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Perseguição aos cristãos

Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre a perseguição a cristãos movida por não-cristãos. Para a perseguição entre variedades de cristianismo, veja Perseguição entre cristãos.
Uma mulher cristã é martirizada sob Nero numa recriação do mito de Dirce (pintado por Henryk Siemiradzki, 1897, Museu Nacional de Varsóvia).

Perseguição aos cristãos ou cristofobia é o nome dado aos maus tratos físicos ou psicológicos, incluindo agressões e assassínios exercidos por não-cristãos sobre cristãos, motivados os primeiros pela diferente identidade e manifestação religiosas e étnicas dos segundos. Estas perseguições foram levadas a cabo na Antiguidade não somente pelos judeus, de cuja religião o Cristianismo era visto como uma ramificação, mas também pelos imperadores do Império Romano, que controlava grande parte das terras onde o Cristianismo primitivo se distribuía, e onde era considerado uma seita. Tal perseguição pelos imperadores teve fim com a legalização da religião cristã por Constantino I, no início do século IV.

Nos últimos séculos, os cristãos foram perseguidos por outros grupos religiosos, incluindo muçulmanos e hindus, e por todos os estados ateus antirreligiosos Comunistas como a União Soviética e República Popular da China (ver: ateísmo marxista-leninista).

Perseguições aos cristãos vêm ocorrendo hoje em dezenas de países, [1] como Irã, Uzbequistão, Maldivas, Sudão [2] [3] e Eritreia, principalmente por parte de fundamentalistas islâmicos, [4] e também Coreia do Norte, [5] [6] e Cuba. [7] [8]

Índice

Perseguições na Idade AntigaEditar

Perseguições narradas no Novo TestamentoEditar

De acordo com o Novo Testamento, a crucificação de Jesus foi autorizada por autoridades romanas e executada por soldados romanos. Há também o registro de que Paulo, em suas viagens missionárias, foi várias vezes preso por autoridades romanas. O texto do Novo Testamento não relata o que aconteceu com Paulo, mas a tradição cristã afirma ter sido ele decapitado em Roma, sob o Imperador Nero no ano de 54.

Perseguição judaicaEditar

O Novo Testamento informa que os cristãos primitivos sofreram perseguição nas mãos das lideranças judaicas de seu tempo, começando pelo próprio Jesus Cristo.

Os primeiros cristãos nasceram e se desenvolveram sob o judaísmo, na medida em que o cristianismo começa como uma seita do judaísmo. As primeiras perseguições judaicas aos cristãos devem ser entendidas, então, como um conflito sectário – judeus perseguindo judeus por causa da heterodoxia. Várias outras seitas judaicas da época, no entanto, como os essênios, foram tão heterodoxas quanto a seita cristã.

De acordo com os textos do Novo Testamento, a perseguição aos seguidores de Jesus continuou após a sua morte. O primeiro mártir do cristianismo foi Estêvão (Atos 7). Os apóstolos Pedro e João foram presos por lideranças judaicas, incluindo o sumo-sacerdote Anás, que os libertou mais tarde (Atos 4:1-21). Numa outra ocasião, todos os apóstolos foram presos pelo sumo-sacerdote e outros saduceus, mas, segundo o relato neotestamentário, teriam sido libertados por um anjo (Atos 5:17-18). Após escaparem, os apóstolos foram novamente capturados pelo Sinédrio, mas, desta vez, Gamaliel – um fariseu bem conhecido da literatura rabínicaconvenceu o conselho a libertá-los.

Perseguição sob o Império RomanoEditar

Perseguição sob Nero, 54-68Editar

 
Cristãos sendo usados como tochas humanas, na perseguição sob Nero, por Henryk Siemiradzki, Museu Nacional, Cracóvia, Polônia, 1876.

O primeiro caso documentado de perseguição aos cristãos pelo Império Romano direciona-se a Nero. Em 64, houve o grande incêndio de Roma, destruindo grandes partes da cidade e devastando economicamente a população romana. Nero, cuja sanidade já há muito tempo havia sido posta em questão, era o suspeito de ter intencionalmente ateado fogo. Em seus Anais, Tácito afirma que:

.

Ao associar os cristãos ao terrível incêndio, Nero aumentou ainda mais a suspeita pública já existente e, pode-se dizer, exacerbou as hostilidades contra eles por todo o Império Romano. As formas de execução utilizadas pelos romanos incluíam crucificação e lançamento de cristãos para serem devorados por leões e outras feras selvagens.

Os Annales de Tácito informam:

PerseguiçãoEditar

Em meados do século II, não era difícil encontrar grupos tentando apedrejar os cristãos, incentivados, muitas vezes, por seitas rivais. A perseguição em Lyon (ver: Ireneu de Lyon) foi precedida por uma turba violenta que pilhava e apedrejava casas cristãs.[11] Luciano de Samósata fala-nos de um elaborado e bem-sucedido embuste perpetrado por um "profeta" de Asclepius, no Ponto, fazendo uso de uma cobra domesticada. Quando os rumores estavam por desmascarar sua fraude, o espirituoso ensaísta nos informa, sarcasticamente:

...ele promulgou um edito com o objetivo de assusta-los, dizendo que o Ponto estava cheio de ateus e cristãos que tinham a audácia de pronunciar os mais vis perjúrios sobre ele; a estes, ele os expulsaria com pedras, se quisessem ter seu deus gracioso.
 
Luciano de Samósata[12].

As perseguições estatais seguintes foram inconstantes até o terceiro século, apesar do Apologeticum de Tertuliano (197) ter sido escrito ostensivamente em defesa de cristãos perseguidos e dirigido aos governantes romanos.

A primeira perseguição que envolveu todo o território imperial aconteceu sob o governo de Maximino, apesar do fato de que apenas o clero tenha sido visado. Foi somente sob Décio, em meados do segundo século, que a perseguição generalizada – tanto ao clero quanto aos leigos – tomou lugar em toda a extensão do Império. Gregório de Tours trata deste tema em sua História dos Francos, escrita no final do século VI:

Sob o imperador Décio, muitas perseguições se levantaram contra o nome de Cristo, e houve tamanha carnificina de fiéis que eles não podiam ser contados. Bábilas, bispo de Antioquia, com seus três filhos pequenos, Urbano, Prilidan e Epolon, e Sisto, bispo de Roma, Lourenço, um arquidiácono, e Hipólito tornaram-se perfeitos pelo martírio porque confessaram o nome do Senhor.
 
Gregório de Tours[13].

Apesar de confundir as épocas de perseguição (pois menciona, ao mesmo tempo, personagens que foram martirizados sob Maximino, Valeriano e Décio), o testemunho de Gregório mostra o quanto o tema da perseguição marcou o imaginário da Igreja nos primeiros séculos.

 
A última prece dos mártires cristãos, de Jean-Léon Gérôme (1883).

Sob DioclecianoEditar

 Ver artigo principal: Perseguição de Diocleciano

O clímax da perseguição se deu sob o governo de Diocleciano e Galério, no final do século terceiro e início do quarto. Esta é considerada a maior de todas as perseguições. Iniciando com uma série de quatro editos proibindo certas práticas cristãs e uma ordem de prisão do clero, a perseguição se intensificou até que se ordenasse a todos os cristãos do Império que sacrificassem aos deuses imperiais (ver: religião na Roma Antiga), sob a pena de execução, caso se recusassem. No entanto, apesar do zelo com que Diocleciano perseguiu os cristãos na parte oriental do Império, seus co-imperadores do lado ocidental não seguiram estritamente seus éditos, o que explica que cristãos da Gália, da Espanha e da Britânia praticamente não tenham sido molestados.

Últimas perseguições e legalizaçãoEditar

No início do quarto século em 310 o imperador Geta mandou perseguir os cristãos, tortura-los e puni-los com morte.

A perseguição continuou até que Constantino I chegasse ao poder e, em 313, legalizasse a religião cristã por meio do Édito de Milão, iniciando-se a Paz na Igreja. Entretanto, foi somente com Teodósio I, no final do século quarto, que o cristianismo se tornaria a religião oficial do Império.

Edward Gibbon, em seu Declínio e Queda do Império Romano, estima que o número de mortos nesta última perseguição tenha chegado a mil e quinhentos, "num sacrifício anual de 150 mártires".

Perseguição fora do Império Romano (até o séc. V)Editar

Entre os persasEditar

Em virtude das hostilidades entre o Império Romano e o Império Sassânida, os cristãos acabaram por ser perseguidos pelos persas a partir do ano 337, por serem tidos como traidores amigos de uma Roma cada vez mais cristianizada. Em 341, Sapor II ordenou o massacre de todos os cristãos na Pérsia.

Entre os godosEditar

Nos séculos terceiro e quarto, missionários cristãos (especialmente Ulfilas) levaram muitos godos à conversão ao cristianismo ariano. Isto provocou uma reação em favor da religião gótica. Assim, o rei gótico Atanarico iniciou uma política de perseguição aos cristãos, levando muitos deles à morte.[14]

Perseguição na Idade MédiaEditar

Arábia pré-islâmicaEditar

No século VI Dhu Nwas, rei judeu do Himiar (no Iêmen), moveu um massacre contra os cristãos da península Arábica em 518 (ou 523) d.C., destruindo as cidades cristãs de Zafar e Najaran e queimando suas igrejas e matando quem não renunciasse ao cristianismo.

O evento diminuiu consideravelmente a população cristã na região, perecendo talvez 20 mil pessoas [15] e foi lembrada na época de Maomé, sendo referida no Alcorão (al-Buruj:4).

Perseguição na Idade ContemporâneaEditar

No século XXI a perseguição tem crescido a tal ponto que em 2016 morria em média 1 cristão a cada 6 minutos no mundo.[16] Em países como Síria desde o inverno árabe, cidades inteiras de cristãos são aniquiladas ora por grupos seculares ora por fundamentalistas islâmicos em atentados com cada vez mais envergadura e em consequência disso os cristãos da região tem se militarizado por conta própria.[17][18][19]

Perseguição em estados ateusEditar

União SoviéticaEditar

Ao longo da história da União Soviética (1922-1991), as autoridades daquele país suprimiram e perseguiram, em diferentes graus, várias formas de cristianismo[carece de fontes?], dependendo do período particular. A política marxista-leninista soviética defendia consistentemente o controle, supressão e a eliminação de crenças religiosas[carece de fontes?], e encorajou ativamente o ateísmo durante a existência da União Soviética.[20]

Perseguição hindu aos cristãos da ÍndiaEditar

 Ver artigo principal: Violência anticristã na Índia
 
Uma menina cristã que foi queimada durante violência religiosa em Orissa[21]

Na Índia, há um aumento na quantia de violência perpetrada por Nacionalistas Hindus contra cristãos, reproduzindo os princípios que assentam os conflitos religiosos: duas crenças distintas.[22] o aumento da violência anticristã na Índia tem uma relação direta com a ascendência do Partido Bharatiya Janata (BJP).[23] Incidentes de violência contra os cristãos têm ocorrido em muitas partes da Índia. É especialmente prevalente nos Estados de Gujarat, Maharashtra, Uttar Pradesh, Madhya Pradesh e Nova Deli.[23] O Vishva Hindu Parishad (VHP), o Bajrang Dal, e os Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) são as organizações mais responsáveis pela violência contra os cristãos.[24] Essas organizações, muitas vezes referidas coletivamente sob o nome de sua organização encoberta, o Sangh Parivar e meios de comunicação locais estaiveram envolvidos na promoção de propaganda anticristã em Gujarat.[24] O Sangh Parivar e organizações relacionadas afirmaram que a violência é uma expressão de "raiva espontânea" de "vanvasis" contra "conversões forçadas" através de atividades realizadas pelos missionários. Estas alegações foram contestadas pelos cristãos,[25]que as descrevem como uma crença mítica[26] e propaganda da parte de Sangh Parivar;[27] tanto mais, que, segundo os cristãos, para Sangh Parivar, todas as conversões são uma "ameaça à unidade nacional".[28]

Perseguição às Testemunhas de JeováEditar

A perseguição às Testemunhas de Jeová, mesmo em países considerados democráticos, tem tomado muitas formas distintas, desde a intolerância na família, na escola, no emprego e na sociedade em geral. Entre 1933 e 1945, as Testemunhas de Jeová sob alçada da Alemanha Nazista foram perseguidas e sujeitas a prisão e exterminação em campos de concentração. Fado que partilharam, como comunidade étnica ou religiosa, com judeus, ciganos e homossexuais.

Ver tambémEditar

Notas

  1. Jornal Livre - A perseguição aos cristãos no mundo. Página visitada em 07/04/2011.
  2. Veja - Darfur à espera de um salvador. Página visitada em 15/09/2013.
  3. Portas Abertas - Autoridades sudanesas fecham escritórios cristãos no sul de Darfur. Página visitada em 15/09/2013.
  4. Portas Abertas - A igreja sofre a pior perseguição da história. Página acessada em 20/04/2011.
  5. Os Olhos dos Animais sem Cauda. As Memórias de uma Mulher norte-coreana na Prisão. Lee Soon Ok, Ed. Horizontes América Latina, 2008. ISBN 9788589195683 Página visitada em 14/05/2012.
  6. Portas Abertas - Soon Ok Lee conta os horrores dos campos de prisão norte-coreanos. Página visitada em 14/05/2012.
  7. Christian Solidarity Worldwide - Cuba. Página visitada em 02/03/2013.(em inglês)
  8. Portas Abertas - Cuba: A Igreja e a Perseguição Religiosa. Página visitada em 02/03/2013.
  9. Tácito, Annales, XV.
  10. Tácito, Annales, XV.44.
  11. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 5.1.7
  12. Luciano de Samósata, Alexandre, o monge-oráculo, pp. 223-224.
  13. Gregório de Tours, Historia Francorum, I.30.
  14. Heather, Peter & Matthews, John, Goths in the Fourth Century, pp. 96ss.
  15. Salo Baron, A Social and Religious History of the Jews, Second Edition, Jewish Publication Society of America and Columbia University Press, New York and Philadelphia, 1957, vol. III, pp. 66-69.
  16. Persecuzioni anticristiane. Introvigne: 90 mila uccisi nel 2016
  17. «Syria's Crumbling Pluralism»  The New York Times, Kapil Komireddi, 3 de agosto de 2012
  18. Bishop: Syrian Christians called to "take up arms"
  19. Assyrian Christians Battle Kurds in Syria
  20. Country-data - Soviet Union. POLICY TOWARD NATIONALITIES AND RELIGIONS IN PRACTICE. Maio de 1989, (em inglês) Acessado em 12/09/2016.
  21. «Voilência em Orisssa ( slide 8 of 30 - A Christian girl whose face was burnt during the recent religious violence, sits in a shelter at Raikia village in Orissa August 31, 2008. )». Consultado em 10 de outubro de 2008 
  22. «Anti-Christian Violence on the Rise in India» 
  23. a b «Anti-Christian Violence in India» 
  24. a b «Anti-Christian Violence on the Rise in India» 
  25. Low, Alaine M.; Brown, Judith M.; Frykenberg, Robert Eric (eds.) (2002). Christians, Cultural Interactions, and India's Religious Traditions. Grand Rapids, Mich: W.B. Eerdmans. 134 páginas. ISBN 0-7007-1601-7 
  26. Ram Puniyani (2003). Communal Politics: Facts Versus Myths. [S.l.]: SAGE. pp. p173. ISBN 0761996672 
  27. Ram Puniyani (2003). Communal Politics: Facts Versus Myths. [S.l.]: SAGE. pp. p176. ISBN 0761996672 
  28. Subba, Tanka Bahadur; Som, Sujit; Baral, K. C (eds.) (2005). Between Ethnography and Fiction: Verrier Elwin and the Tribal Question in India. New Delhi: Orient Longman. ISBN 8125028129 

FontesEditar

  • DANIEL-ROPS, Henri. História da Igreja de Cristo. Tradução de Henrique Ruas; revisão de Emérico da Gama - São Paulo: Quadrante, 2006 (coleção). ISBN 85-7465-002-1
  • DREHER, Martin. A Igreja no Império Romano. São Leopoldo: Sinodal, 1993.
  • GIBBON, Edward. Declínio e Queda do Império Romano. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.
  • GONZÁLEZ, Justo L. A Era dos Mártires. São Paulo: Vida Nova, 2002.
  • GREGÓRIO de Tours. História dos Francos.
  • GREGÓRIO de Tours. Libri Historiarum. (em latim)
  • HEATHER, Peter & MATTHEWS, John. Goths in the Fourth Century. Liverpool: Liverpool University Press, 1991.
  • LUCIANO de Samósata. "Alexander The Oracle-monger". In The Works of Lucian of Samosata, vol. II. Trad. H. W. Fowler and F. G. Fowler. Oxford: The Clarendon Press, 1905.
  • TÁCITO. Annales. (em latim)
  • TÁCITO. Annales. (em inglês)

Ligações externasEditar

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