Maria Carolina Frederico Crispim
Maria Veleda com 41 anos, em 1912.
Pseudônimo(s) Maria Veleda, Myriam, Wasilisa
Nascimento 26 de fevereiro de 1871
São Pedro, Faro, Reino de Portugal Portugal
Morte 8 de abril de 1955 (84 anos)
Santa Engrácia, Lisboa Portugal Portugal
Nacionalidade Portugal Portuguesa
Ocupação Professora, jornalista, tradutora, feminista e activista republicana

Maria Veleda, pseudónimo de Maria Carolina Frederico Crispim (São Pedro, Faro, 26 de fevereiro de 1871Santa Engrácia, Lisboa, 8 de abril de 1955), foi uma professora, jornalista, activista feminista, republicana, livre pensadora, maçónica e espiritualista portuguesa. Foi pioneira na luta pela educação das crianças, dos direitos das mulheres e na propaganda dos ideais republicanos, sendo uma das mais importantes dirigentes de um dos primeiros movimentos feministas portugueses, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

BiografiaEditar

 
Maria Veleda.

Filha de João Diogo Frederico Crispim e de Carlota Perpétua da Cruz Crispim, "proprietários abastados, cuja fortuna foi, entretanto, desbaratada", nasceu na Rua da Parreira, em Faro, no seio de uma família tradicionalmente católica, tendo manifestado desejos, na juventude, de professar. Eram seus avós paternos Diogo Frederico Crispim e Guiomar Teresa, maternos Manuel da Cruz e Maria de Jesus.

Muito cedo começou a trabalhar, dando inicialmente explicações na sua cidade natal de Faro, e, posteriormente, exercendo no ensino particular como professora primária em várias localidades do Algarve e Alentejo, a fim de ajudar a sua mãe e irmão mais novo que se encontravam numa situação económica difícil, após o falecimento de seu pai em 1882.

Aos dezanove Maria Veleda fez a sua estreia literária no jornal provinciano O Distrito de Faro com a publicação de poesia, contos e novelas. De início as suas produções em prosa e em verso revestiram-se de um carácter meramente literário, mas a pouco e pouco nota-se um amadurecimento nas suas ideias. A partir daí a sua actividade literária contou com colaborações e contribuições na imprensa de todo o país, tais como A Tradição (1899/1904), Ave Azul (1899/1900)[1], Nova Aurora (1900/1901), O Círculo das Caldas (1901), Germinal (1901/1902), Lisboa Elegante (1902), Sociedade Futura (1902/1904), O Independente (1902/1906), O Cruzeiro do Sul (1903), O Diário Ilustrado, A Vanguarda, O Mundo, O Repórter, O Século, A Pátria de Luanda e ainda no Almanaque das Senhoras, expandindo o seu reportório para temas de carácter feministas e educativos, adoptando e defendendo abertamente um pensamento na linha da escola moderna de Francisco Ferrer. Durante esse período, conheceu o advogado, dramaturgo e poeta Francisco Xavier Cândido Guerreiro (1871-1953), por quem se apaixonou e com quem se juntou, não querendo no entanto se casar por acreditar que um casamento se devia fazer "por amor e não por conveniências sociais". Nesse mesmo ano, adoptou Luís Frederico Viegas, com apenas 14 meses de idade, sendo este filho da caseira da quinta dos seus pais que havia precocemente falecido.

Em 1899, na aldeia de Odivelas, em Ferreira do Alentejo, nasceu o seu filho biológico Cândido Guerreiro Xavier da Franca, que foi apadrinhado pelo irmão adoptivo[2].

Em 1902, publicou uma colecção de contos para crianças, intitulada «Cor-de-Rosa», dos quais saíram doze fascículos mensais que se esgotaram rapidamente, assim como o opúsculo “Emancipação Feminina”, onde exaltava a os seus ideais republicanos e feministas. Pouco tempo depois, separou-se de Francisco Cândido Guerreiro, que, em 1909, casaria com Margarida Sousa Costa, em Loulé.

Com trinta e quatro anos de idade, em 1905, Maria Veleda decide fixar-se em Lisboa, levando consigo os seus dois filhos e a sua mãe. Durante esse período, viveu com grandes dificuldades económicas para alimentar a sua família. Trabalhou, como professora, num asilo e depois num colégio, de onde foi despedida por desconfiarem que estivesse tuberculosa. Pouco tempo depois, começou a lecionar como professora-regente no Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa, situado na Calçada de Arroios e dirigido por Alves Torgo, onde criou dois cursos nocturnos gratuitos para ensinar a ler mulheres e se cruzou com algumas das mais importantes figuras do idealismo republicano português ainda durante os últimos anos da Monarquia, como Magalhães Lima, Ricardo Covões, Afonso Costa, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, António José de Almeida, Alexandre Braga, Teófilo Braga ou ainda Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira. É durante este período que começou a desvincular-se da produção literária e passou a interessar-se profundamente pelo activismo social e as causas feministas e políticas, começando por intervir publicamente sobre a emancipação feminina e a educação integral para ambos os sexos.[3] Nos seguintes anos lecionou nos Centros Republicanos António José de Almeida e Boto Machado.

Em 1906, aderiu ao Livre-Pensamento e foi iniciada na Maçonaria, na Loja Humanidade, com o nome simbólico de Angústias, tornando-se numa das maiores propagandistas da liberdade de consciência e do anticlericalismo. Um ano depois, Maria Veleda integrou a comissão organizadora do 1.º Congresso do Livre Pensamento[4], juntamente com José França, Augusto José Vieira, Lourenço Correia Gomes e Francisco Teixeira, e, após o regicídio, intensificou o seu papel como propagandista republicana. Em 1909, aderiu à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, criada pela jornalista e escritora Ana de Castro Osório e as médicas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete, às quais se juntaram Adelaide Cunha Barradas, Amélia França Borges, Ana Maria Gonçalves Dias, Camila Sousa Lopes, Fausta Pinto da Gama, Filomena Honorina da Costa, Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho e Rita Dantas Machado, entre outras. Apesar de Maria Veleda ser inseparável das três primeiras dirigentes principais, não fez parte da comissão organizadora da organização, porque António José de Almeida a julgava demasiado revolucionária, e acreditava que isso poderia intimidar as mulheres mais conservadoras que nela quisessem ingressar. Mesmo assim, esta manteve-se bastante activa dentro do movimento e fundou a iniciativa Obra Maternal para acolher e educar crianças abandonadas ou em perigo moral, assim como foi escolhida para dirigir a revista A Mulher e a Criança, em 1910, juntamente com Lenia Loyo Pequito e Ana Maria Gonçalves Dias.

Com a implantação da República a 5 de Outubro de 1910, as feministas republicanas que militavam na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas julgaram que havia chegado o momento de apresentarem as suas reivindicações ao novo regime político, contudo esta situação veio a criar divergências no seio do movimento, sobretudo entre Maria Veleda e a dirigente Ana de Castro Osório. Tentando não criar crispações com o Governo, as conservadoras, que Maria Veleda apelidava de ‘elite’ e apoiavam Ana de Castro Osório, pediram o direito ao voto apenas para as mulheres que pagassem impostos, fossem maiores de idade e pertencessem à elite intelectual, tendo portanto que ser instruídas. Acreditando que este facto restringia o direito ao voto feminino e assim agravava a situação de desigualdade existente entre as mulheres portuguesas, Maria Veleda argumentou que a maioria não teria sequer a oportunidade de aceder à instrução e à educação de modo a ter autonomia económica ou a sua total emancipação da tutela masculina. Para ela, se se reconhecia às mulheres o direito de voto, era uma incoerência reclamá-lo só para aquelas que pagassem impostos ou fossem consideradas intelectuais. «Seria uma injustiça negar a algumas um direito que é de todas. As mulheres, ricas ou pobres, intelectuais ou analfabetas, devem poder votar em igualdade de circunstâncias com os homens». Em sua opinião, devia pedir-se "tudo" e se não dessem "tudo", não se aceitaria "nada". Devido à crispação das duas facções, em 1911, Ana de Castro Osório demitiu-se da LRMP e Maria Veleda tomou o seu lugar, passando a presidir à organização com o apoio de uma larga maioria e a dirigir o periódico A Madrugada. Nesse ano, criou ainda dentro do movimento o Grupo das Treze, constituído simbolicamente por treze mulheres que pretendiam combater a ignorância e as superstições, o obscurantismo, o dogmatismo religioso e o conservadorismo que afectavam a sociedade portuguesa e impediam a emancipação das mulheres e o progresso humano.[5]

Com quarenta e quatro anos de idade, em 1915, rompeu os seus laços com a LRMP, por esta se ter assumido como apartidária. Filiou-se no Partido Democrático, e acompanhada de um grupo de dissidentes fundou, no último trimestre desse mesmo ano, a Associação Feminina de Propaganda Democrática, com a sua intenção de apoiar a intervenção política de Afonso Costa, figura respeitada e admirada pela generalidade das militantes republicanas, feministas e maçónicas. Em consequência da ditadura de Joaquim Pimenta de Castro, juntou-se aos conspiradores na preparação do golpe revolucionário que destituíu o governo ditatorial e integrou o grupo de pressão que defendeu a entrada de Portugal na Primeira Grande Guerra.[6]

Por volta de 1916, a sua preocupação com o sentido da existência levou-a a tomar contacto com os conceitos do espiritualismo e do esoterismo, tendo aderido ao espiritismo filosófico, científico e experimental. Fundou o Grupo das Sete, que mais tarde se transformou no Centro Espiritualista Luz e Amor, tornou-se num dos elementos dinamizadores do I Congresso Espírita Português em 1925 e participou na fundação da Federação Espírita Portuguesa em 1926. Durante esse período fundou as revistas A Asa, O Futuro e A Vanguarda Espírita, tendo colaborado na imprensa espiritualista de todo o país, à época.

Desiludida com a actuação dos governos da Primeira República Portuguesa, que não cumpriram as promessas de conceder o voto às mulheres e viveram derradeiros momentos de instabilidade governativa com muitas divergências internas, Maria Veleda abandonou o activismo político e feminista em 1921, após os eventos da Noite Sangrenta, que originaram nos assassinatos de António Granjo, Carlos da Maia e António Machado Santos.[7]

Faleceu de insuficiência cardíaca aos 84 anos, onde vivia, na Avenida General Roçadas, número 5, rés-do-chão esquerdo, em Lisboa, sendo sepultada no Alto de São João.

HomenagensEditar

Uma escola básica em Santo António dos Cavaleiros recebeu o seu nome.

Em 1976, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou a escritora e activista dando o seu nome a uma rua na zona da Quinta dos Condes de Carnide, em Carnide.

Referências

  1. Rita Correia (26 de Março de 2011). «Ficha histórica: Ave azul : revista de arte e critica (1899-1900)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 23 de Junho de 2014 
  2. Feminae, Dicionário Contemporâneo. Lisboa: CIG. 2013  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  3. «Maria Veleda (1871-1955) - Memórias e percursos de uma propagandista republicana - Lagos da República». lagosdarepublica.wikidot.com 
  4. «I Congresso Nacional do Livre Pensamento». Fundação Mário Soares 
  5. «UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta - O GRUPO DAS TREZE - Comemorações, da UMAR, do Centenário da República». www.umarfeminismos.org 
  6. «Biografia de Maria Veleda». biografias.netsaber.com.br 
  7. «Maria José Franca, As Mulheres da República: Maria Veleda». aeppea. 4 de outubro de 2011 

BibliografiaEditar

  • VASCONCELOS, Manuela. Grandes Vultos do Movimento Espírita Português.

Ligações externasEditar

Ver tambémEditar