Raul Pederneiras

Raul Paranhos Pederneiras (Rio de Janeiro, 11 de agosto de 1874 — Rio de Janeiro, 11 de maio de 1953)[2] foi um caricaturista, ilustrador, pintor, professor, teatrólogo, compositor e escritor brasileiro. Pertencente à belle époque carioca, estudou no Colégio Pedro II e formou-se pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, em 1896. Foi fundador da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) e um dos fundadores do Grêmio Carioca, instituição que agia politicamente na promoção e defesa da memória da cidade do Rio de Janeiro. Raul morreu no dia 11 de maio de 1953.[1]

Raul Pederneiras
Nascimento 1874
Rio de Janeiro
Morte 11 de maio de 1953
Cidadania Brasil
Ocupação pintor, escritor, poeta
Empregador Universidade Federal do Rio de Janeiro

Vida e carreiraEditar

 
Raul, em 1944.

Raul Paranhos Pederneiras, ou simplesmente Raul, é filho de Manuel Veloso Paranhos Pederneiras, irmão do poeta Mário Pederneiras e do jornalista Oscar Pederneiras.[2] Ele Iniciou a carreira em 1898, no diário O Mercúrio, jornal impresso em cores que circulou no Rio de Janeiro ao final dos anos oitocentos. A ilustração publicada na capa da edição de estreia revolucionou a época, pois era a análise dos valores tradicionais concatenado às novidades do tempo. A caricatura mostrava dois personagens: um idoso bem trajado e uma bela jovem, apresentados num cenário urbano. O primeiro dizia em tom de flerte: “– A senhora quer tomar alguma coisa?” ela respondia rapidamente e assustada: “ – Quero, sim. O bonde.”[3][4][5][6][2][1]

De seu trabalho como caricaturista se destacam as “Cenas da Vida Carioca”, sátiras aos usos e costumes da classe média carioca, e os “Onomatogramas”, representações gráficas de nomes. Durante toda vida, Raul manteve uma extensa e assídua participação em diversos periódicos cariocas, como a Revista da Semana que, criada em 1900 e ligada ao Jornal do Brasil, teve papel importante para remontar o imaginário carioca e brasileiro do início do século XX. Raul colaborou com o semanário por meio de desenhos e poemas, como desenhos muito interessantes sobre a Revolta da Vacina.[4][5][6]

O jornalista ainda trabalhou em O Tagarela, D. Quixote e Fon-Fon, cuja ideia era ser crítico, político e alegre. Um veículo de reflexão sobre os principais pontos e momentos da República por meio de um automóvel, símbolo da modernidade e dos avanços tecnológicos. Além da velocidade do carro, observada na linguagem dinâmica, o objeto buzina dá nome ao semanário que começou a começou a circular no Rio de Janeiro em abril de 1907, a partir de caricaturas e frases irônicas de personalidades da época. A primeira caricatura de Pederneiras apareceu na seção Cabeça de Turco, onde expunha um portrait-charge de Fradique Mendes. A revista manifestou-se contrária ao projeto de Reforma Ortográfica iniciado em 1907 e concluído em 1912 pela Academia Brasileira de Letras. Na seção "Fragmentos do Novo Diccionario" da Revista Fon-Fon, eles expunham aos leitores as características amplas das palavras e como elas poderiam ser interpretadas das mais variadas maneiras. Embora a seção não fosse assinada, ali estavam presentes os três colaboradores da revista: Raul, J. Carlos e K.Lixto, que integravam a tríade mais famosa de caricaturistas fluminenses da República Velha, na tentativa de revelar a superficialidade da reforma ortográfica.[5][3][2]

Raul também atuou em O Malho e no Jornal do Brasil. Pederneiras cursou direito e foi professor na Universidade do Brasil. Ele criticava a emancipação feminina, afirmando que a mulher não tinha capacidade de desenvolver outras atividades além das tarefas domésticas mas, mesmo assim, não incomodou as pessoas por conta das charges ásperas do cenário político da época.[2][5]

No Jornal O GLOBO, na capa de 29 de julho de 1925, Raul Pederneiras utilizou uma charge satírica para retratar a luta entre Despesa e Receita. O cartunista era reconhecido dentro da história do humor gráfico do Brasil pela responsabilidade de enaltecer a importância de cartuns, charges e caricaturas na construção da informação. Ele também auxiliava a decisão editorial do jornal carioca, que dizia estar compromissado com as demandas da evolução da imprensa nacional e internacional. Pederneiras, como ficou conhecido graças às assinaturas de crônicas editoriais brasileiras, colaborou com O GLOBO por muitos anos, mas já tinha o nome e o talento consagrados na imprensa do país.[3][2]

A Crítica na Arte de PederneirasEditar

Como pintor, sua técnica preferida foi a aquarela, na qual era exímio. Embora tenha figurado em diversas exposições gerais de Belas Artes, realizou apenas uma mostra individual, em 1926, no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Raul escreveu dois álbuns-memórias: Scenas da Vida Carioca, registros escritos, respectivamente, em 1924 e 1935 e que fazem parte do arquivo do acervo iconográfico da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. No contexto de Brasil pós-abolição, Pederneiras expressava cenas singulares da existência central no Rio de Janeiro, a capital do país na época. As charges retratavam o progresso econômico de uma sociedade pobre civilizada que buscava outras formas de trabalho além do salário. Nos documentos, Raul narra uma cidade que sofre transformações em busca da modernização.[7][3]

Os traços de Pederneiras não são descritivos ausentes de significado e compromisso, à medida que influenciam criticamente as mudanças tecnológicas e os comportamentos sociais, políticos e culturais provenientes do humor. Por meio da ficção, Pederneiras reflete a história da época para constituir um quadro geral da cidade que estava dividida socialmente. A forma estética escolhida pelo cartunista é o cômico, que aproxima os dois lados: autor e leitor ao reafirmar preconceitos. A linguagem é a sátira em forma de ironia, a fim de representar o mundo de forma subjetiva da posição social do próprio autor e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar as injustiças.[7][2][5][4][3]

Figura polivalente, Raul foi ainda professor de Anatomia e Fisiologia Artística na Escola Nacional de Belas Artes, entre 1918 e 1938; professor de Direito Internacional na Faculdade de Direito da antiga Universidade do Brasil, de 1938 até a sua aposentadoria; teatrólogo e autor de várias revistas, que dividiu com nomes famosos da cena brasileira, como Luís Peixoto e Aporelli; e compositor de cançonetas e de uma opereta. Deixou publicações como o curioso livro Geringonça Carioca: Verbete para um dicionário de gíria, e alguns volumes com versos humorísticos: Com licença (1898), Versos (1900), Musa travessa (1936), além de Direito Compendiado (1931), livro que nove anos antes publicava a primeira edição do dicionário de gírias já citado (Geringonça Carioca).[5][4]

O poeta Raul, influenciado pelo simbolismo, também fez trocadilhos nos seus textos e caricaturas nas publicações semanais onde atuou. Ele utilizava a rima e outras manifestações verbais de estilo do jornalista, a fim de alterar regras estabelecidas. A união entre as linguagens e as quebras de fronteiras está presente no livro “Figurações Onomásticas: nomes que fazem figura”, publicado por Pederneiras em 1928. A obra é uma série de exercícios a lápis que sugere forma e sentido figurativo à nomes de homens, mulheres e animais. Palavras se tornam imagens e imagens se tornam palavras.[4][5]

Na época, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Academia Brasileira de Letras utilizaram a caricatura satírica e humorada de Raul Pederneiras para questionar a sociedade. Outros nomes, como Bastos Tigre e Lima Barreto, participaram do processo de críticas contra o sistema na qual Pederneiras caminhava na contramão.[2]

"Esta não é a república dos meus sonhos"Editar

A República do Brasil foi a inspiração para Raul para construir os trocadilhos, as frases curtas, as imagens-palavras e as palavras-imagens. Ele percebia a ligação e a relação de cada forma de linguagem com o contexto político, econômico e social da época. A frase "Esta não é a república dos meus sonhos" ilustrou as charges que retratavam as pessoas que vivenciaram o surgimento e a queda do regime republicano no país. Raul era divergente com a visão republicana e enxergava a política como uma troca de ideias e atitudes, que criticavam a ação do governo e a reação da população. Além de representar, Raul foi representado. O amigo K.Lixto desenha Pederneiras em posição de combate segurando um pincel gigante à frente do então Presidente da República Rodrigues Alves e seus partidários. A imagem do cartunista ingênuo que, segundo o próprio K.Lixto, em entrevista ao jornal O GLOBO, "morreu sem inimigos".[5][1][8][5]

O incômodo de Pederneiras eram as promessas não cumpridas dentro da República. A charge de "Zé Povo" retratava uma mulher branca que encarnou-se na República e, ao mesmo tempo, idosa, cansada pela vida enfrentada ao longo do regime republicano. Para Raul, a política, na prática, sempre foi vista como negativa. A seguir, o texto Legisladores, publicado por Raul em Fon-Fon!, em 1907:[5][8]

“1 – Antes da eleição (na província) Na câmara eu serei o defensor dos interesses do Estado. Hei de baterme ferozmente para que a Federação seja uma realidade, seja a consolidação do Ideal republicano.[8]

2 – Depois de eleito (na Capital) Hoje não posso ir a sessão, tenho um delicioso rendez-vous com dois olhos negros tentadores. - Olha, é natural que eu não possa ir tão cedo á sessão. Preciso descansar um pouco. Vou fazer uma estação de aguas em Caxambu durante três mezes, e depois sigo para a Europa, numa pequena viagem de recreio de ... dous anos.[8]

3 – No fim da legislatura (Noticia dos jornaes) - “Chegou hontem da Europa Sr. Deputado Beltrão, que foi recebido por grande numero de amigos e conhecidos. S. Ex. volta amanhã mesmo para o seu Estado natal, afim de tratar de sua próxima eleição”.[5][8]

Pederneiras e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI)Editar

Raul Pederneiras foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa entre 1915 e 1917. Neste período, defendeu a ideia de estabelecer uma escola de Jornalismo, a fim de refinar e elevar o nível cultural dos profissionais da Comunicação Social no país. Ele seguiu os debates já realizados pela instituição desde 1908,[2][9] liderados pelo primeiro presidente da entidade, o jornalista Gustavo Lacerda. As discussões giravam em torno da necessidade de investir na formação total dos jornalistas para “habilitar por meio de título de capacidade intelectual e moral o aspirante à profissão de jornalista” (ABI, 2002, p.16).[9][10][2]

Nós pelas costas: notas de um caderno de viagem (1930)Editar

Publicado em 1930 pela Tipografia do Jornal do Brasil, o livro tem 70 páginas divididas em textos e ilustrações, as chamadas "calungas" ou "bonecos caricaturescos" de Pederneiras. A obra foi feita a partir de apresentações de Raul em palestras, além de trechos que ele publicou no próprio Jornal do Brasil. Na capa do livro, a moldura é uma ilustração similar à uma fotografia: uma autocaricatura ao lado do fiel cachorro. Pederneiras e o cão estão vestidos como se estivessem prontos para uma viagem do Rio de Janeiro até a Europa. A imagem retrata o cartunista utilizando chapéu e muitas roupas de frio. Entre os inúmeros bonecos já feitos por Raul, este é ele mesmo, se colocando como um calunga dentro do próprio livro, não deixando dúvidas de se tratar de uma obra humorística. A assinatura típica de suas caricaturas, com o "erre" sobrepondo-se ao "pê", de Raul Pederneiras, atesta a autoria do humorista e não do professor doutor das universidades. Os trocadilhos estão presentes na publicação. Já o título, "Nós pelas costas", era o significado de gírias encontradas no dicionário de verbetes de"Geringonça Carioca". A expressão quer dizer embaraçado, assustado ou atrapalhado.[4][1][11][2]

O texto concatena auto avaliação com críticas ao Brasil republicano de 1920. A viagem do Rio de Janeiro até a Europa durou 9 dias. Era uma tentativa de encontrar sentido nas mudanças do país, sobretudo na capital carioca, que era fortemente influenciada pelos Estados Unidos. Pederneiras conheceu a Europa no final de 1927 e escreveu inúmeras colunas de jornal a partir dela: "De terra em terra" era publicada no Jornal do Brasil utilizando cartas enviadas por Raul a Octávio Tavares e Alberto de Lima. Já o retorno ao Rio durou 17 dias.[2]

Pederneiras fez palestras durante a viagem e publicou trechos na Revista da Semana, nos quais aborda o hábito dos europeus com relação às barbas e bigodes. Ele encerra o momento com a seguinte frase: “[...] A obra rotariana deve ativar a propaganda pacifista; a fraternidade só é vista nos livros e em raros monumentos, mas ainda não penetrou no coração dos homens.”[11]

ConclusãoEditar

Raul Pederneiras foi influenciado por Julião Machado (1863-1930), personagem que inicia no Brasil o desenho de contorno sem sombreado, repleto de humor. Os pseudônimos de Raul: Luar, O.I.S., Oscar, J., Xisto e Pan seguem a referência do mestre Machado. Foram cerca de 50 anos de atividade artística, com modificações humanas na sociedade, mas sem alterações no estilo irreverente de Pederneiras.[2][12]

Referências

  1. a b c d «Raul Pederneiras viajante: as transformações da década de 1920 através do livro Nós pelas costas: notas soltas de um caderno de viagem (p.159 a 154)». Consultado em 23 de novembro de 2018 
  2. a b c d e f g h i j k l «170 ANOS DE CARICATURA NO BRASIL: PERSONAGENS, TEMAS E FATOS (p.7)» (PDF). Consultado em 25 de novembro de 2018 
  3. a b c d e «Raul Pederneiras: Pioneiro da multimídia». Consultado em 25 de novembro de 2018 
  4. a b c d e f «BARSA ENCICLOPÉDIA». Consultado em 24 de novembro de 2018 
  5. a b c d e f g h i j k «Entre caricaturas e trocadilhos: Raul Pederneiras e seu passeio pelas linguagens (p. 1, 2, 3, 10, 11, 12 e 13)» (PDF). Consultado em 25 de novembro de 2018 
  6. a b LIMA, Apud (1963). O Mércurio. [S.l.: s.n.] p. 989 
  7. a b «As (re)apresentações sobre os trabalhadores informais nas charges de Raul Pederneiras, no pós-abolição carioca. (p.11, 12 e 13)» (PDF). Consultado em 24 de novembro de 2018 
  8. a b c d e Revista Fon! Fon!. [S.l.: s.n.] 1907 
  9. a b «A Profissionalização do Jornalista via Ensino: Argumentos Mobilizados em Defesa da Formação Escolar Específica (p.3)» (PDF). Consultado em 22 de novembro de 2018 
  10. ABI. [S.l.: s.n.] 2002. 16 páginas 
  11. a b Revista da Semana. [S.l.: s.n.] 1928. pp. 29 e 30 
  12. «ENCICLOPÉDIA ITAÚ». Consultado em 27 de novembro de 2018 

Ligações externasEditar

 
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