Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro

uma pintora, decoradora, rendeira portuguesa que inovou a indústria as rendas de bilros em Portugal

Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro (Lisboa, 14 de novembro de 1841 - Lisboa, 22 de outubro de 1915) foi uma pintora, decoradora e rendeira portuguesa. Reconhecida por ter impulsionado e renovado a indústria das rendas de bilros de Portugal e ter sido uma pioneira do design industrial português, era também irmã mais velha dos pintores Columbano Bordalo Pinheiro e Rafael Bordalo Pinheiro.[1][2]

Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro
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Nascimento Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro
14 de novembro de 1841
Lisboa
Morte 22 de outubro de 1915
Lisboa
Sepultamento Cemitério dos Prazeres
Cidadania Portugal
Progenitores
Irmão(s) Columbano Bordalo Pinheiro, Rafael Bordalo Pinheiro
Ocupação pintora, designer, bordadeira, rendeira,

BiografiaEditar

Nascida na antiga freguesia de Sacramento, em Lisboa, no dia 14 de novembro de 1841, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro era filha do pintor português Manuel Maria Bordalo Pinheiro e de Augusta Maria do Ó Carvalho Prostes,[3] sendo a filha mais velha dos nove filhos do casal e irmã dos pintores Rafael Bordalo Pinheiro e Columbano Bordalo Pinheiro, com o qual manteve uma relação muito próxima até à sua morte, tendo sido sua discípula e modelo em várias das suas obras, tais como no quadro "A Luva Cinzenta".[4][5][6]

 
Flores, de Maria Augusta Bordalo Pinheiro. Da coleção do Museu Nacional de Belas Artes RJ (MNBA)

Seguindo a veia artística da família, revelou ainda durante a sua infância uma forte inclinação para as Belas Artes, Artes Aplicadas e as Artes Decorativas, tornando-se anos mais tarde numa pintora naturalista e decoradora reconhecida por mérito próprio. Expondo pela primeira vez nas exposições da Sociedade Promotora de Belas-Artes, actual Sociedade Nacional de Belas Artes, nos anos seguintes agraciou vários salões e galerias de arte com várias pinturas de estilo naturalista, dando especial ênfase às composições com motivos florais, tais como numa das suas mais conhecidas obras, "Os Malvaíscos", que foi particularmente aplaudida pelos críticos graças à sua delicadeza.[7]

Na decoração destacou-se pelos desenhos que criou e pintou para algumas das peças de faiança criadas pelo seu outro irmão, o artista e fundador da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, Rafael Bordalo Pinheiro, tais como cafeteiras, açucareiros, chávenas e bandejas, entre muitas outras peças.[8][9][10] Ainda na decoração, os seus bordados e rendas de bilros captaram a atenção do público, devido à sua mestria e qualidade artística, chegando a criar um novo ponto para as rendas que ficou conhecido como o ponto português.[11]

Tal como os seus irmãos, no início da década de 80 do século XIX, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro expôs algumas das suas obras nas exposições de quadros modernos promovidas pelo Grupo do Leão,[12] tornando-se numa das poucas mulheres que integraram o grupo de artistas portugueses, juntamente com Josefa Garcia Greno, Berta Ramalho Ortigão e Helena Gomes, conhecidas como as “Senhoras Leoas”.[13][14][15]

Em 1885, quando a Cervejaria Leão d'Ouro, ponto de encontro dos membros do Grupo Leão, encerrou para que se realizassem obras no estabelecimento, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro contribuiu para a nova decoração do espaço com um reposteiro, uma espécie de cortina que nas portas serve de adorno ou de resguardo, criado e bordado por ela,[16][17] e dois anos depois, em 1887, foi responsável, juntamente com os seus dois irmãos, pela decoração do Palácio do Beau-Séjour, em Lisboa, persistindo até aos dias de hoje várias pinturas criadas pela artista, com motivos florais e naturalistas, nos painéis decorativos que cobrem os tectos do palácio oitocentista.[18]

Na mesma década, exerceu o cargo de directora da Escola de Desenho Industrial Rainha Dona Maria Pia em Peniche[19] e participou em várias exposições, como a Exposição Industrial Portuguesa (1888), Exposição Universal de Paris (1889), onde foi premiada com a medalha de ouro pelas suas rendas,[20] Exposição Internacional de Antuérpia (1894), recebendo mais uma medalha de ouro, Exposição Universal em St. Louis (1904), onde obteve o Grand Prix,[21] Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil (1908) e várias outras do Grémio Artístico, tendo também sido distinguida com prémios em 1896 e 1898.

Faleceu a 22 de outubro de 1915, em Lisboa, sem nunca ter casado ou deixado descendência, apesar de ter sido noiva do político português António Enes, que dias após a ter pedido em casamento, rompeu o noivado para ir viver com uma actriz.[22][23]

A renda de bilrosEditar

 
Maria Augusta retratada pelo irmão Columbano no seu quadro "A Luva Cinzenta" (1881)

Com uma longa tradição em Portugal e confeccionada sobretudo pelas mulheres, a renda de bilros e a sua venda servia de complemento ao rendimento de muitas famílias, visto que, durante o século XIX, o seu sustento era quase todo gerado pelos membros da família do sexo masculino, maioritariamente ligados às actividades piscatórias, comerciais e fabris. Entre 1851 e 1873, a qualidade da renda produzida em Portugal fez com que esta fosse premiada internacionalmente em várias exposições internacionais, nomeadamente em Londres (1851 e 1861), Paris (1855, 1867 e 1878) e Viena (1873), ganhando renome internacionalmente. Apesar da sua fama, após este período, com os avanços e as modas que surgiram noutros países, o facto de se utilizar um fio mais grosso e de se continuar a utilizar desenhos antiquados provocou o declínio desta actividade e consequentemente o rendimento das famílias.[24]

Para contornar esta situação foi fundada em 1887, na cidade de Peniche, a Escola de Desenho Industrial Rainha Dona Maria Pia, mais tarde renomeada Escola Industrial de Rendeiras Josefa de Óbidos, que tinha como objectivo revitalizar as rendas de bilros e inverter a sua decadência, alinhando-se com a tendência internacional de criar escolas e cursos profissionais para mulheres.[25][26] Por essa ocasião, convidada para exercer como directora da escola, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro assumiu ainda os cargos de professora de desenho e de coordenação da oficina de rendas, dando um novo impulso à aprendizagem deste tipo de artesanato.[27][28]

Sobre a sua direcção, a qualidade das rendas produzidas na localidade melhorou substancialmente, tendo sido ainda introduzido um novo design, onde era patente a sua inspiração na natureza através dos desenhos de ramos de flores, tulipas, cravos, conchas e outros motivos, os seus novos desenhos possibilitavam a produção de peças feitas à medida e de forma separada umas das outras, o que permitia colocar a renda em objectos diversos como leques e sombrinhas, o fio utilizado passou a ser mais fino e de melhor qualidade, a qualificação profissional das rendeiras melhorou e inventou-se um novo ponto, conhecido por ponto português.[29][30][31]

 
Rendas de Bilros de Peniche

Em apenas um ano, a sua técnica e visão inovadora produziram resultados rápidos, sendo o seu trabalho reconhecido pelo governo que lhe pediu para visitar outras escolas de rendas na Europa, nomeadamente as belgas e as francesas, como forma de intercâmbio cultural e de troca de conhecimentos. O trabalho executado pelas rendeiras de Peniche recebeu o primeiro prémio na Exposição Industrial Portuguesa de 1888 e a escola a medalha de ouro na Exposição Universal de Paris de 1889 pela sua originalidade e qualidade, tornando-se num dos emblemas da arte industrial portuguesa e ao nível dos melhores da Europa.[32]

Em 1889, decidiu por vontade própria deixar a escola e regressar a Lisboa. Sendo reconhecida pelo seu trabalho em Peniche, a pedido da rainha Dona Amélia, Maria Augusta Bordalo Pinheiro fundou na Rua António Maria Cardoso um atelier e uma oficina de rendas onde ensinava a arte das rendas de bilros a várias alunas, produzindo várias peças com base nos desenhos que criava, tais como cabeções, rendas largas ou estreitas, lenços, leques e sombrinhas.[33][34]

O seu trabalho foi admirado e elogiado por figuras públicas como o critico de arte Manuel de Sousa Pinto, que a chamava de "fada das rendas".[35][36] Por sua vez, após o seu falecimento, o escritor Júlio Dantas escreveu uma nota de pesar, onde compara as suas rendas a "ourivesaria branca".[37] Já o escritor Raul Brandão, após visitar uma exposição da artista, escreveu que as suas peças "parecem pedaços feitos de luar".

Reconhecimento e PrémiosEditar

O seu talento e a sua dedicação à renda de bilros foram recompensados com:[38]

Homenagens e LegadoEditar

Postumamente, em sua homenagem e memória, o seu nome foi atribuído à toponímia de várias localidades portuguesas tais como Fernão Ferro (Seixal) e Charneca de Caparica (Almada).

Em 1916, o poeta e colecionador de arte Artur Ernesto Santa Cruz Magalhães fundou o Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa, com o propósito de expor várias obras que tinha na sua posse da autoria não só de Rafael Bordalo Pinheiro e dos seus irmãos, como também do seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro. Entre o seu espólio que conta com mais de 1000 peças de cerâmica, 2600 desenhos, 3300 gravuras, 100 pinturas, 100 azulejos e 1800 fotografias, várias obras contam com a participação e criação da artista Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro.[46]

ReferênciasEditar

  1. «Bordalo Pinheiro, Maria Augusta de Prostes». Instituto dos Museus e da Conservação 
  2. Andrade, Arsénio Sampaio de (1959). Dicionário histórico e biográfico de artistas e técnicos portugueses, séc. XIV-XX.: Sobre a vida e actividade, tanto em Portugal como no estrangeiro, de pintores, escultores, ceramistas, gravadores, cinzeladores, arquitectos, caricaturistas, críticos de arte, engenheiros, músicos, contrapontistas, compositores, etc. [S.l.]: A. Sampaio de Andrade 
  3. Macedo, Diogo de (1952). Columbano. [S.l.]: Realizaçaões Artis 
  4. «A Luva Cinzenta». Matriz Net 
  5. «Revista Atlantida Nº2, 15 de Dezembro de 1915». Revistas de Ideias e Cultura 
  6. Portugal (em inglês). [S.l.: s.n.] 1961 
  7. «Quadro Malvaíscos». Matriz Net 
  8. «Peças pintadas por Maria Augusta». Museu Bordalo Pinheiro 
  9. Namorado, Joaquim (1994). Obras: ensaios e críticas. [S.l.]: Caminho 
  10. A Illustração portugueza. [S.l.: s.n.] 1886 
  11. «Leque em renda». www.matriznet.dgpc.pt. Matriz Net 
  12. Bouhon, Gabriela (1961). Introdução a história da pintura. [S.l.]: Livraria Luso-Espanhola 
  13. Leandro, Sandra (2008). «Como leoas: as senhoras artistas do Grupo do Leão». Livros Horizonte 
  14. Faces de Eva. [S.l.]: Edicões Colibri. 2002 
  15. Silva, Emilia Matos e Silva (12 de setembro de 2013). «Maria Augusta Bordalo Pinheiro (1841-1915)». Arte em Portugal 
  16. Silva, Dora Santos (22 de maio de 2018). «O "Grupo do Leão": a maior homenagem que Columbano Bordalo Pinheiro fez aos artistas». Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa 
  17. Xavier, Ágata (2 de maio de 2017). «A Sedução da Modernidade no Museu do Chiado». Revista Sábado 
  18. «Quinta do Beau-Séjour». A Casa Senhorial 
  19. França, José Augusto (1966). Terceira parte (1880-1910) e quarto parte (depais de 1910). [S.l.]: Bertrand 
  20. Rogers, Rebecca; Boussahba-Bravard, Myriam (14 de agosto de 2017). Women in International and Universal Exhibitions, 1876–1937 (em inglês). [S.l.]: Routledge 
  21. Tannock, Michael (1978). Portuguese 20th Century Artists: A Biographical Dictionary (em inglês). [S.l.]: Phillimore 
  22. Brandão, Raul (1933). Memórias. [S.l.]: Renascença Portuguesa 
  23. Macedo, Diogo de (1952). Columbano. [S.l.]: Realizaçaões Artis 
  24. Jornal do pescador. [S.l.: s.n.] 1969 
  25. «Rendas de Bilros de Peniche». Câmara Municipal de Peniche 
  26. Serrão, Joaquim Veríssimo (1977). História de Portugal. [S.l.]: Editorial Verbo 
  27. Lemos, Carlos Cilia de (26 de outubro de 1908). «Rendas Portuguesas». Hemeroteca Digital. Ilustração Portuguesa 
  28. Carvalho, Ana Margarida (28 de agosto de 2016). «Rafael Bordalo Pinheiro: Perfil de um português genial». Visão 
  29. Quental, Antero de (1985). Cartas inéditas a Alberto Sampaio. [S.l.]: O Jornal 
  30. Brito, Maria Filomena (1997). Rendas barrocas em Portugal: colecção da Capela de S. João Baptista. [S.l.]: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Secretaria Geral 
  31. Arquivo historico português. [S.l.: s.n.] 1914 
  32. «Fotografia das Rendeiras de Peniche com Maria Augusta Bordalo Pinheiro». Matriz Net. MatrizNet 
  33. Arthur, Maria Ribeiro (20 de julho de 1899). «As rendas de D. Maria Augusta Bordallo Pinheiro». Hemeroteca Digital. O Ocidente : revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro 
  34. «Exposição de S. Luiz». Ilustração Portuguesa. 28 de março de 1904. Consultado em 2 de junho de 2020 
  35. «Manuel de Sousa Pinto». Modernismo, Arquivo Virtual da Geração de Orpheu 
  36. Pinto, Manuel de Sousa (1915). «Nota de pesar pelo falecimento de Maria Augusta». Revista Atlântida. Revista Atlântida 
  37. Dantas, Júlio (15 de dezembro de 1915). «O Ano Artístico». ric.slhi.pt. Revista Atlântida 
  38. «R. Bordalo Pinheiro: maria augusta bordalo pinheiro» 
  39. Grande Dicionário Enciclopédico. Lisboa: Editora ediclube. 4831 páginas. ISBN 8440802854 
  40. a b d'Assumpção, Abel (1918). Sociedade das Belas Artes, quarta exposição de aguarela, desenho e pinturas. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes. pp. 45,46,48,52 
  41. a b Grémio Artístico e Sociedade Nacional de Belas Artes, prémios conferidos (1891-1918) - http://tribop.pt/EXPO/1918-12-05%20-%204%C2%AA%20Expo%20ADM%20-%20SNBA-39-70-.pdf
  42. a b Sociedade Nacional de Belas Artes (Portugal) (1901). Exposição : catalogo illustrado. [S.l.]: Lisboa : Typographia da Companhia Nacional Editora 
  43. Figueiredo, José de (1901). Portugal na Exposição de Paris. Lisboa: Empreza da historia de Portugal. 31 páginas 
  44. Sociedade Nacional de Belas Artes (Portugal) (1901). Exposição : catalogo illustrado. [S.l.]: Lisboa : Typographia da Companhia Nacional Editora 
  45. Santos, Regina (1999). Portugal na Exposição Nacional do Rio de Janeiro em 1908. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. pp. 83,84 
  46. «Coleção Online». Museu Bordalo Pinheiro