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Juno Ludovisi.
Um cartão-postal do século XIX.

A Juno Ludovisi (também conhecida como Hera Ludovisi) é uma cabeça colossal feminina esculpida em mármore, pertencente à coleção do Palácio Altemps de Roma, uma divisão do Museu Nacional Romano.

A obra mostra a cabeça e o pescoço, medindo 114 cm de altura. A cabeça é adornada com uma tiara gravada com palmas. Provavelmente fazia parte de uma estátua acrolítica, gênero em que somente certas partes eram elaboradas em pedra, geralmente a cabeça, braços e pés, e o corpo era feito de madeira.[1]

Sua procedência é desconhecida. Provavelmente foi encontrada em Roma. Na primeira metade do século XVI estava na coleção do cardeal Federico Cesi.[2] Em 1622 foi adquirida pelo cardeal Ludovico Ludovisi, sendo instalada na Villa Ludovisi, de onde veio seu apelido, e nesta época sua fama começa a se firmar, identificada como um fragmento de uma estátua de culto da deusa Juno ou Hera. No século XVIII já era considerada uma obra-prima, atraindo a atenção de eruditos e artistas alemães, que foram os principais responsáveis pela sua consagração como uma das mais belas criações da Antiguidade Clássica, tornando-se admirada em toda a Europa,[3][4] muito copiada, e uma referência recorrente na literatura da época.[5] Foi louvada por Winckelmann em 1764 como a mais bela representação de Juno,[6] e Goethe em 1787 escreveu um famoso poema sobre ela, chamando-a de "Juno adorada" e de "meu primeiro amor romano", providenciando uma cópia para colocar em seu apartamento romano e outra para sua casa em Weimar.[7] Pouco depois, mesmo conhecendo a obra através de um desenho, Schiller a considerou a corporificação do seu ideal estético, que o conduzia à contemplação da suavidade celeste e do sublime.[3][4] e sobre ela escreveu:

"Não é nem o charme nem a dignidade que falam em favor da gloriosa face da Juno Ludovisi; não uma ou outra coisa, antes tem ambas ao mesmo tempo. Enquanto o deus mulher invoca nossa veneração, a mulher divinizada incendeia nosso amor. Mas enquanto no êxtase nos rendemos à divina beleza, sua celestial quietude nos desperta espantados. Toda a forma repousa e vive em si mesma, uma criação completa em si mesma, como se estivesse fora do espaço, sem ceder, sem resistir; não há uma força que lute contra outra força, não há flanco aberto por onde possa entrar a temporalidade. Atraídos e presos irresistivelmente pelo seu charme feminil, sua dignidade augusta nos mantém à distância, nos encontramos ao fim no estado de máxima quietude e de máximo movimento, e disso nasce aquela maravilhosa comoção que o intelecto não sabe conceituar e a língua não pode nomear".[4]

No século XIX seus traços classicistas foram comparados ao estilo de Policleto e sua autoria foi atribuída a algum mestre da Segunda Escola Ática, datada do fim do século IV a.C.[8] No fim do século XIX sua identificação como Juno começou a ser questionada.[9] Em 1901 começaram as tratativas do governo italiano para a aquisição da coleção Ludovisi.[10]

Embora o mármore da Juno seja grego,[1] hoje é considerada obra romana, datada do século I a.C., um retrato de Antônia Menor representada como Juno, filha mais nova de Marco Antônio e Otávia, e mãe do imperador Cláudio.[4][11] O estilo do penteado, com o cabelo atado por trás da cabeça, caindo em cachos pelo pescoço, é típico do período júlio-claudiano.[12][13] O tipo do seu diadema, preso com uma faixa de tecido, foi identificado como um tutulus, um símbolo de sacerdócio, e estava associado ao culto do Divino Augusto. Até o tempo de Cláudio somente duas mulheres receberam o título de sacerdotisas do Divino Augusto, Antônia e Lívia, mas os traços da Juno não correspondem aos retratos de Lívia, reforçando a identificação como um retrato de Antônia. A obra não apresenta desgastes típicos de exposição ao ar livre, levando a crer que fosse instalada dentro de um templo, que não foi identificado. Pode ter sido o Templo de Antônia, erguido após sua divinização, o Templo do Divino Augusto no Fórum Romano, ou o Templo de Cláudio, erguido na colina do Célio após a sua divinização.[13]

Continua sendo muito admirada como uma grande obra de arte e como um representante qualificado da estética classicista, caracterizada pela austeridade formal, economia expressiva e equilíbrio entre idealização e naturalismo.[13][7][14]

Referências

  1. a b Juno Ludovisi. Cornell University Library, Digital Collections
  2. Giustozzi, Nunzio. "Una Giunone adorata". In: La Regina, Adriano (ed). Museo Nazionale Romano. Electa, 2005, p. 140
  3. a b Schiller, Friedrich. Lettere sull'educazione estetica dell'umanità (1795) - Sulla poesia ingenua e sentimentale (1795). Feedbooks, 2011, p. 15
  4. a b c d Witte, Bernd. "German Classicis and Judaism". In: Aschheim, Steven E. & Liska, Vivian (eds.). The German-Jewish Experience Revisited. Walter de Gruyter, 2015, pp. 49-50
  5. Suzuki, Márcio. "Nota 12". In: Schelling, Friedrich Wilhelm Joseph von. Filosofia da Arte. EdUSP, 2001, p. 128
  6. Winckelmann, Giovanni. 'Storia della arti del disegno presso gli antichi, tomo I. Roma, 1783, p. 317
  7. a b MacLeod, Catriona. Embodying Ambiguity: Androgyny and Aesthetics from Winckelmann to Keller. pp. 66; 119; 244
  8. Visconti, Carlo Ludovico. Descrizione dei monumenti di scultura antica del Museo Ludovisi. Salvati, 1891
  9. Tölle-Kastenbein, Renate. "Juno Ludovisi: Hera oder Antonia Minor?" In: Mitteilungen des Deutschen Archàologischen Instituts, 1974; (89):241-253
  10. "Discussione del disegno di legge: Acquisto dei Museo Boncompagni-Ludovisi". Atti Parlamentari. Camera dei Deputati, 11/05/1901
  11. Gabucci, Ada. Ancient Rome: Art, Architecture and History. Getty Publications, 2002, p. 26
  12. D'Ossat, Matilde de Angelis. "Le collezioni Barbo e Grimani di scultura antica". In: Barberini, maria Giulia; D'Ossat, Matilde de Angelis; Schiavon, Alessandra (eds.). La storia del Palazzo di Venezia: dalle collezioni Barbo e Grimani a sede dell’ambasciata veneta e austriaca. Gangemi, 2011, p. 54
  13. a b c Kokkinos, Nikos. Antonia Augusta: Portrait of a Great Roman Lady. Psychology Press, 1992, pp. 119-20
  14. Bishop, Paul. On the Blissful Islands with Nietzsche & Jung: In the Shadow of the Superman. Taylor & Francis, 2016, p. 152

Ver tambémEditar