Negacionismo da ditadura militar brasileira

negacionismo brasileiro

O negacionismo da ditadura militar brasileira é um tipo de negacionismo histórico brasileiro.[1][2][3][4]

Busca interditar e suprimir as memórias e a história dos crimes cometidos pela ditadura militar brasileira (1964–1985).[5] Sua divulgação teve crescimento a partir das jornadas de junho de 2013 quando, durante manifestações, apareceram faixas pedindo a "intervenção militar" e ganhou força a partir dos anos subsequentes com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em que o tema passou a fazer parte da retórica política com fins eleitorais.[6] Os negacionistas tentam celebrar a ditadura[7] para legitimar e justificar as práticas violentas e antidemocráticas adotadas na ditadura que assumiu o poder no país após o golpe de estado de 1964.[8][9][10][11][12][6][13][14]

Argumentos da negaçãoEditar

Dentre os argumentos utilizados para a negação do passado ditatorial estão falsas analogias como “os comunistas mataram tanto ou mais que os militares no Brasil” ou inversão da responsabilidade dos fatos, como na afirmação: “a rigor, a intervenção militar existiu para evitar uma ditadura, a dos comunistas”, guardando similitudes com aqueles utilizados pelos negacionistas do Holocausto.[6][1]

Dentre as tentativas de revisão do passado está a divulgação de que o nazismo foi na verdade um movimento de "esquerda", e que Adolf Hitler estaria, assim, na mesma situação política do ditador soviético Josef Stálin; neste argumento não é preciso apresentar provas ou fundamentos documentais, sendo necessário tão-somente a repetição, frisando que o "nacional-socialismo" tinha "socialismo" no nome, levando à falsa conclusão "óbvia" de que era, portanto, socialismo; assim como se nega o fato histórico da ligação da extrema-direita com Hitler, também a afirmação de que o Brasil sofrera uma ditadura militar faz parte de um complô dos professores de história, ligados à esquerda.[6]

Ver tambémEditar

ReferênciasEditar

  1. a b Jesus, Carlos Gustavo Nóbrega de; Gandra, Edgar Avila (16 de dezembro de 2020). «O negacionismo renovado e o ofício do Historiador». Estudos Ibero-Americanos (3): e38411–e38411. ISSN 1980-864X. doi:10.15448/1980-864X.2020.3.38411. O discurso de tais militares se aproximava ao dos negacionistas do Holocausto, pois ambos negavam fatos limites, ou seja, acontecimentos que estão comprovados empiricamente, como por exemplo, a tortura, o golpe e a própria ditadura. No entanto, o que ambos os grupos buscavam era negar a memória dos seus oponentes, para legitimar suas próprias memórias, construídas segundo interesses políticos e ideológicos, provocando novo embate pelo passado. Se escoravam em máximas simplistas e generalistas, como a de que as rememorações dos judeus ou dos torturados pela ditadura civil-militar não estavam imunes às emoções dos ressentimentos ocasionados pelos traumas ocorridos, o que é mais do que evidente pois, a memória forma-se de tais “feridas abertas, interrogações atuais e palpitantes sobre certos períodos que ‘não passam’”... 
  2. Motta, Márcia Maria Menendes (29 de abril de 2020). «Veto à história». Folha de S.Paulo. Consultado em 5 de janeiro de 2021. Com efeito, a despeito de tudo que já foi escrito, no Brasil e no exterior, sobre a Ditadura Militar, por exemplo, o presidente insiste em comemorar o 31 de março com o slogan “a revolução democrática de 1964”. Ninguém que tenha estudado história e possa formar opinião sólida neste terreno defenderia a ditadura negando seu caráter autoritário. A defesa da censura prévia, da tortura e de torturadores não é nem opinião, nem exercício de liberdade de expressão, é um crime e assim deveria ser tratado. 
  3. a b c d e f «O negacionismo histórico como arma política». Deutsche Welle. 3 de abril de 2019. Consultado em 5 de janeiro de 2021 
  4. Bauer, Caroline Silveira (9 de dezembro de 2019). «La dictadura cívico-militar brasileña en los discursos de Jair Bolsonaro: usos del pasado y negacionismo». Relaciones Internacionales (em espanhol) (57): 37–51. ISSN 2314-2766. doi:10.24215/23142766e070. El negacionismo, al realizar apología a la dictadura, refuerza marcadores de exclusión en la sociedad brasileña. Una frase que se repite mucho en Brasil es “qué bueno que era vivir en la dictadura” y trae entrelíneas la visión de una sociedad que valoriza la autoridad, la jerarquía y prácticas de control y represión en que los papeles sociales de mujeres, negros, gays y pobres son preestablecidos e inmutables. De cierta manera, Bolsonaro ha convencido a su electorado de que las minorías les han robado el espacio identitario, uno indivisible e inmutable, de lo que se considera “brasileño”. 
  5. a b Silva, João Teófilo (2019). «As forças armadas brasileiras e as heranças da ditadura militar de 1964: tentativas de interdição do passado». In: Ernesto Lázaro Bohoslavsky, Rodrigo Patto Sá Motta, Stéphane Boisard (eds.). Pensar as direitas na América Latina. São Paulo, SP: Alameda. pp. 99–118. ISBN 978-85-7939-602-1. As FFAA [Forças Armadas], notadamente o Exército, haja vista seu protagonismo durante a ditadura, consideram como "revanchismo" quaisquer tentativas, sejam elas feitas pelo Estado ou não, de trazer para o espaço público esse debate. A ideia de revanche, que remete à ideia de reconciliação construída a partir da Lei de Anistia, evidencia não apenas que as FFAA permaneceram reproduzindo uma memória específica sobre os significados do golpe e da ditadura, mas também buscaram censurar esse debate, pois fez o silêncio como correlato desa reconciliação. Não se tratava apenas de seguir adiante, mas também de esquecer, interditar e fazer desse passado um "passado morto". 
  6. a b c d Gomes, Wilson (10 de julho de 2018). «Revisando a ditadura militar». Revista Cult. Cópia arquivada em 10 de junho de 2020 
  7. Cardoso, Lucileide Costa (dezembro de 2011). «Os discursos de celebração da 'Revolução de 1964'». Revista Brasileira de História (62): 117–140. ISSN 0102-0188. doi:10.1590/S0102-01882011000200008. Consultado em 4 de janeiro de 2021 
  8. Senra, Ricardo (4 de abril de 2019). «Brasil diz à ONU que não houve golpe em 64 e que governos militares afastaram ameaça comunista e terrorista». BBC Brasil. Cópia arquivada em 14 de dezembro de 2020 
  9. Napolitano, Marcos. «Recordar é vencer: as dinâmicas e vicissitudes da construção da memória sobre o regime militar brasileiro». Antíteses. 8 (15esp): 09-44. ISSN 1984-3356. doi:10.5433/1984-3356.2015v8n15espp9 
  10. Cafardo, Renata (28 de abril de 2019). «"Não se pode negar o conhecimento", diz docente de História». Terra. Cópia arquivada em 28 de abril de 2019 
  11. Avila, Arthur Lima de (29 de abril de 2019). «Qual passado usar? A historiografia diante dos negacionismos». Café História. Cópia arquivada em 22 de novembro de 2020 
  12. Cafardo, Renata (28 de abril de 2019). «Com risco de chegar às escolas, negação da história preocupa especialistas». UOL Educação. Cópia arquivada em 3 de maio de 2019 
  13. Prelorentzou, Renato (5 de abril de 2019). «Como se construíram a memória e a história da ditadura militar brasileira?». Estadão. Cópia arquivada em 8 de agosto de 2020 
  14. Ribeiro, Luci (31 de março de 2019). «Planalto divulga vídeo em defesa do golpe militar de 1964 - Política». Estadão. Cópia arquivada em 8 de novembro de 2020 
  15. Dias, José Carlos; Kehl, Maria Rita; Pinheiro, Paulo Sérgio; Dallari; Cardoso, Rosa (9 de outubro de 2018). «José Carlos Dias, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro, Pedro Dallari e Rosa Cardoso: Ditadura e revisionismo». Folha de S.Paulo. Consultado em 8 de janeiro de 2021. Cópia arquivada em 29 de outubro de 2020. Ao contrário do que Toffoli enunciou, é fato assentado documentalmente que de 1964 a 1985 prevaleceu no Brasil um regime de exceção que torturou, matou ou "fez desaparecer" milhares de pessoas —dentre elas, estudantes, militantes políticos e sindicalistas. 
  16. Calil, Gilberto Grassi (2014). «O revisionismo sobre a ditadura brasileira: a obra de Elio Gaspari». Segle XX: revista catalana d'història. 7 (2014): 99–126. ISSN 1889-1152 
  17. Calil, Gilberto (2017). «Revisionismo e embates em torno da memória: a abordagem de Elio Gaspari sobre a repressão e a resistência à ditadura brasileira». In: Ana Sofia Ferreira, João Madeira, Pau Casanellas (eds.). Violência política no século XX . Um balanço (PDF). Lisboa: Instituto de História Contemporânea – NOVA FCSH. pp. 56–69. ISBN 978-989-98388-3-3 
  18. Onofre, Renato (27 de março de 2019). «'Não considero um golpe', diz ministro das Relações Exteriores sobre 1964». Portal A TARDE. Cópia arquivada em 23 de outubro de 2020 
  19. Oriá, Ricardo (7 de dezembro de 2020). «O direito ao passado contra o negacionismo histórico». Estadão. Cópia arquivada em 14 de dezembro de 2020 
  20. Oliveira, Regiane (5 de abril de 2019). «Governo Bolsonaro prega "negacionismo histórico" sobre a ditadura». EL PAÍS. Consultado em 14 de dezembro de 2020. Cópia arquivada em 7 de novembro de 2020 
  21. Pereira, Joseane (8 de maio de 2019). «Negacionismo histórico: Por quê estamos negando os fatos?». Aventuras na História. Cópia arquivada em 29 de julho de 2020 
  22. a b Filho, João Roberto Martins (7 de novembro de 2019). «Ordem desunida: militares e política no governo Bolsonaro». Perseu: História, Memória e Política (18). ISSN 2595-4008 
  23. Franco, Bernardo Mello (22 de novembro de 2020). «O negacionismo no poder». Bernardo Mello Franco - O Globo. Cópia arquivada em 29 de novembro de 2020. Na sexta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão deu uma nova contribuição à galeria de mentiras oficiais. “No Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar”, afirmou o general. 
  24. Pereira, Flávio de Leão Bastos; Araujo, Gabriela Shizue Soares (1 de abril de 2020). «Do golpe ao negacionismo: o que aconteceu com a memória do Brasil?». Estadão. Cópia arquivada em 14 de dezembro de 2020 
  25. «"Bolsonaro é produto e produtor de discurso que nega ditadura", afirma sociólogo». UOL. 13 de outubro de 2020. Cópia arquivada em 14 de dezembro de 2020 
  26. Rocha, Igor Tadeu Camilo (28 de março de 2019). «Bolsonaro, 1964 e o negacionismo como política». UOL. Cópia arquivada em 4 de abril de 2019 
  27. Silva, Danillo da Conceição Pereira (2020). «Embates semiótico-discursivos em redes digitais bolsonaristas». Trabalhos em Linguística Aplicada. 59 (2): 1171–1195. ISSN 0103-1813. doi:10.1590/010318137409916202006241 
  28. Colombo, Sylvia (15 de fevereiro de 2011). «História com "h" minúsculo». Folha online. Consultado em 4 de janeiro de 2021. O momento mais delicado, obviamente, é aquele em que trata da ditadura. É cada vez mais comum que novos estudos promovam uma releitura menos ideologizada do período e que cada vez menos se fale em "mocinhos" e "bandidos", como sugere Narloch. Mas o rapaz toma tão claramente um só partido da dicotomia que diz tentar combater que fica até feio. Chega a dizer coisas duvidosas, que qualquer estudioso sério da ditadura ao menos relativizaria, do tipo: "Qualquer notícia de movimentação comunista era um motivo justo de preocupação. A experiência mostrava que poucos guerrilheiros, com a ajuda de partidários infiltrados nas estruturas do Estado, poderiam sim derrubar o governo." 
  29. Fernandes, Eurico da Silva (2018). «O estudo do revisionismo histórico brasileiro na sala de aula: os casos da "ditabranda" da Folha de S. Paulo e da "ditadura à brasileira" de Marco Antonio Villa». In: Hasper, Ricardo; Barros, Gilian Cristina; Muller, Claudia Cristina. Os desafios da escola pública paranaense na perspectiva do professor PDE, 2016 (PDF). 1 - Artigos 2016. Curitiba: Secretaria de Estado da Educação, Superintendência da Educação. Programa de Desenvolvimento Educacional. ISBN 978-85-8015-093-3 
  30. «Disseminação de testemunhos da violência de Estado no Brasil é remédio contra negacionismo, diz historiador». BOL Notícias. 26 de novembro de 2020. Cópia arquivada em 14 de dezembro de 2020. "O negacionismo parte de um pressuposto ideológico e se distancia da realidade para tentar disseminar ou comprovar uma 'verdade' que não corresponde àquilo que a grande maioria dos historiadores e dos cientistas sociais teriam a dizer sobre os eventos. Isso acontece no mundo inteiro. É um fenômeno que atinge desde o Holocausto até a ditadura militar brasileira. Para combater isso, eu acho fundamental em primeiro lugar ter fontes históricas produzidas, preservadas e disseminadas", afirma o pesquisador, autor de um vasto trabalho sobre os militares no Brasil. 
  31. «Ministro promete mudar livros didáticos por "visão mais ampla" da ditadura». EL PAÍS. 4 de abril de 2019. Consultado em 14 de dezembro de 2020. Cópia arquivada em 7 de novembro de 2020 

BibliografiaEditar

Ligações externasEditar

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