Paleopatologia

Paleopatologia ("velho" em grego clássico: παλαιός; romaniz.: paleo, "doença" em grego clássico: πάθος; romaniz.: pathos e "estudo do" em grego clássico: -λογία; romaniz.: -logia) é a ciência que demonstra a presença de enfermidades em restos de animais ou humanos procedentes de tempos antigos, ou, simplesmente, como o estudo das doenças em populações do passado.[1]

Fêmures e, à direita, úmero humanos do período romano

A paleopatologia é uma disciplina científica reconstrutiva: aspira estabelecer a presença de doenças e o seu impacto dinâmico nos grupos humanos através de inferências baseadas em evidências recolhidas de uma pletora de mediadores com o passado. Sobrepondo massas de evidência procedentes maioritariamente de restos esqueléticos e mumificados, mas também da arte (da pintura, da iconografia, da escultura), da história (de testamentos, de diários, de registros paroquiais, de tratados médico-filosóficos) e da literatura, a paleopatologia tornou-se uma disciplina devotada ao apuro do conhecimento da evolução das condições patológicas e do seu papel na história biológica e social humana.[2]

HistóriaEditar

Durante um termo longo da sua história, a exegese paleopatológica preocupou-se em seguir uma metodologia meramente descritiva e desassombrada com os aspectos analíticos do estudo das doenças no passado. O anátema expirou com a publicação, em 1930, do estudo de Hooton sobre os indígenas de Pecos Pueblo, obra que alicerçou o período epistemologicamente florescente da paleoepidemiologia. Desde a edição desse marco miliar que a ênfase vem sendo colocada no estudo das populações – ao invés do estudo focalizado somente nos indivíduos – e na interpretação das alterações seculares dos padrões de doença, da paleodemografia e da complexa relação da enfermidade com o meio natural, social e cultural.[3]

Paleopatologia humanaEditar

A epidemiologia é o estudo da ocorrência e distribuição de doenças e outras condições relacionadas com a saúde numa comunidade. Um dos propósitos desta área do saber prende-se com a determinação da magnitude e impacto das doenças e outras condições em populações ou subpopulações selecionadas. Outro dos fitos da epidemiologia refere-se ao estudo da história natural, curso clínico e patogênese das condições patológicas. O intento da paleoepidemiologia é mensurar a frequência de uma determinada condição patológica em populações desaparecidas, muitas vezes por intermédio dos seus remanescentes esqueléticos.

A frequência da doença numa comunidade pode ser expressa como um índice de prevalência ou de incidência. A incidência de uma doença é definida como o número de novos casos que surgem numa determinada unidade de tempo, numa população definida em risco. A prevalência é enunciada como o número total de indivíduos que padecem de uma doença prescrita, num período de tempo específico. Se a incidência de uma condição patológica só pode ser arrolada num estudo prospectivo, a estimativa da prevalência é possível através de uma aproximação de estudo a um segmento transversal da população ancorado a um período temporal preciso. A duração de uma doença é influenciada pela história natural desta – os índices de mortalidade e sobrevivência assim como a taxa de tratamentos bem sucedidos são elementos cruciais no talhe da prevalência de uma doença. Em paleopatologia, as doenças identificadas tendem a possuir uma história natural longa, propiciadora de um elevado índice de prevalência.[1][4]

Subsistem muitas imperfeições decorrentes da aplicação da epidemiologia à paleopatologia e que dificilmente serão superadas, mesmo com avanços extraordinários na teoria e nas metodologias que possibilitam o reconhecimento das doenças a partir de restos humanos. Todavia, para debuxar a história da doença nas populações humanas e animais, a paleopatologia não pode deixar de contar com a excecional contribuição da epidemiologia. A descrição de casos isolados em paleopatologia tresmalha-se indubitavelmente de um projeto de ciência crítica e, embora a sua importância seja indiscutível, a verdade é que para a compreensão global da história das doenças não passam de meros parágrafos de curiosidades.[2]

O diagnóstico constitui a chave de abóbada da prática médica e, para que se obtenha uma diagnose, torna-se imprescindível valorar os signos intrínsecos a qualquer doença, tributários dos mecanismos nosógenos que nela atuam. Os diversos sintomas – isto é, as manifestações de alterações orgânicas ou funcionais relacionadas com uma doença – que distinguem qualquer enfermidade pode ser, em determinadas ocasiões, evidentes e prolixas. Porém, na maioria das vezes são difíceis de interpretar e, desse modo, a sua clarificação apoia-se na correlação entre eles e entre as variegadas circunstâncias exógenas que sobre eles influem. Assim, o diagnóstico tem o ar de uma ciência precisa – ou mesmo exata –, mas nada está mais longe da verdade. O vocabulário empregue nos diagnósticos é frequentemente confuso e impreciso, incorporando diferentes sinais e atributos da condição do paciente. De fato, a forma como as enfermidades são classificadas reflete a dubiedade acerca do que constitui, uma doença.[3]

A interpretação dos dados em paleopatologia depende essencialmente da correção do diagnóstico diferencial das condições patológicas. Todavia, depende também da avaliação de outras variáveis que contribuem para a nossa compreensão dos dados referentes à patologia numa amostra esquelética. Atualmente, os médicos dispõem de uma repleção de fontes que facilitam o diagnóstico de uma condição de morbilidade. Em paleopatologia, os dados disponíveis são, de certa forma, diferentes e quase sempre mais escassos.[2]

Referências

BibliografiaEditar

  • Kelsey, Jennifer L.; Sowers, MaryFran (2001). «Introduction to Epidemiologic Methods». Osteoporosis (em inglês) 2 ed. [S.l.]: Academic Press. pp. 535–555. ISBN 978-0-12-470862-4. Consultado em 23 de fevereiro de 2021