Os Imortais

filme de 2003 dirigido por António-Pedro Vasconcelos
Nota: Se procura pela série de livros da escritora americana Alyson Noël, consulte Os Imortais (série de livros).

Os Imortais é um filme de ação português de 2003, realizado e escrito por António-Pedro Vasconcelos.[1] Adaptado do romance Os Lobos Não Usam Coleira de Carlos Vale Ferraz, a longa-metragem é protagonizada por Joaquim de Almeida (interpretando o ex-comando Roberto Alua) e Nicolau Breyner (no papel de Inspetor Joaquim Malarranha) e acompanha um grupo de ex-combatentes que, para homenagear um amigo que morreu, decidem organizar um crime. O filme estreou em Portugal a 7 de novembro de 2003.[2]

Os Imortais
The imortals
Portugal Portugal
2003 •  cor •  130 min 
Realização António-Pedro Vasconcelos
Produção Jani Thiltges
Argumento António-Pedro Vasconcelos,
António Tavares Teles,
Claire Downs,
Vicente Alves do Ó
Baseado em Os Lobos Não Usam Coleira, de Carlos Vale Ferraz
Elenco Joaquim de Almeida
Emmanuelle Seigner
Nicolau Breyner
Género ação, drama, guerra, crime
Lançamento 7 de novembro de 2003
Idioma português

SinopseEditar

Todos os anos, quatro ex-comandos de uma unidade especial da guerra colonial reúnem-se para comemorar os feitos da guerra e manter o grupo unido. Autointitulam-se Imortais - sobreviventes de uma guerra que lhes deixou marcas e os impede de ter uma vida normal. Ainda comemoram o seu quinto camarada, que morreu durante uma operação de comando em circunstâncias inexplicáveis, e cujo corpo carbonizado nunca pôde ser claramente identificado. Nestes reencontros anuais, fazem-se acompanhar por quatro mulheres, para umas férias curtas extravagantes. Em 1985, o encontro acontece no Algarve, em Albufeira. Fartos da pasmaceira do país, decidem assaltar um banco.[3]

Apesar do sucesso do assalto, a companhia de Aluas, a francesa femme fatale Madeleine Durand, faz abalar a coesão incondicional do grupo. Começa a ser evidente que Alua, é o único que conhece a surpreendente verdade acerca do desaparecimento do quinto Imortal. O detetive inspetor Malarranha está a poucos dias de sua reforma quando assume o caso. Também na vida privada os caminhos de todos os envolvidos se cruzam cada vez mais. Depois de uma série de atos de violência e mortes, o filme termina com um comissário aposentado que encontra a sua vocação de guitarrista no bar de fado do único sobrevivente dos quatro Imortais.

ElencoEditar

Equipa técnicaEditar

  • Realização: António-Pedro Vasconcelos[6]
  • Assistentes de realização: Martim Corrêa, Francisco Antunes, Jorge Costa
  • Argumento: António-Pedro Vasconcelos
  • Colaboração no argumento: António Tavares Teles, Vicente Alves do Ó, Clare Downs
  • Direção de fotografia: Barry Ackroyd
  • Decoração: João Calvário
  • Figurinos: Cynthia Dumont
  • Chefe de guarda-roupa: Ulli Simon
  • Música: Gast Waltzing
  • Montagem: Scott Thomas
  • Som: Carlo Thoss
  • Efeitos sonoros: Ruth Sullivan, Miguel Lima
  • Misturas: Branko Neskov
  • Produção: Jani Thiltges, António da Cunha Telles, Julie Baines, Jason Newmark, Luís Galvão Teles, Luís Bordalo Silva, Claude Waringo
  • Direção de produção: Antónia Seabra, Jean-Luc Zehnter
  • Chefes de produção: Paulo Guedes, Vasco Mensurado

ProduçãoEditar

Os Imortais é uma produção liderada por Jani Thiltges entre Portugal, Reino Unido e Luxemburgo, através das empresas produtoras Samsa Film (Luxemburgo), Animatógrafo 2 (Portugal), Fado Filmes (Portugal), Dan Films (Reino Unido), em co-produção com a RTP e a Lusomundo Audiovisuais, e a participação financeira do Instituto do Cinema Audiovisual e Multimédia, Fonds National de Soutien à la Production Audiovisuelle du Grand-Duché de Luxembourg e Ingenious Films Ltd.[7] O argumento de António-Pedro Vasconcelos, escrito com a colaboração de António Tavares Teles, Vicente Alves do Ó e Clare Downs, é uma adaptação livre do romance Os Lobos Não Usam Coleira, de Carlos Vale Ferraz.[8] Mafalda Arnauth escreveu e cantou um novo Fado para o filme, que interpreta ao vivo em cena.

CastingEditar

Vasconcelos escreveu o filme idealizando o personagem Joaquim Malarranha para Nicolau Breyner "porque era um ator único, que sabia muito bem interpretar todas as emoções – a tristeza, a alegria, a ironia – e doseá-las para cada cena".[9] Para interpretar o papel da francesa Madeleine Durand, foi escolhida Emmanuelle Seigner, ainda que não tivesses quaisquer conhecimentos de língua portuguesa. A atriz pediu para interpretar os seus próprios textos em português, tendo tido a ajuda de professores de pronúncia. O seu marido, o realizador Roman Polański, visitou-a várias vezes no set do filme, com os filhos de ambos.[10] Para interpretar o grupo de personagens que dá título ao filme, foram contratados Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Joaquim Nicolau e Rui Unas, que se estreia em cinema neste filme.

RodagemEditar

A filmagem decorreu durante 2002 e representou desafios para o realizador e a sua equipe. Para além dos constrangimentos de três idiomas serem falados no set, e os dias de produção em exteriores tiveram de ser alterados várias vezes devido a uma quantidade incomum de chuva.

Para reproduzir as cenas do filme ambientadas em 1985 da forma mais fiel possível, foram utilizados automóveis da época e placas válidas antes da adesão de Portugal à CEE. Os arranjos interiores dos apartamentos e as roupas e penteados também foram adaptados à época.[11]

Temas e estiloEditar

Num género vagamente policial, interligando conversas humorísticas, cenas eróticas e segmentos de ação,[12] o realizador António-Pedro Vasconcelos constrói um filme com algum suspense, procurando captar o ambiente no pós-Guerra Colonial através de personagens que demonstram o marasmo que era viver sem a adrenalina da guerra, no Portugal dos anos 80. Os Imortais tenta explorar como essas profundas convulsões sociais afetam papéis de género e convenções sociais. Os quatro veteranos são caracterizados pela sua dureza e violência. São membros bem-sucedidos da sociedade, mas permanecem inadaptados, sem conseguir abandonar o mindset de militares. Os quatro veteranos representam uma parte atrasada da sociedade moldada pelo regime do Estado Novo e traumatizada pela guerra colonial.[13] Paralela a esta geração está o personagem Malarranha, com a qual o filme traça o estado de espírito do país em meados da década de 1980, que se caracterizou pelo surgimento dos yuppies e da era conservador-neoliberal de Cavaco Silva.[14]

Os Imortais enquadra-se numa linha de ex-realizadores do movimento do Novo Cinema, que processam conteúdos relevantes em termos de entretenimento, numa procura alcançar o público e resultados de bilheteira, sem pôr em causa critérios de qualidade. Nesse sentido, Vasconcelos tornou-se o expoente de maior sucesso desta direção. Este seu filme demarca-se do cinema de autor, não se rende demasiado a uma vertente comercial, ainda que se denote a preocupação máxima em entreter um grande público.[12]

DistribuiçãoEditar

A antestreia do filme em Portugal decorreu a 4 de novembro de 2003, na Culturgest (Lisboa). Sendo distribuído pela Lusomundo Audiovisuais, o filme viria a estrear comercialmente a 7 de novembro do mesmo ano.[15]

Em 2004, o filme foi lançado em DVD numa edição dupla de colecionador, editado pela Lusomundo em Portugal.[16] Em 2010, uma nova edição do DVD foi lançada, incluíndo também o filme Jaime de Vasconcelos.[17]

ReceçãoEditar

AudiênciaEditar

Os Imortais foi bem recebido pelo público, tendo totalizado 51.476 espetadores em Portugal.

CríticaEditar

A crítica especializada teceu comentários negativos ao filme, ainda que o elogio ao elenco tenha sido generalizado. As interpretações de Paula Mora, antes conhecida apenas como atriz de teatro, e Rui Unas, conhecido apenas como humorista, surpreenderam os críticos. O desempenho de Nicolau Breyner foi universalmente aplaudido. José Vieira Mendes (Magazine HD) escreve que o ator "é absolutamente notável, de uma serenidade comovente e que consegue talvez o melhor papel da carreira do grande ator nos filmes portugueses."[18]

Quanto às falhas do filme, Rui Francisco Pereira (Espalha Factos) destaca a banalidade do enredo: "A premissa pertinente cedo cai por terra, revelando uma trama previsível e com um desfecho medíocre. As sequências de ação, às quais o filme recorre com excessiva frequência, são datadas."[19] Os comentadores de cinema do Público vão além destas críticas. Vasco Câmara defende que o enredo é "guilhotinado pelo dispositivo de flashbacks".[20] Kathleen Gomes critica a abordagem aos temas do filme, descrevendo-o como "um mero esboço do que seria, porventura, mais interessante: um retrato de conjunto de uma virilidade crispada, confrontada com os fantasmas da guerra".[21] Em concordância, Luís Miguel Oliveira defende que "infelizmente, o tema não só fica escondido como se deixa afogar por completo dentro duma estrutura narrativa terrivelmente confusa".[22]

PremiaçõesEditar

O filme ganhou o Globo de Ouro 2004 de melhor ator (para Nicolau Breyner) e foi premiado com o prémio do público de melhor filme nos Caminhos do Cinema Português em Coimbra.

Ano Premiação Categoria Trabalho Resultado Ref.
2004 Coimbra Caminhos do Cinema Português Prémio do público: Melhor filme Os imortais, Jani Thiltges Venceu [23]
Globos de ouro, SIC Melhor ator Nicolau Breyner Venceu [24]
Melhor atriz Paula Mora Indicado

Referências

  1. «António Pedro Vasconcelos». Infopédia. Consultado em 18 de Dezembro de 2013 
  2. Público. «Os Imortais». Cinecartaz. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  3. «Os Imortais – Samsa» (em inglês). Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  4. Público. «Os Imortais». Cinecartaz. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  5. «Os Imortais (Film): Reviews, Ratings, Cast and Crew - Rate Your Music». rateyourmusic.com. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  6. «THE IMMORTALS (IMORTAIS, OS)». Cineuropa - the best of european cinema (em inglês). Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  7. «Os Imortais – Samsa» (em inglês). Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  8. «Filme». cinemaportuguesmemoriale.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  9. «Visão | António-Pedro Vasconcelos: "Fiz 'Os Imortais' para ele"». Visão. 14 de março de 2016. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  10. «'OS IMORTAIS' EM CARCAVELOS...». www.cmjornal.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  11. «7. Sobre "Os Imortais" de António-Pedro Vasconcelos». www.ruideazevedoteixeira.com. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  12. a b Portugal, Rádio e Televisão de. «OS IMORTAIS (Os bastidores) - Filmes - Documentário - RTP». www.rtp.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  13. Mendes, José Vieira (25 de novembro de 2016). «1º Cine Atlântico: Nicolau Breyner, O Imortal». Magazine.HD. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  14. «À Conversa com António-Pedro Vasconcelos no IPOR». ipor.mo. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  15. «THE IMMORTALS (IMORTAIS, OS)». Cineuropa - the best of european cinema (em inglês). Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  16. «Os Imortais». FNAC 
  17. «Os Imortais - Edição Especial 2 Discos (DVD-Vídeo) - Filmes - WOOK». www.wook.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  18. Mendes, José Vieira (25 de novembro de 2016). «1º Cine Atlântico: Nicolau Breyner, O Imortal». Magazine.HD. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  19. «"Hollywood, tens cá disto?": Os Imortais (2003)». Espalha-Factos. 25 de agosto de 2017. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  20. Câmara, Vasco. «Último Hurrah!». PÚBLICO. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  21. Gomes, Kathleen. «Costuras à mostra». PÚBLICO. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  22. Oliveira, Luís Miguel. «Imortais». PÚBLICO. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  23. «FESTIVAL DE CINEMA EM COIMBRA». www.cmjornal.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2020 
  24. «Caras | Todos os vencedores da história dos Globos de Ouro». Caras. 19 de maio de 2017. Consultado em 27 de dezembro de 2020 

Ligações externasEditar