Música renascentista

período musical entre os séculos XV e XVII
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Música renascentista refere-se à música europeia escrita durante a Renascença, o período que abrangeu, aproximadamente, os anos de 1400 a 1600. A definição do início do período renascentista é complexa devido à falta de mudanças abruptas no pensamento musical do século XV. Adicionalmente, o processo pelo qual a música adquiriu características renascentistas foi gradual, não havendo um consenso entre os musicólogos, que têm demarcado seu começo tão cedo quanto 1300 até tão tarde quanto 1470.

Músicos renascentistas em pintura de Lorenzo Costa, c. 1485-95.

Contexto e características

A música renascentista evoluiu a partir das bases da música medieval, e ao longo do período não se observam bruscas quebras de continuidade, mas sim uma prolongada e gradual transição de um predomínio absoluto da linha melódica horizontal, de ritmos livres, dependentes apenas da prosódia do texto, e desenvolvida sobre os modelos do canto gregoriano, em direção a novos parâmetros, marcados pela concepção da música em sucessivos acordes verticais encaixados dentro de compassos de ritmos invariáveis. Apesar de gradual, ao final do processo a mudança resultante é muito profunda. Assim, é impossível definir a música desta fase da história como um estilo unificado.[1][2] A música sacra ainda é a mais prestigiada, mas a música profana ganha crescente valor, favorecida por uma classe burguesa empoderada e por cortes ricas que desejam música de entretenimento.[3][4]

Assim como ocorreu nas outras artes do período, tornam-se comuns associações da música com valores humanistas e com a herança clássica, representada pela cultura da Grécia e Roma antigas. Há um sentimento de maior liberdade e um espírito de experimentação, testando os limites das regras e teorias. A invenção da imprensa possibilitou a circulação de tratados e partituras em uma escala nunca vista, contribuindo para a difusão de informação e a formação de uma linguagem musical relativamente homogênea por toda a Europa.[3][5][4]

 
Trecho da missa O Crux Lignum de Antoine Busnois.
 
Instrumentos típicos do final da Renascença, ilustrados no tratado Syntagma Musicum de Michael Praetorius.

Apesar de haver uma perceptível tendência à formação de uma linguagem padronizada em seus fundamentos técnicos, as maneiras e estilos de aplicação dos conceitos básicos variaram muito, formando-se importantes escolas regionais, que trabalham tradições e gêneros específicos. O período inicia com o predomínio da escola inglesa, que introduz o conceito da terça como um intervalo consonante. Segue-lhe a escola da Borgonha, onde se favorece um lirismo renovado, atraindo músicos de toda a Europa. A primeira metade do século XVI é dominada pela escola franco-flamenga, liderada por Josquin des Prez, levando a polifonia a um novo patamar de sofisticação, multiplicando as vozes e explorando ritmos intrincados e texturas contrastantes, mas gradualmente a escola italiana se impõe, especialmente através de Giovanni da Palestrina, principal responsável por um movimento em direção à simplificação e clarificação da polifonia, onde os princípios clássicos de austeridade, racionalismo e equilíbrio encontram uma plena materialização.[4][6][7][8]

As transformações se refletiram no instrumental, sendo modificado para sua sonoridade acompanhar uma nova sensibilidade. Muitos instrumentos novos apareceram. Ao longo desse período ocorre a dissolução do sistema modal e o surgimento do sistema tonal, lançando-se os princípios da harmonia moderna, baseada em uma hierarquia definida de sons, em novas noções sobre consonância, dissonância, eufonia e afinação, e nas progressões harmônicas. Também ocorre uma radical mudança no sistema de notação musical, que a aproxima da notação moderna; a melodia começa a se libertar do apego às linhas do canto gregoriano; as variedades rítmicas se multiplicam. A polifonia permanece como a principal base da composição, mas se organiza de maneira a obedecer às regras da harmonia vertical e as diferentes vozes são tratadas de maneira mais equilibrada.[3][5]

As "formas fixas" da canção polifônica medieval cedem lugar a novas formas, como o madrigal, a frottola, a villanesca e o lied. A música instrumental começa a adquirir independência das concepções vocais e aparecem formas para instrumentos específicos, que exploram sua sonoridade e capacidades particulares, como as fantasias para violas da gamba, as danças para violino e as canzone da sonar para teclado. Alguns gêneros, como o rondeau e a basse danse, antes eminentemente vocais, se tornam quase exclusivamente instrumentais. Na música sacra aparece uma forma de grande importância, a missa cíclica, onde um fragmento de canto gregoriano serve como motivo para estruturar toda a composição. No final do período a harmonia tonal está bem consolidada e surge a técnica do baixo contínuo, que seria um dos fundamentos da música barroca. Também no final surgem os primeiros ensaios de canto solista com acompanhamento de baixo contínuo, que daria origem a um dos mais populares gêneros barrocos, a ópera.[9]

Exemplos

Linha do tempo

Esta é uma linha do tempo com os principais e mais influentes compositores renascentistas, separados por período e estética musical (algumas datas possuem valor aproximado).


Referências

  1. Regina, Roberto de. "A Música no Renascimento". In: Franco, Afonso Arinos de Melo et alii. O Renascimento. Agir / MNBA, 1978, p. 177
  2. Sabag, M. M. S. & Igayara, S. C. "A Notação Original da Música Polifônica Renascentista e suas Relações com as Práticas Interpretativas Atuais". In: Musica Hodie, 2013; 13 (2)
  3. a b c "Renaissance Music". Lumen Learning
  4. a b c Arkenberg, Rebecca. "Music in the Renaissance". In: Heilbrunn Timeline of Art History. The Metropolitan Museum of Art, 2000
  5. a b Kreitner, Kenneth. Renaissance Music. Routledge, 2017, pp. i-xx
  6. Carter, Tim. "Renaissance, Mannerism, Baroque". In: Carter, Tim & Butt, John (eds.). The Cambridge History of Seventeenth-Century Music, Volume 1. Cambridge University Press, 2005, pp. 8-12
  7. Schaefer, Edward E. Catholic Music Through the Ages: Balancing the Needs of a Worshipping Church. Liturgy Training Publications, 2008, pp. 72-78
  8. Jeppesen, Knud. The Style of Palestrina and the Dissonance. Dover Publications, 1970, p. 43
  9. Hindley, Geoffrey (ed.). The Larousse Encyclopedia of Music. Hamlyn, 15ª ed., 1990, pp. 88-89

Ver também

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