Partição da Albânia

Partição da Albânia (em albanês: Copëtimi i Shqipërisë) é um termo usado para a partição do Estado albanês, que proclamou a sua independência em 28 de novembro de 1912. A delineação do recém-criado Principado da Albânia sob os termos da Conferência de Londres de 1912-1913 (29 de Julho de 1913) e dos embaixadores das seis grandes potências da época (Grã-Bretanha, França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Itália) deixariam populações albanesas e não-albanesas em ambos os lados da fronteira. Os representantes do movimento nacional albanês viram isso como uma partição dos territórios reivindicados habitados pelos albaneses, além dos territórios contidos numa proposta do Vilaiete da Albânia. [1][2][3]

Ocupação da Albânia pela Sérvia, Montenegro e Grécia durante a Primeira Guerra Balcânica
Mapa do Estado albanês proposto pelo governo provisório do Principado da Albânia em relação à proposta da Liga Balcânica juntamente com os franceses e russos e as fronteiras fixadas pelos embaixadores e pela Comissão de Fronteira.

Após o estabelecimento do Estado albanês, houve planos para particionar a Albânia durante a Primeira Guerra Mundial; [4] no entanto, a Albânia não foi particionada e manteve a sua existência independente. [5] Planos adicionais de partição foram negociados durante e após a Segunda Guerra Mundial. [6]

HistóriaEditar

 
Os quatro vilaietes otomanos claramente repartidos (vilaiete de İşkodra, Yannina, Monastir e Kosovo, tal como proposto pela Liga de Prizren para a autonomia completa).

PrelúdioEditar

A guerra russo-turca de 1877-1878 encolheu severamente as possessões otomanas na península balcânica, deixando o império com apenas uma posse precária sobre a Macedônia e os Bálcãs Ocidentais. Os albaneses haviam sido parte do Império Otomano desde 1479 com a queda de Escodra. A região reivindicada pelo líder nacional albanês era etnicamente heterogênea, composta de grandes áreas habitadas também por búlgaros, gregos, sérvios, turcos e arromenos,[7][8] ainda que Sami Frashëri (ou Şemseddin Sami) afirmasse que os albaneses eram a maioria da população nos quatro vilaietes de İşkodra, Yannina, Monastir e Kosovo. [9] O primeiro tratado pós-guerra, o abortado Tratado de San Stefano, assinado em 3 de março de 1878, atribuiu os territórios povoados pelos albaneses à Sérvia, Montenegro e Bulgária. A Áustria-Hungria e o Reino Unido bloquearam o arranjo pois concederia à Rússia uma posição predominante na região dos Bálcãs e, assim, comprometeria o equilíbrio de poder europeu. Uma conferência de paz para resolver a disputa seria realizada no final do ano, em Berlim. O Congresso de Berlim cedeu ao Montenegro as cidades de Bar e Podgorica e as áreas em torno das aldeias montanhosas de Gusinje e Plav, que os líderes albaneses consideravam como território albanês, e entenderam isso como uma partição dos territórios habitados pelos albaneses. [10] Em fevereiro de 1879, as potências insistiram que a Sublime Porta desistisse das áreas reivindicada pelos albaneses de Plava, Podgorica, Gucia e Ulcinj e retirasse todas as tropas otomanas das zonas em disputa.

Congresso de BerlimEditar

Os albaneses viram o Congresso de Berlim como a partição de alguns dos territórios habitados por albaneses, os quais consideravam como sendo parte do Vilaiete da Albânia. O congresso cedeu ao Montenegro as cidades de Bar e Podgorica e áreas em torno das aldeias montanhosas de Gusinje e Plav. Os albaneses criaram a Liga de Prizren para combater a perda de territórios nos quais os albaneses eram maioria, e organizaram esforços de resistência armada em Gusinje e Plav, onde as forças montenegrinas foram recebidas por uma feroz resistência. Um nativo fronteiriço na época descreveu a fronteira como "flutuando no sangue". Vendo a resistência, o Congresso decidiu ceder Ulcinj a Montenegro. A Liga de Prizren foi forçada a recuarr de Ulcinj, após ter sido esmagada pelo exército otomano liderado por Dervish Pasha. [11]

Guerras BalcânicasEditar

Em 8 de outubro de 1912, as tropas montenegrinas marcharam no vilaiete de Shkodra. Em seguida, a Sérvia, a Bulgária e a Grécia declarariam guerra ao Império Otomano, iniciando, assim, a Primeira Guerra Balcânica. As forças montenegrinas, sérvias e gregas avançaram em territórios que eram majoritariamente habitados por albaneses e tentaram alterar a realidade étnica através do extermínio da população albanesa, com cerca de 25 000 albaneses mortos no início de 1913. [12] Alarmados com os planos de Montenegro, da Sérvia e da Grécia de particionar entre si os territórios dos Bálcãs ocidentais, os delegados albaneses se reuniram em um congresso em Vlorë, onde em 28 de novembro de 1912 declararam a independência da Albânia. [13]

Em 3 de dezembro de 1912, os embaixadores das seis grandes potências daquela época (Grã-Bretanha, França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Itália) se reuniram em Londres para decidir sobre o destino dos territórios habitados pelos albaneses. Após muita discussão, os embaixadores chegaram a uma decisão formal em 29 de julho de 1913 para estabelecer o Principado da Albânia, o qual teria a independência reconhecida, porém mais da metade do território da Albânia Independente e cerca de 30% a 40% [14] da população de etnia albanesa seria atribuída à Sérvia, Montenegro e Grécia. Embora privado de mais da metade de seu território étnico, a Albânia seria um Estado soberano independente do Império Otomano. [15][16]

Delineação da fronteira albanesaEditar

Diversas comissões de fronteira foram enviadas na Albânia, a fim de delimitar as fronteiras do novo Estado, numa base etnográfica, de acordo com os termos das Conferências de Paz de Londres. No entanto, a comissão foi incapaz de delimitar a área do sul da Albânia sobre tal base, recaindo sobre argumentos econômicos, estratégicos e geográficos para a delimitação da fronteira sul. Como resultado, a maior parte da área em disputa foi deixada para a Albânia. Esta decisão catalisou uma revolta entre a população grega local, que declarou a população da região que foi temporariamente estabelecida pelo Protocolo de Corfu. [17]

 
Declaração da Independência do Epiro do Norte, em Gjirokastër, contra a anexação da região ao recém-criado Estado albanês.

Planos para uma maior partição da AlbâniaEditar

Após o estabelecimento do Estado albanês, em 1912, houve planos para particionar a Albânia durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1915, um tratado secreto assinado em Londres incluiu a divisão do país. [4] Como parte deste tratado, em 1919, um acordo foi assinado entre a Itália e a Grécia, que incluía planos de anexação da Albânia entre os dois países. [18] Segundo este acordo, conhecido como Acordo Venizelos–Tittoni, assinado em 20 de Julho de 1919, o Epiro do Norte (partes do sul da Albânia) seria incorporado à Grécia, enquanto a Grécia iria reconhecer um mandato italiano para a Albânia central. [19]

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Albânia estava sob união pessoal com a Itália, existiram planos de partição entre a Iugoslávia e a Itália. [6] Por outro lado, em 1944, enquanto a Albânia estava sob controle comunista, uma resolução do Senado dos Estados Unidos apoiou a cessão do Epiro do Norte para a Grécia. [20]

ConsequênciasEditar

 
Eventuais planos de partição do Estado albanês foram infrutíferos e a Albânia manteve as seus territórios de 1913.

As fronteiras da Albânia, estabelecidas em 1913, deixaram um grande número de cidadãos de etnia albanesa fora do novo estado e muitos deles fugiram ou foram forçados a se dirigirem para dentro das fronteiras reconhecidas da Albânia. [21] No Kosovo, as tropas sérvias tentaram alterar a demografia através de expulsões em massa. Mais de 100 000 albaneses emigraram de Kosovo durante os anos 1918 e 1941. [22][23]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Merrill, Christopher (1999). Only the Nails Remain: Scenes from the Balkan Wars. [S.l.]: Rowman & Littlefield. 230 páginas. ISBN 9780742516861 
  2. Magocsi, Paul R.; Multicultural History Society of Ontario (1999). Encyclopedia of Canada's peoples. [S.l.]: University of Toronto Press. 180 páginas. ISBN 9780802029386. Consultado em 1 de fevereiro de 2012 
  3. Schwandner-Sievers, Stephanie; Bernd Jürgen Fischer (2002). Albanian identities: myth and history. [S.l.]: Indiana University Press. 44 páginas. ISBN 9780253341891. ..events of 1913 when a major part of the Albanian-inhabited territories was partitioned among neighbouring Balkan states. 
  4. a b Staar, Richard F. (1984). Communist regimes in Eastern Europe 4. ed., 3. print. ed. Stanford, Calif.: Hoover Inst. Press, Stanford Univ. 3 páginas. ISBN 978-0-8179-7692-7 
  5. «U.S.-ALBANIAN RELATIONS AND ALBANIA'S PROGRESS TOWARD EU AND NATO» (PDF). CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES 
  6. a b Fischer, Bernd J. (1999). Albania at war : 1939-1945. London: Hurst. 15 páginas. ISBN 978-1-85065-531-2 
  7. Pavlowitch, Stevan K. (1999). A history of the Balkans, 1804 - 1945. London [u.a.]: Longman. 146 páginas. ISBN 978-0-582-04584-2 
  8. Király, Béla K. (1985). Gale Stokes, ed. Insurrections, wars, and the Eastern crisis in the 1870s. Boulder: Social Science Monographs. 148 páginas. ISBN 978-0-88033-090-9 
  9. Gawrych, George Walter (2006). The crescent and the eagle: Ottoman rule, Islam and the Albanians, 1874-1913. [S.l.]: I.B.Tauris. pp. 99–101. ISBN 9781845112875. Albanians comprised a majority in all four provionces 
  10. Miranda Vickers (1999). The Albanians: a modern history. [S.l.]: I.B.Tauris. 35 páginas. ISBN 978-1-86064-541-9 
  11. Warrander, Gail (2011). Kosovo. [S.l.]: Bradt Travel Guides. 14 páginas. ISBN 9781841623313 
  12. Levene, Mark (2013). Devastation: Volume I: The European Rimlands 1912-1938. [S.l.]: Oxford University Press. p. 106. ISBN 9780199683031 
  13. «Albania: History». Encyclopædia Britannica 
  14. Elsie, Robert (2010), «Independent Albania (1912—1944)», Historical dictionary of Albania, ISBN 978-0-8108-7380-3, Lanham: Scarecrow Press, p. lix, OCLC 454375231, ... about 30 percent of the Albanian population were excluded from the new state/about 40% ... found themselves excluded from this new country p.243 
  15. Elsie, Robert. «The Conference of London». Consultado em 9 de maio de 2016. Arquivado do original em 11 de fevereiro de 2011 
  16. Vickers, Miranda (1999). The Albanians: a modern history. [S.l.]: I.B.Tauris. pp. 70–80. ISBN 9781860645419 
  17. Draper, Stark. «The conceptualization of an Albanian nation» (PDF). Ethnic and Racial Studies. Volume 20, Number 1 
  18. (ed.), Stephanie Schwandner-Sievers ... (2002). Albanian identities : myth and history 1. publ. ed. London: Hurst. 135 páginas. ISBN 978-1-85065-572-5 
  19. Burgwyn, H. James (1997). Italian foreign policy in the interwar period : 1918 - 1940 1. publ. ed. Westport, Conn. [u.a.]: Praeger. 15 páginas. ISBN 978-0-275-94877-1 
  20. RFE/RL research report. Volume 2. [S.l.]: weekly analyses from the RFE/RL. 1993. 31 páginas 
  21. McCarthy, Justin (2002). Population history of the Middle East and the Balkans. [S.l.]: Isis Press. 44 páginas. ISBN 9789754282276 
  22. Albania's Greatest Friend: Aubrey Herbert and the Making of Modern Albania: Diaries and Papers 1904-1923
  23. Bugajski, Janusz (2002). Political parties of Eastern Europe: a guide to politics in the post-Communist era. 448: M.E. Sharpe. ISBN 9781563246760 
Leitura adicional
  • Books about Albania and the Albanian people (scribd.com) Referência de livros (e alguns artigos de jornal) sobre a Albânia e o povo albanês; sua história, língua, origem, cultura, literatura, etc. Livros de domínio público, totalmente acessíveis online.

Ligações externasEditar

  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês, cujo título é «Partition of Albania».