Papa João Paulo I

João Paulo I, nascido Albino Luciani (Canale d'Agordo, 17 de outubro de 1912Vaticano, 28 de setembro de 1978) e oriundo de família humilde, foi Papa da Igreja Católica. Governou a Santa Sé durante apenas 33 dias, entre 26 de agosto de 1978 até a data da sua morte. Tornou-se rapidamente conhecido na Cúria Romana pelo apelido de "Papa do Sorriso", por sua afabilidade.[1] Foi proclamado Venerável na sessão ordinária da Congregação para a Causa dos Santos no dia 7 de Novembro de 2017 sendo a última etapa antes da beatificação.[2]

João Paulo I
Papa da Igreja Católica
263° Papa da Igreja Católica
Imagem oficial de João Paulo I, 1978
Atividade eclesiástica
Diocese Diocese de Roma
Eleição 26 de agosto de 1978
Entronização 3 de setembro de 1978
Fim do pontificado 28 de setembro de 1978 (&0000000000000033.00000033 dias)
Predecessor Paulo VI
Sucessor João Paulo II
Ordenação e nomeação
Ordenação presbiteral 7 de julho de 1935
por Dom Giosuè Cattarossi
Nomeação episcopal 15 de dezembro de 1958
Ordenação episcopal 27 de dezembro de 1958
Basílica de São Pedro
por Papa João XXIII
Nomeado Patriarca 15 de dezembro de 1969
Cardinalato
Criação 5 de março de 1973
por Papa Paulo VI
Ordem Cardeal-presbítero
Título São Marcos
Brasão
Coat of arms of Albino Luciani.svg
Lema HVMILITAS
(Humildade)
Papado
Brasão
C o a John Paul I.svg
Lema HVMILITAS
(Humildade)
Dados pessoais
Nascimento Canale d'Agordo
17 de outubro de 1912
Morte Vaticano
28 de setembro de 1978 (65 anos)
Nacionalidade italiano
Nome nascimento Albino Luciani
Progenitores Mãe: Bortola Tancon (1879-1947)
Pai: Giovanni Luciani (1872-1952)
Funções exercidas -Bispo de Vittorio Veneto (1958-1969)
-Patriarca de Veneza (1969-1978)
Assinatura {{{assinatura_alt}}}
Sepultura Basílica de São Pedro
dados em catholic-hierarchy.org
Categoria:Igreja Católica
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo
Lista de Papas

Foi o primeiro Papa desde Clemente V a recusar uma coroação formal, cerimónia não oficialmente abolida, ficando a cargo do eleito escolher como quer iniciar seu pontificado. Contudo, desde então, os papas eleitos têm optado por uma cerimônia de "início do pontificado", com a respectiva entronização e o juramento de fidelidade. Não aceitava ser carregado em uma liteira como os outros papas, por uma questão de humildade. Também foi pioneiro ao adotar um nome papal duplo.

Antes de ser Papa, Luciani foi Patriarca de Veneza e não tinha ambição alguma, nunca tendo sonhado em ser papa. Foi o primeiro Papa a nascer no século XX. Seu nome papal duplo foi uma homenagem aos seus dois antecessores, Paulo VI e João XXIII.

Primeiros anosEditar

Albino Luciani nasceu na província de Belluno, norte da Itália, era o irmão mais velho de Federico (1915-1916), Edoardo (1917-2008) e Antonia (1920-2010). Seu nome de batismo fora uma homenagem a um amigo da família, que morrera numa explosão em uma mina de carvão na Alemanha. De origem humilde, viu seu pai, chamado Giovanni, que era socialista,[3] ser inúmeras vezes forçado a buscar trabalho em outros países, por ocasião da Primeira Guerra Mundial.

Luciani era uma criança inquieta. Em 1922, aos 10 anos, ficou pasmo quando um frade capuchinho veio a sua aldeia para pregar os sermões quaresmais. A partir desse momento decidiu que queria ser padre e foi até seu pai para pedir sua permissão. O pai concordou e disse-lhe: «Espero que, quando te tornares sacerdote, estejas do lado dos trabalhadores, porque o próprio Cristo estaria do lado deles».[4]

Sua mãe, Bertola, católica fervorosa, também incentivou-o a seguir a formação religiosa. Iniciou seus estudos no seminário Minori, em Murano, e os concluiu no Seminário Georgiano em Belluno.[3]

Vida sacerdotalEditar

Ordenado sacerdote em 7 de julho de 1935, Luciani serviu como pároco em sua cidade natal, Forno de Canale, antes de se tornar professor e vice-reitor do seminário de Belluno em 1937.[5] Entre as diferentes disciplinas, ele ensinou teologia dogmática e moral, direito canônico e arte sacra.

Em 1941, Luciani começou a fazer o Doutorado em Teologia Sacra pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Isso exigia a frequência de pelo menos um ano em Roma. No entanto, os superiores do seminário de Belluno queriam que ele continuasse a lecionar durante seus estudos de doutorado. A situação foi resolvida por uma dispensa especial do Papa Pio XII em 27 de março de 1941. Sua tese (The origin of the human soul according to Antonio Rosmini) atacou amplamente a teologia de Rosmini e lhe rendeu o doutorado Magna Cum Laude em 1947.[5]

Em 1947, foi nomeado chanceler do Bispo Girolamo Bortignon, OFM Cap, de Belluno. Em 1954, foi nomeado Vigário Geral da Diocese de Belluno.[5]

Episcopado, eleição e pontificadoEditar

Embora, segundo consta, não tivesse grande ambições, foi nomeado bispo pelo João XXIII e cardeal pelo Paulo VI, com o título de São Marcos. Esteve presente no Concílio Vaticano II, convocado em 1962 por João XXIII. Albino Luciani era o Patriarca de Veneza quando, com 65 anos, foi eleito Papa, em 26 de agosto de 1978, na terceira votação do conclave que se seguiu à morte do Papa Paulo VI, superando o cardeal considerado "ultraconservador" Giuseppe Siri - favorito ao trono de São Pedro, de acordo com a imprensa - por 99 votos a 11. Segundo conta-se, a princípio, um atônito Luciani teria declinado de aceitar o pontificado, mas fora persuadido do contrário pelo cardeal holandês Johannes Willebrands, que estava sentado a seu lado na Capela Sistina. Para isso, ter-lhe-ia dito: "Coragem. O Senhor dá o fardo, mas também a força para carregá-lo".

Escolheu o nome de João Paulo (Ioannes Paulus, pela grafia em latim) para homenagear seus antecessores, João XXIII e Paulo VI. Morreu na madrugada de 28 de Setembro de 1978, entre 23h30min e 04h30min da manhã, no Palácio Apostólico do Vaticano. Na época do conclave, o cardeal britânico Basil Hume, um de seus eleitores, chamou João Paulo I de "o candidato de Deus". A figura de João Paulo I na Igreja Católica sempre foi a de um papa afável, tendo, por isso, recebido a alcunha de "O Papa Sorriso".

Reza uma lenda que João Paulo I teria feito uma premonição sobre sua morte, ao afirmar a conhecidos que "alguém mais forte que eu, e que merece estar neste lugar, estava sentado à minha frente durante o conclave". Um cardeal presente na ocasião – que preferiu escudar-se no anonimato – confirmou que esse homem era, de fato, o polaco Karol Wojtyla. "Ele virá, porque eu me vou", prosseguiu o "Papa Breve". Curiosamente, Wojtyla realmente votara em Luciani naquele conclave e logo depois veio a se tornar João Paulo II. Por outro lado, o que há de concreto é que João Paulo I teria falado da sua morte um dia antes dela ao Bispo John Magee.[6]

Brasão e lemaEditar

  • Descrição: Escudo eclesiástico. Campo de blau, com um monte de seis cômoros de argente, à italiana, sobreposto por três estrelas de cinco pontas de jalde, postas: 1 e 2. Em chefe as armas patriarcais de São Marcos de Veneza, que são de argente com um leão alado e nimbado, passante ao natural, sustentando um livro aberto que traz a legenda: PAX TIBI MARCE EVANGELISTA MEVS, em letras de sable. O escudo está assente em tarja branca. O conjunto pousado sobre duas chaves decussadas, a primeira de jalde e a segunda de argente, atadas por um cordão de goles, com seus pingentes. Timbre: a tiara papal de argente com três coroas de jalde. Sob o escudo, um listel de blau com o mote: HVMILITAS, em letras de jalde. Quando são postos suportes, estes são dois anjos de carnação, sustentando cada um, na mão livre, uma cruz trevolada tripla, de jalde.
  • Interpretação: O escudo obedece às regras heráldicas para os eclesiásticos. O campo de blau representa o firmamento celeste e ainda o manto de Nossa Senhora, sendo que este esmalte significa: justiça, serenidade, fortaleza, boa fama e nobreza. O monte é uma homenagem ao seu predecessor, o Papa Paulo VI, da família Montini, e ainda uma referência ao seu local de nascimento: Canale d'Agordo, nas montanhas Dolomitas, a cerca de mil metros acima do nível do mar, sendo de argente (prata) traduz: inocência, castidade, pureza e eloqüência. As três estrelas representam as virtudes teologais: , esperança e caridade, sendo de jalde (ouro) simbolizam: nobreza, autoridade, premência, generosidade, ardor e descortínio. O chefe com as armas do Patriarcado de Veneza relembra o tempo feliz que o pontífice passou como seu patriarca e é ainda uma homenagem ao Papa João XXIII; sendo que a expressão "ao natural" é um recurso para se colocar o leão, naturalmente dourado sobre o campo de argente (prata), sem ferir as leis da heráldica. Os elementos externos do brasão expressam a jurisdição suprema do papa. As duas chaves "decussadas", uma de jalde (ouro) e a outra de argente (prata) são símbolos do poder espiritual e do poder temporal. E são uma referência do poder máximo do Sucessor de Pedro , relatado no Evangelho de São Mateus, que narra que Nosso Senhor Jesus Cristo disse a Pedro: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu" (Mt 16, 19). Por conseguinte, as chaves são o símbolo típico do poder dado por Cristo a São Pedro e aos seus sucessores. A tiara papal usada como timbre, recorda, por sua simbologia, os três poderes papais: de Ordem, Jurisdição e Magistério, e sua unidade na mesma pessoa. No listel o lema HVMILITAS (Humildade), é uma expressão da personalidade do papa Luciani.

MorteEditar

 
O túmulo do "Papa Sorriso", como era conhecido o papa João Paulo I

Genealogia episcopal do Papa João Paulo I”

— * ... ?

A versão oficial é a de que João Paulo I tinha estado a beber um chá durante a tarde do dia 27 de setembro de 1978. Nessa tarde, quando rezava na capela papal acompanhado pelo seu secretário, o padre irlandês John Magee, João Paulo I teve uma forte dor no peito, mas recusou chamar o médico. Jantou, deitou-se e acabaria por morrer essa noite, tendo sido encontrado morto na manhã seguinte.

Embora João Paulo I tenha sido encontrado morto por uma freira que trabalhava para ele e o acordava havia muitos anos, a versão oficial divulgada pelo Vaticano, contudo, diz que o corpo de João Paulo I teria sido encontrado pelo padre Diego Lorenzi, um de seus secretários, enunciando a morte como "possivelmente associada com infarto do miocárdio". Para alguns, João Paulo I teria sido vítima das terríveis pressões características de seu cargo, e que não as tendo suportado, veio a perecer. A citada freira, após a morte deste, fez voto de silêncio.[7]

Outra hipótese levantada foi a de que o Papa "Sorriso de Deus" teria sido vítima de embolia pulmonar. De qualquer maneira, sua morte provocou enorme consternação entre os católicos; mesmo sob chuva torrencial, a Praça de São Pedro esteve totalmente lotada quando de seus serviços funerais. Em sua homenagem, Karol Wojtyła, seu sucessor, adotaria seu nome papal ao ser eleito, em 16 de outubro de 1978, tornando-se o Papa João Paulo II.

Teorias da conspiraçãoEditar

O momento de sua morte, apenas 33 dias depois de sua eleição para o papado, e alegadas dificuldades do Vaticano com os procedimentos cerimoniais e legais, juntamente com declarações inconsistentes feitas após a morte, fomentaram várias teorias da conspiração. O autor britânico David Yallop escreveu extensivamente sobre crimes não resolvidos e teorias da conspiração, e em seu livro de 1984 In God's Name sugeriu que João Paulo I morreu porque estava prestes a descobrir escândalos financeiros supostamente envolvendo o Vaticano.[8] John Cornwell respondeu às acusações de Yallop em 1987, com um A Thief In The Night, em que analisou as várias alegações e negou a conspiração.[9] De acordo com Eugene Kennedy, escrevendo para o The New York Times, o livro de Cornwell "ajuda a purificar o ar de paranóia e de teorias da conspiração, mostrando como a verdade, cuidadosamente escavada por um jornalista em um volume pode nos refrescar, faz-nos livres.".[10]

Passados 40 anos, o mafioso Antoni Raimondi vem contar nas suas memórias ter sido ele o assassino.[11]

Encontro com a Irmã LúciaEditar

A revista italiana 30 Giorni revela, com base em declarações de um dos quatro irmãos de João Paulo I, que a Irmã Lúcia, durante a visita que o então Patriarca de Veneza lhe fez no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, sempre o tratou por "Santo Padre". O Cardeal Luciani fica impressionado e pergunta: "Por quê?", ao que a Irmã responde: "Vossa Eminência um dia será eleito Papa". E ele disse: "Sabe-se lá, irmã…", e a Irmã retorquiu: "Será sim, mas o seu pontificado será muito breve".[12]

Ver tambémEditar

Referências

  1. «Papa João Paulo I». Ufcq.edu.br 
  2. La Stampa (ed.). «Luciani, "sì" unanime alla beatificazione». Andrea Tornielli. Consultado em 8 de Novembro de 2017 
  3. a b «Albino Luciani, 66 anos, patriarca de Veneza». Folha da Manhã: 18. 28 de agosto de 1978 
  4. «The Life of Albino Luciani». jpicentenary.org. The Pope John Paul I Association. Consultado em 17 de março de 2015. Arquivado do original em 11 de março de 2016 
  5. a b c Highlights of the Life of His Holiness John Paul I, The Holy See, consultado em 29 de dezembro de 2013 
  6. «A morte dos papas. Revista Manchete. 1989. Nº 1942. p 30-34.». Consultado em 14 de junho de 2015. Arquivado do original em 15 de junho de 2015 
  7. «A morte de João Paulo I». Consultado em 20 de maio de 2010. Arquivado do original em 15 de junho de 2015 
  8. «The man who says Pope John Paul II was a fraud - and why he tried to thump me». Independent. 7 de abril de 2007. Consultado em 23 de janeiro de 2009 
  9. Gould, Peter (2 de abril de 2005). «1978: Year of the three popes». BBC. Consultado em 23 de janeiro de 2009 
  10. Kennedy, Eugene (5 de novembro de 1989). «Was The Pope Murdered?». New York Times 
  11. Mafioso diz em livro de memórias que assassinou o Papa João Paulo I, Observador, 30 de outubro de 2019
  12. Edição especial do Correio da Manhã - "Os Papas - De São Pedro a João Paulo II" - Fascículo XI, "Leão XIII lança doutrina social da Igreja", página 263, ano 2005.

Ligações externasEditar

 
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