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Alunos e professores do Instituto de Artes em 1925. Libindo Ferrás está na extrema direita.

Libindo Ferrás (Porto Alegre, 1877Rio de Janeiro, 1951) foi um pintor e professor brasileiro.

Inicialmente dedicou-se à pintura em caráter amador, embora tenha recebido aulas de Ricardo Albertazzi. Inaugurou sua carreira expondo no início de 1896 pequenas telas na vitrine da casa comercial O Preço Fixo, onde uma delas foi notada por Olinto de Oliveira, que em sua coluna no jornal Correio do Povo, embora assinalasse o caráter amador da obra, percebeu que ali havia um talento fora do comum, incentivando o autor. Porém nesta época Libindo ainda não imaginava tornar-se um pintor profissional, estando em meio a estudos preparatórios para o curso de Engenharia. Em 1897 já estava no Rio de Janeiro, onde deveria prosseguir seu curso na Escola Politécnica, mas antes de completar um ano abandonou as aulas e embarcou para a Itália.[1]

Lá permaneceu por dois anos, de 1897 a 1899, e pouco se sabe o que fez. Eduardo Guimarães disse que o artista visitou muitas cidades italianas, demorando-se especialmente em Roma, Turim, Milão e Nápoles, onde teria recebido lições de vários mestres e entrado em contato com os famosos museus e monumentos locais. Voltando a Porto Alegre, não instala de imediato um ateliê, dedicando-se antes a uma vida boêmia e perambulando por diversas atividades, mas expondo com frequência nos salões de pintura locais.[1] Sua produção nesta fase chamou a atenção de vários críticos. Pinto da Rocha, diretor da Gazeta do Comércio, falou sobre ele em 1903:

"Libindo Ferrás é uma das organizações mais completas que temos conhecido em pintura. Não lhe falta talento, sobra-lhe sentimento, conhece o desenho, sabe ver, compreende bem o meio, mas ... não tem constância nem persistência. Hoje dedica-se afetuosamente ao esporte do ciclismo, amanhã abandona o guidão e entrega-se à música, depois deixa a escala cromática e empunha os pincéis, em seguida larga a palheta e perde-se na matemática, aborrece-se da álgebra e vai ao tiro-ao-alvo, abandona as pistolas e agarra-se ao florete, arremessa as armas para longe e volta à pintura! [...] Desenha de todas as formas, pinta de todos os modos, lê todos os gêneros, conhece quanto instrumento há, joga todas as armas, sabe de todos os jogos, desde o xadrez ao gamão, desde o lansquenet à bisca lambida, não é exímio em coisa alguma e, no entanto podia ser um bom, um notável pintor. [...] Libindo não tem constância, borboleteia, e por isso não é um artista consumado, mas um belíssimo, notável amador, cheio de talento, ao qual se faria enorme serviço prendendo-o para obrigá-lo a pintar, pintar e pintar". [1]

Entretanto, essa vida inconstante teria um fim em 1908, quando participou da fundação do Instituto Livre de Belas Artes do Rio Grande do Sul (ILBA), em assembleia convocada pelo presidente do estado Carlos Barbosa Gonçalves. Em 1909 foi fundado no ILBA um Conservatório de Música, e em 1910, por iniciativa de Libindo, foi criada no mesmo Instituto uma Escola de Arte. Libindo foi no mesmo ato indicado primeiro diretor e professor da Escola.[2] O projeto original previa o ensino teórico e prático das Artes Plásticas, abrangendo Desenho, Arquitetura, Escultura, Artes Aplicadas e Ofícios. Nesta função permaneceria até a incorporação da Escola à Universidade de Porto Alegre, em 1936.[1] Na fundação do Instituto estava implícito um ambicioso projeto civilizatório apoiado e em parte financiado pelo governo que incluía a criação de uma rede de escolas e conservatórios pelas principais cidades do Rio Grande do Sul. Essa rede pertencia à mantenedora, representada pela Comissão Central do Instituto Livre de Belas Artes, na qual Libindo tinha um assento. Apesar da boa vontade, o projeto enfrentou obstáculos multiplicados e levou muito tempo para se estruturar. Nos primeiros tempos só pôde ser ministrada a disciplina de Desenho. Aos poucos foram introduzidas as disciplinas de Perspectiva e Anatomia. A disciplina de Pintura só foi introduzida em 1926, enquanto a Escultura, a História da Arte e a Arquitetura, só depois de Libindo deixar a casa.[3]

Paisagem, óleo sobre tela, 1929.

Neste período produziu grande quantidade de obras principalmente na técnica do óleo e na temática da paisagem, e firmou a reputação, que até hoje perdura, de um dos principais artistas gaúchos da primeira metade do século XX.[1] Guimarães resumiu sua obra da seguinte forma:

"Em suas telas, os recantos da natureza gaúcha, as plantas e as matas, arvoredos e sous-bois, solitários ranchos, encantos de folhagem à beira d'água, barrancos em flagrante admirável, searas, os horizontes cortados de serras, os magníficos céus do Rio Grande — Libindo os reproduzia não com a exatidão insensível dos fotógrafos mas com a verdade da arte, a justa visão do colorido, a segura ciência da perspectiva, a escolha consciente dos aspectos quase sempre tocados duma suave, emocionada e comunicativa poesia, que tornava sua obra a de um artista de talento que antes de mais nada prezava a virtude de ser sincero".[1]

Apesar de ter recebido uma formação errática, reuniu todos os instrumentos necessários ao ofício de pintor acadêmico, o que na época significava um vasto cabedal de conhecimentos em diversos domínios teóricos e práticos. Privilegiando a paisagem em telas e aquarelas, num retrato discreto e poético da sua terra, com uma técnica econômica e tradicional, foi em tudo modesto e equilibrado. Não se apresentou com tambores e clarins, não louvou os poderosos, não quis dar um rosto aos eventos históricos. Não cedeu aos excessos românticos, nem aos neoclássicos, e tendeu ao realismo. Não pintou nenhuma tela de grandes dimensões, e algumas das suas melhores estão entre as menores. Recebeu muitos elogios, participou de numerosas exposições e recebeu menção honrosa no Salão Nacional de 1925. Porém, a geração que o sucedeu em Porto Alegre, quando ele já estava no Rio, queria mudanças mais profundas, e seu estilo logo começou a parecer ultrapassado. Com todos os limites que se impôs em forma e conteúdo, e mesmo em termos de divulgação, nunca se inserindo nas altas rodas artísticas do Rio e São Paulo, e depois do massacre que os modernistas impuseram aos acadêmicos, a crítica recente voltou a reconhecer sua valiosa contribuição para a pintura no Rio Grande do Sul, colocando-o entre os principais artistas gaúchos de sua geração e por certo tempo o maior pintor em atividade permanente no estado.[1][4][5] Segundo o historiador Sérgio da Costa Franco, Libindo Ferrás "foi um reputado pintor acadêmico, com influência em várias gerações de estudantes de arte". Para Athos Damasceno, Libindo teve um início de carreira bastante promissor e original, mas após encontrar um estilo pessoal seu talento conformou-se a uma fórmula um tanto avessa a inovações, mas que não obstante produziu uma das mais sólidas carreiras do paisagismo gaúcho.[1] Paradoxalmente, até hoje sua obra é pouco estudada.[4]

Aula de anatomia no Instituto Livre, dirigida por Libindo Ferrás, 1928.

Era considerado um grande professor, atento e sensível, disciplinado, ganhando influência sobre gerações de novos artistas. Como sensível paisagista, Libindo sempre favoreceu a pintura ao ar livre, levando seus alunos com ele a pintar pelos arrabaldes semi-rurais da capital.[6] Sua atuação para as artes do Rio Grande do Sul e mais especificamente de Porto Alegre foi fundamental tanto no âmbito artístico e pedagógico quanto no institucional.[5] Foi o único artista plástico entre os 25 membros fundadores da Comissão Central do Instituto Livre de Belas Artes e um dos principais responsáveis pela sobrevivência da Escola de Arte em seus primeiros anos, em que permaneceu sempre prejudicada pela falta de verbas, de mestres e de boas instalações, tornando-se respeitado como um líder e um empreendedor.[6] Ele foi um faz-tudo. Até 1913 foi o único professor da Escola. Até 1922 teve apenas um ou dois colaboradores, que estavam sempre em trânsito e nunca permaneciam muito tempo, e de 1922 até 1936, quando se aposentou, só contou com a colaboração permanente de um outro professor, Francis Pelichek. Tudo era precário, limitado e improvisado. Apesar disso, fez-se muito. Colaboradores temporários de renome passaram pela escola, como Pedro Weingärtner, Helios Seelinger, Eugênio Latour, Oscar Boeira e Augusto Luis de Freitas. Libindo iniciou a formação de uma biblioteca e de uma coleção de arte, a origem da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. A escola superou-se e se firmou.[7][3]

Libindo foi um instrumento de grande valia para o programa que os governos estadual e municipal desenvolviam na época, buscando renovar o estado sob o signo do positivismo. A cultura passara a ser um valor importante a ser cultivado por seus próprios méritos e pelos benefícios que produz, mas também era um símbolo a ser ostentado, uma prova do progresso atingido e do sucesso dos planos governistas. Em parte por temperamento, em parte pela formação que teve e pelo meio em que atuou, fortemente ligado ao governo e ao seu programa ideológico, Libindo ajudou a perpetuar uma linhagem estética para a pintura gaúcha alinhada mais ao academismo que ao modernismo, um programa conservador que era favorecido pelo governo e pelas elites, que queriam o progresso, mas o queriam disciplinado e organizado, sem grandes atritos, sem mudanças traumáticas no status quo. Essa tendência permaneceria por muitos anos no seio da academia gaúcha, e só começaria a quebrar-se em meados do século XX, quando o modernismo triunfa em todas as frentes.[7][3]

A fundação do Instituto de Belas Artes foi parte importante neste processo de renovação das artes estaduais, e a institucionalização do ensino da arte em nível superior representou um avanço inegável, não havendo até então em todo o estado escola que fosse comparável. Com muitos esforços, o IBA veio a se tornar, anos depois, a principal referência institucional para a produção, estudo e discussão da arte no Rio Grande do Sul, e tornou Porto Alegre definitivamente o principal polo irradiador de influência nas artes gaúchas. Nesta ilustre trajetória o papel de Libindo como um dos pioneiros e protagonistas é indisputado.[7][3] Para Angelo Guido, se quando jovem seu talento foi disperso, na maturidade ele "cumpriu importante missão como condutor do processo de desenvolvimento de um sistema de produção e ensino de arte". Para Neiva Bohns, "compelido a assumir funções administrativas que foram fundamentais para a estruturação do ensino de arte do sul do país", foi "um dos mais importantes e persistentes incentivadores da produção artística rio-grandense".[5] Nas palavras de Círio Simon, professor do Instituto e seu principal historiador,

"Na construção institucional das artes em Porto Alegre, Olímpio Olinto Oliveira e Libindo foram solidários e complementares em vários momentos. Libindo dedicou-se, durante quase três décadas, à tarefa da construção institucional para que as artes plásticas tivessem o que a cultura local lhe poderia oferecer naquele momento. Libindo desempenhou a liderança no âmbito da Escola de Arte à semelhança do que Olinto exercia do ILBA. [...] A vida, o trabalho e a obra de Libindo Ferrás são documentos das possibilidades e dos limites que as artes visuais encontraram institucionalizados ao longo de República Velha em Porto Alegre. [...] Conseguiu provar que a sua vocação e todas as suas energias, deveriam devotar-se à instituição, que nasceu por sua proposta. Dentro das normativas do Instituto local deve-se a Libindo a tentativa de criar um Salão de Artes e de abrir ao espaço externo, em direção à construção de um sistema de Artes Plásticas".[7]

Depois de se aposentar, Libindo partiu para o Rio de Janeiro, onde deixou poucos traços. Ali veio a falecer. Possui diversas obras no acervo do MARGS, no Acervo Artístico da Prefeitura de Porto Alegre, na Pinacoteca da APLUB, na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo e outras coleções privadas e públicas.

Referências

  1. a b c d e f g h Damasceno, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1971, pp. 403-407
  2. Bispo, A. A. "Centenário do Instituto de Artes da UFRGS e Licenciatura em Música à Distância". In: Revista Brasil-Europa, 2008; 116 (6)
  3. a b c d Simon, Círio. "O direito conquistado pelo Rio Grande do Sul para a reprodução da sua própria arte". Blog do autor, 16/07/2015
  4. a b Ramos, Paula. "Ilustração e modernidade no campo artístico do Rio Grande do Sul na primeira metade do século XX: debates e rupturas". In: 22º Encontro Nacional da ANPAP: Ecossistemas Estéticos. Belém do Pará, 15-20/10/2013
  5. a b c Bonhs, Neiva Maria Fonseca. Continente Improvável: artes visuais no Rio Grande do Sul do fim do século XIX a meados do século XX. Tese de Doutorado. UFRGS, 2005, pp. 115-121
  6. a b Avancini, José Augusto. "A pintura de paisagem em Porto Alegre, c.1890 – c.1950". In: Valle, Arthur & Camila Dazzi (orgs.). Oitocentos - Arte Brasileira do Império à República, Tomo 2. Rio de Janeiro: EDUR-UFRRJ / DezenoveVinte, 2010, pp. 290-299
  7. a b c d Simon, Círio. "Uma Obra de Libindo Ferrás como índice da origem da Pinacoteca do Instituto de Artes da UFRGS". Blog do autor, 28/09/2016

Ver tambémEditar