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Papa Inocêncio III

Inocêncio III
176º papa
Afresco de Inocêncio III na Capela Sistina, Vaticano
Brasão pontifical de Inocêncio III
Nome de nascimento Lotario de Conti
Nascimento 1160 ou 1161
Anagni, Itália,
Eleição 8 de janeiro de 1198
Entronização 22 de fevereiro de 1198
Fim do pontificado 16 de julho de 1216 (18 anos)
Morte 16 de julho de 1216 (56 anos)
Antecessor Celestino III
Sucessor Honório III
Listas dos papas: cronológica · alfabética

Papa Inocêncio III, nascido Lottario dei Conti di Segni ou Lotário de Conti; (Anagni, 1160 ou 1161Perugia, 16 de julho de 1216), foi papa da Igreja Católica de 22 de fevereiro de 1198 até à data da sua morte. Lotário nasceu na família nobre dos Conti, Condes de Segni, Itália, e estudou nas mais importantes universidades de sua época: Teologia em Paris e Direito em Bolonha. Aos vinte e um anos tornou-se um clérigo importante em Roma, e escreveu dois livros notáveis: “De Contemptu Mundi" (“Sobre o desprezo do mundo”) e “De missarum mysteriis” (“Sobre o mistério da missa”). Sendo considerado jovem, forte, erudito, inteligente e hábil foi eleito papa em 1198, com apenas trinta e um anos de idade.

Como papa, Inocêncio recuperou o poder da Igreja sobre a Itália, especialmente sobre Roma e os Estados Pontifícios, que havia sido destruído pelo Sacro Imperador Henrique VI e pela dinastia Hohenstaufen, e tendo criado uma base sólida na Itália, pode expandir sua autoridade por toda a Europa. Inocêncio também reformou e moralizou a Igreja, a Cúria Romana, o episcopado, e o clero, e aprovou novas Ordens religiosas, como os Franciscanos e os Dominicanos.

Inocêncio também convocou o mais importante concílio da Idade Média, o Quarto Concílio de Latrão, que destaca-se por ter definido o papel da Eucaristia na Igreja por meio da declaração do dogma da transubstanciação, da doutrina que “fora da Igreja não há salvação” e da obrigatoriedade da confissão anual. Considerando que era sua função como papa defender a Igreja e a cristandade, convocou e organizou sete cruzadas, das quais as mais importantes foram a Quarta e a Quinta Cruzada, e a Cruzada Albigense.

Índice

Discussões historiográficasEditar

Uma vez que Inocêncio é considerado um papa muito relevante, sua vida e suas obras foram vastamente estudadas por diferentes historiadores de escolas historiográficas diferentes e cujas ideias sobre o papel do papa são muitas vezes contraditórias [1]. A visão historiográfica dominante sobre Inocêncio é de que ele foi um “super-homem”, um herói ou vilão, essencialmente, um grande “homem político”. Essa descrição, por sua vez, possui opostos, ou a exaltação de suas virtudes, um “culto à personalidade” de Inocêncio, ou sua caracterização como um grande vilão. O primeiro caso, isto é o culto a sua personalidade, foi disseminado principalmente pela historiografia eclesiástica, católica conservadora, e positivista, por exemplo, Friedrich Emanuel von Hurter (1787-1865) e Ferdinand Gregorovius (1821-1891). Para esses historiadores, o reinado de Inocêncio é um antecessor do Estado moderno, impondo ordem dentro de uma sociedade desorganizada[2].

O segundo caso, isto é, a visão negativa de Inocêncio foi difundida principalmente, pela historiografia nacionalista e liberal, por exemplo, Albert Hauck (1845-1918), Johannes Haller (1865-1947) e Paul Johnson (1928). Hauck e Haller, historiadores protestantes e nacionalistas alemães, defendiam a ideia de que Inocêncio era um papa exclusivamente político, hipócrita e oportunista [3]. A origem da visão negativa de Inocêncio encontra-se no pensamento iluminista laicista e anticlerical, do século XVIII, que defende que a Igreja Católica e o papa traíram o Evangelho e o próprio Jesus Cristo ao se ligar ao poder político [3].

Existe ainda uma terceira escola de historiadores sobre quem foi Inocêncio e qual seu papel na Europa e na Igreja, do qual faz parte, por exemplo, Leandro Duarte Rust. Para esses estudiosos, a discussão se Inocêncio foi um “papa religioso” ou um “papa político” é dicotômica e reducionista, pois Inocêncio foi na verdade as duas coisas. Assim, foi um papa dotado que buscou alcançar objetivos eclesiásticos e ao mesmo tempo um homem político e um senhor feudal [4]. Assim, em Inocêncio os objetivos espirituais e os objetivos políticos estão ligados uns aos outros como uma única coisa [5].

Concepção do poder dos papasEditar

 
Iluminura do "Sachsenspiegel" ou "Espelho dos Saxões" (1220-1235), uma coleção de leis consuetudinárias. Na parte de cima, Cristo entrega duas espadas, ao papa e ao sacro imperador, expressando a distinção entre o poder espiritual e político. Na parte de baixo, o imperador segura o estribo do papa. Embora parece que a intenção do autor foi mostrar que os poderes do papa e do imperador são iguais, tradicionalmente a iluminura foi interpretada como demonstrando que o papa é senhor do imperador e tem um poder mais sublime.

Para Inocêncio, o papa goza da "plenitude de poderes" (“plenitudo potestatis”) para o governo da Igreja, pois ele é o Vigário de Cristo, expressão que, embora já existisse, foi Inocêncio que colocou em uso corriqueiro. Assim, para Inocêncio, o papa exerce poder espiritual direto sobre patriarcas, arcebispos, bispos, clérigos e sob todos os cristãos, até mesmo reis e imperadores, pois, como papa, está acima de todos os homens, e abaixo só de Deus [6]. O exercício desse poder, para Inocêncio, tinha por finalidade última a salvação das almas da condenação ao inferno, portanto, era parte essencial da missão da Igreja [7].

Para Inocêncio, o papa também possui de poder político direto e indireto. Esse poder é direto nos Estados Pontifícios e demais reinos que lhe renderam vassalagem, e também indireto, fundado em seu poder espiritual, se estendendo a todos os governos terrestres, permitindo-lhe interferir em matéria política. Esse poder indireto em assuntos sociais, porém, só é exercido in ratione peccati - “em razão do pecado”, quando o papa pode impor decretos políticos, especialmente, o mais grave de todos, que é depor um senhor (rei, príncipe, conde etc.) de seu reino e conceder a liderança a um novo senhor [8]. Dessa maneira, o reinado de Inocêncio, serviu politicamente como a “última instância ética” da Europa, assim como a ONU na atualidade[8].

As ideias sobre o poder pontifício de Inocêncio não são novas, porém seu sistema de pensamento é original por ser uma sistematização de concepções preexistentes, expressa por ele por meio de forma nova com simbolismos e figuras da Sagrada Escritura. Para justificar doutrinariamente esse poder, Inocêncio usou várias passagens da Bíblia, especialmente do Evangelho, que interpretou de maneira figurada. O caso mais famoso e é a alegoria das “duas espadas”, retirada de Lc 22:38, criada originalmente por São Bernardo de Claraval. Inocêncio defende que Cristo deu a São Pedro, primeiro papa, e por isso a todos os papas, “duas espadas”, que representam o poder temporal e espiritual. O papa só usa a “espada espiritual” diretamente, mas a “espada temporal”, usada pelo imperador e pelos reis deve servir indiretamente para o castigo dos inimigos da Igreja e a salvação das almas [8].

Assim, “a ordem social defendida pelo papa é uma unidade formal, unitária e baseada na desigualdade e complementariedade de suas partes. Existem dois poderes distintos para o governo do mundo, o poder temporal e espiritual, tal como no governo do planeta existem dois astros, o sol e a lua. Embora de natureza diversa, os dois poderes devem estar unidos um ao outro, pois só assim podem concorrer para o funcionamento da sociedade, como o sol e a lua ligam-se entre si para o funcionamento da Natureza. Porém, frisa o papa, como a lua é inferior ao sol, assim o poder temporal é inferior ao espiritual, e só brilha quando se aproxima do esplendor da Igreja e de seus objetivos transcendentais” [9]. Os documentos mais importantes de Inocêncio sobre o poder dos papas são as bulas Sicut universitatis (1198), Solitae Benignitatis (1201) e Venerabilem (1202) [10].

Inocêncio também elaborou uma doutrina própria sobre o poder dos papas sobre o Sacro Império Romano-Germânico, que ele expôs na bula “Deliberatio Domini Papae Inocentii” de 1200. Na Deliberatio, Inocêncio defende que o papa pode interferir no Sacro Império por duas razões: devido a sua “origem” e sua “finalidade” (principaliter et finaliter). Na origem (principaliter), o Sacro Império Romano foi transferido (translatio imperii) do então Império Bizantino, em 800, para o Reino Franco pela Igreja. Na finalidade (finaliter), o imperador aceita a imposição de sua dignidade pelo papa por meio da coroação e unção, para defender a fé e a Igreja. Inocêncio assim reinterpretou o ato da coroação do imperador pelo papa, e da própria ideia da criação histórica do Sacro Império [11].

No século IX, a fundação e a “transferência do Império Romano”, sob o reinado de Carlos Magno, foi considerada como uma experiência tendo o próprio Deus como autor. Assim, nem o rei franco, nem o papa, nem o povo foram responsáveis pela transferência imperial, mas, sim, Deus, que se manifesta na própria história. Inocêncio reinterpretou esse ato como uma ordem jurídica do papa, que desejava criar um protetor mais eficaz para a Igreja. Assim, a translatio imperii se torna o exemplo mais importante do poder indireto do pontífice de intervir nos reinos, devido ao pecado e às necessidades da Igreja. Em última análise, possibilitava ao papa, politicamente, criar o próprio Império Romano [11].

Início de vidaEditar

 
Castelo nobre de Gavignano na atualidade, local de nascimento de Inocêncio.

O nome de batismo do pontífice era Lotário, pertencendo à família nobre italiana Conti, cujo chefe gozava do título de conde da cidade de Segni. A família Conti, foi fundada aparentemente pelo pai de Lotário, Trasimundo. Lotário nasceu no Castelo nobre de Gavignano, perto de Anagni, em 1160 ou 1161. Lotário estudou nas duas mais importantes universidades do renascimento de sua época: teologia, em Paris, e direito canônico, em Bolonha. O curso de teologia em Paris era então ministrado por um teólogo famoso chamado Pedro de Corbeil, a quem Inocêncio nomeará posteriormente de forma direta Arcebispo de Sens, anulando a eleição anterior do cabido e impondo Pedro como prelado. Depois, quando Lotário estudou Direito Canônico em Bolonha, o curso era presidido por Huguccio de Pisa, também notável professor e jurista na época, ao qual Inocêncio manterá uma amizade, submetendo alguns de seus decretos como papa para correções e sugestões de Huguccio. Apesar de sua formação teológica, Inocêncio se destacou, sobretudo, como um grande jurista [12].

 
Afresco do Papa Inocêncio III no mosteiro beneditino de Subiaco, Lácio, em torno de 1219.

Desde 1181, Lotário, com então vinte e um anos, trabalhou em Roma para a Cúria, ocupando vários cargos eclesiásticos como subdiácono, Cardeal-Diácono e depois Cardeal-Presbítero. Durante o pontificado de Celestino III (1191-1198), um membro da família Orsini, inimigo dos Conti, Lotário viveu exilado, possivelmente, em Anagni, dedicando-se, principalmente, à meditação e à escrita. [12]. Durante seu exílio, escreveu dois tratados de teologia. O primeiro é o “De Contemptu Mundi, sive de Miseria Conditionis Humanae" (“Sobre o desprezo do mundo, ou sobre a miséria da condição humana”). O segundo é o “De missarum mysteriis”, também chamado de “De sacro altares mysterio” ou ainda “Mysteriorum legis et sacramenti eucharistiae liber sex, de quadripartitu species nuptiarum” (“Sobre o mistério da missa”, “Sobre o sagrado mistério do altar” e “Lei misteriosa e do sacramento da eucaristia, Livro Seis, Sobre as quatro espécies de núpcias”). As obras de Inocêncio seguiam a tradição teológica monástica alegórica. O tratado “De Contemptu Mundi” reconheceu uma grande popularidade em sua época, sobrevivendo em mais de 700 manuscritos. O De sacro altares mysterio, por sua vez, expõe doutrinas sobre as núpcias entre o homem e a mulher, Deus e as almas, Cristo e a Igreja [13].

Em 8 de janeiro de 1198, com a morte de Celestino III, Lotário foi unanimemente eleito como papa e escolheu o nome de Inocêncio, tendo, então, 37 ou 38 anos. Como papa mostrou uma inteligência aguçada, visão clara da realidade, habilidade diplomática e sentido prático[13].

Reformas na Cúria Romana e na IgrejaEditar

 
Uma bula papal de Inocêncio III. Em um lado, lê-se “INNO/CENTIUS/PP III”, e no outro, bastante desgastado, estão as cabeças de São Pedro e Paulo abaixo da inscrição “SPASPE” (abreviatura de “Sancte Paulus et Sancte Petrus”.

Inocêncio considerava o papado uma força moralizadora e reformadora da Igreja, e a si mesmo um exemplo a ser seguido pelos fiéis. Assim, desde que se tornou pontífice, Inocêncio adotou algumas das ideias propagadas pelas reformas religiosas de sua época. Em primeiro lugar, desde sua eleição, praticou pessoalmente, de forma moderada, a “vida apostólica”, como era chamada na época uma vida mais simples baseada na pobreza dos apóstolos de Jesus Cristo. Assim, renunciou ao uso de vestuários luxuosos e passou a usar apenas uma túnica simples de lã branca crua. Ele também fazia homilias ao clero e ao povo, semanalmente, durante a missa, aumentou os serviços de caridade da Cúria, e aos sábados lavava os pés de doze mendigos, bem como distribuía moedas aos pobres presentes. Inocêncio tornou-se especialmente notável pelo financiamento ao Hospital junto à Igreja de Santa Maria de Sassia, o “Hospital do Espírito Santo”, em Roma. Também promovia audiências públicas diárias nas quais qualquer fiel, desde que agendasse previamente, podia ter acesso a ele [14].

Inocêncio também recriou a Cúria Romana, decretou normas de sobriedade e equilíbrio, castigando os funcionários que falsificavam e vendiam bulas (“tráfico de bulas”), e retomou o costume de presidir três vezes por semana as reuniões do Colégio dos Cardeais, criando um relacionamento estreito com sua Corte. Inocêncio também mandou bulas de advertência exigindo correção de abusos de padres e bispos em toda a Europa, imponto o celibato, lutando contra a simonia e exigindo o uso de vestes adequadas pelos clérigos [14].

Inocêncio também aprovou a criação de novas ordens religiosas para a reforma da Igreja, sendo as duas mais famosas a Ordem de São Domingos de Gusmão, em 1205, e de São Francisco de Assis, em 1210. Inocêncio igualmente aprovou a Ordem Premonstratense, a Ordem do Espírito Santo (dotada de uma regra, em 1213), a Ordem dos Trinitários, dedicada a libertar os cativos aprisionados pelo Islã, e os humiliati (“humilhados”) [14].

Inocêncio também esteve muito preocupado com o culto divino e ordenou a liturgia romana em sua última fase e em seus traços gerais, quando esta se tornou, na Igreja latina, a “liturgia secundum usum romanae curiae" (“liturgia segundo o uso da Cúria romana”). Foi a liturgia de Inocêncio que se espalhou e se popularizou pelo Ocidente devido a sua propagação pelos frades menores da Ordem franciscana, que em sua Regra II, seguem as orações da Cúria Romana [15].

Guerras e conflitosEditar

Contexto político e social da EuropaEditar

 
Mapa da Itália em 1154, 44 anos antes de Inocêncio se tornar papa. O Reino da Sicília em verde, os Estados Pontifícios em amarelo, o Ducado de Espoleto em roxo, e a Toscana em laranja. O Reino da Sicília, Espoleto e Toscana foram dominadas pelo Sacro Império no reinado do Imperador Henrique VI.

O reinado de Inocêncio e suas ações estão profundamente enraizadas no contexto e nas características próprias da política e da Igreja Católica na Idade Média, sendo incompreensíveis para a mentalidade contemporânea, profundamente diferente daquele período [5]. Foram essenciais para as ações do papa a situação da Itália e do Sacro Império. Na época de Inocêncio, a Itália estava dividida em três partes: o Norte/Leste, controlado pelo Sacro Império (e composto de um conjunto de cidades/comunas poderosas, todas subordinadas ao Sacro Imperador), o Centro, controlado pelo papado – os Estados Pontifícios, e o Sul, controlado pelos normandos – o Reino da Sicília.

O Sacro Império Romano, por sua vez, considerado o centro e o “coração da experiência política europeia” [16], consistia nessa época territorialmente na Alemanha, Áustria, Itália do Norte, Luxemburgo, Países Baixos e Suíça. O Sacro Império foi fundado no século IX, por Carlos Magno, e seu Imperador se destacava entre os demais monarcas europeus, sendo considerado dotado de uma missão transcendental especial, que é a defesa do papa, da Igreja e da fé católica. Por isso o Sacro Imperador era coroado e ungido pelo papa, em Roma (a Romzug), como sinal de sua excelência e importância. Porém essa coroação gerou duas interpretações diferentes sobre o poder do imperador e do papa. Para os imperadores, especialmente da dinastia Hohenstaufen, era apenas uma benção, e não tinha nenhum valor jurídico. Já, para a Igreja e o papado, implicava que o candidato só se tornava imperador caso fosse ungido e coroado pelo papa. Inocêncio será um defensor dessa última posição[16].

 
Mapa do Sacro Império em 1190, em que vê-se claramente sua dominação sobre a Itália do Norte.

A dinastia da família Hohenstaufen, por outro lado, que ascendeu ao poder com Conrado III (c. 1138-1152), e se tornou a família reinante no Sacro Império nos séculos XII e XIII, defendiam a independência do Sacro Império diante da Igreja [17]. Uma grande inimiga e opositora dos Hohenstaufen foi uma família da Saxônia, os Welfen (ou “Guelfos”), duques da Baviera, Suábia e Francônia. Uma vez que os Hohenstaufen, eram também chamados de Weiblingen (ou “Gibelinos”), nome de sua terra natal, o conflito entre as duas família ficou conhecida como “guerra dos guelfos e gibelinos”. Essa competição será usada posteriormente por Inocêncio [11].

A família Hohenstaufen passou a defender os poderes e posses imperiais na Itália do Norte, sendo reconhecido como suserano desse território pelas cidades da região. Posteriormente, o Imperador Henrique VI (1165-1197), casou-se com a filha do rei normando da Sicília, Constanza de Hauteville (1154-1198), e assim, com a morte do rei da Sicília, em 1189, este território também se torna posse de Henrique VI e parte do Sacro Império. Henrique também nomeou vários homens de sua confiança para as cidades da Itália do Norte. Assim, graças a Henrique, os Hohenstaufens restauraram o poder imperial que chegou ao seu auge [11].

Conflitos nos Estados Pontifícios e na ItáliaEditar

Quando Inocêncio se tornou papa, havia se passado um ano desde a morte do Imperador Henrique VI, em 1197. Henrique havia cercado o papado e dominado a Itália do Norte e do Sul. Porém, o vazio de poder gerado pela morte de Henrique, não foi preenchido por ninguém, pois ele havia nomeando seu filho com Constança de Altavila (pertencente à Sicília), Frederico II, que então tinha apenas três anos, como o próximo Imperador. Porém, após sua morte, senhores do Sacro Império responsáveis pela eleição imperial desconsideraram essa nomeação e fizeram uma nova eleição, onde se dividiram entre dois partidos, o primeiro, composto pela maioria, elegeu Filipe da Suábia, em 8 de março de 1198, irmão de Henrique VI e defensor das políticas dos Hohenstaufen [11].

O segundo partido, composto por uma minoria, elegeu um gibelino, família tradicionalmente inimiga dos Hohenstaufen, Otto IV de Brunswick, em 9 de julho de 1198. Dessa maneira, o Sacro Império entrou em uma longa guerra civil entre os dois partidos, que impediu o exercício do poder imperial por qualquer um dos candidatos. Dessa maneira, Inocêncio, aproveitou-se da situação e reconstruiu o poder papal italiano, que havia sido profundamente diminuído por Henrique. A própria cidade de Roma era chefiada por uma elite desobediente ao papa, dominados por funcionários imperiais nomeados por Henrique VI. Assim, Inocêncio procurou impor uma suserania eficaz sobre a cidade de Roma e sobre os Estados Pontifícios [11].

 
Parte da Torre dei Conti ainda existente na atualidade, construído por Inocêncio como quartel-general de sua família e residência de seu irmão, Ricardo dei Conti.

Inocêncio construiu um quartel-general para a sua família, a Torre dei Conti, perto do fórum romano, onde residiu seu irmão, Ricardo de Conti, e que usou para eliminar seus inimigos e dominar a cidade de Roma. Inocêncio também recuperou as terras papais invadidas pelo imperador Henrique VI: Romagna e Marca de Ancona, Espoleto e parte da Toscana. Para cada uma das áreas conquistadas, cardeais eram designados rectores ou enviados como legados com funções políticas, surgindo uma rede governos provinciais estáveis e duradouros no território papal [11]. Em seguida, Inocêncio compôs e liderou a “Liga Lombarda”, pela qual as comunas da Itália do Norte se reuniram militarmente e expulsaram seus senhores alemães impostos pelo Império durante o reinado de Henrique VI, e voltaram a ser administradas por italianos de forma independente, tornando-se aliados ao papado [11].

A parte final de seu plano de dominação sobre a Itália foi efetivado graças à imperatriz viúva de Henrique VI, Constança de Altavila, e o filho do casal, Frederico II. Constança, pertencente à família que comandava o Reino normando da Sicília desde o século XI, foi abandonada pelos alemães após a morte de Henrique e, assim, não podendo governar o Reino da Sicília, aproximou-se do papa e lhe rendeu vassalagem e obediência [11]. A partir daí, o papa tornou-se protetor de Frederico e de suas posses na Itália do Sul. Quando Constança morreu, em 1198, por ser tutor de Frederico, Inocêncio tornou-se senhor da Sicília e iniciou uma série de guerras, que duraram dez anos, contra nobres alemães que desejavam para si o controle desse reino. No fim das guerras, a Sicília estava solidamente sob o controle papal [18].

Conflito no Sacro Império Romano-GermânicoEditar

 
Iluminura que representa o imperador Otto IV em 1209 sendo recebido no portão de uma cidade por Inocêncio. Otto é acompanhado de dois cortesões e Inocêncio é acompanhado por um cardeal. No fundo da iluminura, no entanto, um navio já se aproxima com as tropas de Frederico II, que partiran contra Otto IV em 1212, apenas três anos depois de sua consagração pelo papa.

Tendo estabelecido uma base de poder na Itália, Inocêncio pôde interferir também no conflito existente no Sacro Império. Entre os dois candidatos ao trono, Otto comunicou sua eleição ao papa como um partidário da Igreja e aliado do papa. Já Felipe, da dinastia Hohenstaufen, adotou claramente as políticas de sua família, e se considerou independente da Igreja [19].

Inocêncio, inicialmente, manteve-se neutro no conflito, expondo sua opinião na bula Deliberatio Domini Papae Inocentii de 1200. Porém, em 1 de março de 1201, manifestou-se abertamente a favor de Otto IV, reconhecendo-o como rei e oferecendo a unção e coroação pontifícia que o tornaria sacro imperador. Felipe da Suábia protestou energicamente contra o papa em uma carta de 1201, e a resposta do pontífice se deu em março de 1202, por meio do famoso decreto Venerabilem [20].

Nesse decreto, Inocêncio reconhece que o direito de eleger o líder do Sacro Império pertence aos príncipes e senhores eleitores, por costume consuetudinário. Porém essa eleição torna o líder apenas rei da Alemanha, é somente sua unção e coroação em seguida pelo papa que o torna verdadeiramente imperador. Inocêncio também defende que é direito do papa, como consagrador do rei, examinar a pessoa eleita e invalidar a eleição, se necessário. Do mesmo modo, defendeu que, em caso de dupla eleição imperial, após certo tempo, o papa poderia favorecer um candidato, Inocêncio justificou esse direito por considerar a Igreja a fundadora do Sacro Império [11].

 
Mapa da Europa em 1216 e sua relação com o Papa Inocêncio III e a Santa Sé. A cor azul são os Estados Pontifícios, vermelha os estados vassalos, e vermelho vinho os estados aliados de Inocêncio.

Posteriormente, Felipe da Suábia é assassinado e Otto IV de Brunswick se torna, indiscutivelmente, o rei, em 1208, sendo ungido e coroado imperador pelo papa, em 1209, após jurar defender os direitos da Igreja. Porém, em seguida, Otto quebra seus juramentos e invade o Reino da Sicília, que considera um território imperial, não reconhecendo mais os poderes do papa sobre essa região. Assim o papa excomunga e depõe Otto em 1210 [21]. No mesmo ano, os senhores alemães responsáveis pela eleição do imperador acatam a decisão de Inocêncio e, também, depõem Otto, elegendo como novo rei Frederico II, então com dezesseis anos [22].

Dessa maneira, o Sacro Império passa por mais quatro anos de guerra, quando Otto finalmente é derrotado e Frederico considerado o novo rei em 1215. Originalmente Frederico, “devido a sua educação e proximidade com Inocêncio, é considerado o elo capital de uma nova ordem social que dissolveu as querelas entre o Sacro Império e o papado, e especialmente entre a dinastia Hohenstaufen e os papas” [22]. Assim, Inocêncio se tornou o grande vitorioso e o artífice dessa nova ordem, mostrando seu poder sob o mais importante estado da Europa [22].

Inocêncio também interferiu política e religiosamente em todos os outros países da Europa, e se tornou suserano e senhor feudal da Inglaterra, Portugal, Aragão, Leão, Castela e Hungria [23][24].

CruzadasEditar

 
Iluminura medieval da British Library do Papa Inocêncio excomungando os cátaros ou albigenses (à esquerda), e uma batalha contra os albigenses realizada pelos cruzados (à direita).

Ao longo do seu reinado Inocêncio organizou sete cruzadas, as mais notáveis foram a Quarta e a Quinta Cruzada, consideradas como partes das nove grandes cruzadas contra o Islã. Além da cruzada albigense, a cruzada contra os árabes na Espanha e a cruzada contra o Rei João Sem-Terra da Inglaterra, que, porém, não foi concretizada. Inocêncio também convocou a mais importante campanha das Cruzadas do Norte contra as últimas nações pagãs no Mar Báltico: é a cruzada evangelizadora da Livônia (atualmente a Letônia e Estônia), que era a penúltima região pagã da Europa. Para esse fim, Inocêncio criou uma ordem militar específica, a “Ordem Livônia dos Irmãos da Espada”, fundada em 1202. Posteriormente, a Ordem atacou e apoderou-se da Lituânia, última nação pagã ainda existente. Assim, Inocêncio teve participação essencial no ciclo de conversão e cristianização definitivo do continente europeu [24].

IV Concílio de LatrãoEditar

 
Ilustração contemporânea de Inocêncio III convocando a Quinta Cruzada no IV Concílio de Latrão de 1215.

Inocêncio convocou um novo Concílio em 19 de abril de 1213 pela bula Vineam domini Sabaoth, para ser celebrado, em novembro de 1215, na Basílica de São João de Latrão, em Roma. Ele enviou a bula de convocação não só aos bispos e prelados, de forma geral (que compõem os “padres” ou “pais” conciliares, com direito de voto e fala), mas, também, aos cabidos de todas as catedrais, que deviam enviar algum representante ao concílio, bem como aos superiores das ordens militares e monásticas, e aos patriarcas de Constantinopla, Antioquia e Jerusalém, e ao catholicos da Armênia. A bula, também, foi enviada aos poderes temporais, sendo convidados todos os monarcas cristãos [25].

Compareceram, ao Concílio, 404 bispos (embora convidados, os patriarcas orientais não participaram), inclusive da Boêmia, Hungria, Polônia, Letônia e Estônia (recentemente convertidos ao cristianismo), 71 primazes e metropolitas, e 800 abades e priores. O Imperador Frederico II, bem como todos os outros reinos cristãos enviaram representantes e embaixadas. Com esses participantes, o Concílio foi inaugurado em 11 de novembro de 1215, onde Inocêncio iniciou a primeira sessão do trono papal de São João de Latrão, cátedra do papa. Dali emitiu seus dois primeiros sermões de abertura, que explicitaram suas motivações para convocar o concílio: a Quinta cruzada e a reforma da Igreja. O Concílio teve três sessões: no próprio dia 11, e nos dias 20 e 30 de novembro. Durante essas três sessões, o papado e os próprios bispos emitiram 70 Cânones novos. A característica mais importante dessas decisões do IV Latrão é seu grande realismo e espírito pragmático [26].

O Quarto Concílio de Latrão destaca-se por ter definido o papel da Eucaristia na Igreja por meio da declaração do dogma da transubstanciação, da doutrina que “fora da Igreja não há salvação” e da obrigatoriedade da confissão anual. O IV Concílio de Latrão foi a maior realização de Inocêncio, teve a maior participação de bispos da Antiguidade, Idade Média e da Idade Moderna, e é o ponto culminante do próprio papado medieval. De fato, todos os decretos do IV Latrão foram considerados essenciais e, incorporados no “Corpo de Direito Canônico”, a legislação da Igreja [27].

Morte e legadoEditar

 
A tumba de Inocêncio do século XIX na Basílica de São João de Latrão, Roma.

Já em 1215, Inocêncio teve um ataque de malária, mas conseguiu se recuperar da doença. Assim, após o IV Concílio de Latrão, na primavera de 1216, Inocêncio mudou-se para o norte da Itália, em uma tentativa de conciliar as cidades marinheiras de Pisa e Gênova, para motivá-los a unir-se para a Quinta Cruzada [28]. Nesse momento Inocêncio adoeceu novamente de malária, e morreu em 16 de julho de 1216), com cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos [29].

Na noite seguinte, invadiram a casa em que Inocêncio estava hospedado e roubaram seu corpo, e, somente no dia 18 de julho encontraram seu cadáver novamente, despido e em decomposição, quando então foi rapidamente sepultado na Igreja de São Lourenço, de Perugia (não se trata da catedral da cidade, mas de outra igreja dedicado ao mesmo santo, hoje inexistente). Em 1891, o Papa Leão XIII, admirador de Inocêncio, ordenou que seu corpo fosse transferido para a Basílica de São João de Latrão, em Roma, onde reside atualmente [30].

Inocêncio é considerado o mais importante papa medieval, bem como um notável jurista e criador de leis, tendo escrito mais de seis mil cartas como papa, muitas das quais se tornaram parte do direito canônico da Igreja Católica [31].

 
Brasão de Inocêncio tal qual era utilizado em sua própria época.

BrasãoEditar

Inocêncio teve importância fundamental na construção e no desenvolvimento de uma simbologia própria para o papado. Desde o século XII, famílias de grande importância, especialmente da nobreza, passaram a adotar brasões como símbolos de seu poder e origem. Levando em consideração essa simbologia, ao se tornar pontífice, Inocêncio passou a usar o brasão da família Conti como símbolo pessoal de seu reinado, isto é, a águia xadrezada dourada e negra em um escudo vermelho [15].

A partir daí, todos os papas adotaram um brasão próprio. Inocêncio, assim, fundou, na Igreja, o uso de um dos símbolos mais duradouros associados ao papado até a atualidade [15]. Porém, originalmente, o brasão de Inocêncio consistia apenas no escudo, sem os elementos heráldicos exteriores, isto é, as chaves e a tiara papal, que foram incluídas nos brasões dos papas apenas no final do século XII, e atribuídas ao próprio brasão de Inocêncio [15].

Referências

  1. Costa 2017, p. 78.
  2. Costa 2017, p. 80.
  3. a b Costa 2017, p. 81.
  4. Costa 2017, p. 103-104.
  5. a b Costa 2017, p. 104.
  6. Costa 2017, p. 90.
  7. Costa 2017, p. 89.
  8. a b c Costa 2017, p. 91.
  9. Costa 2017, p. 92.
  10. Costa 2017, p. 89-90.
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BibliografiaEditar

  • Costa, André Arthur (14 de fevereiro de 2018). «Unum ovile et unus pastor: o poder do papado, de Inocêncio III (1198-1216), no IV Concílio de Latrão (1215)» (PDF). Repositório institucional da Universidade do Sul de Santa Catarina (RIUNI) 
  • Llorca, Bernardino (2009). Historia de la Iglesia Católica. II. Edad Media. La cristiandad em el mundo europeo y feudal (800-1303). 2. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos 
  • Rops, Daniel (2011). A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. 2. São Paulo: Quadrante 
  • Norwich, John Julius (2012). Os Papas: a História. Porto: Civilização 


Precedido por
Celestino III
 
Papa

176.º
Sucedido por
Honório III