Em Caxias também foi secretário municipal de Cultura, destacando-se em sua administração o Programa Permanente de Estímulo à Leitura.[2]

É membro da Academia Sul-Brasileira de Letras e da Academia Rio-Grandense de Letras e foi membro do Conselho Estadual de Cultura. Já escreveu vários livros para adultos e crianças, sendo o romance histórico O Quatrilho o mais conhecido, adaptado para o cinema por Luiz Carlos Barreto. O filme homônimo foi indicado para o Oscar.[2]

Já recebeu várias distinções: o Troféu Caxias na categoria Cultura (1986), os títulos de Cidadão Caxiense (1991), Personalidade do Livro, da Câmara Rio-Grandense do Livro (1995), e Patrono da Feira do Livro da cidade de Farroupilha (2009), o Prêmio Caxias da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul (2015), concedido a quem se destaca pelos serviços prestados à comunidade,[3][2] e o Prêmio Reconhecimento Italiano da Serra (2015), oferecido pelo Grupo RBS para valorizar ações pela preservação da cultura italiana na região.[4] Seu ensaio O regional e o universal na literatura gaúcha (1974) foi premiado pelo Instituto Estadual do Livro, e sua tradução do Cancioneiro de Petrarca foi uma das finalistas do Prêmio Jabuti em sua 58ª edição.[5]

ObraEditar

Pozenato iniciou na literatura como poeta, escrevendo, como pensa Rita Schmidt, versos que traem uma influência da lírica portuguesa, mesclando-a como um memorialista à sua bagagem de descendente de italianos, mas também incorporando elementos do cenário gauchesco típico da tradição rio-grandense. A evocação do passado, muitas vezes colorida de tintas épicas e míticas, contudo, acarreta a consciência da perda deste passado, surgindo o confronto com a realidade em eterno movimento e mudança.[6]

Sua estreia na prosa de ficção se deu com O Caso do Martelo (1985), uma novela policial que depois foi vertida para a televisão.[6] Segundo Charles Kiefer ele é autor de uma literatura sólida e densa, que "parece seguir à risca aquele magnífico conselho de Dostoiévski: 'Se queres ser universal, pinta a tua aldeia'. [...] Como todos os grandes escritores de todos os tempos, conta uma boa história sem esquecer o detalhe significativo, sem perder-se em descrições inúteis, mergulhando na alma e nos sentimentos dos personagens. Saímos da leitura de seus livros com um travo de mosto na boca, um tanto embriagados, é verdade, mas certos de que o melhor que se tem a fazer com a vida é vivê-la com toda a intensidade possível".[7] Para Rita Schmidt ele conquistou um lugar definitivo na literatura contemporânea gaúcha com uma obra coerente, que "encontra na indagação da existência enquanto temporalidade seu eixo e sua diretriz".[6]

O Quatrilho (1985), sua obra mais conhecida, é uma descrição da vida de dois casais de imigrantes italianos. Embora não seja um documento histórico no sentido estrito do termo, o cenário geral é reproduzido com bastante fidelidade. Como analisou Carlos Roberto Rangel, "Pozenato personifica a saga dos italianos no Rio Grande do Sul através das vidas das colônias. Desde as primeiras gerações, até o momento da desintegração do modelo minifundiário/familiar, o autor procura mostrar as incongruências, a sucessão dos pequenos dramas, os sacrifícios e a brutalização daquelas pessoas do mundo colonial". Para Monique Rodrigues, "O Quatrilho é mais um exemplo do quanto a História pode estar presente na Literatura de um povo, e de quanto essas obras literárias podem ser importantes para uma melhor compreensão de um determinado povo, falando até mesmo no âmbito escolar. Um romance não é o retrato fiel de uma sociedade, mas pode ser o início para a compreensão de todo um período histórico. E deve ser respeitado por isso".[8] O Quatrilho compõe a primeira parte de uma trilogia, completada com com A Cocanha (2000) e A Babilônia (2006), que acentuam a desmontagem de antigos mitos coloniais que já havia desenvolvido no primeiro volume, superando, através de uma crítica da História e de uma ênfase no realismo, as chamadas "narrativas vitimárias e prometeicas das leituras étnico-apologéticas da colonização", como disse Mário Maestri. Para João Claudio Arendt, "não há exacerbação de heroísmos ou de fatalismos: a vida simplesmente transcorre com verossimilhança. E isso, no caso das representações sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul, é bastante".[9]

Também merecem nota suas centenas de crônicas, que em seu conjunto traçam um amplo panorama do mundo cultural da região de colonização italiana, que vem experimentando grandes transformações sob o impacto do multiculturalismo e da globalização. A dialética de encontros e atritos criada pelo contato entre a herança cultural colonial e a modernidade é um dos focos temáticos desta parte de seu trabalho, que de resto permeia toda a sua criação. Apesar de abraçar muitas das mudanças trazidas pelos tempos, fica nítida a marca de uma cultura de características distintivamente regionais. Para o autor, de fato, a exploração dos regionalismos é um importante meio de se produzir conhecimento.[10]

Outras publicaçõesEditar

  • 1967 - Matrícula (poesia)
  • 1971 - Vária Figura (poesia)
  • 1982 - Carta de Viagem (poesia)
  • 1983 - Meridiano (poesia)
  • 1985 - O Caso do Martelo (novela policial, adaptada para a televisão)
  • 1989 - O Caso do Loteamento Clandestino (novela policial)
  • 1990 - O Jacaré da Lagoa (infantil)
  • 1993 - Cánti Rústeghi (poesia)
  • 1998 - O limpador de fogões (contos)
  • 1999 - Conversa Solta (coletânea das crônicas publicadas no jornal Pioneiro)
  • 2000 - O Caso do E-mail (novela policial)
  • 2001 - Pisca-tudo (infantil)
  • 2008 - O Caso da Caçada de Perdiz (novela policial)

Referências

  1. Clemente, Elvo. "A literatura de italianos e descendentes no Rio Grande do Sul". In: Suliani, Antônio (org.). Etnias & carisma: poliantéia em homenagem a Rovílio Costa. EDIPUCRS, 2001, p. 410
  2. a b c "Escritor José Clemente Pozenato recebe o Prêmio Caxias da Câmara de Vereadores". Pioneiro, 25/08/2015
  3. Academia Rio-Grandense de Letras. José Clemente Pozenato Arquivado em 13 de janeiro de 2017, no Wayback Machine..
  4. "Florenses são homenageados por serem italianos da serra". O Florense, 28/08/2015
  5. "Títulos da Unicamp são finalistas da primeira fase do Prêmio Jabuti". Notícias Unicamp, 23/10/2015
  6. a b c Schmidt, Rita Terezinha. "Repetição e diferença: a sutura da História". In: José Clemente Pozenato. Série Autores Gaúchos nº 25. Instituto Estadual do Livro, 1995, 2ª ed., pp. 15-23
  7. Kiefer, Charles. "Depoimentos". In: José Clemente Pozenato. Série Autores Gaúchos nº 25. Instituto Estadual do Livro, 1995, 2ª ed., p. 24
  8. Rodrigues, Monique Cerini. "O Quatrilho: literatura e história na obra de José Clemente Pozenato". In: Revista e-Lato Sensu, 2013 (3):63-71
  9. Arendt, João Claudio. "Literatura, História e Imaginário no Romance A Cocanha" Arquivado em 22 de outubro de 2016, no Wayback Machine.. In: Nonada, 2009 (13)
  10. Boniatti, Ilva Maria. "Representatividade e ficcionalidade: as crônicas de José Clemente Pozenato e o espaço regional". In: Métis: história & cultura, 2003; 2 (4):93-105

Ver tambémEditar