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A Revolta dos Muckers ou Campanha do Morro do Ferrabrás [1] foi um conflito armado ocorrido entre 1873-74, entre tropas militares e integrantes de uma comunidade religiosa liderada pelo casal de confissão anabatista Jacobina Mentz Maurer e João Jorge Maurer, em São Leopoldo (atualmente Sapiranga), no Rio Grande do Sul. O cenário da revolta foi a linha Ferrabraz, abrangendo as atuais localidades de Campo Bom, Lomba Grande e Novo Hamburgo.

Os Muckers eram colonos que ocupavam o Morro Ferrabrás, no centro do triângulo balizado por Novo Hamburgo, Taquara e Gramado, área povoada por imigrantes alemães agricultores. Esses colonos, sem assistência médica, religiosa ou educacional, entraram num processo de decadência social e empobrecimento. Nesse quadro de abandono, despontaram as lideranças de João Maurer, um curandeiro a quem os colonos confiavam sua saúde, e sua esposa, Jacobina, que, na falta de padres e pastores, passou a interpretar a Bíblia e assim a desfrutar grande credibilidade entre os colonos — credibilidade que aumentou em decorrência de seus ataques epilépticos, interpretados por seus seguidores como encontros com Deus.

No episódio da revolta dos Muckers, tropas do exército foram lançadas numa operação sangrenta, fruto da inabilidade das autoridades de São Leopoldo e da Província do Rio Grande do Sul. Mais tarde, em outra comunidade religiosa — Canudos —, a carnificina seria repetida, em proporções muito maiores.

Índice

AntecedentesEditar

Os Muckers eram uma pequena comunidade religiosa estabelecida ao pé do Morro Ferrabrás, no até então município de São Leopoldo. A região era ocupada por imigrantes alemães, que haviam chegado ao Rio Grande do Sul a partir de 1824. Eram colonos eram originários da região de Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, onde, na época, predominava uma grande miséria, em consequência das guerras napoleônicas.

A comunidade religiosa era liderada por Jacobina Mentz Maurer, a qual dizia ser uma reencarnação de Cristo e prometia construir a "cidade de Deus" para seus discípulos. Desde criança, Jacobina passava por transes e, nesse estado, diagnosticava doenças.

A família de Jacobina já tinha um histórico de envolvimento em contendas religiosas na Alemanha. Os avós haviam emigrado para o Brasil, fugindo de perseguições religiosas. Ambos haviam deixado a igreja evangélica e a escola, estabelecendo uma comunidade religiosa independente com mais seis ou sete famílias, o que culminou na sua perseguição. Em 1824, entre os primeiros imigrantes alemães que chegaram ao Brasil, estavam os avós de Jacobina. O grupo foi recebido pelo imperador Dom Pedro I e pela imperatriz Leopoldina. Em seu encontro com a imperatriz, Libório Mentz, o avô de Jacobina, confidenciou-lhe que viera para o Brasil fugindo da repressão religiosa na Alemanha. Em resposta, a imperatriz garantiu-lhe que, no Brasil, eles teriam garantida a liberdade de culto.[2]

Em 1866, após se casar com João Maurer, a fama de Jacobina começou a crescer. Na residência do casal, reunia-se um grupo de adeptos cada vez maior, que proclamava Jacobina como sendo "Cristo", tendo ela escolhido seus apóstolos. Com o auxílio de plantas, João Jorge Maurer curava pessoas, e, dado que o médico mais próximo se encontrava a três horas de viagem, a casa de João e Jacobina passou a ser usada como um pequeno hospital.[3]

Os seguidores dos Maurer seguiam regras rígidas, tais como: não fumar, não beber e não ir às festas. Além disso, eles começaram a tirar seus filhos das escolas comunitárias. Tudo isso gerou desconfiança e rejeição, por parte dos demais colonos, aos seguidores do casal. Estes chamavam os demais colonos de Spotter ("debochadores"), enquanto esses últimos os apelidaram de "Muckers ("falsos religiosos" ou "santarrões").[4]

 
Jacobina Mentz Maurer, a líder dos Muckers.

O estopimEditar

A relação entre os dois grupos se deteriorava cada vez mais, o que levou o chefe da polícia local a prender Jacobina e João Maurer, mas, por falta de provas, o presidente da província do Rio Grande do Sul ordenou que o casal fosse liberado.

Em seguida, a casa de Martinho Kassel, um ex-seguidor do casal foi incendiada, tendo seus filhos e sua mulher morrido no desastre. Após esse incidente, a casa de Carlos Brenner, um comerciante local, foi também incendiada, e seus filhos faleceram. Posteriormente, houve a execução de um tio de João Maurer que, segundo consta, recusara-se a fazer parte da seita. Todos esses crimes foram atribuídos aos Muckers.

Características da população MuckerEditar

A historiografia conseguiu identificar 249 membros do movimento Mucker e é bem provável que o número total de membros, entre identificados e não identificados, fosse de 700 a 1 000 pessoas. As crianças até 13 anos de idade representavam 30% dos adeptos; os adultos entre 33 e 47 anos eram 26% e formavam a liderença do grupo. 70% dos Muckers adultos eram casados e 9% eram idosos com mais de 58 anos. Todos os Muckers eram de origem alemã, mas 64% já eram nascidos no Brasil e, destes, 94% eram descendentes de famílias antigas, que haviam chegado ao país antes de 1830. Entre os 36% nascidos na Alemanha, mais da metade deles chegou ao Brasil quando ainda eram crianças.[2]

A maioria dos Muckers só falava alemão; 57,3% eram analfabetos e 23,5% semianalfabetos (incluindo a própria Jacobina). Apenas 42,5% dos Muckers eram proprietários dos seus próprios lotes e a maioria trabalhava em terras de parentes ou de terceiros. Quanto à profissão, 69% dos homens adultos eram lavradores, 13% eram artesões-lavradores e 11% eram artesões. No que concerne à religião, 85% dos Muckers eram protestantes, sendo que 55% da população de São Leopoldo pertencia a essa religião.[2]

Desenvolvimento da revolta dos MuckersEditar

Ao escurecer de 28 de junho de 1874, o coronel Genuíno ordenou um ataque sobre a casa dos Maurer esperando obter sua prisão. Mas o coronel Genuíno teve uma surpresa. Os Muckers entrincheirados em troncos de árvores e depressões de terreno que conheciam muito bem, reagiram violentamente ao custo de 4 mortos e 30 feridos. Sendo noite, o coronel Genuíno ordenou um retraimento para 10 quilômetros á retaguarda, em Campo Bom atual.

Decorrido 21 dias, em 19 de julho de 1874, o coronel Genuíno, com reforços recebidos, inclusive 150 colonos alemães voluntários, atacou novamente o reduto dos Muckers — a casa do casal Maurer. No ataque, morreram 12 homens e 8 mulheres Muckers. Foram presos 6 homens e 36 mulheres. Poucos conseguiram fugir.

Cerca de 17 Muckers se retiraram para outro reduto. Eles constituíam parte das lideranças mais expressivas. Para o coronel Genuíno, a vitória parecia ter sido completa.

Ao amanhecer de 20 de julho de 1874, o acampamento das tropas governistas é atingindo por tiros de tocaia, disparados de mato próximo, seguindo-se cerrado tiroteio. O coronel Genuíno tem um tiro uma artéria da coxa atingida por um tiro, vindo a perecer, após esvair-se em sangue, sem socorro do médico, que se deslocara para São Leopoldo com os outros feridos.

Após os combates do dia 21, as tropas militares refluem para Campo Bom. O coronel César Augusto assume o comando.

 
O Tenente-Coronel Genuíno Olympio de Sampaio.

Em 21 de setembro de 1874, um novo ataque ao reduto dos Muckers é repelido, com 5 mortos e 6 feridos do Exército. Quatro dias depois, no dia 25, a força civil composta de colonos de Sapiranga, Taquara, Dois Irmãos e outras localidades, tentaram, sem êxito, um ataque ao reduto Mucker. Foi aí que o capitão Francisco Clementino Santiago Dantas, que participara dos ataques iniciais ao lado do coronel Genuíno, ofereceu-se ao Presidente da Província para comandar o ataque final.

Em 2 de agosto de 1874, decorrido 35 dias do início das operações, o capitão Santiago Dantas atacou o último reduto dos Muckers. No renhido combate, pereceram 17 deles, dos quais 13 homem e 4 mulheres.

Os Muckers presos antes e durante a luta, após processo em que foram condenados, apelaram e foram libertados em 1883. Os Muckers sobreviventes, para fugir às perseguições dos habitantes do lugar, mudaram-se para a Terra dos Bastos, em Lageado. Lá, no Natal de 1898, foram atacados e chacinados por colonos da picada de Maio, por acreditarem terem sido eles os assassinos da senhora Shoreder, vitima, em verdade, de seu marido, que a matara para se casar com outra. A verdade que só veio à luz depois do linchamento dos Muckers remanescentes, todos inocentes.

Participaram do combate aos Muckers os mais tarde coronéis Carlos Teles, que será sitiado por 46 dias em Bagé, e João Cezar Sampaio, que o libertou em 8 de janeiro de 1894, à frente da Divisão do Sul. O último era genro do indigitado coronel Genuíno, morto no Ferrabraz. Ambos, Carlos Teles e Sampaio, destacar-se-iam por seus feitos na guerra de Canudos.

FilmografiaEditar

Referências

BibliografiaEditar

  • PETRY, Leopoldo.  Episódio do Ferrabraz - Os Muckers. São Leopoldo: Rotermund. 1957.
  • DOMINGUES, Moacyr, Cel. Av.  A Nova face dos Muckers. São Leopoldo: Rotermund, 1977.