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Revolução Constitucionalista de 1932

Revolução Constitucionalista de 1932
Era Vargas
Cartão Postal do MMDC.jpg
Data 9 de julho de 1932 - 2 de outubro de 1932
Local Todo o estado de São Paulo e o sul do Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul), Minas Gerais e Rio Grande do Sul
Desfecho Vitória militar do Governo Provisório; Constituição brasileira de 1934
Beligerantes
São Paulo Estado de São Paulo
Mato Grosso do Sul Estado de Maracaju
Rio Grande do Sul Frente Única Gaúcha
Brasil Governo Provisório
Comandantes
São Paulo Pedro de Toledo
São Paulo Euclides Figueiredo
Mato Grosso do Sul Vespasiano Martins
Mato Grosso do Sul Bertoldo Klinger
Rio Grande do Sul Borges de Medeiros
São Paulo Isidoro Dias Lopes
São Paulo Herculano de Carvalho e Silva
São Paulo Júlio Marcondes Salgado
São Paulo Brasílio Taborda
São Paulo Ivo Borges
Brasil Getúlio Vargas
Brasil Augusto Cardoso
Brasil Góis Monteiro
Brasil Valdomiro Lima
Brasil Eurico Dutra
Brasil Eduardo Gomes
Brasil Protógenes Guimarães
Forças
Força Pública Paulista[1][2]:
  • 10.000 combatentes
  • 4 Aviões
  • 5 Trens blindados (construídos ao longo do conflito)
  • Número incerto de veículos blindados (construídos ao longo do conflito)

Voluntários:

  • 40.000 combatentes
  • 200.000 alistados
  • Número incerto de aviões

Frente Única Gaúcha :
* 450 combatentes

Estado de Maracajú :
por volta de 3.000 combatentes
Forças Armadas:
Todo o exército, marinha e aviação disponível no país.
Forças Públicas Estaduais
Total: Aproximadamente 100.000 homens ao fim do conflito.
Baixas
São Paulo: - 634 no mausoléu oficial
- 2.000 estimativas sobre todos os combates
- Sem-número de baixas civis
Frente Única Gaúcha:
cerca de 200
Estado de Maracajú:
mais de 300
Forças Armadas Brasileiras:
1050 Mortos
3800 Feridos[3]
Forças Públicas Estaduais:
sem número.

Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi o movimento armado ocorrido no estado de São Paulo, entre julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.[4] O golpe de estado decorrente da Revolução de 1930 derrubou o então presidente da república, Washington Luís; impediu a posse do seu sucessor eleito nas eleições de março de 1930, Júlio Prestes; depôs a maioria dos presidentes estaduais (atualmente se denominam governadores); fechou o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas Estaduais e as Câmaras Municipais; e, por fim, cassou a Constituição de 1891, até então vigente. Getúlio Vargas, candidato derrotado nas eleições presidenciais de 1930 e um dos líderes do movimento revolucionário de 1930, veio a assumir a presidência do governo provisório nacional em novembro de 1930 com amplos poderes, colocando fim ao período denominado República Velha, porém, sob a promessa de convocação de novas eleições e a formação de uma Assembleia Nacional Constituinte para a promulgação de uma nova Constituição.[5] Contudo, nos anos subsequentes, essa expectativa deu lugar a um sentimento de frustração, dada a indefinição quanto ao cumprimento dessas promessas e acumulado ao ressentimento contra o governo provisório, principalmente no estado de São Paulo, com o fato de Getúlio Vargas governar de forma discricionária por meio de decretos, sem respaldo de uma Constituição e de um Poder Legislativo. Essa situação também fez diminuir a autonomia de que os estados brasileiros gozavam durante a vigência da Constituição de 1891, pois os interventores indicados por Vargas, em sua maioria tenentes, não correspondiam aos interesses dos grupos políticos locais e frequentemente entravam em atritos. Foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas.[6][7][8]

O levante começou de fato em 9 de julho de 1932 e foi precipitado após a morte de quatro jovens por tropas getulistas em 23 de maio de 1932 durante um protesto contra o Governo Federal. Após a morte desses jovens, foi organizado um movimento clandestino denominado MMDC (iniciais dos nomes dos quatro jovens mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo) que começou a conspirar contra o governo provisório de Vargas, articulando junto com outros movimentos políticos uma revolta substancial. Houve também uma quinta vítima, Orlando de Oliveira Alvarenga, que também foi baleado naquele dia no mesmo local, mas morreu meses depois. Nos meses precedentes ao movimento, o ressentimento contra o presidente ganhava força indicando uma possível revolta armada e o governo provisório passou a especular a hipótese de o objetivo dos revoltosos ser a secessão de São Paulo do Brasil. No entanto, o argumento separatista jamais foi comprovado fidedigno, porém, ainda assim esse argumento foi utilizado na propaganda do governo provisório ao longo do conflito para instigar a opinião pública do restante do país contra os paulistas, obter voluntários na ofensiva contra as tropas constitucionalistas e ganhar aliados políticos nos demais estados contra o movimento de São Paulo.[9]

Quando o estado de São Paulo precipitou a revolta contra o governo provisório de Vargas, seus líderes tinham a expectativa da automática adesão de outros estados brasileiros, dada a solidariedade manifestada por parte das elites políticas dos estados de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e do então Mato Grosso. Assim, os políticos de São Paulo esperavam apenas um breve conflito militar com uma rápida marcha para o Rio de Janeiro, até então a capital do país, para depor Getúlio. Logo, os revoltosos não organizaram um sistema defensivo em suas fronteiras contra possíveis ofensivas militares dos estados vizinhos. No entanto, a solidariedade daqueles estados não se traduziu em apoio efetivo, e, com a espera por parte dos paulistas pelos apoios supostamente prometidos, Getúlio Vargas teve tempo de articular uma reação militar de modo a sufocar a revolução ainda nos seus estágios iniciais, obrigando o estado de São Paulo a ter de improvisar em pouco tempo um amplo sistema militar defensivo em suas fronteiras contra a ofensiva de tropas de todos os estados brasileiros, com a exceção do Mato Grosso que se tornou o único estado aliado dos paulistas. Após quase três meses de intensos combates nos quatro cantos do estado, o conflito foi encerrado em 2 de outubro de 1932 com a rendição do Exército Constitucionalista.[10][11]

Atualmente, o dia 9 de julho, que marca o início da Revolução de 1932, é a data cívica mais importante do estado de São Paulo e feriado estadual. Os paulistas consideram a Revolução Constitucionalista como sendo o maior movimento cívico de sua história. A lei 12.430, de 20 de junho de 2011, inscreveu os nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo heróis paulistas da Revolução Constitucionalista de 1932, no Livro dos Heróis da Pátria.[12] No total, foram 87 dias de combates (de 9 de julho a 4 de outubro de 1932 - sendo os últimos dois dias depois da rendição paulista), com um saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas, não oficiais, reportem até 2.200 mortos, sendo que numerosas cidades do interior do estado de São Paulo sofreram danos devido aos combates.[13] Apesar da derrota militar do movimento, algumas de suas principais reivindicações foram obtidas posteriormente, por exemplo, com a nomeação de um interventor civil e paulista, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a promulgação de uma nova Constituição em 1934. No entanto, essa Constituição teve curta duração, pois em 1937, Vargas fechou o Congresso Nacional, cassou a Constituição vigente e outorgou uma nova Constituição, justificando tais medidas a um suposto extremismo de movimentos políticos da época. Assim, a partir de então, foi estabelecido o regime ditatorial conhecido como Estado Novo que perdurou até 1945, ano em que Vargas foi deposto por um grupo militar composto por generais, antigos aliados.[14]

Índice

AntecedentesEditar

Revolução de 1930Editar

 Ver artigo principal: Revolução de 1930

Na primeira metade do século XX, o estado de São Paulo vivenciou um acelerado processo de industrialização[15] e enriquecimento devido aos lucros da lavoura de café e à articulação da política do café-com-leite.[6] Por essa política, criada pelo presidente da república Campos Sales, se alternavam na presidência da República políticos dos estados de São Paulo e de Minas Gerais,[16] os estados mais ricos e populosos da União.

No início de 1929, o governo de Washington Luís, ao nomear o paulista Júlio Prestes, apoiado por dezessete estados, preteriu a vez de Minas Gerais no jogo da sucessão presidencial, rompendo a "política do café-com-leite", que vinha sendo aplicada desde o governo de Afonso Pena (1906-1909) que substituiu o paulista Rodrigues Alves na presidência da República. De acordo com este revezamento Minas Gerais - São Paulo na presidência da república, o candidato oficial, em 1930, deveria ser um mineiro, que poderia ser o presidente de Minas Gerais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada ou o vice-presidente da república Fernando de Melo Viana ou ainda o ex-presidente Artur Bernardes, entre outros próceres políticos mineiros.[6] Porém, Washington Luís, depois de consultar os 20 presidentes de estado, em julho de 1929, recebeu o apoio de 17 deles a Júlio Prestes, e o indicou como candidato oficial à presidência da república nas eleições marcadas para 1 de março de 1930. Minas Gerais, então, rompe com São Paulo, une-se à bancada gaúcha no Congresso Nacional e promete apoio a Getúlio Vargas, se este concorresse à presidência.[13]

Em setembro de 1929, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba formaram a "Aliança Liberal" lançando Getúlio à presidência e João Pessoa, da Paraíba, à vice-presidência. Apoiavam Getúlio também o Partido Democrático de São Paulo, parte das classes médias urbanas e os tenentes, que defendiam reformas sociais e econômicas para o país. Os outros dezessete estados da época apoiaram Júlio Prestes. Nesse momento, setembro de 1929, já se percebia em São Paulo, que a Aliança Liberal e uma eventual revolução visavam especificamente São Paulo. Nos debates, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, em 1929, dizia-se abertamente que se a Aliança Liberal não ganhasse a eleição, haveria revolução.[17]

Tendo o senador estadual de São Paulo Cândido Nazianzeno Nogueira da Motta denunciado, profeticamente, na tribuna do Senado do Congresso Legislativo do Estado de São Paulo, em 24 de setembro de 1929, que:

Cândido Nogueira da Motta citou ainda o senador fluminense Irineu Machado, que previra a reação de São Paulo:

Em meio à grave crise econômica, devido à Grande Depressão de 1929 que derrubara os preços do café, Júlio Prestes, que era membro do Partido Republicano Paulista, foi eleito presidente em 1 de março de 1930, vencendo em dezessete estados e no Distrito Federal, mas não tomou posse. Apesar da grande votação nos três estados aliancistas, Getúlio Vargas foi largamente derrotado. Júlio Prestes, em São Paulo, teve 91% dos votos válidos.[18]

A ala mais radical da Aliança Liberal resolve pegar em armas e usa o assassinato de João Pessoa, em julho de 1930, como o estopim do movimento. O crime não teve motivos políticos, mas foi usado como tal, cujo impacto emocional deu novo ânimo aos oposicionistas derrotados. Cresce o apoio popular e os preparativos do golpe foram levados adiante e com rapidez, pois se aproximava o momento da posse de Júlio Prestes. Em 3 de outubro de 1930 estoura a insurreição. Os rebeldes tomam os três estados que irradiaram a revolução: (Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba) e rumam para a capital federal.[19]

 
Comitiva de Getúlio Vargas (ao centro) em passagem por Itararé a caminho do Rio de Janeiro durante a Revolução de 1930, fotografada por Claro Jansson.

Em 24 de outubro de 1930, um golpe militar liderado por comandantes militares no Rio de Janeiro depõe Washington Luís e entrega, em 3 de novembro de 1930, o poder a Getúlio Vargas. Vitoriosa a revolução de 1930, Vargas é nomeado chefe do Governo Provisório e põe fim à supremacia política de São Paulo e Minas Gerais no governo federal. Entre outras ações, anistiou os rebeldes das revoluções de 1922 e 1924, modificou o sistema eleitoral e criou o Ministério do Trabalho. Getúlio tomou posse, instalando no Brasil uma ditadura: suspendeu a Constituição e nomeou interventores em todos os estados, com exceção de Minas Gerais - reforçando o conflito com São Paulo; dissolveu o congresso nacional, os congressos estaduais (câmaras e senados estaduais) e as câmaras municipais.[7]

Além de medidas de centralização política, outras se seguiram visando ao controle econômico pelo governo central: os estados foram proibidos de contrair empréstimos externos sem autorização do governo federal; o monopólio de compra e venda de moeda estrangeira pelo Banco do Brasil o faz controlar, assim, o comércio exterior. O governo impõe, ainda, medidas para controlar os sindicatos e as relações trabalhistas e cria instituições para intervir no setor agrícola, como forma de enfraquecer os estados.[7]

Júlio Prestes, o presidente Washington Luís e vários outros apoiadores de Júlio Prestes foram exilados na Europa, e os jornais que apoiavam Júlio Prestes foram destruídos (na época se dizia empastelados), entre eles, os jornais paulistanos Folha de S. Paulo, A Plateia e o Correio Paulistano, e os jornais cariocas A Noite e O Paiz.[20]

Getúlio nomeou interventores para o governo dos estados, sendo que para São Paulo foi designado o tenente, promovido a coronel pela Revolução de 1930, João Alberto Lins de Barros, a quem a oligarquia paulista tratava pejorativamente como um "forasteiro e plebeu" ou, ainda, por o pernambucano, codinome também adotado e difundido entre o povo paulista.[21]

O Partido Democrático, que apoiara Vargas em São Paulo, conseguindo para este, 10% dos votos paulistas nas eleições de 1 de março, não conseguiu indicar o interventor federal em São Paulo. Para o comando da 2.ª Região Militar de São Paulo foi designado o general Isidoro Dias Lopes, e para o comando da Polícia Militar do Estado de São Paulo, então denominada "Força Pública", foi nomeado o major Miguel Costa. Ambos tinham tentado derrubar o governo paulista na Revolução de 1924. Miguel Costa havia sido expulso da Força Pública por causa de suas ações em 1924. Isidoro Dias Lopes, porém, passaria para o lado dos paulistas para ser um dos comandantes da Revolução de 1932.[7]

Após a derrota de São Paulo em 24 de outubro de 1930, quando triunfou a Revolução de 1930, foi deposto o presidente em exercício de São Paulo Heitor Penteado e o estado passou a ser governado pelo gabinete dos quarenta dias, tendo o Tenente João Alberto como Delegado Militar da Revolução, formado por próceres do Partido Democrático. O gabinete dos quarenta dias renunciou devido às pressões dos tenentes, rompendo com João Alberto. A partir da renúncia, São Paulo foi governado por interventores federais: tenente João Alberto Lins de Barros (de 25 de novembro de 1930 até 24 de julho de 1931); Laudo Ferreira de Camargo (de 25 de julho de 1931 até 13 de novembro de 1931); coronel Manuel Rabelo (de 13 de novembro de 1931 até 7 de março de 1932); e Pedro de Toledo (de 7 de março de 1932 até o fim da Revolução de 1932, em 2 de outubro de 1932). Em 23 de maio de 1932, Pedro de Toledo, foi aclamado pelos paulistas governador de São Paulo.[7]

Logo depois de vitoriosa a Revolução de 1930, em 6 de novembro de 1930, Luís Carlos Prestes, que conhecia João Alberto do tempo da Coluna Prestes, lançou um manifesto onde dizia textualmente:

E o tenente João Cabanas, um dos chefes da Revolução de 1924 e revolucionário de 1930, no seu livro Fariseus da Revolução, de 1932, assim definiu o tenente João Alberto:

Revolta paulistaEditar

Em 1932, a irritação dos paulistas com Getúlio Vargas não cedeu com a nomeação do paulista Pedro de Toledo como interventor do estado,[6] pois tanto este, quanto Laudo Ferreira de Camargo (que havia renunciado por causa da interferência dos tenentes no governo) não conseguiam autonomia para governar. A primeira grande manifestação dos paulistas foi um grande comício na Praça da Sé, no dia do aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1932, com um público estimado em 200 000 pessoas. Em maio de 1932, ocorreram vários comícios constitucionalistas. As interferências da ditadura no governo de São Paulo eram constantes, não se deixando os interventores formarem livremente seu secretariado, nem do Chefe de Polícia de São Paulo. Pedro de Toledo não governava de fato, as interferências de Miguel Costa, Osvaldo Aranha, João Alberto Lins de Barros, Manuel Rabelo e Pedro Aurélio de Góis Monteiro eram constantes.[22] O político Paulo Nogueira Filho descreve João Alberto Lins de Barros e Miguel Costa como pessoas que "se arvoravam como donatários de São Paulo".[23]

Júlio Prestes acreditava, já em 1931, que a situação da ditadura estava se tornando insustentável e declarou[24] no exílio em Portugal:

 
Cartaz do movimento contra a ditadura getulista.

O Partido Republicano Paulista e o Partido Democrático de São Paulo, que antes apoiaram a Revolução de 1930, uniram-se, em fevereiro de 1932, na Frente Única para exigir o fim da ditadura do Governo Provisório e uma nova Constituição. Assim, São Paulo inteiro estava contra a ditadura. Os paulistas consideravam que o seu estado estava sendo tratado pelo Governo Federal, que se dizia um Governo Provisório, como uma terra conquistada, expressão de autoria de Leven Vanpré, governada por tenentes de outros estados e sentiam, segundo afirmavam, que a Revolução de 1930 fora feita "contra" São Paulo, pois Júlio Prestes havia tido 90% dos votos dos paulistas em 1930.

Manifestação na Praça da Sé, em maio de 1932.
Manifestação na Praça do Patriarca, em maio de 1932.
Manifestantes na Rua XV de Novembro em São Paulo.
Na Praça da Sé, Waldemar Ferreira discursa ao povo pelo microfone da Rádio PRAO.
No Palácio dos Campos Elíseos, Pedro de Toledo e Ibrahim Nobre discursam ao povo, na noite de 23 de maio de 1932.

O estopim da revolta foi a morte, em 23 de maio de 1932, de cinco jovens no centro da cidade de São Paulo, assassinados a tiros por partidários da ditadura, pertencentes à "Legião Revolucionária", criada por João Alberto Lins de Barros e orientada pelo Major Miguel Costa. Pedro de Toledo tentara formar um novo secretariado independente das pressões exercidas pelos tenentes, quando chegou a São Paulo Osvaldo Aranha, representando a ditadura, querendo interferir na formação do novo secretariado. O povo quando ficou sabendo, saiu às ruas, houve grandes comícios e passeatas, e no meio do tumulto, a multidão tenta invadir a sede da "Legião Revolucionária". Ao subirem as escadarias do edifício, são recebidos a tiros.

Pedro de Toledo, com o apoio do povo, conseguiu neste dia 23 de maio de 1932, montar um secretariado de sua livre nomeação (que ficou conhecido como o Secretariado de 23 de maio) e romper definitivamente com o Governo Provisório. O dia 23 de maio é comemorado em São Paulo como o dia do soldado constitucionalista. A morte dos jovens deu origem a um movimento de oposição que ficou conhecido como MMDC, posteriormente denominado oficialmente de MMDCA: Martins (Martins); Euclides Bueno Miragaia (Miragaia); Dráusio Marcondes de Sousa (Dráusio); Antônio Américo Camargo de Andrade (Camargo); e Orlando de Oliveira Alvarenga (Alvarenga).

O MMDC foi organizado como sociedade secreta em 24 de maio de 1932, tendo sido lançado durante um jantar no restaurante Posilipo, por Aureliano Leite, Joaquim de Abreu Sampaio Vidal, Paulo Nogueira e Prudente de Moraes Neto, entre outros. Inicialmente, a sociedade foi chamada "Guarda Paulista", mas, depois, foi fixada em MMDC, em homenagem aos jovens mortos a 23 de maio. Em 10 de agosto, o Decreto nº. 5627-A, do governo do estado oficializou o MMDC, cuja direção foi entregue a um colegiado, presidido por Waldemar Martins Ferreira, secretário da Justiça, e tendo como superintendente, Luís Piza Sobrinho. O MMDC foi instalado na Faculdade de Direito e depois transferido para o antigo fórum, na rua do Tesouro, e depois para o prédio da Escola de Comércio Álvares Penteado.[25]

Esse fato levou à união de diversos setores da sociedade paulista em torno do movimento de constitucionalização que se iniciara em janeiro de 1932. Neste movimento, liderado pelo MMDC, se uniram o PRP e o Partido Democrático, reconhecidos pelo governo federal como setores da oligarquia, que pretendiam a volta da supremacia paulista e do PRP ao poder e queriam, também, levar ao poder o candidato dos paulistas, Júlio Prestes, eleito à presidência mas não pode tomar posse, impedido pela Revolução de 1930.

Segundo a socióloga Aspásia Camargo, em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, em texto comemorativo dos sessenta anos da Revolução Constitucionalista de 1932, publicado em 9 de julho de 1992, o constitucionalismo paulista resultou de um conflito entre duas concepções de democracia: Democracia Social e Democracia Liberal. Para Getúlio Vargas e os tenentes, a democracia liberal formal era um engodo, tanto quanto o liberalismo brasileiro. Já para os paulistas, segundo Aspásia, principalmente para sua oligarquia, a democracia social era caso de polícia. Essa acusação contra os paulistas de que, em São Paulo, "questão social é questão de polícia", deve-se a uma distorção de uma frase do presidente Washington Luís por parte de seus adversários.[26] A frase que realmente Washington Luís pronunciou foi a seguinte:

Começou-se, então, a se tramar um movimento armado visando à derrubada da ditadura de Getúlio Vargas, sob a bandeira da proclamação de uma nova Constituição para o Brasil. Desde seu início, a revolução de 1932 contou com o apoio decisivo da maçonaria paulista, através de suas lideranças e de seus membros como Pedro de Toledo, Júlio de Mesquita Filho, Armando de Sales Oliveira, Ibrahim de Almeida Nobre e outros.[25]

Em 9 de julho, Getúlio Vargas já havia estabelecido eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte (as eleições foram convocadas em fevereiro de 1932) e já havia nomeado um interventor paulista - as duas grandes exigências de São Paulo. Porém a interferência do governo federal e dos tenentes em São Paulo continuava forte. Os tenentes do Clube 3 de outubro eram contra a instalação de uma assembleia constituinte, tendo seus representantes entregado a Getúlio Vargas, em 3 de março de 1932, em Petrópolis, um manifesto contrário à constituinte, no qual dão seu total apoio à ditadura e no qual se manifestam contrários a uma nova constituição.[27]

Estes atos do Governo Provisório, porém, não evitaram o conflito, já que o PRP, agora unido ao seu rival Partido Democrático paulista, almejava voltar a dominar a política nacional, como fazia anteriormente, dar uma constituição ao Brasil e terminar com as interferências da ditadura no governo de São Paulo. Era especialmente humilhante para São Paulo a nomeação do major Miguel Costa para comandante da Polícia Militar de São Paulo, então chamada de Força Pública, pois Miguel Costa havia sido expulso da Força Pública em 1924 por tentar derrubar o governo paulista na Revolução de 1924.

O combatente-médico da revolução de 1932, Ademar de Barros, que governaria São Paulo por três vezes, assim explicou, em Santos, em 1934, as razões da revolução de 1932:

Conflito armadoEditar

O levante armado foi deflagrado na cidade de São Paulo às oito horas e trinta minutos da noite de 9 de julho de 1932, com o engajamento da Força Pública de São Paulo, unidades do Exército da 2ª Região Militar e grupos civis armados. O telegrama enviado pelo então comandante geral da Força Pública, o coronel Júlio Marcondes Salgado ao general Bertoldo Klinger, Comandante Supremo do Exército Constitucionalista, no dia seguinte ao início da revolução, dá detalhes das circunstâncias em que ocorreu aquele evento político e militar:[28]

Cartaz convocando os paulistas às armas
Cartaz do MMDC convocando o povo paulista às armas.
Cartaz de convocação de enfermeiras voluntárias.
Comunicando de solidariedade a Vargas, dos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

O levante iniciado na capital paulista envolveu a tomada das principais estações ferroviárias, quartéis, prédios públicos, da cia telefônica, da sede dos correios e telégrafos, das principais estações do telégrafo, da Rádio Educadora Paulista, da Rádio Record PRA-R e da Rádio Cruzeiro do Sul, além da sede dos principais jornais paulistanos. Ainda nas primeiras horas do movimento armado houve a tomada da guarnição do aeródromo Campo de Marte, do quartel do 4º R.I. sediado em Quitaúna e ainda da sede da 2ª Região Militar, então situada na Chácara do Carvalho, porém, não houve resistência dessas guarnições em virtude da adesão das tropas remanescentes daquele Exército que até então não haviam participado das conspirações para o levante. No mesmo dia, também houve repercussão em várias localidades pelo interior do estado de São Paulo, com a tomada pelos revolucionários de posições estratégias para garantir o pleno controle do estado, como pontes, portos, aeródromos e estradas de acesso ao estado. No dia seguinte, o levante também ocorreu no então Estado do Mato Grosso, com a adesão de quase a totalidade da Circunscrição Militar do Mato Grosso e da Força Pública Mato-grossense. Nos dias seguintes, também houve mobilização rebelde no Rio Grande do Sul.[10][11][29][30]

Quando deflagraram o levante revolucionário os paulistas acreditavam possuir o apoio de outros estados, notadamente Minas Gerais, Rio Grande do Sul e do então estado do Mato Grosso, para a deposição de Getúlio Vargas e formação de uma junta provisória para governar o país até as eleições para a Assembleia Constituinte, agendada para 3 de maio de 1933. Os revolucionários presumiram em seu plano que apenas pela coerção, representada pela envergadura da coalizão política e militar do movimento, Getúlio Vargas seria compelido a renunciar ao cargo, pois compreenderia ser inútil qualquer resistência. Portanto, julgavam que as forças revolucionárias apenas marchariam para o Rio de Janeiro, então capital federal, sem enfrentarem significativa resistência.[10][11][29]

Em São Paulo, Pedro de Toledo, então interventor estadual ganhou apoio popular e foi aclamado pelo povo como governador de São Paulo e foi o comandante civil da revolução constitucionalista. A junta Revolucionária conclamou os paulistas a lutarem contra a ditadura.[31] Formavam a Junta Revolucionária Francisco Morato do Partido Democrático, Antônio de Pádua Sales do Partido Republicano Paulista e os generais Bertoldo Klinger e Isidoro Dias Lopes. O coronel Euclydes Figueiredo assumiu interinamente a 2º Região Militar.[11][29]

Alistaram-se 200 000 voluntários, sendo que se estima que, destes, 60 000 combateram nas fileiras do exército constitucionalista. No estado de São Paulo, a Revolução de 1932 contou com um grande contingente de voluntários civis e militares e o apoio de políticos de outros estados, antigos apoiadores da Revolução de 1930, como, no Rio Grande do Sul, Raul Pilla, Borges de Medeiros, João Batista Luzardo, Glicério Alves e João Neves da Fontoura, entre outros, que formaram a Frente Única Rio-Grandense, e que tentaram fazer uma revolta mas foram capturados (salvo Batista Luzardo, que conseguiu fugir) e exilados pelo interventor gaúcho.

No atual Mato Grosso do Sul foi formado um estado independente que se chamou estado de Maracaju, que apoiou São Paulo. Em Minas Gerais, a revolução de 1932 obteve o apoio do ex-presidente Artur Bernardes, que terminou também exilado. São Paulo esperava a adesão do interventor do Rio Grande do Sul, o estado mais bem armado, mas este na última hora decidiu enviar tropas não para apoiar São Paulo, mas para combater os paulistas.

Quando se inicia o levante, uma multidão sai às ruas em apoio. Tropas paulistas são enviadas para os fronts em todo o estado. Mas as tropas federais são mais numerosas e bem equipadas. Aviões são usados para bombardear cidades do interior paulista. Quarenta mil homens de São Paulo enfrentam um contingente de cem mil soldados.[31] Os planos paulistas previam um rápido e fulminante movimento em direção ao Rio de Janeiro pelo vale do Paraíba, com a retaguarda assegurada pelo apoio que seria dado pelos outros estados.

Porém, com a não adesão dos outros estados, o plano imaginado por São Paulo não se concretizou: Rio Grande do Sul e Minas Gerais foram compelidos por Getúlio Vargas a se manterem ao seu lado e a publicidade de pretensão separatista do movimento levou São Paulo a se ver sozinho, com o apoio de apenas algumas tropas mato-grossenses, contra o restante do Brasil.[32] Comandadas por Pedro de Toledo, aclamado governador revolucionário, e pelo general Bertoldo Klinger, as tropas paulistas se viram lutando em três grandes frentes: o vale do Paraíba, o sul paulista e leste paulista. O estado de São Paulo, apesar de contar com mais de quarenta mil soldados, estava em desvantagem, pois, se encontrava num grande cerco militar. Como as suas fronteiras foram fechadas, não havia como trazer mais armamento de fora do país para o conflito. Assim muitos voluntários levaram suas armas pessoais, e engenheiros da Escola Politécnica do Estado (hoje EPUSP) e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) passaram a desenvolver armamentos a serem produzidos pelo próprio estado para suprir as tropas. Um navio que trazia armamento dos Estados Unidos para os paulistas foi apreendido pela Marinha do Brasil.

Em 23 de julho de 1932, durante testes com um novo morteiro projetado pelos engenheiros da Escola Politécnica de São Paulo, um acidente matou o então comandante da Força Pública, coronel Júlio Marcondes Salgado e também o major da mesma corporação, José Marcelino da Fonseca. O tenente-coronel Herculano de Carvalho e Silva veio posteriormente a assumir o comando da instituição.[33]

Uma das armas mais sofisticadas feitas pela indústria paulista foram trens blindados, que foram utilizado nos denominados setores leste, norte e sul de combate. São Paulo criou uma moeda própria, que foi falsificada pelo Governo Vargas e distribuída na capital paulista para desestabilizar a economia do estado. O dinheiro paulista era lastreado pelo ouro arrecadado pela campanha "Ouro para o bem de São Paulo", também chamada de "Ouro para a vitória". Devido à falta de munição, os paulistas inventaram e passaram a usar um aparelho que imitava o som das metralhadoras, chamado de "matraca".[34]

A maçonaria paulista teve participação ativa no movimento constitucionalista de 1932 através de suas lojas e de seus membros como Pedro de Toledo, interventor, Júlio de Mesquita Filho diretor do jornal "O Estado de S. Paulo" e o poeta Ibrahim de Almeida Nobre entre outros.[25]

O movimento contou com a contribuição de muitas mulheres voluntárias que se dedicavam em diversos serviços em benefício das tropas, como, por exemplo, serviços de enfermaria, serviços administrativos, confecção de uniformes militares, produção de alimentos, entre outros. Uma das mais notórias voluntárias nos serviços de saúde das tropas paulistas foi a médica Carlota Pereira de Queiroz, responsável por ter organizado e liderado um grupo de setecentas mulheres para garantir a assistência aos feridos.[35] Contudo, houve casos de mulheres que se voluntariaram para atuar nas trincheiras paulistas como soldados.[36] Maria Sguassábia, professora de escola rural primária em São João da Boa Vista, foi uma dentre as mulheres que se voluntariaram para atuar nas trincheiras como soldado, a exemplo de Nhá Chica e de Maria José Bezerra.[37] Ao longo do conflito, Sguassábia chegou a ser promovida a sargento devido aos seus feitos no campo de batalha.[38] Era integrante da Coluna Romão Gomes, tendo atuado no denominado setor leste, na região de Campinas.[39]

Houve intensa mobilização através do rádio, uma novidade na época, destacando-se César Ladeira da Rádio Record. Usou-se muita propaganda e contra-propaganda ideológica por parte do Governo Federal, que acusava São Paulo de estar nas mãos do fascismo italiano trazido pelos imigrantes. Brasileiros de outras regiões eram recrutados pela ditadura para combater São Paulo, sob a justificativa de que o estado queria se separar do Brasil.[40] A ditadura colocava agentes infiltrados em reuniões e comícios em São Paulo, que pregavam o derrotismo e o desânimo da população.[31]

Um ato bárbaro ocorrido durante a Revolução de 1932 se deu na cidade de Cunha, quando as tropas federais torturaram e mataram o agricultor Paulo Virgínio por este se recusar a dizer onde estavam as tropas paulistas. Paulo Virgínio foi obrigado a cavar sua própria sepultura e morreu dizendo:

Soldado paulista da Cavalaria.
A professora Maria Sguassábia foi voluntária nas trincheiras paulistas.
Matracas utilizadas pelas tropas constitucionalistas nos combates.

Paulo Virgínio, junto com os jovens do MMDC, está enterrado no ponto central do Mausoléu do Ibirapuera e é homenageado dando seu nome a rodovia SP-171, que corta a região onde ele foi assassinado, o Vale do Paraíba. O movimento estendeu-se até 2 de outubro de 1932, quando foi derrotado militarmente.

Outro episódio que ficou marcado como exemplo de coragem e determinação pela causa durante o conflito foi o ocorrido com o capitão do Exército Constitucionalista do setor norte, Manuel de Freitas Novaes Neto. Durante uma missão nos arredores de Queluz, cidade já tomada pelas forças adversárias, foi rendido por um sargento do Exército Federal que teria dito no ato: "Renda-se paulista!". Contudo, o capitão paulista ao resistir à prisão teria dito:[41]

Ao avançar em assalto sobre o sargento federal, foi fuzilado no ato. Resgatado ainda com vida por uma patrulha paulista das proximidades, morreu horas depois na Santa Casa de Misericórdia de Cruzeiro. A morte do "capitão Neco", como era conhecido na sua cidade natal, gerou comoção tanto entre os paulistas quanto no Exército Federal, onde também era muito estimado. Ele foi sepultado no cemitério particular de sua família na Fazenda Boa Vista, em Cruzeiro. Em 5 de julho de 1962, seus restos mortais foram transladados para o Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932 no Obelisco do Parque Ibirapuera.[41][42]

SeparatismoEditar

Entre os grupos que formavam a direção da Revolução Paulista, existiam os separatistas que desejavam a independência de São Paulo como uma república soberana ou a formação de uma federação onde os estados adquiririam a soberania (confederação). Entre os principais defensores do separatismo destacavam-se o presidente do Tribunal de Justiça, Costa Manso, os escritores José Alcântara Machado e Monteiro Lobato e o historiador Alfredo Ellis Junior.[43]

Monteiro Lobato, especificamente, foi o que mais deixou documentos e relatos sobre o desejo de independência dos paulistas. Em 10 de agosto, depois de um mês de conflitos, o famoso autor enviava uma carta emocionada a Waldemar Ferreira, um dos líderes da revolução, na qual apresentava um balanço da crítica situação em que se encontrava São Paulo, observando ao seu amigo que “há o que a boca diz e há o que o coração sente. Minha boca diz o que todos neste momento dizem – mas meu coração, e talvez o de São Paulo inteiro, sente o que vai escrito nas tiras anexas”. E o que o coração de Lobato expressava traduzia-se num texto intitulado “A defesa da vitória de São Paulo”, em que deixava claro que, para os paulistas, só havia dois caminhos: hegemonia ou separação.

Monteiro Lobato, admirador de Washington Luís, apoiou a candidatura do Júlio Prestes, que, como presidente de São Paulo, realizara explorações de petróleo em território paulista, tendo escrito a ele, em 28 de agosto de 1929, uma carta de apoio em que dizia:

A gigantesca campanha pela adesão das massas às causas revolucionárias, por pautar-se no enaltecimento de valores regionais, trazia em seu bojo o fortalecimento dos argumentos separatistas, ideário presente em São Paulo durante toda a sua história. Retratando a síntese desse paradoxo, Mário de Andrade registrava que o lema "Tudo por São Paulo" – que se fazia presente em faixas, veículos e nos quepes dos soldados – era “a única unanimidade” naqueles agitados dias de 1932. Definitivamente, foi “por São Paulo” – e não pelo Brasil – que tantos homens e mulheres se sacrificaram. O autor ainda, após o armistício, manifestava ao amigo mineiro Carlos Drummond de Andrade o rancor que lhe dominava a alma:[46]

De fato, o governo provisório especulava inicialmente se haveria um possível objetivo de secessão do estado de São Paulo do restante do Brasil. No entanto, tal objetivo entre os lideres revolucionários jamais foi comprovado como fidedigno. Porém, Getúlio Vargas aproveitou-se do argumento separatista, utilizando isso de forma eficaz na sua estratégia de propaganda política para angariar aliados, voluntários e a rejeição popular no restante do país contra o movimento revolucionário articulado pelos paulistas.[9] 

Frentes de combateEditar

Soldados paulistas no Túnel da Mantiqueira
Batalhão Redentor Filhos de Iguape, defronte ao jardim do largo da Igreja Matriz
Soldados paulistas fotografados por Claro Jansson em Itararé
Batalhão 14 de Julho em Itapetininga, cujos integrantes eram acadêmicos e graduados da Universidade de São Paulo
Batalhão 7 de Setembro. Destaque para o ilustre combatente Ranieri Mazzilli, o sexto na primeira fileira (da esquerda p/ direita).
Paulistas instalando minas submarinas na baia do Porto de Santos em 1932.
Setor norte

O Vale do Paraíba, denominado pelas tropas paulistas como "setor norte" era o principal acesso para o Rio de Janeiro e visto pelos paulistas como principal teatro militar do conflito. O plano dessas tropas previa a tomada da cidade fluminense de Resende, concomitantemente aguardando a adesão de tropas mineiras do Exército e da Força Pública Mineira (atual Polícia Militar do Estado de Minas Gerais) e, por fim, uma rápida marcha em direção à cidade do Rio de Janeiro, até então capital do país, para a deposição de Getúlio Vargas. Logo, as tropas paulistas demoraram em rumar em direção ao Rio de Janeiro na expectativa da adesão dos mineiros e de outros estados. Porém, as tropas mineiras aderiram às forças federais e logo partiram para a ofensiva contra as tropas paulistas, que foram obrigados a defender seu próprio território das tropas federais, improvisando uma linha defensiva de trincheiras nas fronteiras dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.[11][47]

Nos primeiros dias do conflito, tropas paulistas do 2º Batalhão do 5º R.I. do Exército Brasileiro, sob o comando do major Henrique Quintiliano de Castro e Silva, chegaram a invadir a cidade mineira de Passa Quatro, posteriormente tomada por tropas mineiras do Exército leais a Getúlio Vargas. Os paulistas então recuaram do território mineiro e tomaram posições privilegiadas no alto da Serra da Mantiqueira, fixadas na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo, na Garganta do Embaú e no Túnel da Mantiqueira, ao largo da linha férrea da então Rede Mineira de Viação. Nesses locais foram onde ocorreram os combates mais disputados, violentos e com o maior número de mortos do conflito, dado ser ponto estratégico. Também ocuparam outras localidades fronteiriças e estratégicas do estado, como Piquete, Queluz, Itatiaia, Santana dos Tocos, São José do Barreiro e Cunha. [10][11][48]

A linha de defesa do Exército Constitucionalista no setor norte era comandada pelo coronel de Exército Euclides de Oliveira Figueiredo e organizada por destacamentos. Na primeira fase do conflito, o destacamento da região de Cunha era comandado pelo coronel de Exército Mário da Veiga Abreu; o destacamento da região de São José do Barreiro, Areias e Silveiras comandado pelo coronel de Exército José Joaquim de Andrade; o destacamento da região de Queluz comandado pelo major de Exército Agnelo de Souza; o destacamento de ligação entre Queluz e Areias comandado pelo major de Exército Mariano Gomes da Silva Chaves; o destacamento da região de Cruzeiro e Túnel da Mantiqueira comandado pelo coronel de Exército Antônio Paiva de Sampaio; o contingente de defesa dos bairros de Batedor e Entre Rios da cidade de Cruzeiro comandado pelo tenente-coronel da Força Pública de São Paulo Otávio Azeredo; e o destacamento da região de Piquete e Lorena comandado pelo tenente-coronel de Exército Abílio Pereira de Rezende. Em 3 de agosto, o major Agnelo de Souza foi substituído pelo tenente-coronel da Força Pública José Teófilo Ramos que, diante da iminente queda da cidade de Queluz, determinou recuo da linha para Vila Queimada, a cerca de 10 km daquela cidade. Com a nova situação, fez-se necessário formar um destacamento para defender o flanco esquerdo daquela frente de combate, na cidade Pinheiros (hoje distrito de Lavrinhas), que foi comandado pelo capitão de Exército Tito Coelho Lamego. A posição de Lavrinhas ainda no mês de agosto foi reforçada por novos contingentes comandados pelos capitães da Força Pública, Antônio Pietscher, José Camilo Valença e Reinaldo Saldanha da Gama.[11][49]

Dado o Vale do Paraíba ser uma região repleta de serras e com terreno muito acidentado os combates foram encarniçados entre as tropas, porém, com o tempo, prevaleceu a superioridade das forças federais em número de tropas, munições e armamentos de artilharia, o que obrigava no contínuo recuo das tropas constitucionalista para retificar as persistentes infiltrações na sua linha defensiva. Com isso as forças federais foram gradativamente ocupando diversas cidades paulistas do Vale do Paraíba como Queluz, São José do Barreiro, Areias, Silveiras, Cachoeira Paulista, Cruzeiro, Piquete e Lorena.[11]

O comandante do setor norte e o comandante do Exército Constitucionalista, o general Bertoldo Klinger, além de outros oficiais do levante, tinham influência da doutrina militar alemã. Desse modo, boa parte das estratégias empregadas naquela frente de combate se basearam naquela doutrina, com destaque para a defesa em profundidade. Esta foi esclarecida pelo chefe do Estado Maior do setor sul, o então capitão Joaquim J. A. Bastos, a qual consistia em camadas de linhas de defesa distribuídas entre postos avançados e trincheiras mais bem guarnecidas na retaguarda, de modo a poupar recursos e retardar o máximo possível o avanço das tropas adversárias, impedir o envolvimento e corte da retaguarda, além de minimizar as baixas. Com esse sistema, sempre que uma camada de defesa se tornava insustentável, recuava-se para trincheiras mais a retaguarda já preparadas ou por concluir pelas unidades de engenharia, construindo-se novas fortificações mais atrás e assim sucessivamente. Com o emprego desse plano, o desgaste das tropas federais foi substancial a despeito de sua superioridade em homens e em recursos bélicos, as quais tomavam as linhas de defesa ao custo de muito atrito de combate, em baixas e dispêndio de recursos. Além disso, mesmo após a tomada das posições, as tropas federais precisavam recuar para se recomporem ou serem substituídas pelas tropas reservas, levando dias para articularem uma nova ofensiva, o que fazia as tropas paulistas ganharem tempo para também recomporem a sua defesa.[50][11][51]

Em setembro de 1932, a linha defensiva das tropas constitucionalistas se situava em Guaratinguetá, onde faziam frente a ofensiva das tropas federais posicionadas em Lorena. As trincheiras dos paulistas localizavam-se no atual bairro Engenheiro Neiva, nos arredores da Estação Ferroviária Engenheiro Neiva e alinhadas sentido noroeste-sudeste. Trata-se do local da "Última Trincheira" a que Guilherme de Almeida fez referência em seu famoso poema "Oração ante a última trincheira". O poeta e imortal da Acadêmia Brasileira de Letras foi combatente nesse setor durante aquele conflito e escreveu o poema quando da retirada geral das tropas paulistas dessa localidade. Consta também que o município de Guaratinguetá foi muito visado pela artilharia e pelos aviões "vermelhinhos" das tropas federais.[10][11][52][53]

Setor leste

Essa frente de combate compreendia a região na divisa com Minas Gerais, a nordeste, norte e noroeste de São Paulo. Era defendido por tropas mistas destacadas, compostas por voluntários e integrantes da Força Pública de São Paulo e do Exército. A organização do setor foi considerada como uma das mais instáveis naquela campanha militar, com sucessivas mudanças no comando e na organização das tropas. Nas primeiras semanas, os comandantes dos destacamentos respondiam ao Estado Maior da Força Pública, então chefiado pelo coronel Francisco Júlio César de Alfieri. Posteriormente, foi oficializado comandante do setor o tenente-coronel da Força Pública João Dias de Campos, que em 1º de setembro se afastou da função a pedido após a queda do subsetor de Itapira, tendo sido substituído pelo coronel de engenharia do Exército Oscar Saturnino de Paiva. Quinze dias depois, este entregou o cargo para os coronéis da Força Pública Eduardo Lejeune e Herculano de Carvalho e Silva, que assumiram o comando do setor e dos destacamentos, respectivamente, até a data da rendição. Na ocasião, o coronel Herculano acumulava também o comando geral da Força Pública.[54]

As tropas do setor leste eram organizadas da seguinte forma: o destacamento da região de Mogi Mirim, entre Socorro e Mococa, comandado pelo tenente-coronel da Força Pública João Dias de Campos, que posteriormente acumulou o comando de todo o setor; o contingente da região de Franca, Rio Grande, Ribeirão Preto e de Barretos comandado pelo capitão Antenor Musa, que depois foi substituído pelo major Junqueira; o contingente da região entre Ribeirão Preto e Mococa comandado pelo tenente-coronel Martiniano de Carvalho; o contingente da região de Presidente Venceslau e Presidente Epitácio comandado pelo capitão Shakespeare Ferraz; o contingente da região de Bauru comandado pelo major Genésio de Castro e Silva, região que semanas depois ficou respectiva ao setor sul, comandado pelo coronel Brasílio Taborda; o contingente da região de São José do Rio Preto comandado pelo coronel da Força Pública Eduardo Lejeune; e, por fim, o contingente da região de Bragança Paulista comandado pelo major Labieno Gomes. Algumas semanas após o início do conflito, os contingentes situados ao norte do estado, da região de Mococa até a de Presidente Epitácio, ficaram sob o comando do coronel da reserva da Força Pública Joviniano Brandão de Oliveira, cujo posto de comando era exercido em Limeira. Ao longo do conflito foram formados novos destacamentos, como aquele comandado pelo capitão Romão Gomes que cobria a região entre Espírito Santo do Pinhal e São João da Boa Vista, e o destacamento da região entre Amparo e Itatiba comandado pelo tenente-coronel da Força Pública Virgílio Ribeiro dos Santos.[54]

Os primeiros batalhões paulistas que seguiram para o setor leste tiveram o seu "batismo de fogo" já na primeira semana de guerra. Foi o caso do "Batalhão Fernão Dias" ou também "Batalhão Paes Leme", formado por civis voluntários. O 1º pelotão da 1ª Cia comandado pelo civil comissionado tenente Fernão de Morais Salles em 15 de julho recebeu ordens do comandante do batalhão, o capitão Antônio Pietscher, para tomar as cidades de Jacutinga, Ouro Fino e Pouso Alegre. As tropas federais, antecipando um ataque paulista, haviam cortado as linhas da estrada de ferro e destruíram os pontilhões, a fim de evitar avanço das forças paulistas. Estas, por sua vez, fazendo reconhecimento do terreno e repondo os trilhos foram avançando na tentativa de tomar Pouso Alegre. Porém, em 20 de julho à tarde, na altura de Borda da Mata, os paulistas foram atacados pela fuzilaria e artilharia da tropas federais vindas daquela cidade. Estes reagiram e improvisaram a sua defesa, em um combate que se estendeu até a manha de 21 de julho. Porém, diante da inferioridade de tropas, os paulistas decidiram recuar para Eleutério, com um saldo de dezenas de mortos e feridos. Neste combate, Fernão Salles, comandante naquela unidade, foi morto.[54][55]

No setor leste foi onde atuou a famosa "Coluna Romão Gomes" que chegou a integrar cerca de mil e quinhentos combatentes, entre voluntários e soldados da Força Pública de São Paulo, comandados pelo então capitão da Força Pública Romão Gomes, uma unidade que ao longo da guerra se consolidou como destacamento. Consta que a "Coluna Romão Gomes" jamais perdeu uma batalha durante toda a sua campanha militar.[56]

Segundo o coronel Herculano de Carvalho e Silva, os comandantes Dias de Campos e Saturnino de Paiva falharam ao não anteciparem a necessidade de recuo da linha de defesa e por não terem construído previamente as devidas fortificações em linhas mais na retaguarda da posição de combate, a exemplo da preparação estratégica realizada no setor norte e no setor sul, as quais até a rendição possuíam defesas consistentes apesar das dificuldades na guerra como um todo. O coronel de engenharia Saturnino de Paiva, ao final de setembro, chegou a iniciar a construção de fortificações na Serra dos Cristais, na região de Jundiaí. Porém, as atividades foram paralisadas após o início das tratativas para o armistício.[54]

A resistência paulista do setor era improvisada conforme as circunstâncias de combate, sem se antecipar devidamente a ação militar do adversário e sem uma estratégia geral para o setor, o que deixava mal coordenados os destacamentos. Foram recorrentes situações em que um destacamento avançava e conquistava posições, enquanto o destacamento vizinho recuava em debandada e avisava o comando geral da decisão somente a posteriori. Também era comum o desencontro das próprias ordens entre os comandantes. Por causa dessas falhas, as forças governistas conseguiram se infiltrar pela defesa paulista e, ao identificarem a fragilidade da resistência, intensificaram a ofensiva visando a capital do estado para, enfim, debelar todo o levante. Essa situação culminou em sucessivas modificações na organização das tropas paulistas e no próprio comando geral daquele setor.[54][56]

Um telegrama enviado pelo comandante Joviniano Brandão ao então comandante geral da Força Pública de São Paulo dá uma noção da ofensiva governista enfrentada pelos paulistas em meados de setembro:[57]

As forças governistas, estimadas em cerca de 12 mil homens naquele setor, combateram um contingente de tropas paulistas que na média da campanha militar foi três vezes menor em relação às adversárias. Ao final de setembro de 1932, as cidades paulistas próximas à divisa com Minas Gerais estavam ocupadas por tropas leais a Getúlio Vargas e as tropas constitucionalistas tinham a sua linha de defensa nos arredores da cidade de Campinas e Limeira. Porém, essas cidades estavam praticamente cercadas e a queda daquela posição era iminente, o que colocaria os governistas às portas da capital paulista e inviabilizaria a articulação das outras frentes de combate. Diante desse quadro, o comando supremo do Exército Constitucionalista e o comando geral da Força Pública de São Paulo se resignaram e solicitaram ao comando das Forças Federais a suspensão das hostilidades para dar início as tratativas para a rendição.[54][56][58]

Setor sul

O setor sul de combate, que compreendia a região fronteiriça com o estado do Paraná, no início campanha militar era defendido por tropas mistas, as quais respondiam ao Estado Maior da Força Pública, a exemplo do comando exercido no setor leste. A frente de combate de Itararé, nos primeiros dias do conflito, era comandada pelo tenente-coronel da Força Pública de São Paulo Pedro de Morais Pinto. Mais ao sul da fronteira, na localidade de Ribeira, a posição era defendida por um pequeno contingente comandado pelo tenente-coronel da Força Pública Azarias Silva. No entanto, a região de Itararé era considerada o principal teatro das operações para ambos os adversário, porém, nos primeiros dias da campanha foi a posição menos guarnecida pelas tropas paulistas, dado a crença do apoio que viria do Rio Grande do Sul, uma expectativa frustrada logo na primeira semana da guerra.[50]

Entre 15 a 18 de julho, tropas paulistas estavam estacionadas em Itararé, cidade próxima a divisa entre São Paulo e Paraná. No entanto, aquele comando deixou mal guarnecida a região norte daquela cidade, um local conhecido como "Passo do Cypriano". As tropas também estavam sem suprimentos e apoio logístico, que na ocasião ainda estavam por ser organizadas pelo comando.[59] Mas, logo na segunda semana do conflito, foram de súbito atacadas por tropas federais comandadas por Valdomiro Lima, além das forças públicas estaduais vindas da região sul do país, as quais, após um breve confronto direto, manobraram pela região norte de Itararé, adentrando no território paulista justamente pelo "Passo do Cypriano", ameaçando cortar a retaguarda das tropas Constitucionalistas. Essa situação resultou na queda de Itararé em 18 de julho e, em 2 de agosto, do subsetor de Ribeira, o que obrigou as tropas paulistas a recuarem do largo da fronteira com o Paraná para cidades mais ao interior como Buri, Guapiara e Taquari. Após a queda de Itararé, Bertoldo Klinger, comandante supremo do Exército Constitucionalista, nomeou o então coronel Brasílio Taborda para assumir o comando geral das tropas da frente sul de combate.[50] O coronel Azarias Silva, comandante da resistência na região de Ribeira, assim descreveu as razões da queda de Itararé:[60]

Sob o comando de Taborda, as tropas paulistas ainda no mês de julho conseguiram organizar às pressas a sua linha de resistência na cidade de Buri, contando ainda com a ajuda do Trem Blindado nº 1, que contribuiu para conter o avanço das tropas federais, pois estas já adentravam pela cidade de Buri, entre 26 e 27 de julho. Como nas demais frentes, as tropas federais, em maior número e mais bem equipadas, ocuparam paulatinamente as cidades de Buri e Guapiara, ameaçando avanço sobre a capital paulista. Segundo o então capitão Joaquim J. A. Bastos, chefe do Estado Maior do coronel Taborda, as forças federais comandadas por Valdomiro Lima totalizavam naquela frente cerca de 15 mil homens contra um efetivo de 5 mil soldados do Exército Constitucionalista que chegou a guarnecer mais de 600 km de extensão na fase final do conflito.[54][50]

Naquela região, ao longo do conflito, foram consolidados os seguintes subsetores de combate: os destacamentos da região de Ourinhos, Presidente Prudente e Itaporanga comandados pelo coronel da reserva da Força Pública Pedro Dias de Campos; os destacamentos da região de Buri, Campina do Monte Alegre e Capão Bonito comandados pelo coronel da reserva do Exército Christiano Klingelhoeffer, o major da Força Pública José Anchieta Torres e o major da Força Pública Genésio de Castro e Silva; o destacamento da região de Angatuba e Bom sucesso (atual Paranapanema) pelo tenente-coronel de Exército Milton de Freitas Almeida; e, na região mais ao sul, em Apiaí e Ribeirão Branco, com tropas comandadas pelo major da Força Pública Luís Tenório de Brito onde mais tarde, com o recuo da linha para Guapiara, foi guarnecida pelo destacamento comandado pelo tenente-coronel do Corpo de Bombeiros da Força Pública Álvaro Martins. O major Tenório de Brito posteriormente assumiu o comando de um destacamento de ligação na região de Campina do Monte Alegre. Naquela frente de combate havia também unidades de apoio que reforçavam as defesas daqueles destacamentos, como foi o caso da Brigada do Sul comandada pelo coronel Ataliba Leonel. Além disso, havia tropas de cavalaria que exerciam apoio com uma atuação móvel, tendo sido a unidade mais notável o Regimento de Cavalaria do Rio Pardo comandado pelo capitão da Força Pública Alfredo Garcia Feijó.[50][54][61][62][63]

O coronel Taborda, ao assumir o comando do setor sul de combate, adotou uma estratégia eminentemente defensiva baseada na doutrina militar alemã, buscando ali tão somente a contenção das tropas federais de modo a poupar recursos e também garantir que as tropas paulistas das demais frentes tivessem a possibilidade de assumir a ofensiva rumo a capital federal do país para, enfim, cumprir o objetivo do levante, que consistia na deposição do governo provisório e convocação de uma Assembleia Constituinte. Até o fim do conflito, em 2 de outubro de 1932, Taborda obteve relativo sucesso nesse objetivo, uma vez que as tropas comandadas por Valdomiro Lima da última semana de julho até a data da rendição oficial dos paulistas (num total de 70 dias) conseguiram avançar apenas 20 km além da cidade de Buri e, na ocasião das negociações do armistício entre as tropas adversárias, no início do mês de outubro, ainda continuavam contidas na altura do Rio Paranapanema, com as trincheiras paulistas posicionadas na margem leste.[50]

Setor litoral

No início do conflito, o Exército Constitucionalista compôs um perímetro de defesa do Porto de Santos por meio de Minas Submarinas e de guarnições de artilharia e infantaria situadas no Forte de Itaipu e em outros pontos estratégicos na região de Santos, de modo a impossibilitar a aproximação da esquadra da Marinha Brasileira ou um assalto de seus fuzileiros navais, na época comandada pelo Ministro da Marinha Protógenes Guimarães. Porém, essa esquadra cercou o litoral paulista impossibilitando o envio de recursos e suprimentos às tropas paulistas bem como a população, o que comprometeu seriamente a capacidade bélica bem como o comércio paulista. As minas submarinas foram projetadas e produzidas por engenheiros e técnicos ligados a Escola Politécnica de São Paulo.[54][64][65][66]

O destacamento do litoral paulista era comandado pelo coronel Cristovão Colombo de Mello Mattos. A defesa paulista compreendia todo o litoral do estado e localidades na serra do mar, com guarnições instaladas em pontos estratégicos, como Santos, Praia Grande, Guarujá, Peruíbe, Cananeia, Ubatuba, entre outros, e também em Jacupiranga e Xiririca (atual Eldorado). No litoral sul, houve combates importantes em Cananeia, Colônia Santa Maria e Xiririca, bem como da fronteira com o Paraná, em Guaraqueçaba, entre a polícia paranaense e unidades paulistas compostas pela Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro, voluntários locais e pelo 9º B.C.P. da Força Pública paulista. O litoral do estado ficou nas mãos dos paulistas até o fim do conflito, ocorrido em 2 de outubro de 1932.[67][54][68][69]

Sul de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul)

O então estado do Mato Grosso foi o único aliado de São Paulo no conflito. Após a deflagração do levante, a região sul do estado, atualmente contemplada pelo Mato Grosso do Sul, se emancipou ao declarar a sua autonomia e apoiar o levante. O novo estado passou a ser denominado como estado de Maracaju, cuja capital era Campo Grande e tendo Vespasiano Barbosa Martins a cargo da chefia do governo estadual.[70][71]

Em julho de 1932, o general Bertoldo Klinger comandava a Circunscrição Militar de Mato Grosso e, durante as preparações para o levante, prometia levar 5 mil soldados e copiosa munição daquele estado para engrossar as fileiras da tropas paulistas. Contudo, com a súbita exoneração do general ocorrida em 8 de julho, por conta de uma carta em termos ofensivos enviada no dia 1º daquele mês ao Ministro da Guerra Augusto Espírito Santo Cardoso, ficou comprometida as conspirações em curso no Mato Grosso, bem como a adesão total ao levante das unidades do Exército sediadas naquele estado, em especial, aquelas unidades situadas em Cuiabá e na região de Corumbá, que ficaram alheias a situação e acabaram por permanecerem leais ao governo federal ou tiveram seus oficiais comandantes presos na ocasião da deflagração do conflito. Em substituição ao general Klinger, o coronel de engenharia Oscar Saturnino de Paiva foi nomeado interinamente ao comando daquela Circunscrição Militar. Contudo, Saturnino de Paiva veio a também aderir ao levante deflagrado em São Paulo no dia seguinte, o que em muito facilitou a aliança entre os paulistas e aquelas unidades do Exército e da Força Pública Mato-grossense. O coronel também participou da cerimônia de criação do novo estado e da posse do seu governador aclamado, Vespasiano Martins, ocorrida na tarde de 11 de julho de 1932.[54][70][71][72][73]

O setor respectivo ao estado de Maracaju então comandado pelo coronel Oscar Saturnino de Paiva foi entregue ainda no mês de julho para o coronel Francisco Jaguaribe de Mattos, que a princípio de setembro veio a ser substituído pelo coronel Nicolau Bueno Horta Barbosa.[74] O coronel Saturnino de Paiva veio a assumir no mês seguinte o comando do destacamento paulista respectivo ao denominado setor leste de combate, situado na região de Campinas.[54]Desde os primeiros combates o destacamento constitucionalista de Maracaju assumiu a ofensiva para garantir posições estratégicas para o controle da região. À leste, aquela tropa desbaratou uma coluna de soldados federais em Santana do Paranaíba, e também outra vinda de Goiás, com vários elementos tendo sido presos. Também repeliram forças federais em Três Lagoas e Porto XV de Novembro. Ao norte, em Coxim, também debelaram uma coluna vinda de Cuiabá, composta por duas Cia reduzidas do 16º B.C. e do 1º B.C. da Força Pública, que visavam a tomada de Campo Grande. Mais ao sul, em Bela Vista, os rebeldes tomaram a cidade após súbita resistência do interventor municipal Mário Garcia e do comandante do 10º R.C.I. que inicialmente haviam declarado apoio a Revolução. A oeste, os combates foram mais intensos, tendo as tropas revolucionárias tomado a cidade de Corumbá, a Base Fluvial de Ladário, Porto Esperança, o Forte Coimbra e, por fim, Porto Murtinho, em 12 de setembro de 1932, onde lá desbarataram a flotilha liderada pelo monitor fluvial Pernambuco e o destacamento governista comandado pelo coronel do Exército Leopoldo Nery da Fonseca Junior. As batalhas pela tomada de Porto Murtinho e Porto Esperança foram os feitos mais notáveis daquelas tropas no conflito, cuja vitória também garantiu para os rebeldes o controle de toda a região atualmente contemplada pelo Estado do Mato Grosso do Sul. Além disso, garantiram o acesso ao Oceano Atlântico pelo Rio Paraguai, ao Rio Paraná e a fronteira brasileira com a Bolívia e o Paraguai para viabilizar a entrada de recursos bélicos em favor das tropas revolucionárias, uma vez que o Porto de Santos estava sob bloqueio da esquadra naval governista. Ainda em meados de setembro, parte daquela força mato-grossense viria dar reforço na frente sul e frente leste paulista de combate, com o Batalhão Visconde de Taunay junto com uma unidade de artilharia se deslocando para Capão Bonito para combater tropas gaúchas. O controle da região sul do então Estado do Mato Grosso viabilizou o acesso dos revolucionários ao estrangeiro, algo que até então estava restringido, inclusive por meio dele conseguiram realizar o translado dos novos aviões adquiridos dos EUA. A atuação das tropas de Maracaju foi mais tarde reconhecida como notável pelos comandantes paulistas.[54][75][70][71][73]

Em uma carta dirigida ao general Bertoldo Klinger após o conflito, o coronel Horta Barbosa rememorou orgulhoso as conquistas de sua tropa em Maracaju:[73]

Até a data de rendição, ocorrida em 2 de outubro, o território do estado de Maracaju permaneceu com livre-trânsito para os paulista, tendo inclusive boa parte dos líderes do levante fugido via Campo Grande do cerco governista na véspera do armistício. Porém, entre 3 e 4 de outubro, as tropas rebeldes situadas em Campo Grande, após tomarem conhecimento do armistício em São Paulo, se amotinaram e prenderam o seu comandante, o coronel Nicolau Horta Barbosa. No entanto, as demais regiões do estado continuaram nas mãos dos revoltosos por mais algumas semanas até negociarem a deposição de armas e sua rendição às tropas federais. O último reduto revolucionário foi na região de Bela Vista e Ponta Porã, cujo destacamento constitucionalista comandando pelo coronel Jaguaribe de Mattos se rendeu somente no dia 25 de outubro perante as tropas federais comandadas pelo tenente-coronel Castelo Branco. Apesar da derrota militar dos rebeldes, em 1º de janeiro de 1979 a divisão regional ocorrida em 1932 foi consumada com a criação dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, uma divisão desejada desde o término da Guerra do Paraguai.[11][70][71][75][76]

Rio Grande do Sul

Embora o general Flores da Cunha, então interventor do Rio Grande do Sul, tenha sido aliado de Getúlio Vargas naquele conflito, um grupo de gaúchos entraram na luta contra o regime provisório de Vargas. Esse grupo era liderado por Borges de Medeiros e consistia em um batalhão de cerca 450 homens. Embora fosse uma força diminuta e incapaz de neutralizar as tropas leais a Vargas, elas utilizavam táticas de guerrilha no esforço de distrair as tropas federais gaúchas de modo a impedir que fossem enviados destacamentos para reforçar as tropas federais que combatiam contra São Paulo.[77]

Contudo, a frente rio-grandense da Revolução Constitucionalista chegou ao fim na Batalha de Cerro Alegre, no município de Piratini, no dia 20 de setembro de 1932, quando foram mortos mais de duzentos homens das forças rebeldes, sendo Borges de Medeiros preso em seguida.[77] A derrota dos rebeldes no Rio Grande do Sul, ao final daquele mês, somada as dificuldades das tropas da resistência em São Paulo com a falta de recursos bélicos, foram algumas dentre as razões para o comandante supremo do Exército Constitucionalista solicitar o armistício em 28 de setembro e iniciar as tratativas para a rendição perante as forças governistas.[78]

BlindadosEditar

Trem blindado
O TB-6, "O Fantasma da morte", estacionado a frente da estação de Guaratinguetá, em setembro de 1932.
Uma das frentes do blindado, onde se pode ver o canhão 75mm.
O TB-4 em Itapira.
Um dos vagões do TB-5, onde é possível ver a torre giratória da metralhadora Hotchkiss 7mm.

Em 1932, São Paulo tinha o seu sistema de transporte majoritariamente baseado em estradas de ferro, com cerca de 7 mil quilômetros de trilhos ferroviários. Com a eclosão do conflito esse recurso passou a ser usado para o transporte de tropas e suprimentos. Porém, logo no início os paulistas começaram a explorar o seu potencial bélico, dado o conhecimento das experiências bem-sucedidas na Primeira Guerra Mundial com blindados nesse formato. Assim surgiu, ao final de julho de 1932, o primeiro trem blindado.[34][79]

O projeto inicial foi concebido numa parceria entre a Escola Politécnica de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e Cia Ferroviária Sorocabana. O protótipo surgido foi o denominado TB-1, sigla para “Trem Blindado nº 1”. O projeto foi do engenheiro francês Clèment de Baujaneau radicado ao Brasil após a Primeira Guerra Mundial, que conheceu as experiências com esse tipo de blindado naquele conflito. A montagem do protótipo foi do engenheiro Augusto Ferreira Velloso, da Escola Politécnica.[34][79]

Na Frente Sul, na divisa com o Paraná, apesar das dificuldades iniciais com a falta de suprimentos e a coordenação das tropas, que culminou com a perda da posição da cidade de Itararé e recuo para Buri, os paulistas estabeleceram nessa cidade uma linha defensiva suficiente para fazer frente às tropas federais, tendo sido o TB-1 fundamental para tanto, pois conteve o avanço das tropas federais enquanto as tropas constitucionalistas articulavam sua linha defensiva. Fernando Penteado Medici, em seu livro “Trem blindado” de 1933, deu o seu testemunho sobre a primeira atuação do protótipo TB-1, na cidade de Buri, em 26 de julho de 1932: "Dois quilômetros e o inimigo à vista. Os homens avançavam, certos de que era um trem de mercadoria, ou de víveres, realmente como estava disfarçado, e, em posição de atirar, ajoelhavam pelos trilhos. As nossas metralhadoras picotaram os inconscientes. A primeira impressão foi dolorosa. Pungente mesmo. Presenciar umas cenas destas". Essa atuação do TB-1 ocorreu sem ele estar completamente finalizado, tendo sido comandado pelo primeiro-tenente Affonso Negrão, onde conseguiu aniquilar completamente as forças inimigas e retomar a cidade paulista de Buri.[34][79]

O primeiro protótipo, o TB-1, foi construído em Sorocaba e consistia em uma locomotiva a vapor e um vagão, ambos blindados. No vagão, os soldados posicionavam-se em pequenas aberturas com metralhadoras Hotchkiss 7mm modelo Francês. No teto, havia duas grandes lanternas para iluminar as trincheiras inimigas à noite, utilizando a energia da própria locomotiva. Após sua primeira atuação, o TB-1 voltou para a oficina para ser aprimorado e passou então a adotar a denominação TB-3.[34][79]

O sucesso da atuação do TB-1 foi tanto que logo foi construída a segunda unidade, com a locomotiva nº 216, cuja denominação foi TB-2. O TB-2 e o TB-3 passaram a operar em toda a Frente Sul, principalmente na região de Buri, com patrulhas regulares pelas estações de Engenheiro Hermillo, Lidiana e Aracassú, na contenção da ofensiva das tropas federais. A partir do TB-2, os trens blindados foram padronizados para adotar um segundo vagão, em que um era a frente e outro atrás da locomotiva, equipados com metralhadoras leves Hotchkiss 7mm e com canhões Krupp ou Schneider de 75 mm nas duas extremidades. A blindagem era extremamente resistente, feita de peças de madeira de faveiro de alta resistência e revestidas por grossas chapas de aço. Não havia portas ou janelas, sendo a entrada por meio de um pequeno buraco no chão dos vagões e a entrada de ar e visualização externa feita por três pequenas aberturas. A comunicação entre os vagões e o maquinista era feita por meio do telefone. Havia também um calço para travar e sustentar os vagões no solo durante os tiros de canhões. A tripulação era formada por até 18 pessoas, com 15 soldados e 3 responsáveis pela operação do trem. Dado as poucas aberturas de ventilação, o calor no interior dos vagões era intenso, em que era comum os soldados atuarem somente de calça.[34][79][80]

As tropas federais quando em embate direto com esses blindados não causavam qualquer dano nos vagões, tampouco tinham como reagir seja para descarrilar o trem ou cercá-lo, pois dado sua amplitude de fogo, o blindado conseguia varrer qualquer resistência a dezenas de metros, tanto à frente como nos flancos ou na retaguarda. Assim, jamais houve episódio de tropas federais cercarem ou mesmo descarrilarem o blindado, de modo a obrigarem a rendição da tripulação. Soma-se ainda o fato de as tropas federais não estarem preparadas para combater esse tipo de ataque, assim, o surgimento do blindado sempre causava pânico e debandada de soltados federais.[34][79][81]

O contínuo sucesso desses dois primeiros protótipos motivou também o consorcio entre a Politécnica, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, as Cia. Mogiana e Cia. Paulista de Estrada de Ferro. Foram assim construídos ainda no início do mês de agosto o TB-4, na oficina de Rio Claro, e o TB-5, na oficina de Campinas, em que ambos passaram a operar nas frentes de combate do denominado “Setor Leste”, na divisa com Minas Gerais. As locomotivas empregadas no TB-4 e TB-5 foram respectivamente as de nº 730 e 732, que eram ligeiramente menores que os dois primeiros protótipos, e nelas foram instaladas blindagens até mesmo nas extremidades baixas e instalados canhões em torres giratórias, permitindo uma cobertura de 360 graus e possibilitando o ataque simultâneo a todos os lados. Além disso, passaram a ter pintura camuflada, em tons de verde escuro, contando também com tripulação de 18 soldados. Os dois blindados foram sediados em Mogi Mirim, fazendo incursões noturnas na fronteira com Minas Gerais, desde a região de Mococa até Bragança Paulista.[34][79][82]

A última unidade, o TB-6, foi o maior e mais potente de todos os cinco trens blindados, contava com três vagões blindados cuja comunicação entre eles era por telefone e possuía uma tripulação que consistia em cerca de 40 homens. O poder de fogo era predominantemente por meio metralhadoras, com várias do tipo leve modelo Hotchkiss e algumas do tipo pesada modelo Schwarzlose, além de um canhão 75mm posicionado no carro nº 1 situado a frente da locomotiva e alguns soldados com fuzil de assalto. Operava apenas nas linhas de bitola larga, da Estrada de Ferro Central do Brasil. Foi construído pela oficina ferroviária do bairro do Brás, na capital, e tão logo finalizado passou a atuar no denominado “Setor Norte” que compreendia todo o Vale do Paraíba, atuando sobretudo na linha férrea que liga a São Paulo ao Rio de Janeiro. Participou de combates em Resende, Itatiaia, Queluz, Cruzeiro e Lorena. Segundo o comandante daquele setor, o então Coronel Euclides Figueiredo, sua estréia naquele front ocorreu em 4 de agosto de 1932 e as suas "incursões diabólicas nas linhas inimigas" eram muito eficazes para o recuo do inimigo e para a cobertura da infantaria paulista. Inicialmente foi comandado pelo tenente Tito Pacheco[83], porém, as suas operações foram suspensas em meados de agosto para remanejamento dos recursos bélicos do blindado para suprir a demanda de algumas frentes de combate. No início de setembro, o então tenente Paulo Junqueira Duarte veio a assumir o comando das operações do blindado para garantir a cobertura móvel para as manobras da 2ª Divisão de Infantaria em Operações, e nesse posto teve notável atuação, sobretudo nos combates entre LorenaCachoeira Paulista, onde infligiu dezenas de baixas entre as tropas adversárias que temerariamente tentavam cercar o blindado. Também fizeram parte destes combates, por meio do blindado, os então capitães Reinaldo Saldanha da Gama e Arcy da Rocha Nóbrega. Durante as missões além das linhas inimigas, os tripulantes do blindado costumavam deixar presentes com bilhete anexo em provocação às tropas federais, como na ocasião em que deixaram uma caixa com cigarros e chocolates junto da nota: "Para os soldados capazes de defender uma causa tão miserável". Outra ocasião, em que desativaram uma armadilha na linha férrea para descarrilar o trem, os paulistas repetiram a provocação: "A 'ursadinha' não deu resultado. Dá próxima vez não façam um trabalho tão porco". Porém, por conta do excessivo arrojo nas missões e pela recompensa ofertada pelo comando governista, o blindado passou a ser muito visado pelas tropas federais, as quais faziam uso inclusive de artilharia na tentativa de neutraliza-lo. Segundo o seu comandante, o TB-6 chegou a receber tiros diretos de 37mm e estilhaços de 75mm, mas sem resultar em qualquer avaria e era também muito visado pela fuzilaria das tropas federais, o que tornava o ambiente interno do blindado ensurdecedor. Além disso, por vezes os adversários tentavam descarrilá-lo obstruindo a linha férrea com pedras e dormentes. Consta também que o TB-6 teve fundamental papel na cobertura das tropas paulistas quando do recuo para Guaratinguetá, onde pode impedir com sucesso o avanço e o envolvimento pelas tropas federais. Essa versão foi apelidada de “O Fantasma da Morte” pelos soldados, pois a maioria das suas incursões era noturna, em que chegava sorrateiramente próximo as posições inimigas e de súbito ligava seus potentes holofotes sobre as trincheiras das tropas federais, denunciando suas posições e na sequência varrendo o inimigo com a sua fuzilaria e o seu canhão. As tropas federais, sem como reagir e tomadas pelo pânico, debandavam em desordem, deixando para trás suas posições e armamentos, enquanto eram alvejadas pelos paulistas.[34][79][80][81][84][85]

O papel do TB nº 6 nos combates do Vale do Paraíba foi assim resumido por um combatente paulista, em livro escrito por ele na ocasião em que se encontrava detido em Lorena por tropas gaúchas:

Findo aquele conflito, o governo provisório de Getúlio Vargas logo se apressou em desmantelar ou retirar de São Paulo o todo o armamento operante. Assim, todos os trens blindados foram recolhidos a suas respectivas oficinas para o devido desmonte, sendo as locomotivas retornadas às condições originais de tráfego convencional.[34][82]

O Trem Blindado nº 6, "O Fantasma da Morte", em setembro de 1932.
Outros modelos
O blindado "FS-5" em São Paulo.
O blindado "FS-2".
O trator blindado "FS-6".
O blindado lança-chamas feito a partir de um trator lagarta Caterpillar, projetado por Reinaldo Saldanha da Gama.

A Escola Politécnica de São Paulo e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas também projetaram e construíram outros tipos de blindados, como os autos blindados, tratores blindados e lanchas blindadas.[79][82]

Os carros blindados de assalto foram baseados no chassi de automóveis e caminhões Ford, Chevrolet e Mac Coorning Deering, principalmente, sendo que a maioria deles foi construída nas Fundições e Oficinas Gerais Viúva Craig & Cia Ltda e J.Martin & Cia Ltda, na cidade de São Paulo, sob a supervisão técnica do Engenheiro Francisco de Sales Vicente de Azevedo e demais engenheiros da Escola Politécnica. No total, foram fabricados seis automóveis blindados que receberam as designações de FS, em referência ao seu autor. Esses blindados, devido à escassez de chapas de aço grossa, utilizavam duas chapas mais finas de cerca de 12 mm de espessura e entre elas era colocada lã de carneiro, de modo a impedir que um projétil atravessasse essa chapas. Também possuíam suspensão reforçada, com feixes extras de molas, de modo a suportar o peso da blindagem e dos soldados. Alguns possuíam torres giratórias de onde se podia disparar uma metralhadora pesada ou uma metralhadora leve Hotchkiss 7mm. Ao longo do conflito foram também recebendo melhorias na sua capacidade operacional. Esses carros blindados foram empregados em diversas frentes de batalha, nas fronteiras do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. Eles transportavam em média quatro homens, porém, o FS-8, podia transportar até oito soldados, tendo sido operado no Vale do Paraíba, onde ostentava pintura verde, embora a maioria fosse camuflada no padrão francês da primeira guerra mundial, em cores marrom, verde e azul claro. Esses blindados foram empregados como apoio à infantaria, em reconhecimento e na cobertura quando da retração das tropas constitucionalistas. O FS-8 atuou em conjunto com o TB-6 em setembro de 1932 na cidade Lorena, quando deram cobertura mútua e para as tropas quando do recuo para Guaratinguetá.[79][82]

Também foram construídos blindados a partir de tratores agrícolas Fordson, da Ford Motor Company, modelo F1922, para a Guarda Civil do estado de São Paulo, tendo construídos os modelos FS-6 e FS-7, com a mesma camuflagem no padrão francês.[79][82]

Ainda foram produzidos outros três blindados sobre lagartas, em tratores da Caterpillar da série 22, denominados “Tanks Paulistas”, sendo que apenas dois foram operacionais e o terceiro não ficou pronto a tempo para ser utilizado nos combates. Foi desenvolvido pelo Capitão Reinaldo Saldanha da Gama, com o apoio dos engenheiros da Escola Politécnica de São Paulo. O blindado sobre lagartas era na cor cinza, revestido em chapa de aço rebitada, com torre giratória para metralhadoras leves, possuindo dois holofotes e armado com um lança-chamas que atingia a dezenas de metros de distância, sendo sua tripulação formada por até 6 soldados. Esse modelo atuou principalmente na divisa com o Rio de Janeiro, próximo à entrada de uma ponte na cidade de Queluz. Lá, a margem do Rio Paraíba do Sul, tropas do governo federal tentavam avançar sobre a ponte da cidade e dominar a outra extremidade ocupada pelos paulistas. O blindado então se posicionava na entrada da ponte ou à margem do rio dando cobertura às tropas de infantaria, e com suas metralhadoras e o lança-chamas dissuadia o assalto das tropas federais, inclusive em incursões noturnas. Esse blindado já havia sido projetado um ano antes da revolução para a Força Pública de São Paulo, para fazer parte da Seção de Carros de Assalto, sendo o primeiro veículo a ela incorporado. Porém, o blindado era lento e de pouca mobilidade.[79][82][87]

No conflito foram produzidas também quatro lanchas blindadas, sendo que duas ficaram prontas para serem utilizadas na malha fluvial de São Paulo, tendo atuado em Rio Grande, no Rio Paranapanema e Rio Paraíba do Sul, com uma tripulação de até sete soldados e armadas com uma metralhadora leve, além de fuzis Mauser, ambos de 7mm.[79][82]

No Exército Federal, o único blindado utilizado pelas tropas foi o tanque francês Renault FT-17, tendo sido empregado apenas dois modelos na cidade de Passa Quatro, restritos apenas a missões de reconhecimento. Hoje há dois exemplares desse blindado preservados: um no Museu Eduardo André Matarazzo, na cidade de Bebedouro; outro em exposição no pátio do Centro de Instrução de Blindados, na cidade de Santa Maria.[82][88][89]

Apesar das inovações trazidas pelos paulistas com esses engenhos, bem como as novas doutrinas militares associadas, esses projetos não foram assimilados, estudados ou aproveitados pelo Exercito Federal, tendo sido todos os protótipos desmontados e seus projetos perdidos.[34][79][82]

AviaçãoEditar

Durante a revolução, a aviação teve um importante papel no conflito, sendo usada pelos federalistas para eventuais bombardeios e ataques a posições rebeldes, como os dez bombardeios aéreos a Campinas, que causaram muitos danos à infraestrutura da cidade. Os ataques foram comandados pelo major-aviador Eduardo Gomes de 15 a 29 de setembro de 1932. Contudo, o Grupo de Aviação do Exército Constitucionalista, comandado pelo então major-aviador Ivo Borges e sediado no Campo de Marte, também fez muito proveito da aviação durante o conflito.[90]

Os aviões atuaram principalmente no bombardeio de posições em complemento com a artilharia. Também visavam trazer inquietação sobre as concentrações de tropas e dissuadir os soldados de suas posições.[91][92]

Tropas federais e o então major-aviador Eduardo Gomes (o quarto da direita p/ esquerda).
Grupo de aviadores paulistas no aeródromo Campo de Marte em setembro de 1932.
Avião das tropas federais abatido pelos paulistas em setembro de 1932.
Prédio em Guaratinguetá destruído por bombardeio aéreo federal, em setembro de 1932.

A frota das forças federais era cerca de cinco vezes maior que a frota do exército constitucionalista. Além disso, as missões dos aviões federalistas eram mais regulares. Contudo, os paulistas tinham mais flexibilidade operacional do que os federalistas, pois enquanto estes dispunham de poucos aeródromos os paulistas se serviam do Campo de Marte como base principal e também de aeródromos estratégicos em Lorena, Taubaté, Mogi-Mirim, Campinas e Itapetininga. Assim, articulavam-se com grande proveito a partir de uma posição central e secundárias em relação às zonas de combate, com facilidade de desdobramentos, podendo facilmente reabastecer as aeronaves e colocar-se em posições bem próximas às frentes de combate, conseguindo com os mesmos aviões e pilotos a realização de grande número de sortidas. Os principais modelos utilizados por ambos os lados foram o Waco CSO e o Potez 25. Na frota federalista, os Waco CSO de cor vermelha logo se tornaram o terror das tropas paulistas e eram chamados de “vermelhinhos”.[91][92]

Os ataques aéreos foram inéditos até então, não raro causando pânico entre os combatentes. Esse efeito psicológico foi explorado ao máximo pelos federalistas, que instituíram a prática de usar patrulhas aéreas regulares sobre tropas paulistas visando inquietação entre os soldados.[91][92]

A despeito da superioridade da frota federalista a aviação paulistas obteve significativas vitórias no conflito. Segundo o Cel. Herculano de Carvalho e Silva, então comandante da Força Pública Paulista, em seu livro “A Revolução Constitucionalista”, a aviação constitucionalista obteve relativo êxito durante a campanha, tendo abatido ou inutilizado alguns aviões federalistas e realizado vários bombardeios bem-sucedidos às posições das tropas federais, além de verdadeiros dogfight nas perseguições e combates no ar contra os aviões federalistas, tendo frustrado várias missões de ataque aéreo das forças adversárias.[91][92]

Dentre alguns episódios descritos pelo comandante está o do dia 8 de agosto de 1932, em que o Major Pereira Junior telegrafa para o Tenente-coronel Francisco Júlio César de Alfieri para informar que um avião federalista, um Potez 25, foi abatido na cidade de Buri pelas metralhadoras de um avião constitucionalista vindo cair já em chamas no cemitério velho daquela cidade. Em 13 de agosto, os paulistas realizaram ataque aéreo contra posições dos federalistas na cidade de Areias, já ocupada pelos governistas, utilizando um Potez e dois Waco. Durante o retorno, próximo a Bom Jesus da Bocaina, interceptaram um Potez governista que estava a bombardear a usina elétrica local, ocorrido rajadas de metralhadora de parte a parte sem perdas, porém, os paulistas desengajaram do combate por falta de munição e combustível. No dia 22 do mesmo mês houve um combate aéreo envolvendo um Waco e um Nieuport paulistas e um Waco e um Potez do lado do governo, onde os paulistas foram interceptados no regresso de um ataque às tropas federais em Queluz, ocorrendo troca de rajadas entre os aviões, mas nenhum deles foi abatido. No dia 4 de setembro de 1932 o tenente Virgílio telegrafa para o Cel. Alfieri informando que um avião federalista foi abatido em Mogi-Mirim, sem mais detalhes. Em 11 de setembro, o major Romão Gomes informa àquele mesmo comandante que outro avião federalista foi abatido na cidade de Casa Branca-SP após tentar atacar tropas próximas à estação ferroviária, mas após ser atingido por metralhadoras antiaéreas dos paulistas veio a se esfacelar no solo, matando seus dois ocupantes, entre eles o aviador Lauro Horta Barbosa do Aero Clube Brasileiro. Há também outro episódio datado de 21 de setembro, em que num ataque surpresa a Moji-Mirim, já ocupada por tropas federais, os aviadores constitucionalistas conseguiram inutilizar 5 aviões dos federalistas ali estacionados. Em 23 de setembro, o capitão Adherbal de Oliveira abateu um "Waco" governista em Mogi-mirim, nas proximidades da fazenda Santa Júlia, após metralhar o tanque de combustível do aparelho, que obrigou os seus pilotos a aterrarem em território paulista, tendo sido na sequência preso os seus dois ocupantes e recuperado o aparelho.[91][93]

Contudo, a aviação constitucionalista sofreu pesados reveses. Dentre eles, o ocorrido em 24 de setembro, cujo plano previa um ataque divisionário aos navios da Marinha brasileira que faziam o bloqueio de Santos. Para tanto, foi deslocada uma esquadrilha de três aviões liderada pelo então major-aviador Lysias Augusto Rodrigues para uma ofensiva aos navios na finalidade de fazê-los concentrar a atenção nos aviões, dando chance ao navio Ruth, que trazia armamento e munição para os rebeldes, de modo a iludir o bloqueio naval e entrar no porto. Porém, o plano foi mal sucedido e nessa ofensiva um dos aviões, um Curtiss O1-E Falcon, entrou em chamas quando realizava um mergulho no ar em direção ao cruzador Rio Grande do Sul e se esfacelou no mar, possivelmente por ter sido alvejado pelo fogo antiaéreo do navio, resultando na morte dos dois ocupantes: o piloto, tenente José Ângelo Gomes Ribeiro; e o observador, o tenente Mário Machado Bittencourt.[90][91][92]

Em 18 de setembro, na cidade de Campinas, o escoteiro Aldo Chioratto, de 9 anos, foi morto após ser atingido estilhaços de uma bomba atirada por um dos “vermelhinhos” ao lado da estação ferroviária daquela cidade.[91][92]

Várias cidades paulistas próximas aos locais de combate foram bombardeadas da mesma forma, incluindo a capital. Na frente norte, cidades como Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Lorena, sofreram significativos bombardeios da aviação federalista. Ao fim de setembro, próximo do fim do conflito, o recuo das tropas paulistas de sua linha defensiva para Guaratinguetá, fez com que aquela cidade fosse visada pelos “vermelhinhos”, com inúmeros bombardeios nas posições de tropas e inclusive no perímetro urbano da cidade. Entre os aviadores que tomaram parte dessas missões de bombardeio sobre as cidades paulistas do Vale do Paraíba estava o então tenente-aviador Francisco de Assis Correia de Mello, popularmente conhecido por "Mello Maluco" pelos soldados, devido ao seu excessivo arrojo nas missões.[11][91][92][94]

Fim do conflitoEditar

 
Telegrama relatando o fim das hostilidades.

Em meados de setembro de 1932, as condições econômicas do estado de São Paulo eram precárias, dado o cerco militar e o isolamento comercial. Além disso, as cidades do interior do estado estavam sendo paulatinamente invadidas pelas tropas de Getúlio Vargas e a capital paulista cada vez mais ameaçada pela ocupação militar. A asfixia comercial era em grande parte causada pelo bloqueio ao porto de Santos, impedindo a remessa de suprimentos básicos à população do estado e também inviabilizando o reabastecimento de recursos militares às tropas constitucionalistas, o que tornava cada vez mais insustentável seu poder defensivo que até então era viabilizado pelas contribuições feitas por seus cidadãos e pela mobilização de voluntários na produção e distribuição de suprimentos. Soma-se ainda o fato de que praticamente toda indústria paulista ou estava paralisada devido ao conflito ou estava a se dedicar na produção de materiais e suprimentos para as tropas constitucionalistas.[10]

Os comandantes do Exército Constitucionalista, durante os três meses de conflito, tinham a expectativa de um ponto de inflexão no curso da guerra, de modo a saírem do cerco militar para reassumirem a ofensiva e, enfim, cumprir o objetivo do movimento armado, que previa a deposição do governo provisório então presidido por Getúlio Vargas. Porém, com os sucessivos revezes no campo militar, político, diplomático, econômico e logístico das forças constitucionalistas, os rebeldes se resignaram e pediram o armistício ao governo provisório para iniciar as tratativas para a rendição. Entre os fatores que sustentaram essa decisão estava a dificuldade dos paulistas em fabricarem recursos bélicos em tempo e suficientes; a frustração com a aquisição de recursos bélicos no estrangeiro após a atuação ostensiva da diplomacia do governo provisório, que conseguiu sustar as compras iniciadas; a frustração com o não reconhecimento internacional do estado de beligerância; o aliciamento político ou a prisão pelo governo federal de importantes aliados estaduais aos rebeldes; a debelação dos revoltosos no Rio Grande do Sul; o cerco e a iminente queda da praça militar de Campinas e Limeira, o que significaria praticamente a tomada da capital paulista pelos governistas e, com isso, a inviabilidade das demais frentes de combate; e, por fim, a asfixia comercial resultante do cerco militar que resultou na escassez generalizada de alimentos, combustíveis, peças de reposição, materiais bélicos, entre outros recursos fundamentais para os rebeldes sustentarem a guerra.[10][11][29]

Ciente da iminente derrota militar, o comandante supremo do Exército Constitucionalista, o general Bertoldo Klinger, juntamente com o comandante geral da Força Pública de São Paulo, o coronel Herculano de Carvalho e Silva, obtiveram um armístico e se engajaram na negociação com o general Pedro de Aurélio de Góis Monteiro, representante do governo provisório, para o fim definitivo do conflito. Após alguns dias de negociação, no 2 de outubro de 1932, na cidade de Cruzeiro, foi enfim assinada a rendição e consequentemente dando por encerrado o conflito. Entre os termos do acordo, foi estabelecido que a Força Pública de São Paulo retornaria aos quartéis para reassumir suas funções na segurança pública do estado e o coronel Herculano de Carvalho e Silva assumiria interinamente o governo do estado de São Paulo até a chegada do interventor designado por Getúlio Vargas. Com a retirada geral das tropas da Força Pública paulista, as demais tropas constitucionalistas compostas por elementos do Exército e voluntários, vendo-se incapazes de sustentar os combates devido a esse grande desfalque em suas linhas defensivas, também abandonaram as trincheiras em direção a capital e definitivamente encerrando os combates.[10][11]

No dia 6 de outubro, o General Valdomiro Castilho de Lima, então comandante das forças militares do Sul do Brasil, assume a intervenção do Estado de São Paulo. Foi a segunda vez em menos de dois anos que as tropas gaúchas ocuparam a capital paulista, sendo a primeira vez durante a revolução de 1930. Com a derrota militar da Revolução Constitucionalista, a maior parte de seus líderes foi exilada na cidade de Lisboa em Portugal.[10]

ConsequênciasEditar

 
Obelisco de São Paulo, no Parque Ibirapuera, construído em homenagem aos heróis da Revolução Constitucionalista.

Ao fim do conflito, com exceção dos membros da Força Pública de São Paulo, os principais líderes civis e militares do Movimento Constitucionalista foram enviados para o exílio em Portugal. Entre os paulistas, as baixas são estimadas em mais de mil mortos. Atualmente, no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera é guardada as cinzas de 713 ex-combatentes, além dos cinco jovens mortos em decorrência do protesto contra o governo de Getúlio Vargas em 23 de maio de 1932. Do lado federal, jamais foram liberados estimativas de baixas, entre mortos e feridos. A Revolução de 1932 foi considerada por historiadores como um dos maiores conflitos na história brasileira no século XX.[95][96]

Na versão do governo provisório, então presidido por Getúlio Vargas, o conflito não foi necessário, pois as eleições gerais já haviam sido agendadas para o ano seguinte. Em contrapartida, na versão dos líderes do levante, não teriam ocorrido as eleições de 1933 e a Assembleia Constituinte, tampouco a redemocratização e o Estado de Direito no Brasil não fosse o Movimento Constitucionalista de 1932. Porém, com exceção do estado de São Paulo, no restante do país prevalece a versão de Getúlio Vargas e de seus apoiadores, segundo a qual a bandeira da constitucionalização do país era um mero subterfúgio para os velhos políticos paulistas retomarem o poder após terem sido alijados dele com a Revolução de 1930 e, portanto, seriam eles os verdadeiros responsáveis pelo movimento armado. A tese varguista defende ainda que se tratou de uma conspiração orquestrada pela elite paulista que, de posse dos meios de comunicação da época no estado e utilizando a população paulista como massa de manobra, visava depor Vargas da Presidência da República para então reconduzir ao poder um representante da oligarquia paulista, que até então se encontrava no ostracismo político. Alega também que, com o fracasso desse objetivo inicial, a rebelião teria assumido um velado caráter separatista. Por fim, essa versão exalta a figura de Getúlio Vargas devido ao esforço do governo provisório na pacificação nacional no pós-conflito, atribuindo a ele o crédito das concessões políticas aos revoltosos, com o atendimento de praticamente todas as reivindicações que motivaram a revolução, além da reconciliação com os líderes paulistas.[97][11][98][99][96][100]

Após o conflito, apesar da vitória militar do governo provisório, Getúlio Vargas foi pressionado pela coalizão política e militar que o apoiou, pois ele havia assumido diversos compromissos políticos e financeiros com os líderes estaduais e militares, penhorados como moeda de troca na aliança para combater os rebeldes, somado ainda ao considerável endividamento do Tesouro Nacional para o financiamento da ofensiva contra os revoltosos. Além disso, as lideranças da coalizão de apoio ao governo provisório exigiam, a partir do fim do conflito, um esforço de pacificação nacional para a normalização política e econômica do país. Para tanto, a eleição para a Assembleia Constituinte era decisiva. Por outro lado, o governo provisório perdeu importantes bases de apoio que até então sustentavam a diretriz vigente do regime, como foi o caso dos "tenentes" representados pelo Clube 3 de Outubro, que eram contrários a Constitucionalização do país e acabaram perdendo sua influência política no pós-conflito. Nesse novo contexto, Getúlio Vargas ficou acuado politicamente e teve que fazer concessões para sustentar o seu grupo político no poder. [81][82][29][100][101][102]

As concessões do governo provisório foram de ordem política e econômica, as quais incluíram principalmente São Paulo, no esforço de pacificação do país e da normalização dos negócios, além de também prevenir novas divergências políticas, de modo a obter o mínimo de apoio político necessário do estado para o Poder Executivo Federal operar. Na época, o estado de São Paulo era uma das maiores economias do país e os diversos estados brasileiros tinham forte vínculo econômico e político com o estado, e a partir dele com o exterior, o que era motivo de grande preocupação para a União no pós-guerra. Esse esforço incluiu principalmente a decisão técnica do Banco do Brasil, então autoridade monetária na época, em assumir as obrigações do bônus de guerra emitido pelo Governo de São Paulo durante o conflito, para prevenir uma crise econômica de liquidez no país. Houve ainda esforço do governo federal em normalizar o comércio interno entre os estados e com o exterior a partir do Porto de Santos, desobstruindo acessos ao estado e reativando a plena atividade operacional e produtiva.[82][29][100][101][102]

 
Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932 no interior do Obelisco de São Paulo

Em 3 de maio de 1933 foram enfim realizadas as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, quando as mulheres votaram pela primeira vez no Brasil em eleições nacionais. Nesta eleição, graças à criação da Justiça Eleitoral, as fraudes deixaram de ser rotina nas eleições brasileiras. Em julho de 1934, durante a Assembleia Constituinte, Getúlio Vargas foi eleito indiretamente para a Presidência da República para um mandato de 4 anos e ao final da Assembleia foi promulgada a Constituição de 1934, o que marcou a volta da democracia e do estado de direito no país, bem como a pacificação entre os grupos políticos, além do retorno do exílio dos líderes rebeldes e da reincorporação dos militares rebeldes aos seus respectivos postos nas Forças Armadas do Brasil, embora a anistia destes últimos tenha sido em muito resultado da influência e pressão do general Pedro Góis Monteiro sobre o governo federal. Ainda naquele ano, o Presidente da República nomeia um interventor civil e paulista para o governo de São Paulo, Armando de Sales Oliveira, em mais um esforço de pacificação nacional.[97][98][82][103][96][104]

Anos mais tarde, durante o regime do Estado Novo, dois interventores federais em São Paulo saíram das hostes do PRP: Ademar de Barros (1938-1941) e Fernando de Sousa Costa (1941-1945), que havia sido secretário da agricultura do ex-governador de São Paulo, Júlio Prestes. Tornaram-se ambos grandes aliados de Getúlio Vargas em São Paulo.[105][106]

Apesar da derrota militar, as lideranças paulistas consideraram terem obtido uma vitória moral e política.[107] Conforme expressou o general Bertoldo Klinger, alguns anos após o conflito:[108]

No estado de São Paulo, a Revolução de 1932 se transformou na mais importante referência histórica da cidadania, dos valores e dos princípios de sua gente, a exemplo do que é a Guerra dos Farrapos para os gaúchos. Ainda durante o conflito, por meio da propaganda, foram reavivadas as tradições bandeirantes do estado, por exemplo, com imagens dos principais bandeirantes paulistas nas ilustrações das notas da moeda paulista colocada em circulação, no rádio, em cartazes e em outras várias publicações. O dia 9 de julho desde 1997[107] é feriado no estado de São Paulo e conta com diversos desfiles e demais eventos comemorativos por todo estado, em memória do evento histórico e também por aqueles que tombaram pela causa Constitucionalista. Contudo, no restante do país não há qualquer comemoração referente a Revolução Constitucionalista de 1932 e também é pouco lembrado, mesmo nos círculos acadêmicos e escolares, embora tenha ficado marcado na história do Brasil como um dos principais conflitos civil e militar, tanto pela mobilização ocorrida quanto pelo número de mortos, que em muito superou as baixas ocorridas na campanha militar brasileira na Itália na Segunda Guerra Mundial.[109][98][110]

Preservação da memória e dos ideais de 1932Editar

 
Monumento aos Heróis da Revolução Constitucionalista de 1932 no Cemitério da Saudade, em Campinas.

No feriado estadual de 9 de julho, anualmente se realizam comemorações e desfiles cívico-militares, sendo que o mais importante desfile se realiza no Parque do Ibirapuera em São Paulo. Nesta solenidade, são depositados no Mausoléu do Soldado Constitucionalista os restos mortais dos veteranos falecidos no ano corrente.

Em 25 de Janeiro de 1934 foi inaugurado o primeiro monumento em homenagem aos combatentes mortos durante o conflito, na cidade de Itapira-SP. O Monumento do Morro do Gravi é, até os dias atuais, o grande marco em homenagem aos soldados mortos em todo o "Setor Leste" Paulista.

Em homenagem à Revolução de 1932, no início de julho, um grupo de paulistas faz a "Caminhada 9 de Julho", percorrendo, todos os anos, a pé, 927 quilômetros pelo estado de São Paulo. Cruzam o estado de São Paulo, saindo de Rubineia, no extremo oeste do estado, e vão terminar a caminhada em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, onde foi assinada a rendição dos paulistas. Os organizadores desta caminhada cívica pretendem entrar para o livro Guiness dos recordes como a maior caminhada cívica do mundo.

A cidade de Cruzeiro recebeu, por meio da lei estadual nº 13.203 de 10 de setembro de 2008, o honroso título honorífico de "Capital da Revolução Constitucionalista de 1932" em virtude dos marcantes episódios desse conflito ocorridos no município, dentre os quais a assinatura do armistício, termo de cessação da Revolução que se deu no dia 2 de outubro de 1932 na Escola Arnolfo Azevedo (na época transformada em quartel-general das tropas paulistas), localizada na região central da cidade.

O Exército Constitucionalista ainda existe e é presidido por veteranos de 1932. A Sociedade dos Veteranos de 1932 preserva a memória, documentos e relíquias de 1932.

Impacto culturalEditar

O conflito foi retratado em novelas da televisão brasileira como a Novela Éramos Seis (1994), produzida e transmitida pelo SBT;[111] e a Novela Esperança (2002), produzida e transmitida pela Rede Globo,[112] ambas com uma perspectiva favorável a causa dos constitucionalistas. A minissérie da Rede Globo JK (2006), sobre a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, narra sua participação no conflito, em que atuou como médico na região do Túnel em Passa Quatro-MG.[113] Em 2002 foi produzido pela TV Cultura e a TV Assembleia o documentário A Guerra dos Paulistas - A Revolução Constitucionalista de 1932, em comemoração aos 70 anos do movimento armado.[114]

Ver tambémEditar

Referências

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BibliografiaEditar

 Ver artigo principal: Bibliografia da Revolução de 1932

Ligações externasEditar