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Léa Garcia
Nome completo Léa Lucas Garcia de Aguiar
Nascimento 11 de março de 1933 (86 anos)
Rio de Janeiro, RJ
Nacionalidade brasileira
Ocupação Atriz
Atividade 1950–presente
Outros prêmios
Melhor Atriz no Festival de Gramado
2004 — As Filhas do Vento
Brazilian Film Festival of Toronto
2013 — Acalanto
Indicações
Prêmio Festival de Cannes de Melhor Interpretação Feminina
1957 — Orfeu Negro

Léa Lucas Garcia de Aguiar (Rio de Janeiro, 11 de março de 1933) é uma atriz brasileira. Foi indicada ao prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes em 1957 por sua atuação no filme Orfeu Negro, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro.[1]

BiografiaEditar

Nascida na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, no ano de 1933, Léa Lucas Garcia de Aguiar tornou-se atriz em um momento da história em que esse não era um trabalho comum para mulheres negras. Filha de Stela Lucas Garcia e José dos Santos Garcia, passou a morar com sua avó aos 11 anos, quando sua mãe morreu. Desde jovem, demonstrou o desejo de se envolver com o universo artístico, mas em outro campo. Queria cursar Letras para ser escritora.

Seu destino mudou ao conhecer Abdias Nascimento. O dramaturgo e ativista apresentou a ela a sua estante de livros e sugeriu a leitura das tragédias gregas. Depois, a convenceu a subir no palco pela primeira vez, na peça Rapsódia Negra (1952), do próprio Abdias, encenada pelo Teatro Experimental do Negro. A partir de então, a paixão pelas artes cênicas se impôs.

Trabalhando em teatro, TV e cinema, Léa Garcia consolidou uma carreira de papéis marcantes como a Rosa, de Escrava Isaura, novela que a tornou conhecida do público, e venceu a barreira dos personagens tradicionalmente destinados a atrizes negras. Tornou-se, assim, uma referência para jovens atores e admirada pela qualidade de suas atuações.

CarreiraEditar

No teatro, uma das peças de destaque que fez no início de sua trajetória foi Orfeu da Conceição (1956), de Vinicius de Moraes. Cotada primeiro para ser Eurídice, Léa Garcia se encantou com a personagem Mira e conseguiu o papel. Os ensaios se realizaram na casa do próprio Vinicius e a estreia aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com cenários de Oscar Niemeyer. No elenco estavam Haroldo Costa, Zeni Pereira, Pérola Negra e Ciro Monteiro.

 
Léa Garcia em Paris (1960).

Um filme foi feito depois, a partir da peça, com o nome Orfeu Negro e direção do francês Marcel Camus. Em vez da Mira, a atriz viveu a Serafina no longa-metragem. “As gravações eram ótimas, os franceses se apaixonaram pelos atores, nos acordavam cantando ‘manhãã’, com sotaque. Esse personagem me valeu o segundo lugar na Palma de Ouro, em Cannes”, conta Léa em entrevista ao Memória Globo. 

A estreia em televisão se deu no Grande Teatro da TV Tupi, na década de 1950. Na emissora, participou também do programa Vendem-se Terrenos no Céu, em 1963. O convite para trabalhar na Globo aconteceu em 1970, quando ela integrou o elenco de Assim na Terra como no Céu, de Dias Gomes. Na trama, era Dalva, empregada do personagem de Jardel Filho. Ele inventa que ela era uma princesa de Tobocobucu e passa a frequentar as festas dos grã-finos acompanhado da empregada.

Depois, fez Minha Doce Namorada (1971), de Vicente Sesso, dirigida por Daniel Filho, Régis Cardoso e Fernando Torres, e O Homem que Deve Morrer (1971), de Janete Clair, novela que trazia a história de dois casais inter-raciais, novidade à época. Léa Garcia trabalhou também na TV Rio, onde atuou em Os Acorrentados (1968), de Janete Clair, ao lado Dina Sfat, com Beth Faria, Monah Delacy e Ivone Hoffmann.

Na Globo, a atriz teve a oportunidade de participar do primeiro programa gravado inteiramente em cores no país, Meu Primeiro Baile, Caso Especial exibido em 1972. No mesmo ano, foi convidada para ser a Elza, uma secretária em Selva de Pedra, novela de Janete Clair que teve bastante sucesso. “A novela tinha um enfoque muito forte, o drama da Dina Sfat com a Regina Duarte. A Regina era a namoradinha do Brasil, sempre muito querida pelo público, e a Dina também era querida, uma atriz forte”, compara.

Na emissora, atuou em Os Ossos do Barão (1973), de Jorge Andrade, ao lado de Paulo Gracindo, e em mais uma novela de Janete Cair, Fogo Sobre Terra (1974), quando contracenou com Herval Rossano, antes de ele se tornar diretor. Em ambas, esteve no papel de empregada, mas em Fogo Sobre Terra de forma diferente e conhecendo a censura. Depois de gravar uma cena em que matava o patrão, precisou regravá-la, para evitar o que poderia ser considerado “mau exemplo”.

No ano seguinte, 1975, integrou o elenco de A Moreninha, de Marcos Rey. Duda, sua personagem, apaixonava-se por Simão, escravo que havia fugido e era interpretado por Haroldo de Oliveira. O maior sucesso da carreira aconteceu na próxima novela, Escrava Isaura (1976), um fenômeno de audiência no Brasil e no exterior.

Foi a primeira vilã de Léa Garcia na TV, o que lhe rendeu também problemas, além do reconhecimento de público. A atriz sofreu inclusive violência física de pessoas que não conseguiam separar a personagem da vida real. Mas ela ressalta que a Rosa, na condição de escrava, lutava com as armas que tinha, o que era de difícil compreensão pelos telespectadores.

 
Léa como a vilã Rosa em Escrava Isaura (1976).

Fugindo dos personagens convencionais, Léa Garcia foi a Leila da novela Marina (1980), de Wilson Aguiar Filho. Como professora de história de um colégio caro, em São Paulo, vê sua filha sofrer preconceito e tem a chance de contar na TV a verdadeira história de Zumbi dos Palmares. Ainda na Globo, participou da minissérie Bandidos da Falange, de Aguinaldo Silva, em 1983.

Depois de uma passagem pela TV Manchete, onde fez duas novelas na emissora, em seguida – Dona Beija (1986), de Wilson Aguiar Filho, e Helena (1987), de Mario Prata –, a atriz volta à Globo para atuar na minissérie Abolição (1988), de Wilson Aguiar Filho, realizada em homenagem ao centenário da abolição da escravatura. Em outra produção densa, a minissérie Agosto (1983), de Jorge Furtado e Giba Assis Brasil, que se passa durante a crise do governo Vargas, Léa Garcia viveu Sebastiana, uma mulher que não se dá conta da dimensão do momento político nem do que acontece em volta dela.

O trabalho seguinte foi A Viagem, rm 1994,, de Ivani Ribeiro, em que seu personagem era responsável por explicar à protagonista, vivida por Christiane Torloni, que ela tinha morrido. Um ano depois, Léa Garcia trocou de emissora mais uma vez, atuando em Tocaia Grande (1995), de Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini, e em Xica da Silva (1996), de Walcyr Carrasco, produções da TV Manchete. Nesta última, foi uma mulher de 150 anos que aparece em cima de uma pedreira, depois num ritual de magia negra. Para viver o personagem, precisou passar o dia inteiro com colágeno. A atriz atuou também na TV Bandeirantes, na novela O Campeão (1996), de Mário Prata e Ricardo Linhares.

Dirigida por Denise Saraceni, Léa Garcia volta à Globo e é escalada para o elenco de Anjo Mau (1997), de Maria Adelaide Amaral. Na novela, pôde trabalhar com atrizes de quem gosta, como Taís Araújo. No papel de Cida, era mãe das personagens de Taís e de Luiza Brunet, que escondia sua origem. Depois de uma participação em O Clone (2001), de Gloria Perez, a atriz tem uma nova experiência em outra emissora, a Record, nas novelas Cidadão Brasileiro (2006), de Lauro César Muniz; Luz do Sol (2007), de Ana Maria Moretzsohn; e A Lei e o Crime (2009), escrita por uma série de roteiristas.

Entre os filmes dos quais Léa Garcia participou ao longo de sua trajetória, está As Filhas do Vento (2005), vencedor de diversos prêmios no Festival de Gramado. Realizado por um diretor negro, Joel Zito Araújo, com um elenco de atores negros, a produção tem temática racial e conta uma história de redenção amorosa entre irmãs. Com o curta-metragem, Acalanto (2012), de Arturo Saboia, baseado num conto de Mia Couto, ela ganhou o segundo Kikito, em 2013. Em 2017, gravou outro curta-metragem, Acúmulo, de Gilson Junior, no qual é protagonista. Léa Garcia é também roteirista e tem escrito, para cinema, adaptações de textos de autores negros, como Cidinha da Silva, Luiz Silva Cuti e Muniz Sodré.

O retorno à Rede Globo ocorreu em 2016, em Êta Mundo Bom!, de Walcyr Carrasco, dirigida por Jorge Fernando, com quem ainda não havia trabalhado. Logo depois, fez Sol Nascente, de 2016, escrita por Walther Negrão, Júlio Fischer e Suzana Pires. Um de seus trabalhos mais recentes aconteceu durante a terceira temporada de Mister Brau, de Jorge Furtado, em 2017.

FilmografiaEditar

TelevisãoEditar

Ano Título Papel Notas
1960 Cinéparonama Apresentadora
1969 Acorrentados Irmã Serafina
1970 Assim na Terra como no Céu Dalva
1971 O Homem que Deve Morrer Luana
Minha Doce Namorada
1972 Selva de Pedra Elza
Caso Especial Sônia Episódio: "Meu Primeiro Baile"
1973 Os Ossos do Barão Marlene[2]
1974 Caso Especial Episódio: "Feliz na Ilusão"
Fogo Sobre Terra Lana
1975 A Moreninha Duda
1976 Escrava Isaura Rosa
1978 Maria, Maria Rita de Cássia
1979 Plantão de Polícia Episódio: "Vampiros Tropicais"[3]
1980 Marina Leila
1983 Bandidos da Falange Gladys
Caso Verdade Ana Episódio: "Caso Adílio - O Craque da Esperança"
Episódio: "Meninos do Recife"
1986 Dona Beija Flaviana
1987 Helena Francisca (Chica)
1988 Abolição Aparecida
1989 Pacto de Sangue Rute
1990 Araponga Raimunda (Mundica)
Desejo Mariana
1993 Agosto Sebastiana
1994 A Viagem Natália Episódio: "24 de setembro"
Episódio: "14 de outubro"
1995 Tocaia Grande Isabel
1996 Você Decide Episódio: "O Professor"
Ruth Episódio: "Retrato em Preto e Branco"
O Campeão Jerusa
Xica da Silva Sebastiana (Bastiana)
1997 Anjo Mau Aparecida Noronha Ribeiro (Cida)[4]
1999 Você Decide Episódio: "Juízo Final"
Suave Veneno Selma Ribeiro
2001 O Clone Lola da Silva
2006 Cidadão Brasileiro Dadá
2007 Luz do Sol Edite
2009 A Lei e o Crime Clara
2010 A História de Ester Rarã
2016 Êta Mundo Bom Mazé [5] Episódio: "18 de janeiro"
2017 Sol Nascente Luzia
Mister Brau Dona Antônia Episódio: "9 de maio"
2018 Assédio Conceição Duarte Silva[6]
Sob Pressão Dona Leda Episódio: "13 de novembro"
2019 Carcereiros Clotilde Episódio: "Amores Brutos"

CinemaEditar

Ano Título Papel
1959 Orfeu Negro Serafina
1960 Os Bandeirantes Hermínia
1963 Ganga Zumba Cipriana
1964 Santo Módico
1974 O Forte Damiana
1975 Compasso de Espera Zefa
1976 Feminino Plural
1977 Ladrões de Cinema Carlota Escrava[7]
1978 A Deusa Negra
1979 A Noiva da Cidade Manuela[8]
1984 Quilombo
1998 Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro Carolina
1999 Orfeu Mãe de Maicol
2002 Viva Sapato! Mãe de Santo [9]
2005 As Filhas do Vento Ju (Maria da Ajuda)
Vinícius
2006 Memórias da Chibata Avó de Juca
Mulheres do Brasil Eunice
Nzinga Mãe de Santo
O Maior Amor do Mundo Zezé
2007 Remissão Anita
2009 Dias Amargos Mira
2012 Billi Pig Tia Ludmila
Sudoeste Dona Iraci
Acalanto Luzia
2014 O Dia de Jerusa Jerusa Anunciação Mamede[10]
2019 Boca de Ouro Preta [11]

TeatroEditar

Ano Título Direção Ref
1954 Festival O'Neill
Abdias Nascimento
[12]
1956 Orfeu da Conceição
Léo Jusi
[13]
1957 Perdoa-me por Me Traíres [14]
Sortilégio: Mistério Negro [15]
1983 Piaf, a vida de uma estrela da canção
Flávio Rangel
[16]
1994 Anjo Negro
Ulysses Cruz
[17]

Prêmios e IndicaçõesEditar

Ano Premiação Categoria Nomeação Resultado
1957 Festival de Cannes Melhor Interpretação Feminina 
Orfeu Negro
Indicado
2004 Festival de Gramado Melhor Atriz
As Filhas do Vento
Venceu
2006 Jornada Internacional de Cinema da Bahia[18][19][20] Melhor Atriz
Memórias da Chibata
Venceu
2009 Festival de Natal Melhor Atriz
Dias Amargos
Venceu
2013 Festival de Gramado Melhor Atriz
Acalanto
Venceu
Brazilian Film Festival of Toronto Melhor Atriz Venceu
2014 Festival de Cuiabá Melhor Atriz Venceu

Referências

  1. «A França no Oscar: veja a lista dos filmes franceses premiados». Consultado em 2 de Junho de 2016 
  2. Os Ossos do Barão
  3. Plantão de Polícia
  4. Anjo Mau - 2ª Versão
  5. Bittencourt, Carla (16 de janeiro de 2016). «'Êta mundo bom!': Recém-nascido, Candinho é deixado em rio». Extra! on-line. Consultado em 22 de janeiro de 2016 
  6. «Conheça a história e os personagens da série Assédio». 17 de setembro de 2018. Consultado em 31 de outubro de 2018 
  7. «Ladrões de Cinema». Cinemateca Brasileira. Consultado em 11 de dezembro de 2017 
  8. Cinemateca Brasileira, A Noiva da Cidade [em linha]
  9. «Viva Sapato!». Cinemateca Brasileira. Consultado em 11 de dezembro de 2017 
  10. Adalberto Meireles (24 de maio de 2014). «Curta sobre a memória ganha exibição em Cannes». A Tarde. Consultado em 13 de outubro de 2014 
  11. «Boca de Ouro». Globo Filmes. Consultado em 10 de junho de 2019 
  12. FESTIVAL O'Neill. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento423387/festival-oneill>. Acesso em: 01 de Set. 2019.
  13. ORFEU da Conceição. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento397515/orfeu-da-conceicao>. Acesso em: 01 de Set. 2019
  14. PERDOA-ME por Me Traíres. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento401146/perdoa-me-por-me-traires>. Acesso em: 01 de Set.
  15. SORTILÉGIO: Mistério Negro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento401147/sortilegio-misterio-negro>. Acesso em: 01 de Set. 2019.
  16. PIAF, a vida de uma estrela da canção. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento585984/piaf-a-vida-de-uma-estrela-da-cancao>. Acesso em: 01 de Set. 2019.
  17. ANJO Negro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento392553/anjo-negro>. Acesso em: 01 de Set. 2019
  18. http://www.forumdosfestivais.com.br/noticias_comp.php?id=502 Arquivado em 13 de julho de 2015, no Wayback Machine. FÓRUM DOS FESTIVAIS
  19. http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2006/not20060917p2668.htm JORNAL O Estado de S. Paulo
  20. http://www.imdb.com/event/ev0000077/2006 INTERNET MOVIE DATABASE

Ligações ExternasEditar