Maomé ibne Uacil

Maomé ibne Uacil ibne Ibraim Altamimi (em árabe: محمد بن واصل بن إبراهيم التميمي‎‎; romaniz.: Muhammad bin Wasil ibn Ibrahim al-Tamimi , lit. "Maomé, filho de Uacil, filho de Ibraim Altamimi"), também conhecido como Alanzali (al-Hanzali),[1] foi um aventureiro militar que capturou a província abássida de Pérsis em 870. Ele governou Pérsis intermitentemente até 876, quando foi capturado e preso por Iacube ibne Alaite (r. 861–879), o emir safárida do Sistão.

VidaEditar

 
Pérsis e regiões circundantes nos séculos IX e X
 
Dinar de ouro de Almutâmide (r. 870–892) com os nomes de Almuafaque (r. 870–891) e o vizir Saíde (duluizarataim)
 
Dirrã de Iacube ibne Alaite (r. 861–879)

Maomé foi membro de uma família árabe que por muito tempo teve ligações com o carijismo. Em 837, tomou controle de um grupo carijita em Boste, e revoltou-se contra as autoridades abássidas. Suas forças foram capazes de derrotar o governador do exército do Sistão e capturar seu líder, o filho do governador. Maomé posteriormente libertou-o após negociações com o governador; ele subsequentemente deixou a região de Boste rumou à Carmânia, que era lar de alguns outros foras da lei carijitas.[2] Subsequentemente às suas atividades no Oriente, Maomé moveu-se à província de Pérsis. Em 870, com o controle califal sobre Pérsis tendo sido enfraquecido por anos de desordem (a Anarquia em Samarra), ele decidiu rebelar-se contra o governo. Aliou-se ao líder dos curdos locais,[a] e juntos derrotaram e mataram o governador provincial, Alarite ibne Sima. Como resultado dessa vitória, o controle abássida em Pérsis colapsou, e Maomé foi capaz de tomar a província.[3][2][4]

Menos de um ano após sua tomada de Pérsis, Maomé foi ameaçado por Iacube ibne Alaite, o auto-proclamado emir do Sistão. Iacube partiu ao Ocidente em direção a Pérsis com a intenção de subjugar a província. As fontes desacordam sobre o que aconteceu depois, mas Iacube foi posteriormente dissuadido de continuar sua expedição retornou ao Sistão. Sua retirada é descrita como tendo sido causada pela submissão a ele de Maomé, ou pela chegada de emissários enviados pelo governo califal para convencê-lo a abandonar seu avanço. De todo modo, Maomé logo depois alcançou uma reaproximação com o governo central, e em 872 entregou o caraje (receita tributária), e possivelmente o governo de Pérsis, a um representante califal.[5][6][7]

A relação amigável entre Maomé e o governo califal não durou, e logo Maomé voltou a opor-se à autoridade abássida. Em 875, Muça ibne Buga, a quem havia sido dada a responsabilidade por Pérsis, enviou um exército sob o comando de Abderramão ibne Mufli para estabelecer uma presença abássida firme na província. Quando Maomé soube desse movimento, avançou em direção ao Cuzestão e relatadamente encontrou-se com o exército califal em Ramurmuz, onde se saiu vitorioso; o tenente de ibne Mufli, Tastimur, foi morto, e ibne Mufli foi capturado pelas forças de Maomé. O governo central enviou um emissário para assegurar a libertação de ibne Mufli, mas Maomé recusou as ofertas e executou o general. Maomé então anunciou sua intenção de marchar contra Muça ibne Buga, e avançou para Avaz. Muça, reconhecendo sua inabilidade para controlar a situação, resignou o governo e transferiu a responsabilidade de Pérsis para o regente califal, Almuafaque.[8][9][10]

A campanha de Maomé no ocidente teve um fim súbito com as notícias de que Iacube ibne Alaite novamente estava avançando do Sistão. Desta vez, ele invadiu Pérsis e avançou para Estacar, tomando os tesouros de Maomé lá. Maomé partiu do Cuzestão, e retornou para Pérsis numa tentativa de pará-lo. Eles encontraram próximo do lago Bachtegã em agosto de 875, e na batalha resultante, Maomé, apesar de ter um exército numericamente superior, foi derrotado. Maomé foi forçado a fugir; Iacube saqueou a fortaleza de Maomé em Saidabade e tomou controle de Pérsis.[11][12][13]

 
Jibal e Iraque à época do conflito entre o Califado Abássida e o Império Safárida. As rotas do mapa mostram o percurso e posterior encontro dos exércitos rivais em Dair Alacul

No rescaldo de sua derrota, Maomé novamente virou-se para os abássidas, e conseguiu restaurar o favor com o governo central. Iacube, no meio tempo, continuou a marchar para oeste, movendo-se primeiro para o Cuzestão e então pressionando sua entrada no Iraque. Seu avanço levou-o para perto de Bagdá e a capital califal de Samarra, mas em abril de 876 ele foi derrotado por um exército califal liderado por Almuafaque na Batalha de Dair Alacul. A invasão de Iacube ao núcleo do território abássida alienou o governo contra ele, e após a derrota do emir, Maomé foi nomeado para Pérsis como governador califal em oposição de Iacube.[14][15]

O governo de Maomé sobre Pérsis foi de curta duração. Mesmo após sua nomeação formal como governador, ele retornou a província e reuniu apoiantes para sua causa. Iacube, contudo, apesar de sua derrota nas mãos dos abássidas, ainda tinha força para impor sua autoridade dentro de Pérsis, e quando os dois inimigos começaram a lugar, Maomé logo mostrou-se incapaz de manter sua posição. Quando ele percebeu que sua causa estava perdida, tentou fugir de Pérsis, marchando ao longo da costa tão longe quando a cidade portuária de Sirafe, mas após um ano foi capturado pelo exército safárida, e foi aprisionado.[16][17] O destino de Maomé não é explicitamente atestado pelos historiadores. Segundo um relato, Maomé permaneceu em confinamento por dois anos antes de uma revolta na prisão ser violentamente suprimida pelos soldados de Iacube; depois disso, Maomé desaparece das fontes.[18]

NotasEditar

[a] ^ "Curdos" pode ser utilizado pelos historiadores como um termo geral para designar quaisquer iranianos nômades.[19][20]

Referências

  1. Atabari 1992, p. 116 n. 334.
  2. a b Tor 2007, p. 132.
  3. Bosworth 1994, p. 147-8.
  4. Atabari 1992, p. 116.
  5. Bosworth 1994, p. 148-9.
  6. Tor 2007, p. 132-3.
  7. Atabari 1992, p. 119, 137.
  8. Bosworth 1994, p. 149-50.
  9. Tor 2007, p. 156.
  10. Atabari 1992, p. 164-5.
  11. Bosworth 1994, p. 150-2.
  12. Tor 2007, p. 157.
  13. Atabari 1992, p. 166.
  14. Bosworth 1994, p. 153, 158-61.
  15. Atabari 1992, p. 168-72.
  16. Bosworth 1994, p. 163.
  17. Atabari 1992, p. 181, 185.
  18. Bosworth 1994, p. 163-4 n. 480.
  19. Minorsky 1943, p. 75.
  20. Tor 2007, p. 126, n. 37.

BibliografiaEditar

  • Bosworth, Clifford Edmund (1994). The History of the Saffarids of Sistan and the Maliks of Nimruz (247/861 to 949/1542-3). Costa Mesa: Mazda Publishers. ISBN 1-56859-015-6 
  • Minorsky, Vladimir (1943). «The Guran». Boletim da Escola de Estudos Orientais e Africanos. 11 (1) 
  • Atabari, Abu Jafar Maomé ibne Jarir (1992). Yar-Shater, Ehsan, ed. The History of al-Ṭabarī, Volume XXXVI: The Revolt of the Zanj. Albany, Nova Iorque: State University of New York Press. ISBN 0-7914-0764-0 
  • Tor, D. G. (2007). Violent Order: Religious War, Chivalry, and the 'Ayyar Phenomenon in the Medieval Islamic World. Vurzburgo: Ergon. ISBN 3-89913-553-9