Lourdes Castro
Lourdes Castro (Funchal, Madeira, 9 de dezembro de 1930) é uma premiada artista plástica portuguesa.[1] Em 2020 o Estado Português distinguiu-a com a Medalha de Mérito Cultural.[2]
| Lourdes Castro | |
|---|---|
| Lourdes Castro, 08-07-2015 | |
| Nascimento | 9 de dezembro de 1930 Funchal, Madeira |
| Nacionalidade | portuguesa |
| Área | Artes Plásticas |
| Formação | Escola de Belas Artes de Lisboa |
BiografiaEditar
Nascida no Funchal, a sua avó, Laura Estela Magna, foi a primeira aluna do Liceu do Funchal. Lourdes estudou na Escola Alemã do Funchal até esta ter encerrado devido à II Guerra Mundial. Após o liceu ficou na Madeira três anos a trabalhar num jardim de infância.[3]
Frequenta o curso de Pintura (Curso Superior de Belas Artes) da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, curso que não viria a terminar por via da sua "expulsão" em 1956, "pela não conformidade com o cânone académico que dominava o sistema de ensino de então".[4]
Expõe individualmente pela primeira vez em 1955, no Clube Funchalense, Funchal, participando também em algumas exposições coletivas em Lisboa.
Parte para Munique em 1957 e, pouco depois, instala-se em Paris com o marido, René Bertholo. No ano seguinte funda, juntamente com René Bertholo, Costa Pinheiro, João Vieira, José Escada, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo, o grupo KWY, participando nas diversas iniciativas do grupo.
Em 1960 integra a mostra do KWY na SNBA, exposição que, segundo Rui Mário Gonçalves, marca o início dos anos 60 no panorama artístico português. Em 1972 e 1979 foi artista residente na DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst), em Berlim. Depois de residir 25 anos em Paris, em 1983 regressou ao Funchal. [5][6]
Últimas grandes exposições individuais de Lourdes Castro: Sombras à volta de um Centro, Fundação Serralves, Porto, 2003; O Grande Herbário de Sombras, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002. Em 2000, representou Portugal na XVIII Bienal de S. Paulo, juntamente com Francisco Tropa.[7]
Prémios e ReconhecimentoEditar
Foi galardoada com os seguintes prémios: [8]
- Medalha do Concelho Regional Salon de Montrouge, Paris, 1995
- Grande Prémio EDP )Lisboa, 2000 [9]
- Prémio CELPA/Vieira da Silva - Artes Plásticas Consagração, 2004; [10]
- Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes em 2015, atribuído pela Igreja Católica [11]
- Distinguida com o Prémio Artes Visuais em 2010 pela Associação Internacional de Críticos de Arte [12]
- Em 2020, recebeu do Ministério da Cultura português, das mãos da ministra da cultura Graça Fonseca a Medalha de Mérito Cultural. [2][13]
- Está representada em várias colecções, públicas e privadas, entre as quais: Victoria e Albert Museum (Londres); Museu de Arte Moderna (Havana); Museu de Arte Contemporânea (Belgrado); Museu Nacional de Varsóvia, Museu Nacional de Breslávia (Vroclaw) e Lódz; Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa); Fundação de Serralves (Porto).[8]
ObraEditar
A sua obra dos primeiros anos parisienses caracteriza-se por uma forma de abstração "de raiz informalista".[14] Esse registo "alterou-se completamente a partir de 1961. Nessa data abandonou, aliás, os suportes tradicionais da pintura. Sensível à coeva afirmação do Nouveau réalisme, apostou, num primeiro momento, na criação de objetos construídos, a partir da assemblage de bens de consumo de uso corrente",[15] que aglomera em caixas, cobrindo-os depois com "uma camada uniforme de cor (prateados, dourados, azuis…) como se pudessem ser esculturas de matéria nobre e de uma só peça"; em cada trabalho ela "confronta o empobrecimento da forma e dos valores das coisas na sociedade contemporânea com a hipótese de uma alternativa poética. São estas obras tridimensionais que preparam a desmaterialização concretizada nas suas «sombras projetadas» ".[16] O conceito de sombra irá tornar-se central em praticamente toda a sua produção posterior; "sombras recortadas ou projetadas, teatros de sombras, sombras bordadas sobre lençóis fugazes, vários foram os modos e registos de que a artista se socorreu para relacionar essa perceção do imaterial com a necessária materialidade do espaço plástico".[17]
Partindo de experiências ao nível da impressão serigráfica, começa a fixar silhuetas de amigos projetadas em tela. A partir de 1964 utiliza o plexiglas recortado, transparente ou colorido, em placas sobrepostas, de modo a dotar as sombras evocadas de sombras próprias, como acontece, por exemplo, em Sombra Projectada de René Bertholo, 1965.[18]
Em 1965 realiza um filme experimental com sombras e a partir do ano seguinte as silhuetas em movimento tornam-se no cerne dos seus "projetos de encenação, mais propriamente no teatro de sombras […]. Estas ações, inspiradas na tradição chinesa e nos happenings, tornaram-se mais frequentes após uma estada em Berlim, entre 1972 e 1973 […]. A colaboração de Manuel Zimbro efetivou-se nos anos imediatos, sendo os espetáculos As cinco Estações (1976) e Linha do Horizonte (1981) concebidas a duas mãos".[19]
"Depois de ter tirado as sombras da sombra, de lhes ter dado cor e transparência, uma vida independente",[20] a artista inscreve-as em lençóis, através de bordado manual: "A surpresa do desenho de gente deitada, sombras projetadas na horizontal e não na vertical, […] tornou-se cada vez mais importante";[21] os contornos de silhuetas "presentificam corpos ausentes registados, afinal, como memória. A investigação [de Lourdes Castro] sobre a sombra sempre se cruzou, de resto, com a reflexão sobre o tempo e a memória. Veja-se o seu Álbum de Família (onde vem compilando imagens, pensamentos, excertos, relativos à sombra), a acumulação de pétalas de gerânio da sua Montanha de Flores, iniciada em 1988, ou ainda a Peça, que concebeu com Francisco Tropa para a Bienal de S. Paulo de 2000",[22] onde um imenso pano branco "pousava sobre uma longa mesa fortemente iluminada de modo a sublinhar os vincos das dobras dessa cobertura".[23]
Ligações externasEditar
Referências
- ↑ Porto Editora. «Lourdes Castro». Infopédia. Consultado em 7 de setembro de 2018
- ↑ a b Lusa. «Lourdes Castro distinguida com Medalha de Mérito Cultural». PÚBLICO. Consultado em 9 de dezembro de 2020
- ↑ Revista E n.º 2444 (31 de Agosto de 2019). Lourdes Castro - entrevista.
- ↑ OLIVEIRA, Filipa – Lourdes de Castro: a procura da sombra, in Margens e Confluências: um olhar contemporâneo sobre as artes, no11, 12, Dezembro 2006. ESAP/Guimarães, p.159.
- ↑ Gonçalves, Rui Mário – Realismos e Abstracionismos. In: A.A.V.V. (coordenação Fernando Pernes) – Panorama Arte Portuguesa no Século XX. Porto: Fundação de Serralves; Campo de Letras, 1999, p. 207.
- ↑ «Lourdes Castro». Galeria 111. Consultado em 11 de março de 2014
- ↑ «Lourdes Castro». Galeria 111. Consultado em 11 de março de 2014
- ↑ a b «Lourdes Castro». Galeria 111. Consultado em 11 de março de 2014
- ↑ «Grande Prémio Fundação EDP Arte 2000». Fundação EDP. Consultado em 9 de dezembro de 2020
- ↑ «Lourdes Castro: à sombra». fasvs.pt. Consultado em 9 de dezembro de 2020
- ↑ «Igreja católica distingue Lourdes Castro com Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura». www.snpcultura.org. Consultado em 9 de dezembro de 2020
- ↑ «Lourdes Castro distinguida com prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura». www.snpcultura.org. Consultado em 9 de dezembro de 2020
- ↑ «Artista plástica Lourdes Castro distinguida com Medalha de Mérito Cultural». TSF Rádio Notícias. 9 de dezembro de 2020. Consultado em 9 de dezembro de 2020
- ↑ Melo, Alexandre – Arte e artistas em Portugal. Lisboa: Bertrand Editora; Instituto Camões, p. 142. ISBN 978-972-25-1601-3
- ↑ Leal, Joana Cunha – Lourdes Castro. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. ISBN 972-635-155-3
- ↑ Pinharanda, João – Pinturas com luz: alguns pintores portugueses contemporâneos. Lisboa: EDP – Eletricidade de Portugal, S.A., 1997.
- ↑ Almeida, Bernardo Pinto de – Os anos sessenta, ou o princípio do fim do processo da modernidade. In: A.A.V.V. (coordenação Fernando Pernes) – Panorama Arte Portuguesa no Século XX. Porto: Fundação de Serralves; Campo de Letras, 1999, p. 217.
- ↑ Leal, Joana Cunha – Lourdes Castro. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 132. ISBN 972-635-155-3
- ↑ Leal, Joana Cunha – Lourdes Castro. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 132.
- ↑ Castro, Lourdes – Lourdes Castro. Lisboa: Galeria 111, 1969.
- ↑ Castro, Lourdes – Lourdes Castro. Lisboa: Galeria 111, 1969.
- ↑ Leal, Joana Cunha – Lourdes Castro. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: Roteiro da Coleção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 133.
- ↑ Melo, Alexandre – Arte e artistas em Portugal. Lisboa: Bertrand Editora; Instituto Camões, p. 142.