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Kirchenkampf ("luta da igreja") é um termo alemão referente à situação das igrejas cristãs na Alemanha durante o período nazista (1933-1945). Às vezes usado de forma ambígua, o termo pode referir-se a um ou mais das seguintes diferentes "lutas da igreja": a disputa interna entre os alemães cristãos e a Igreja Confessional sobre o controle das igrejas protestantes; a batalha entre o regime nazista e as igrejas protestantes; e a batalha entre o regime nazista e da Igreja Católica Romana. Cerca de dois terços dos alemães eram protestantes e um terço católico quando os nazistas tomaram o poder. Muitos historiadores afirmam que a meta de Hitler no Kirchenkampf implicava não só numa luta ideológica, mas em última análise, a erradicação das igrejas.[1][2][3][4][5][6][7][8][9][10] Outros historiadores mantêm que tal plano não existia.[11][12][13][14] O Exército da Salvação, santos cristãos e a Igreja Adventista do Sétimo Dia desapareceram da Alemanha durante a era nazista.[15]

A ideologia nazista era hostil ao cristianismo tradicional em vários aspectos e o Partido Nazista viu a luta da igreja como um importante campo de batalha ideológica. O biógrafo de Hitler, Ian Kershaw, biógrafo escreveu sobre a luta em termos de um conflito permanente e crescente entre o Estado nazista e as igrejas cristãs. O historiador Susannah Heschel escreveu que o Kirchenkampf se refere apenas a uma disputa interna entre os membros da Igreja Confessante e membros da dos alemães cristãos (apoiados pelos nazistas apoiado[16]) pelo controle da igreja protestante.[17] Pierre Aycoberry escreveu que os cristãos alemães sobre o controle da igreja protestante que para católicos, enquanto a frase kirchenkampf era uma reminiscência do kulturkampf de tempo de Otto von Bismarck - uma campanha que tinha procurado destruir a influência do catolicismo na maioria protestante na Alemanha.

HistóricoEditar

 Ver artigo principal: Movimento Cristão Alemão

Inicialmente Hitler havia se demonstrado amistoso quanto às Igrejas Cristãs, e o clero, no início do regime nazista, desejava colaborar com o novo governo. Em Mein Kampf Hitler ataca as igrejas por não seguirem doutrinas racistas, mas defende a colaboração do nazismo com elas afirmando que "um partido político nunca deve (…) perder de vista (…) que um partido puramente político jamais obteve resultado na consecução de uma reforma religiosa", não obstante, o ponto 24 do programa do partido nazista advertia "liberdade para todas as religiões, contanto que não constituíssem perigo (…) para (…) a raça alemã, o partido está a favor do cristianismo positivo".

Muitos argumentam que na realidade o regime nazista pretendia parcialmente substituir o cristianismo pelo paganismo germânico. Foi através do nazismo que se deu a mais importante manifestação do paganismo,[18] logo após a vitória eleitoral e a subida ao poder de Adolf Hitler,[19] no dia 30 de Julho de 1933 mais de cem mil nazistas tinham-se reunido em Eisenach para declarar querer tornar "a origem germânica a realidade divina", restaurando Odin, Baldur, Freya, e outros deuses nos altares da Alemanha - Wotan deveria estar no lugar de Deus, Sigurd no lugar de Cristo.[20]

A Perseguição à Igreja CatólicaEditar

Hitler havia prometido no início de 1933 uma "aproximação" com a Santa Sé, assinando um acordo com a mesma, que supostamente garantiria os direitos religiosos católicos na Alemanha (a Reichskonkordat) — visando os votos no Reichstag do Partido do Centro Católico –, porém, as sucessivas ondas de violência contra os judeus, em especial as leis de esterilização obrigatória de 25 de Julho, ofenderiam principalmente a Igreja Católica, que mantinha uma posição tradicional insistindo na doutrina de que "perante Deus todos são iguais independente de raça",[21] visão considerada ultrapassada na época,[21] tendo em vista os supostos avanços "científicos e biológicos" do racialismo.

Em 30 de julho a Liga da Juventude Católica — pertencente ao Partido do Centro — começaria a ser dissolvida. Em 14 de março de 1937, o Papa Pio XI divulgou a encíclica Mit Brennender Sorge (Com Profunda Tristeza), desprezando as políticas da Alemanha nazista e afirmando que se elas continuassem a Alemanha se destruiria, tendo sido a primeira instituição religiosa a se posicionar contra o nazismo,[22] a enciclíca foi enviada à Alemanha e impressa em segredo para não ser apreendida pela Gestapo, distribuída a todos os bispos, padres e capelães e lida, simultaneamente, em todas as Igrejas da Alemanha no dia 21 de março de 1937. A reação de Hitler através da Gestapo foi violenta e recrudesceu fortemente a perseguição de católicos.[23] A partir de então milhares de padres e leigos católicos seriam presos, diversas publicações católicas foram suprimidas e a confissão violada pelos agentes da Gestapo.

A Igreja Católica também mantinha rotas de fuga usadas por opositores do nazismo, como judeus e ciganos[23] Estima-se que o Vaticano tenha salvado de 700.000 a 850.000 judeus da morte no regime nazista. "[23] O sucessor de Pio XI, o Papa Pio XII, era também considerado hostil ao nazismo. Já no dia 3 de março de 1933, o Berliner Morgenpost declarou que "Pacelli [nome do Papa Pio XII] não é aceite favoravelmente na Alemanha, já que ele sempre foi hostil ao nacional-socialismo". Como por exemplo, em 1938, quando o Cardeal Theodor Innitzer recebeu Hitler em Viena, o Papa Pio XI e o Cardeal Pacelli ficaram em suas próprias palavras "indignados" com este ato e Pacelli divulgou inclusivamente um aviso no L’Osservatore Romano declarando que a recepção a Hitler não tinha endosso da Santa Sé.[24]

A Perseguição às Igrejas ProtestantesEditar

 
Propaganda dos "cristãos alemães" em 23 de julho de 1933 na criação da "Igreja do Reich".

Os protestantes na Alemanha estavam divididos entre 150.000 pertencentes a igrejas livres, como os batistas e os metodistas e 48 milhões pertencentes a 28 igrejas luteranas e reformistas. Em 1932 os nazistas organizaram o Deutsche Glaubensbewegung, DGB (Movimento da Fé Germânica), um grupo minoritário baseado no cristianismo positivo conduzidos pelo profeta Jakob Wilhelm Hauer (1881-1962) e suscetível ao neo-paganismo sob a liderança de Ludwig Müller, que nada apresentava de caráter cristão nos seus ensinos.

No Congresso de Nuremberg, em 1937, revivia entre os nazistas o paganismo ancestral do povo ariano, surgindo um místico laicismo como um dos tópicos centrais em discussão: para que a Alemanha voltasse à sua antiga fé, não bastava a separação da Igreja e do Estado; as Igrejas cristãs teriam que ser destruídas, e o Estado transformado numa nova Igreja; impunha-se uma nova religião Nacional [25]

A fachada ou pretexto de haver uma cristã caíram com seus rituais nórdicos e mesmo antes disto o Papa Pio XI editava encíclica contra o regime. Também se formou a oposição da Igreja Confessional, que rejeitava o nazismo por intermédio de manifesto de confissão da verdadeira fé e contra o embuste nazista visto que a igreja que se tentava denominar cristã por crédulos de mitologia nórdica, uma crença tipicamente pagã e não cristã. Tanto que em julho de 1933 foi criada a Igreja Nacional do Reich, forçando a fusão das 28 igrejas protestantes luteranas e reformistas, seu bispo tornou-se Ludwig Müller.

A grande prova do caráter não cristão deste embuste de fé, travestido de cristão para dar uma a falsa sensação que a fé cristã apoiava o regime, é que durante a Segunda Guerra Mundial a Igreja do Reich proibiria a vinculação da Bíblia, substituindo-a pelo Mein Kampf e decretando que os crucifixos deviam ser substituídos pelas suásticas.[26] Em 1934 o Pastor luterano Martin Niemöller, logo ao perceber que a promoção da fé germânica era uma maquiagem para promover tirania, logo em 1934,[27] promoveu manifestos através do que se tornou a Igreja Confessante, que lutaria ardentemente contra a Igreja do Reich. Niemöller seria mandado para um campo de concentração posteriormente e centenas de leigos e pastores da Igreja Confessional seriam presos. Em 1935, Hitler indicara Hans Kerrl para o cargo de Ministro de Negócios da Igreja, para nazificar os protestantes, e a fé não era mais pregada, mais imposta por um "Comitê Eclesiástico".

Em 1934 a Declaração Teológica de Barmen, reafirmava que a Igreja Protestante Alemã não era um órgão do Estado, com o propósito de reforçar o Nazismo, mas um grupo sujeito apenas a Jesus Cristo e seu Evangelho.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Frank J. Coppa Controversial Concordats, p. 124, CUA Press, 1999
  2. Sharkey, Word for Word/The Case Against the Nazis; How Hitler's Forces Planned To Destroy German Christianity, New York Times, January 13, 2002
  3. The Nazi Master Plan: The Persecution of the Christian Churches Arquivado em 26 de setembro de 2013, no Wayback Machine., Rutgers Journal of Law and Religion, Winter 2001, publishing evidence compiled by the O.S.S. for the Nuremberg war-crimes trials of 1945 and 1946
  4. Griffin, Roger Fascism's relation to religion in Blamires, Cyprian, World fascism: a historical encyclopedia, Volume 1, p. 10, ABC-CLIO, 2006: “There is no doubt that in the long run Nazi leaders such as Hitler and Himmler intended to eradicate Christianity just as ruthlessly as any other rival ideology, even if in the short term they had to be content to make compromises with it.”
  5. Mosse, George Lachmann, Nazi culture: intellectual, cultural and social life in the Third Reich, p. 240, Univ of Wisconsin Press, 2003: "Had the Nazis won the war their ecclesiastical policies would have gone beyond those of the German Christians, to the utter destruction of both the Protestant and the Catholic Church."
  6. Bendersky, Joseph W., A concise history of Nazi Germany, p. 147, Rowman & Littlefield, 2007: “Consequently, it was Hitler’s long range goal to eliminate the churches once he had consolidated control over his European empire.”
  7. Shirer, William L., Rise and Fall of the Third Reich: A History of Nazi Germany, p. 240, Simon and Schuster, 1990: “And even fewer paused to reflect that under the leadership of Rosenberg, Bormann and Himmler, who were backed by Hitler, the Nazi regime intended eventually to destroy Christianity in Germany, if it could, and substitute the old paganism of the early tribal Germanic gods and the new paganism of the Nazi extremists.”
  8. Fischel, Jack R., Historical Dictionary of the Holocaust, p. 123, Scarecrow Press, 2010: “The objective was to either destroy Christianity and restore the German gods of antiquity or to turn Jesus into an Aryan.”
  9. Dill, Marshall, Germany: a modern history , p. 365, University of Michigan Press, 1970: “It seems no exaggeration to insist that the greatest challenge the Nazis had to face was their effort to eradicate Christianity in Germany or at least to subjugate it to their general world outlook.”
  10. Wheaton, Eliot Barculo The Nazi revolution, 1933-1935: prelude to calamity:with a background survey of the Weimar era, p. 290, 363, Doubleday 1968: The Nazis sought to "to eradicate Christianity in Germany root and branch."
  11. Steigmann-Gall, Richard (2003)' The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919-1945. Cambridge: Cambridge University Press, p. 260.
  12. Snyder, Louis L. (1981) Hitler's Third Reich: A Documentary History. New York: Nelson-Hall, p. 249.
  13. Dutton, Donald G. (2007). The Psychology of Genocide, Massacres, and Extreme Violence. Greenwod Publishing Group, p. 41.
  14. Heschel, Susannah (2008). The Aryan Jesus. Princeton NJ: Princeton University Press, p. 23.
  15. GCSE Bitesize: The Treatment of Religion; BBC; online 13 de julho de 2014
  16. Stackelberg, Roderick (2007) The Routledge companion to Nazi Germany. New York: Routledge, p. 261.
  17. Heschel, Susannah (1994). "Nazifying Christian Theology" Church History 63 (4): 587-605.
  18. N. Micklem, O Nacional socialismo e a Cristandade, Lisboa, 1940, p. 28-29
  19. Alfred E. Smith et al., Nazism: An Assault on Civilization, edição Paassen, Pierre Van and James Waterman Wise, Nova Iorque, Harrison Smith and Robert Haas, 1934, pp. 141, 150, 207, 210.
  20. Alfred E. Smith et al., Nazism: An Assault on Civilization, edição Paassen, Pierre Van and James Waterman Wise, Nova Iorque, Harrison Smith and Robert Haas, 1934, p. 141
  21. a b Racism: A History (em português: Racismo: Uma História). Documentário da BBC apresentado pela TV Escola. 2009.
  22. «Bertone, Tarcísio, Cardeal Discurso na Pontifícia Universidade Gregoriana.». Consultado em 19 de novembro de 2008 
  23. a b c Sales, Eugênio, jornal O Globo, 8 de novembro de 2008, pg.7.
  24. Hitler’s Pope. John Cornwell. Imago Editora. 2000. Pág.: 222, 239, 252 e 355 respectivamente.
  25. Edmond Vermeil, Germany in the Twentieth Century: A Political and Cultural History of the Weimar Republic and the Third Reich, Nova Iorque, 1956, pp. 194-195.
  26. Conforme o texto de Herman, op. Cit., página 297-300; também no New York Times de 3 de janeiro de 1942
  27. Leo Stein, I Was in Hell with Niemöller, pág 80