Lupercália

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Lupercalia era uma festa pastoral da Roma Antiga celebrada anualmente no dia 15 de fevereiro para purificar a cidade, promovendo a saúde e a fertilidade.[1] A Lupercalia também era conhecida como dies Februatus, em homenagem aos instrumentos de purificação chamados februa, base do mês denominado Februarius.

Lupercália
cabeça de lobo de bronze, século I
Celebrado por Reino Romano, Império Romano, República Romana
Tipo religião clássica romana
Data 15 de fevereiro

Etimologia e origemEditar

O festival era originalmente conhecido como Februa ("Purificações" ou "Purificações") após o februum que foi usado no dia.[2] Também era conhecido como Februatus e deu seu nome de várias maneiras, como epíteto de Juno Februalis, Februlis ou Februata em seu papel como divindade padroeira daquele mês; a uma suposta divindade purificadora chamada Februus;[3] e até fevereiro (mensis Februarius), o mês em que ocorreu o festival.[2] Ovídio conecta februare a uma palavra etrusca para "purgar".[4] Algumas fontes  conecte a palavra latina para febre (febris) com a mesma ideia de purificação ou purgação, devido ao "suor" comumente associado às febres.

O nome Lupercalia era considerado na antiguidade para evidenciar alguma conexão com o festival grego antigo da Lykaia arcadiana, um festival do lobo (em grego: λύκος, lýkos; em latim: lupus), e a adoração de Lycaen Pan, considerado um equivalente grego de Fauno, conforme instituído por Evandro.[5] Justino descreve uma imagem de culto do "deus licau, a quem os gregos chamam de Pã e os romanos de Lupercus", nu, exceto por um cinto de pele de cabra.[6] A estátua ficava no Lupercal, a caverna onde a tradição afirma que Rômulo e Remo foram amamentados pela loba (Lupa). A caverna ficava no sopé do Monte Palatino, onde Rômulo teria fundado Roma.[7] O nome do festival provavelmente deriva de lúpus, "lobo", embora a etimologia e seu significado sejam obscuros. Apesar da afirmação de Justin, nenhuma divindade chamada "Lupercus" foi identificada.[8]

DesenvolvimentoEditar

A festa da Lupercália simbolizava a purificação que devia acontecer em Roma ao fim do ano (que começava em Março). Anualmente, um corpo especial de sacerdotes, os luperci sodales (lupercos sodais) eram eleitos entre os patrícios mais ilustres da cidade.

Na data prevista, então, os lupercos daquele ano encontravam-se na gruta Lupercal para sacrificarem dois bodes e um cão e serem ungidos na testa com o sangue, limpado da lâmina do sacrifício com um lã embebida em leite. Vestiam-se então do couro dos animais, simbolizando Fauno Luperco, do qual arrancavam tiras, chamadas februa, com as quais saíam ao redor da colina a chicotear o povo, em especial as mulheres inférteis, que se reuniam para assistir o festival.

SignificadosEditar

A Lupercália era uma festa de fim de ano. Acreditava-se que essa cerimónia servia para espantar os maus espíritos e para purificar a cidade, assim como para liberar a saúde e a fertilidade às pessoas açoitadas pelos lupercos.

A associação com a fertilidade viria de as chicotadas deixarem a carne em cor púrpura. Essa cor representava as prostitutas sacerdotais da Ara Máxima, também chamadas lobas.

Tratava-se também dum rito de passagem, simbolizando a morte e a ressurreição, celebrando assim a vida.

Caracterizadas pela licenciosidade, tinham características adotadas mais tarde nas festas de Carnaval.

História e fimEditar

A festa era tão antiga como a própria história de Roma (sabe-se que era uma tradição forte já no tempo de Júlio César), e tornou-se mais popular nos tempos da República romana, quando a gruta Lupercal foi reformada por Augusto, e perdurou até aos tempos do império e da sua queda. Esta mesma celebração foi adotada por Justiniano I no Império do Oriente em 542, como remédio para uma peste que já havia assolado o Egito e Constantinopla e ameaçava o resto do império.

Em 494 d.C., o Papa Gelásio I proibiu e condenou oficialmente essa festa pagã. Numa tentativa de cristianizá-la, substituiu-a pelo 14 de fevereiro, dia dedicado a São Valentim (hoje, conhecido como o dia dos namorados).


Referências

  1. Este artigo incorpora texto (em inglês) da Encyclopædia Britannica (11.ª edição), publicação em domínio público.
  2. a b Lewis, Charlton T.; et al. (1879), «februum», A Latin Dictionary Founded on Andrews' edition of Freund's Latin Dictionary, Oxford: Clarendon Press .
  3. The deity "Februus" is almost certainly a later invention; see Macrobius, Saturnalia, 1, 13, 3.
  4. Richard Jackson King (2006). Desiring Rome: Male Subjectivity and Reading Ovid's Fasti. [S.l.]: Ohio State University Press. pp. 195 ff. ISBN 978-0-8142-1020-8 
  5. Dionysius of Halicarnassus, Roman Antiquities 1.32.3–5, 1.80; Justin, Epitome of the Philippic History of Pompeius Trogus 43.6ff; Livy, Ab urbe condita 1.5; Ovid, Fasti 2.423–42; Plutarch, Life of Romulus 21.3, Life of Julius Caesar, Roman Questions 68; Virgil, Aeneid 8.342–344; Lydus, De mensibus 4.25.
  6. Justin, Epitome of the Philippic History of Pompeius Trogus 43.1.7.
  7. Ovid, Fasti: Lupercalia
  8. H.H. Scullard, Festivals and Ceremonies of the Roman Republic (Cornell University Press, 1981), p. 77–78.