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Lugar de memória é um conceito histórico posto em evidência pela obra Les Lieux de Mémóire, editada a partir de 1984 sob a coordenação de Pierre Nora, formada por sete tomos, sendo o primeiro Les Lieux de Mémoire, os três seguintes La République e posteriormente mais três volumes intitulados Les France. Essas obras se tornaram referência para o estudo da história cultural na França.

Origem do termoEditar

Pierre Nora é um historiador francês associado a Nova História, sendo referência no estudo da memória e identidade francesa. Ele também já se definiu como um historiador da "História do Tempo Presente" ou seja, interessado no estudo de objetos da atualidade em que a história ainda estivesse presente[1]. Entre 1978 e 1981 organizou seminários na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, que discutiam questões relacionadas a memória e identidade na França e que contribuíram com a elaboração do conceito de lugares de memória e a organização dos tomos da obra Les Lieux de Mémóire, pois se verificava na ocasião o desaparecimento da memória nacional e que era necessário realizar um inventário dos lugares onde ela se encontrava presente, seja pelo desejo dos homens ou através do passar dos tempos, como nos "mais deslumbrantes símbolos: festas, emblemas, monumentos e comemorações, mas também elogios, dicionários e museus"[2].

ConceitoEditar

Os lugares de memória, para Nora, são lugares em todos os sentidos do termo, vão do objeto material e concreto, ao mais abstrato, simbólico e funcional, simultaneamente e em graus diversos, esses aspectos devem coexistir sempre:

Mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, só é lugar de memória se a imaginação o investe de aura simbólica. Mesmo um lugar puramente funcional, como um manual de aula, um testamento, uma associação de antigos combatentes, só entra na categoria se for objeto de um ritual. Mesmo um minuto de silêncio, que parece o extremo de uma significação simbólica, é, ao mesmo tempo, um corte material de uma unidade temporal e serve, periodicamente, a um lembrete concentrado de lembrar. Os três aspectos coexistem sempre (...). É material por seu conteúdo demográfico; funcional por hipótese , pois garante ao mesmo tempo a cristalização da lembrança e sua transmissão; mas simbólica por definição visto que caracteriza por um acontecimento ou uma experiência vivida por pequeno número uma maioria que deles não participou.[3]

Podem tratar-se de um monumento, de uma personagem, de uma estátua ou pintura, de um museu, de arquivos, bem como de um símbolo, de um evento ou de uma instituição. Porém, nem tudo se caracteriza como lugar de memória; para isso o documento, o evento, o monumento etc., deve possuir uma "vontade de memória", deve ter na sua origem uma intenção memorialista que garante sua identidade, "o que os constitui é um jogo da memória e da história, uma interação dos dois fatores que leva a sua sobredeterminação recíproca"; sem essa vontade, os lugares de memória são lugares de história. Nora argumenta que memória e história não são sinônimas e que as mesmas se opõem em tudo, sendo que a memória "é a vida, sempre alcançada pelos grupos viventes (...), ela está em evolução permanente (...), inconsciente das suas deformações sucessivas (...)" e "a história é a reconstrução sempre problemática e incompleta daquilo que não é mais (...). A memória é um absoluto e a história não conhece outra coisa que não o relativo".[4] A memória seria aquilo vivido e sua reconstrução intelectual seria a história - para Pierre Nora, aquilo que hoje chamamos de memória é na verdade história.

Os lugares de memória seriam o que resta e que se perpetua de um outro tempo, e que transmitem ritos para uma sociedade desritualizada, sociedade que necessita desses lugares de memória por não mais terem meios de memória, seja pela evolução industrial e urbana que descaracterizam comunidades tradicionais baseadas na oralidade ou na transmissão das suas origens, globalização, midiatização e o distanciamento entre a memória verdadeira, social e intocada, ditas de comunidades arcaicas ou primitivas, com um certo modo de apropriação do tempo e a sociedade urbana ocidentalizada que se utiliza da história par organizar seu passado, havendo por fim uma ruptura da memória e da história[5].

Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não existe memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter os aniversários, organizar as celebrações, pronunciar as honras fúnebres, estabelecer contratos, porque estas operações não são naturais (...). Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É este vai-e-vem que os constitui: momentos de história arrancados do movimento de história, mas que lhe são devolvidos (...)".[6]

Segundo Nora, o lugar de memória existiria onde o simples registro acaba. Ele seria o registro e aquilo que o transcende, o sentido simbólico inscrito no próprio registro. Esses lugares seriam os espaços onde a memória se fixou e serviriam como um nova forma de apreender a memória que não nos é natural, pois não vivemos mais o que eles representam e que são apropriados pela história como fonte. São, portanto, locais materiais e imateriais onde se cristalizaram a memória de uma sociedade, de uma nação, locais onde grupos ou povos se identificam ou se reconhecem, possibilitando existir um sentimento de formação da identidade e de pertencimento.

Referências

  1. Em entrevista a Jean-Jacques Brochier e publicada originalmente em Magazine Littéraire n° 123, abril de 1977, traduzida e reunida no livro A Nova História, coleção Lugar de História, Edições 70, Lisboa.
  2. NORA, Pierra. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista Projeto História. São Paulo, v. 10, p. 7-28, 1993.
  3. NORA, 1993, p.21-22.
  4. NORA 1993, p. 9.
  5. Le GOFF, Jacques. Memória. IN: LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4° ed. Campinas: Unicamp, 1996.
  6. NORA 1993, p. 13.

BibliografiaEditar

  • CATROGA, Fernando. Memória, História e Historiografia. Coleção Opúsculo. Coimbra: Quarteto Editora, 2001.
  • D’ALÉSSIO, Márcia Mansor. Memória: leituras de M. Halbwachs e P. Nora. Revista Brasileira de História, v. 13, n. 25/26, p. 97-103, 1992.
  • LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4 edição. Campinas: Unicamp, 1996.
  • NORA, Pierre. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista Projeto História. São Paulo, v. 10, p. 7-28, 1993.
  • NORA, Pierre. O acontecimento e o historiador do presente. IN:A Nova História. Coleção Lugar de História. Lisboa: Edições 70.

Ver tambémEditar