A palavra remediação surge do latim "remederi", cujo significado é curar, restaurar. Os autores escolheram esse termo pois acreditavam que o meio sucessor supriria as necessidades do anterior e curaria o meio anterior se aprimorando com o que faltasse nele.[1]

Remediação é um processo que ocorre quando um meio passa a incorporar ou imitar elementos de outros meios, afim de melhorar seu próprio meio, criando assim um dinamismo entre diferentes instrumentos de comunicação.

ConceitoEditar

Antes de ser identificado pelos autores Richard Grusin e David Bolter, o fenômeno da remediação foi percebido por Marshall McLuhan. O autor afirmava que "o conteúdo de uma mídia é sempre outra mídia", se referindo não só à mudança estrutural do conteúdo, mas a um processo mais complexo, em que, de fato, uma mídia é representada e incorporada a outras. Estas inter-relações dos meios, de acordo com o autor, "constitui um momento de verdade e revelação, do qual nasce a nova forma".[1]

Jay David Bolter, professor da faculdade de literatura, mídia e comunicação do instituto de tecnologia da Georgia e Richard Grusin, estudioso de mídia e autor, com o objetivo de compreenderem melhor o surgimento das novas mídias, publicaram o livro Remediation: Understanding New Media.[1] Obra de grande importância para a área de comunicação que apesar de escrita no ano 2000, se mantém bastante contextualizada com o panorama global.

Remediação é a compreensão entre os diferentes tipos mídias: mídias eletrônicas, mídias impressa e mídias digitais. O processo de remediação não surge através das mídias digitais, e sim no momento em que um meio de comunicação surge, pois esse meio nunca surge isoladamente, e as diferentes mídias fazem o mesmo processo das suas antecessoras, incorporam elementos de outras mídias. O que ocorre é o surgimento de uma mídia melhorada e renovada mas que segue um padrão já estipulado. Os próprio autores preveem que no futuro a novidade seria o surgimento de uma mídia que não possui relação com nenhuma outra, mas defendem que seria algo impossível de acontecer na nossa cultura.[2] A famosa frase de Antoine Lavoisier, "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", combina perfeitamente com o tema.

Os autores definem remediação como a lógica formal na qual uma mídia renova (refashion) as formas de uma mídia anterior ou, como o processo em que as “velhas mídias” são representadas e, até mesmo, realçadas pelas novas mídias, recebendo um novo propósito, uma nova forma e um novo tipo de acesso ou uso (repurpose).[3]

A remediação é decomposta por Bolter em três aspectos: primeiro, como mediação de mediação, isto é, como parte do processo através do qual os média se reproduzem e se substituem uns aos outros; segundo, como inseparabilidade entre mediação e realidade, que faz da mediação e dos seus artefactos uma parte essencial da cultura humana como realidade mediada; terceiro, como processo de "re-forma" da mediação da realidade, ou seja, como meio de transcender as formas e meios de mediação anteriores.[2]

Segundo Dizard, um fator que acentua a remediação é o aparecimento de novas tecnologias em um curto espaço de tempo, pois se o intervalo de surgimento entre as mídias for lento, a sociedade terá mais tempo para se adaptar. Já se for rápida, será preciso usar de outros meios mais familiares para difundir esta nova tecnologia. O conceito de remediação funciona quase como o de apropriação de McLuhan, que dizia que uma nova tecnologia se complementa com a anterior a si e assim, não existiria uma tecnologia totalmente nova. Um exemplo de remediação são as TV's online, que possuem a linguagem de uma tecnologia que não é a mesma do seu meio. O conceito elaborado por ambos tem por finalidade, compreender a relação entre as diferentes mídias, principalmente a relação entre as mídias antigas com as novas mídias.[2]

Bolter e Grusin colocam que a internet remedia todos os meios por possuir muitos recursos e aspectos inovadores.[1] Podemos dizer que ela remedia os jornais, as revistas, a televisão, o rádio, entre outras mídias.

Imediação e HipermediaçãoEditar

 Ver artigo principal: Imediação e Hipermediação

Definida epistemologicamente, imediação é transparência: a ausência de mediação ou representação. É a noção de que o meio pode ser ocultado, deixando o observador (the viewer) em contato direto com o conteúdo do objeto. Ela ocorre quando o indivíduo que está sendo mediado não tem conhecimento (ou simplesmente se esquece) do meio que está transmitindo a mensagem. Bolter e Grusin afirmam que a imediação geralmente é alcançada ou por meio das mídias digitais imersivas, como por exemplo, a realidade virtual ou, através de mídias não imersivas que proporcionam imagens 2D e 3D, que tentam tornar a experiência o mais real possível, fazendo com que o indivíduo se sinta “dentro” do próprio meio. Segundo os autores a imediação também poder ser física como, por exemplo, em parques de diversão temáticos. Não importando como, o objetivo final do observador é sempre atingir o real, ter acesso ao conteúdo da mídia sem sentir a mediação desta.

Segundo os autores, isto não é um fato novo e, para entendermos melhor, tomam como referência as pinturas da Renascença, a fotografia, a arte moderna, a TV e o cinema para exemplificar. Para eles, estes meios sempre tentaram atingir esta transparência e para tal, faziam-se valer de técnicas estéticas, especialmente, da perspectiva linear – umas das técnicas mais aplicadas às novas mídias digitais, como afirmam.[3]  

A imediação tem a capacidade de desconectar a pessoa do mundo real, transportando-a para o meio. É importante dizer que, não é preciso que o espectador tenha a ingenua convicção de que a representação é a mesma coisa que o que ela representa. A transparência da interface acaba sendo mais uma manifestação da necessidade de negar o caráter da mediação das tecnologias digitais. [1]

Um exemplo bem conhecido é o Second Life, um ambiente virtual e tridimensional, em que os usuários, conhecidos como residentes, podem fingir ser quem - ou o que - bem quiserem. Significa "outra vida" em inglês e seria como uma vida paralela de seus jogadores. Nesse jogo a pessoa fica completamente imersa, se envolvendo por inteiro e esquece que está experimentando as sensações através do computador, ou seja, um mundo virtual, tornando difícil estabelecer os limites entre sentimentos reais e irreais.

Assim como existe a procura pela transparência, há também a busca por seu oposto, o que nos leva à definição epistemológica de hipermediação, ou seja, a opacidade. Em seu sentido psicológico, hipermediação é a experiência da mediação em si, a tomada de consciência do observador que todo conhecimento que adquirir, será mediado por algum meio. Enquanto a imediação sugere a união visual do espaço, a hipermediação, agindo como um contrabalanço mais complexo e variado, oferece um espaço heterogêneo, dividido por janelas, cada uma com seu significado, sua identidade visual, sua programação, estilo gráfico etc. A lógica de Hipermediação multiplica e ressalta os signos da mediação, buscando, desta forma, reproduzir as experiências sensoriais humanas.[3]Mas em cada manifestação, a hipermediação nos faz consciente do meio ou mídia nos lembrando do nosso desejo pela imediação.[1]

A hipermediação apesar de não ter sido a principal forma de mediação da epóca da renascença até o modernismo, nunca deixou de existir. Durante todo esse tempo que foi vista como secundaria, ela se fez presente nas pinturas holandesas, nos armários barrocos, nas fotomontagens, entre outros. Um exemplo mais atual seria o youtube, site que permite ao usuário postar e assistir videos, no qual percebermos a experiência midiática vivida. Além disso, por fazer parte da internet, ele também reúne uma grande quantidade de mídias em um único lugar.[1]

Na obra dos autores, é citado um exemplo que esclarece bem os conceitos de imediação e hipermediação. A Disney que, segundo os autores, talvez seja uma das pioneiras no processo de remediação é além de um parque temático que leva além da realidade e nos insere no mundo da imaginação (imediação) com seus múltiplos brinquedos e shows (hipermediação), a Disney é uma das maiores produtoras animações. O fato de basear-se em contos e mitos, animá-los com técnicas gráficas, fazer uso de música clássica como em Fantasia e, após longos anos de sua criação, remasterizar a obra em busca de uma qualidade ímpar é um exemplo extremamente didático para entendermos mais sobre o processo de remediação.[3]

Remediação e sua relação com a sociedade segundo McLuhanEditar

As modificações que as redes de comunicação enfrentam, tem efeitos e consequências conhecidas como "tétrades"[4] e estão incluídas em 4 propriedades, segundo McLuhan:

Recuperação, em que todo novo elemento contém um outro já existente. Para McLuhan, a recuperação não é somente olhar o elemento anterior em detrimento do novo. O autor defende que transformações são necessárias para que o antigo se relacione com o novo – pensemos, como alguém que traz de volta alguma moda da década passada, o elemento antigo volta, porém com novas características e funcionalidades para a contemporaneidade.

Extensão, consiste em um novo dispositivo ser sempre um aperfeiçoamento do anterior.

Obsolescência, em que novos elementos tornam os antigos ultrapassados. A ideia de obsolescência significa dizer que quando uma característica de um veículo é ampliada ou explorada, uma outra é anestesiada. Como McLuhan explica, a própria extensão de algumas características do meio nos leva automaticamente a perceber que outros recursos de publicação se tornam obsoletos: "Qualquer nova técnica, ideia ou ferramenta, enquanto que permite novas possibilidades de ação pelo usuário, coloca de lado os modos antigos de fazer coisas".

Reversão, em que elementos novos são potencializados até que esse elemento comece a produzir novas questões, esquecendo as anteriores. Essa propriedade é exemplificada em uma máxima da teoria da comunicação "os dados sobrecarregam o reconhecimento do modelo". Quando o processo chega ao seu limite sua característica é revertida em uma forma complementar.

McLuhan explica ainda, que essas quatro propriedades devem ser pensadas de forma simultânea, pois a combinação das quatro causas e dos quatro efeitos faz com que seja possível avaliar os impactos e implicações das novas tecnologias.[4]

Convergência MidiáticaEditar

 Ver artigo principal: Convergência midiática

Desenvolvido por Henry Jenkins, convergência midiática é um conceito que designa a junção dos meios de comunicação para transmitir informações aos consumidores. Segundo o autor, a convergência não é apenas um processo tecnológico, é uma mudança no modo como encaramos nossas relações com as mídias e antes de tudo um fenômeno cultural, já que os consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos midiáticos dispersos.[5] Jenkins afirma: “Se o paradigma da revolução digital presumia que as novas mídias substituiriam as antigas, o emergente paradigma da convergência presume que novas e antigas mídias irão interagir de formas cada vez mais complexas”.[6]

Dessa forma, a convergência das mídias altera a relação entre tecnologias existentes, indústrias, mercados, gêneros e públicos. Entretanto, as novas tecnologias midiáticas parecem não substituir os meios de comunicação tradicionais, o que está ocorrendo é uma interação de plataformas cada vez maior[5]: “Palavras impressas não eliminaram as palavras faladas. O cinema não eliminou o teatro. A televisão não eliminou o rádio. Cada antigo meio foi forçado a conviver com os meios emergentes”.[6]

A principal responsável para o surgimento deste conceito é a internet, que possibilitou que a comunicação deixasse de ser uma vida de mão única entre os produtos/distribuidores de conteúdo e receptor. Hoje todos aqueles que quiserem podem produzir conteúdo através dessa ferramenta. "A convergência envolve uma transformação tanto na forma de produzir quanto na forma de consumir os meios de comunicação".[6]

Remediação nas mídiasEditar

Mídia contemporâneaEditar

Em um cenário de desenvolvimento tecnológico, vemos o surgimento de novas mídias a todo momento. Essas novas mídias são mais elaboradas e interagidas, fazendo com que seus consumidores leiam, escutem e olhem ao mesmo tempo. Atualmente, as mídias digitais são que estão em grande evidência.

Bolter e Grusin afirmam que remediação é a característica da mídia digital, pois implica o reconhecimento do meio anterior, da sua linguagem e da sua representação social. Desta maneira, todos os meios têm o seu sistema de produção afetado pela chamada nova mídia. A internet remedia todos os meios, melhorando-os em muitos aspectos e acrescentando recursos novos, enquanto a web, especificamente, tem uma natureza remediadora, operando de modo híbrido e inclusivo. A web, dizem os autores, remedia os jornais, as revistas e a publicidade gráfica.[1]

Ainda segundo Bolter e Grusin, introduzir uma nova mídia não significa apenas inventar novo hardware e software, mas sim se apropriar das outras mídias existentes. No processo de remediação, a nova mídia se apropria das mídias existentes, mas também influencia e traz mudanças para a cultura.[1]

Os blogs, por sua vez, podem ser citados como exemplo de nova mídia. Atualmente, há uma audiência interessada em manifestar suas opiniões e percepções, independente de uma identificação com a atividade jornalística. Dessa forma, os blogs acabam se tornando um complemento para a produção de informações, levando a uma reinvenção dos modelos mediáticos convencionais, numa convivência em alguns momentos harmoniosa e em outros, competitiva. Ao possibilitar a atuação direta da audiência para circular informações, os blogs se tornam parte de um processo cultural permanente que envolve não somente a mídia, mas a sua apropriação, dando início a um modelo de mídia totalmente diferente.[7]

Exemplos de remediaçãoEditar

As telenovelas, com o passar do tempo, se modificaram e passaram a remediar as mídias digitais e o cinema. A novela mudou sua linguagem e a sua dinâmica, pois eram feitas com histórias fictícias e agora se aproximam cada vez mais do real, se apropriando da linguagem das mídias digitais e do cinema, atingindo também esses meios que foram remediados. A novela virou um meio de maior velocidade, de mais informações e mais real, onde sua narrativa mudou e incorporou características do cinema e das mídias digitais, desenvolvendo assim uma linguagem própria, incorporando elementos de outros meios de comunicação.[8]

Atualmente o programa diário de rádio A Voz do Brasil possui uma versão em vídeo na internet. Sendo assim, existe a apropriação da linguagem do programa de rádio no programa na internet.

A linguagem da internet também pode ser considerada uma remediação. Visando diminuir os caracteres como em um SMS, pois o mesmo possui um limite de 140 caracteres. A sociedade começou a abreviar palavras como "você", para "vc", "hoje" para "hj" e "quando" para "qnd". Surgiram então alguns mecanismos de comunicação pela internet que ajudaram a propagar essa abreviação se apropriando dessa escrita, como o ICQ, o MSN e atualmente o Twitter.

Diferentes mídiasEditar

As novas mídias remediam, ou seja, melhoram seus antecessores obrigando também que as mídias já existentes se modifiquem e se reconfigurem, para não se tornarem obsoletas. Podemos ver isso claramente no jornal, revista, rádio, telefone, arte, vídeo, fotografia, a partir do momento em que novas mídias foram surgindo esses meios foram se atualizando e se sofisticando cada vez mais. Um dos grandes fatores que propiciam essa remediação é a convergência midiática, que remete a um produto ou serviço chegar a diferentes publico através de diferentes meios que se interagem. Os diferentes meios interferem diretamente nas relações sociais dos indivíduos, e como esses interagem com um meio de comunicação, por exemplo, quando ouvimos uma propaganda no rádio e quando vemos a mesma propaganda na televisão, os diferentes meios fazem com que nos fixemos às informações de formas diferentes.[9]


Referências

  1. a b c d e f g h i Alan Mangabeira Mascarenhas, Andrea Ferreira de Andrade Poshar França, Marcos Antonio Nicolau. «Remediação na cibercultura». Consultado em 7 de janeiro de 2014  Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "LYL" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  2. a b c «Remediação». Consultado em 7 de janeiro de 2014 
  3. a b c d Andréa Poshar. «Remediation: understanding new media» (PDF). Consultado em 8 de janeiro de 2014 
  4. a b «Remediação e as tétrades de Marshall McLuhan». Consultado em 7 de janeiro de 2014 
  5. a b Eugenia Mariana da Rocha Barichello, Jones Machado. «Convergência midiática: elemento estratégico no processo de construção da produção televisiva de On line». Consultado em 7 de janeiro de 2014 
  6. a b c Jenkins, Henry (2008). Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph 
  7. Mágda Rodrigues da Cunha. «Blogs: a remediação das mídias que permite à audiência publicar» (PDF). Consultado em 8 de janeiro de 2014 
  8. Mariane Harumi Murakami. «Processos de remediação na telenovela». Consultado em 7 de janeiro de 2014 
  9. Larriza Thurler. «Reflexões sobre remediação e interatividade» (PDF). Consultado em 7 de janeiro de 2014