Processo de Sacco e Vanzetti

Manifestação em Londres contra a execução de Sacco e Vanzetti

Nicola Sacco (Torremaggiore, 22 de abril de 1891Charlestown, 23 de agosto de 1927) e Bartolomeo Vanzetti (Villafalletto, 11 de junho de 1888Charlestown, 23 de agosto de 1927) foram dois anarquistas italianos que foram presos, processados, julgados e condenados nos Estados Unidos na década de 1920, sob a acusação de homicídio de um contador e de um guarda de uma fábrica de sapatos. Sobre sua culpa houve muitas dúvidas já à época dos acontecimentos. No dia 15 de abril de 1920, em Sorbei, Massachusetts, ocorreu um assalto a uma sapataria, seguido por dois homicidios. Os suspeitos principais eram Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, que foram inicialmente acusados apenas de porte ilegal de armas, apesar de ser uma pratica comum entre os americanos, e posteriormente do duplo assassinato. O contador e seu segurança estavam com US$15 mil na hora do crime, dinheiro esse que foi levado pelos bandidos. Em meio aos tiros, uma testemunha anotou a placa do carro. Com Sacco e Vanzetti encontraram armas e munições; no entanto, a prova de balística foi confusa, sem chegar a um consenso se as balas que mataram o contador e seu segurança haviam partido da arma que encontraram com os anarquistas italianos. As testemunhas também eram confusas e contraditórias, o que dificultou ainda mais achar a verdade.

Contexto históricoEditar

O crime ocorreu nos Estados Unidos na época de 1920, em um cenário de pós guerra, onde havia uma batalha interna com a pobreza. Em poucas palavras, estava instalada uma crise politico sócio-econômica no pais. Nesse mesmo período começaram a surgir inúmeros imigrantes e grupos anarquistas e socialistas, fazendo com que a população local, que já estava insatisfeita, ficasse com mais raiva e medo com o crescimento desses grupos. Vanzetti foi um imigrante que teve uma decepção grande com os EUA, um país que na época estava cercado de problemas sociais e violência, e que por esse motivo, tornou-se um líder anarquista do movimento operário. Sacco também era um imigrante que atuava em ações sindicais revolucionarias anarquistas.

A mídia europeia alegava parcialidade das autoridades pelo fato dos acusados serem imigrantes. Enquanto a imprensa estadunidense dizia que eram grandes bandidos e ressaltava o quanto o anarquismo era prejudicial ao modo de vida norte-americano, em uma tentativa de fazer com que a população ficasse com mais temor e repulsa a qualquer imigrante, aumentando assim a xenofobia. Nessa mesma época também houve o crescimento das mafias italiana, e talvez por esse motivo as pessoas não queriam ser juradas do caso

O JulgamentoEditar

O julgamento do processo de Sacco e Vanzetti foi marcado por contradições, incoerências e xenofobia. A grande quantidade de testemunhas e seus depoimentos às vezes maçante foi uma das causas da fadiga do júri. As testemunhas de defesa, grande parte imigrantes que não falavam bem a língua inglesa, não tinham tanta credibilidade por parte do júri. A dificuldade da tradução, a má interpretação e a própria vontade de provocar confusão nas testemunhas de defesa por parte da acusação tornava seus depoimentos conflituosos e pouco críveis.

Uma das testemunhas principais, Dominick Ricci, que provava que Sacco não estava na cidade no dia do crime deste, perdeu sua credibilidade quando o procurador que fazia a acusação o fez entrar em contradição ao citar várias datas consecutivamente com o objetivo de confundir a testemunha. O mesmo procurador realiza a mesma tática com outras testemunhas. Outra testemunha da defesa, Giuseppe Adrower, em seu depoimento, dizia se lembrar de Sacco no consulado no dia do crime, fato este que este lhe chamou a atenção, pois Sacco queria tirar passaportes para ele,sua mulher e filho, mas foto que levou era grande demais, e este detalhe da foto lhe chamou atenção o suficiente para se lembrar de Sacco. Porém, o procurador que fazia a acusação novamente faz seu jogo, pedindo para Giuseppe falar sobre as pessoas que viu em determinadas datas aleatórias, sustentando assim que não era possível que o funcionário lembrasse exatamente de Sacco.

Depois de 27 dias de audiência, foram ouvidas as testemunhas de acusação. Uma série de acontecimentos leva a adiamentos para a retomada as audiências, o que deixa o júri impaciente, pois assim teriam que permanecer mais tempo isolados e sem poder voltar para casa e família. No depoimento de Vanzetti, este já mostrava os efeitos da prisão: parecia muito mais velho e permanecia sem demonstrar emoção. Ao longo de seu depoimento, ele menciona seu posicionamento anarquista e fala também de como fugiu para o México para não ir á guerra, o que desagrada muito o júri. A partir desse momento, o interrogatório começa a desandar, Vanzetti começa a ficar agitado e nervoso, não entende bem as perguntas do procurador que fazia a acusação, o qual continua inquirindo fortemente o italiano. A confusão se abate sobre Vanzetti, pois, além de não conseguir se expressar bem em inglês, o caminho que percorria o procurador prejudicou muito seu depoimento.

Os depoimentos das testemunhas de acusação também foram cheios de falhas e contradições. A advogado de defesa censurou uma das testemunhas, uma mulher chamada Splaine, trazendo à tona as contradições de seu depoimento. Outra mulher que depôs, chamada Devlin, parece ter sido muito influenciada pelos procuradores.[1]

No trigésimo sétimo dia, houve o último ato do julgamento: a sala de audiências ficou lotada de amigos dos acusados, membros da comissão, a esposa de Sacco e seu filho Dante, membros da advocacia juntos aos advogados dos acusados, os quais aparentam absoluta calma. O juiz presidente Thayner tem um último ato, no qual faz evocação da lei e um resumo da causa, e se aproveita da grandiosidade do caso para fazer um discurso especial em sua última aparição no caso. Chega a hora do veredito e os italianos são considerados culpados de assassinato em primeiro grau.

Veredito finalEditar

Os réus foram considerados culpados, mas não foram de imediato condenados à morte. Sacco e Vanzetti passam seis anos na prisão, esperando o andamento do feito e seu resultado. Durante estes seis anos, seus advogados tentaram por todos os meios processuais possíveis a revisão do caso, e, ao final, buscaram até mesmo o perdão da pena. Os partidários de Sacco e Vanzetti conseguiram desenvolver diversas atividades para manter viva a comoção da população em razão da condenação e prisão dos italianos, alegando que chegava a ser desumana pela duração, salientando que eles não admitiam a própria culpabilidade. A condenação à morte causou comoção internacional e políticos europeus enviaram mensagens para Casa Branca, para o governador Fuller e para o secretário de Estado, solicitando o perdão. Os advogados tentaram em vão ações jurídicas à Suprema Corte, o que resultou num novo adiamento. Faltando minutos para a execução de Sacco e Vanzetti, Fuller adiou-a por mais doze dias. Ao final, Fuller nega o pedido de perdão, e os dois são executados.

 
Bartolomeo Vanzetti (esquerda) e Nicola Sacco (direita)

Antes da execução, não foram inocentados nem mesmo depois que um outro homem admitiu em 1925 a autoria dos crimes. Foram condenados à pena de morte e executados por eletrocução, em 23 de agosto de 1927.

CuriosidadesEditar

Há uma citação sobre ambos no poema "América" de Allen Ginsberg:

"América o Sacco e o Vanzetti não podem morrer"[2]

E no texto sobre o Surrealismo de Walter Benjamin.

Howard Fast, escritor de origem judaica e militante político, escreveu um livro que narra a história dos dois anarquistas, com o título "Sacco e Vanzetti".

Absolvição tardiaEditar

O governador de Massachusetts Michael Dukakis,em 23 de Agosto de 1977, promulgou um documento que os absolvia, exatamente 50 anos depois.

Referências

  1. OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História. [S.l.]: São Paulo: LTDA. 177 páginas 
  2. Ginsberg, Allen (1956). Uivo E Outros Poemas. [S.l.]: The Pocket Poets Series 



  Este artigo sobre Anarquismo é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.