Kit Covid

defesa negacionista do uso de medicamentos sem eficácia contra a COVID-19 pelo governo Bolsonaro

O kit Covid, muitas vezes designado por tratamento precoce, é uma denominação pela qual ficou conhecida a defesa negacionista do uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a COVID-19[1][2][3] promovida pelo governo Jair Bolsonaro e seus adeptos.[4][5][6] Entre os principais fármacos defendidos por esse núcleo de pessoas estão cloroquina,[5][7] hidroxicloroquina,[5][8] ivermectina,[5][7][8][9] azitromicina,[5][8] bromexina,[5][9] nitazoxanida[5][9][10] e anticoagulantes.[5] Suplementos de zinco também foram associados ao tratamento precoce.[11][12]

Jair Bolsonaro segurando uma caixa de cloroquina em setembro de 2020.

Desde o início de seu governo, Bolsonaro procurou criar uma relação amistosa com o então presidente norte-americano Donald Trump. Com o início da pandemia de COVID-19, Trump aderiu à cloroquina e hidroxicloroquina, indicando-as como supostas drogas que poderiam "virar o jogo contra o vírus".[13] O discurso começou a ser adotado por Bolsonaro em março do mesmo ano.[14][13][15] Nos meses seguintes, a defesa do governo brasileiro por esses medicamentos contribuiu para as saídas de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich do Ministério da Saúde,[16][17][18][19][20] além do aumento no número de infecções, hospitalizações e mortes.[21][22] O governo Bolsonaro também ordenou a produção,[15][23][24] coordenou a distribuição[25] e gastou por volta de 90 milhões de reais na compra de remédios ineficazes.[26] O Ministério da Saúde, sob a gestão de Eduardo Pazuello, ampliou o uso de azitromicina, cloroquina e hidroxicloroquina para casos leves.[27][28][29]

O Kit Covid teve uma ampla repercussão negativa e foi criticado por entidades médicas e especialistas em saúde.[30][31][32] Em contrapartida, gerou confrontos de opiniões entre médicos e políticos.[33][34] Também foi pauta de judicializações e investigações de favorecimento entre agentes públicos e privados para obter lucros financeiros.[35][36]

ContextoEditar

Empossado em janeiro de 2019, o presidente Bolsonaro sempre manteve esforços para se aproximar do então presidente norte-americano Donald Trump.[37][38] Ele elogiou Trump em várias oportunidades e se posicionou a favor de pautas de interesse dos Estados Unidos.[39][40][41][42] Com o início da pandemia de COVID-19, Trump aderiu a um discurso em defesa da cloroquina, indicando-a como a droga que poderia "virar o jogo contra o vírus".[13] O presidente norte-americano teria se baseado em dois estudos, sendo um deles publicado pelo instituto IHU-Méditerranée Infection. No entanto, diversos cientistas questionaram a metodologia e as diretrizes éticas do estudo e apontaram conflitos de interesse dos autores.[13] Mais tarde, o diretor do instituto, Didier Raoult, foi denunciado pela Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (SPILF) por "promoção indevida de medicamento".[13] Em 29 de março de 2020, Bolsonaro afirmou: "Aquele remédio lá, hidroxicloroquina, está dando certo em tudo quanto é lugar, certo? Um estudo francês chegou para mim agora".[14]

No início da pandemia no Brasil, o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta seguiu as orientações sanitárias da Organização Mundial da Saúde;[43][44] contudo, as divergências entre Bolsonaro e o ministro ficaram nítidas com o passar dos dias. O presidente defendeu publicamente o uso da cloroquina e hidroxicloroquina, além de se posicionar contra o distanciamento social.[45][46] Por conseguinte, o ministro Mandetta foi demitido em 16 de abril.[47] O oncologista Nelson Teich assumiu o cargo até 15 de maio de 2020,[48][49] quando solicitou demissão em decorrência do desejo do governo de "ampliação do uso da cloroquina" para tratar pacientes com a doença e de sua percepção de que não teria autonomia para atuar à frente da pasta.[50][51] Após a saída de Teich, o general de divisão Eduardo Pazuello assumiu o Ministério de forma interina,[52][53] sendo efetivado quatros meses depois.[54][55] A gestão de Pazuello não tardou para autorizar o uso da hidroxicloroquina para pacientes com casos leves de COVID-19.[56][57][58]

Em todo o ano de 2020, Bolsonaro e Pazuello defenderam a utilização de fármacos ineficazes.[59][60][61][62] O Governo Federal, junto do Exército Brasileiro[63][64] e do Itamaraty,[65] também coordenou a aquisição, produção e distribuição de hidroxicloroquina.[15][66][67] De acordo com a Agência Pública, o exército havia fabricado e distribuído 25 mil unidades somente no mês de março de 2020.[25] No total, foram 3,2 milhões de comprimidos produzidos naquele ano.[15]

Em janeiro de 2021, o jornal Folha de S.Paulo relatou que o Ministério da Saúde estaria pressionando a prefeitura de Manaus para distribuir medicamentos do Kit Covid durante o agravamento da crise sanitária no estado do Amazonas.[68][69][70] No mesmo período, o Ministério lançou um aplicativo de celular em caráter de teste, o "TrateCov",[71] que teria a função de auxiliar profissionais da saúde, mas acessível por qualquer pessoa.[72] O aplicativo, no entanto, sugeria a prescrição de vários fármacos sem benefício contra a COVID-19.[73] Por conseguinte, gerou uma repercussão muito negativa e saiu do ar no dia seguinte do lançamento.[74]

Em maio de 2021, o ex-ministro Mandetta revelou para a comissão parlamentar de inquérito da COVID-19 (CPI da COVID-19) que o Palácio do Planalto discutiu em reunião mudar a bula da cloroquina com intenção de incluir o tratamento da doença entre as indicações previstas para o medicamento.[75][76][77] Alguns dias depois, o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, confirmou o relato de Mandetta.[78][79][80] Outra revelação da CPI da COVID-19 foi a existência do "gabinete paralelo", um grupo de médicos e empresários que assessorava o governo em defesa de medidas ineficazes, incluindo o Kit Covid.[81][82][83] O Ministério da Saúde, sob a gestão de Marcelo Queiroga, admitiu a ineficácia do kit Covid em julho de 2021.[84][85][86]

Os fármacosEditar

Cloroquina e hidroxicloroquinaEditar

 Ver artigos principais: Cloroquina e Hidroxicloroquina
Fórmulas estruturais de cloroquina (esquerda) e hidroxicloroquina (direita), fármacos sem eficácia contra a COVID-19.

Cloroquina e hidroxicloroquina são medicamentos usados em tratamento e profilaxia de malária,[87] além do tratamento de artrite reumatoide e lúpus eritematoso.[87] Os dois são medicamentos de administração oral.[87] A cloroquina apresenta efeitos adversos mais comuns, tais como problemas musculares, perda de apetite, diarreia e erupções cutâneas.[87] Entre outros efeitos adversos mais graves estão problemas com a visão, danos musculares, crises epilépticas e baixa concentração de células sanguíneas.[87] Já as reações adversas comuns da hidroxicloroquina são vômitos, dores de cabeça, alterações na visão e fraqueza muscular.[88] Os efeitos colaterais graves podem incluir reações alérgicas, problemas de visão e arritmia cardíaca.[88][89]

Os dois fármacos aumentam o pH endossomal e inibem a fusão do SARS-CoV-2 com as membranas das células hospedeiras.[90] A cloroquina também age inibindo a glicosilação da enzima conversora da angiotensina 2, que pode interferir na ligação do coronavírus ao receptor celular.[91] Estudos in vitro sugeriam que os medicamentos podem bloquear o transporte de SARS-CoV-2 dos endossomos iniciais para os endolisossomos, possivelmente impedindo a liberação do genoma viral.[92]

No entanto, apesar de demonstrar atividade antiviral em alguns sistemas in vitro, a hidroxicloroquina não reduziu as cargas virais do trato respiratório superior ou inferior e tampouco demonstrou eficácia clínica.[93] Dois ensaios clínicos randomizados realizados no Brasil e Reino Unido evidenciaram que os medicamentos não melhoraram os desfechos clínicos dos pacientes leve a moderado do que entre aqueles que receberam o tratamento padrão. O uso de hidroxicloroquina também não reduziu o risco de morte ou ventilação mecânica.[94][95]

IvermectinaEditar

 Ver artigo principal: Ivermectina
 
Fórmula estrutural da ivermectina.

A ivermectina é um fármaco usado no tratamento de vários tipos de infestações por parasitas.[96] Entre elas estão a infestação por piolhos, sarna, oncocercose, estrongiloidíase, tricuríase, ascaridíase e filaríase linfática.[96][97][98][99] Em infestações externas, pode ser administrada por via oral ou aplicada na pele.[96][100] O medicamento atua interferindo na função nervosa e muscular dos parasitas,[101][102] aumentando a permeabilidade da membrana celular do parasita, o que resulta na sua paralisia e morte.[102][96] Nos mamíferos, incluindo os humanos, a estrutura não permite que a droga ultrapassa a barreira hematoencefálica.[102] Os efeitos secundários mais comuns são olhos vermelhos, pele seca e sensação de queimadura.[96]

In vitro, a ivermectina apresentou efeitos antivirais contra vários vírus distintos de RNA de cadeia simples e senso positivo, incluindo o SARS-CoV-2.[103] Estudos subsequentes e preliminares demonstraram que a ivermectina poderia inibir a replicação de SARS-CoV-2 em cultura de células de rim de macaco, células genéricas;[104][105] contudo, atingir as concentrações plasmáticas necessárias para a eficácia antiviral detectada in vitro exigiria a administração de doses até 100 vezes maiores do que as aprovadas para uso em humanos.[106][107][108][109]

Os resultados de vários ensaios clínicos randomizados e estudos retrospectivos do uso de ivermectina em pacientes com COVID-19 não permitem uma conclusão. Alguns estudos clínicos não mostraram benefícios ou piora da doença após o uso,[110][111][112][113] enquanto outros indicaram menor tempo das manifestações da doença,[114][115][116][117] redução dos quadros inflamatórios,[115][116] menor tempo à depuração viral,[110][115] ou taxas de mortalidade mais baixas.[110][115][117] Apesar disso, a maioria desses estudos apresentava informações incompletas e limitações metodológicas significativas, que dificultam a exclusão de confusões por causas comuns.[118]

AzitromicinaEditar

 Ver artigo principal: Azitromicina
 
Fórmula estrutural da azitromicina.

A azitromicina é um antibiótico usado no tratamento de infeções bacterianas.[119] Entre as indicações mais comuns estão o tratamento de otite média, faringite estreptocócica, pneumonia, diarreia do viajante e outras infeções intestinais.[119] Pode também ser usada no tratamento de várias infeções sexualmente transmissíveis, incluindo clamídia e gonorreia.[119] Em associação com outros fármacos, pode também ser usada no tratamento de malária.[119] Pode ser administrada por via oral ou intravenosa.[119] Os efeitos adversos mais comuns são náuseas, vómitos, diarreia e indisposição no estômago.[119] Entre outros possíveis efeitos adversos, menos comuns, estão reações alérgicas, como anafilaxia, QT longo ou um tipo de diarreia causado por Clostridium difficile.[119]

O antibiótico começou a ser estudado em conjunto com outros medicamentos como alternativas de combate ao vírus da COVID-19.[120][121] Testes preliminares in vitro sugeriam alguma efetividade contra o vírus,[122][123] ​mas as evidências eram poucas e de baixa qualidade.[123][124] Testes clínicos controlados posteriores não confirmaram a presumida eficiência e um estudo mostrou que seu uso pode deteriorar a função renal em alguns pacientes.[125][126][127][128]

ImpactosEditar

Distribuição e judicializaçãoEditar

Os medicamentos foram amplamente distribuídos pelo governo federal.[25] O Exército Brasileiro, sob orientação do Ministério da Saúde, distribuiu 2,9 milhões de comprimidos de cloroquina para estados, municípios e hospitais militares.[129] Segundo a jornalista e comentarista da GloboNews, Ana Flor, o valor corresponde um aumento de 11 vezes em relação aos anos anteriores.[130] Em fevereiro de 2021, o ministro do Tribunal de Contas da União, Benjamin Zymler, autorizou um ofício que exigia explicações sobre a distribuição de cloroquina por parte destes órgãos federais.[131][132][133]

O território brasileiro registrou casos de pressão e coação em benefício da adoção do Kit Covid. Um levantamento da Frente Nacional de Prefeitos mostrou que os gestores sofreram pressões de Câmaras Municipais para adquirirem os medicamentos e projetos de lei chegaram a ser aprovados.[134][135] Na rede privada, o procedimento foi adotado por convênios como Unimed de Fortaleza, Hapvida e Prevent Senior.[136] Este último, inclusive, distribuiu tais medicamentos através do correio[137][138] e foi denunciado por antigos médicos. De acordo com esses profissionais, a operadora Prevent Senior obrigou médicos a receitar remédios sem eficácia contra a Covid-19.[139][140][141] Empressas também foram responsáveis por distribuir o Kit Covid a funcionários.[142]

No âmbito legal, a Justiça Federal determinou a interrupção das campanhas de incentivo ao uso do Kit Covid por parte do governo federal.[143][144][145] Segundo a decisão da juíza Ana Lúcia Petri Betto, a Secretaria Especial de Comunicação Social foi obrigada a se abster de "patrocinar ações publicitárias, por qualquer meio que seja, que contenham referências, diretas ou indiretas, a medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, especialmente com expressões como ‘tratamento precoce’ ou ‘kit-covid’ ou congêneres".[146] Já o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul proibiu a distribuição dessas drogas em Porto Alegre.[147][148]

Na saúdeEditar

Os efeitos colaterais e o uso generalizado dessas drogas causaram lesões e danos em rins e fígado, além de arritmia cardiáca.[149] Os hospitais brasileiros começaram a identificar casos de hepatite medicamentosa,[150][151][152][153] o que resultou no aumento da fila de transplantes hepáticos.[154][155][156] O país também começou a registrar falecimentos em decorrência do uso de cloroquina e hidroxicloroquina,[157][158][159] sendo que em alguns casos a vítima foi tratada com os fármacos sem ciência ou autorização da família.[160][161][162]

De acordo com alguns especialistas, o Kit Covid ainda apresenta um efeito indireto ao gerar uma falsa sensação de segurança na população, provocando o relaxamento das medidas sanitárias realmente efetivas.[22][20] A falsa segurança também tende a retardar a procura por atendimento médico.[22][20] Já o uso generalizado de antibióticos, como a azitromicina, pode aumentar a resistência antimicrobiana.[163][164][165]

Notícias falsasEditar

O Kit Covid também foi pauta de notícias falsas propagadas por perfis apoiadores do governo nas redes sociais.[166] Em geral, tais notícias tinham como objetivo desmentir a ineficácia comprovada dos medicamentos do Kit Covid.[166][167] O Brasil, inclusive, foi o país que mais registrou informações falsas sobre cloroquina em 2020.[166]

Por essa razão, inúmeros sítios e entidades publicaram esclarecimentos sobre tais informações, como o periódico Aos Fatos,[168] o portal G1,[169][170][171] o jornal da Universidade de São Paulo,[172] o Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade,[173] e até mesmo a Fundação Oswaldo Cruz.[174]

FinanceiroEditar

O governo Bolsonaro foi responsável por coordenar compras, distribuições e propagandas do Kit Covid. De acordo com um levantamento da BBC Brasil, a aquisição desses fármacos custou quase 90 milhões de reais.[26][175] Já a distribuição de hidroxicloroquina e azitromicina em farmácias populares custou por volta de 250 milhões de reais.[176] O governo também gastou cerca de 23 milhões de reais em propagandas,[177][178] sendo 1,3 milhão usado para financiar influenciadores digitais.[179]

A comercialização desses medicamentos indicados para o tratamento precoce aumentou e alavancou o setor farmacêutico no Brasil.[180] A Anvisa informou que a comercialização de ivermectina cresceu 628% em 2020 na comparação com o ano anterior. Em 2019, o medicamento havia vendido cerca de sete mil embalagens; contudo, as desinformações durante a pandemia fez com que o número subisse para 56 mil embalagens.[181] Um levantamento do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), com base em dados da consultoria americana IQVIA, apontou que a venda da ivermectina teve um aumento de 829% em 2020, aumentando de 44,4 milhões de reais em 2019 para 409 milhões de reais em 2020.[182] No mesmo período, a venda de cloroquina subiu 47%,[181] o que resultou em um aumento na receita de 55 milhões para 91,6 milhões de reais.[182] Já as empresas farmacêuticas registraram um crescimento significativo no faturamento com as vendas de cloroquina.[183]

O impacto financeiro do Kit Covid resultou em suspeitas de favorecimento entre agentes públicos e privados com o objetivo de lucrar financeiramente com a pandemia da Covid-19.[35][36] A Vitamedic, uma das fabricantes do medicamento ivermectina no país, patrocinou um manifesto da associação Médicos pela Vida em defesa do tratamento precoce.[184][185][186][187]

RepercussãoEditar

Posicionamentos de entidades e especialistasEditar

 
Sede da OMS em Genebra, Suíça.

As principais agências de saúde reprovaram ou desaconselharam o uso dos fármacos integrantes do Kit Covid. A Solidarity Therapeutics Trial, uma plataforma coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), concluiu a ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento da doença. Os resultados foram obtidos após um dos maiores ensaios randomizados do mundo.[188][189][190] Em 2 de março de 2021, a OMS publicou uma diretriz na qual pede fortemente que a hidroxicloroquina não seja usada como tratamento preventivo da COVID-19.[191][192][193][194] A agência também se manifestou recomendando que a ivermectina não seja usada em pacientes de COVID-19, salvo nos ensaios clínicos.[195][196] De acordo com a entidade, o estudo que revisou dados de dezesseis ensaios clínicos randomizados afirmou que os dados disponíveis não permitem concluir a eficácia do fármaco devido às limitações metodológicas.[195] Os fármacos também foram desaconselhados por outros órgãos e entidades de suma relevância, tais como: a Agência Europeia de Medicamentos,[197][198] a Food and Drug Administration[199][200] e a Anvisa.[201][202] Em fevereiro de 2021, a Merck Sharp and Dohme, farmacêutica que desenvolveu a ivermectina, publicou um comunicado oficial reforçando a tese de que não há evidências científicas da eficácia do fármaco no tratamento da COVID-19 em testes pré-clínicos.[203][204]

No Brasil, 81 entidades médicas divulgaram um documento no qual defendem que os medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 devem ter sua utilização "banida".[205][206][207] A manifestação ocorreu em um boletim do Comitê Extraordinário de Monitoramento da Covid-19, grupo liderado pela Associação Médica Brasileira (AMB).[208][209] Em contrapartida, o Conselho Federal de Medicina autorizou a prescrição médica dos medicamentos do Kit Covid ainda em 2020.[210] Esta contradição entre a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina foi indicada pelo jornal O Estado de S. Paulo como um exemplo da influência da polarização promovida por Bolsonaro nas entidades de classe.[211]

"Para cloroquina e hidroxicloroquina, nós temos mais de 30 trabalhos feitos no padrão ouro que mostram que esses medicamentos não servem para covid-19. Para ivermectina, nós temos trabalhos também que demonstram que não serve e uma série de trabalhos que são muito malfeitos e muito inconclusivos."

Pasternak.[210]

Discorrendo sobre o assunto, a microbiologista Natalia Pasternak ressaltou que existem vários tipos de estudos científicos que têm sido reportados para tentar validar o uso do chamado Kit Covid ou tratamento precoce. Segundo ela, os melhores estudos nessa área mostram que vários componentes desse kit já foram desmentidos.[210] Já o cientista e médico Drauzio Varella considerou a prescrição de remédios sem eficácia comprovada "uma irresponsabilidade".[212] Ele também afirmou que essa discussão sobre tratamento precoce foi "armada para desviar a atenção" e uma estratégia de Bolsonaro para disseminar o vírus: "O que ele podia dizer? 'Pode ir à rua, não seja maricas, forme aglomerações. Mas se você ficar doente, pode ser que você não ache vaga na UTI'. Ele não poderia dizer isso, não é mesmo? Então qual foi a estratégia? Se você ficar doente e pegar o vírus, faça o tratamento precoce com cloroquina ou ivermectina."[213]

O cientista e médico Miguel Nicolelis criticou o presidente Bolsonaro por ofender de "canalhas" os opositores do tratamento precoce: "Enquanto mundo usa a ciência para escapar da pandemia, no Brasil os cientistas são tachados de canalhas", lamentou. Ele complementou: "são os cientistas canalhas que vão tirar o Brasil dessa crise infernal" e comparou o número de vítimas brasileiras pela doença com o número de vítimas da Batalha de Stalingrado.[214]

Na políticaEditar

O Kit Covid foi considerado mais uma tentativa de Bolsonaro de minimizar a gravidade da pandemia e polarizar o assunto.[215] Esta ação foi bem sucedida já que resultou em embates na classe política que impactaram em estados e municípios,[216][217][34] além de dificultar a adoção de políticas públicas no combate à pandemia.[218] Bolsonaro, por sua vez, reiterou o incentivo por esses medicamentos[219] e chegou a ofender os opositores de "canalhas".[220][221][222]

Na política, líderes da oposição criticaram o discurso de Bolsonaro[223] e solicitaram investigações.[224][225] No Senado Brasileiro, o líder da oposição Randolfe Rodrigues, além dos senadores Renan Calheiros e Humberto Costa deixaram a sessão da CPI da Covid com os médicos infectologistas convidados para falar na comissão a favor do tratamento precoce.[226] Por outro lado, a base congressista de apoio ao governo defenderam o Kit Covid.[227] Os senadores Luis Carlos Heinze e Jorginho Mello citaram, respectivamente, os municípios de Rancho Queimado e Chapecó como exemplos positivos do tratamento precoce.[228][229] No entanto, as taxas de letalidade e internações nesses dois municípios continuaram dentro o padrão.[230][231][232]

Ver tambémEditar

Referências

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