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Rodrigo (em gótico: 𐌷𐍂𐍉𐌸𐌰𐍂𐌴𐌹𐌺𐍃; romaniz.: Hroþareiks; nas línguas germânicas: Ruderic, Roderic, Roderik, Roderich ou Roderick; em latim: Rodericus; em árabe: لذريق; Ludharīq; Córdova c. 687/688?c.711?)[nt 1] foi rei visigodo da Hispânia de 710 a 711. Com ele terminou o Reino Visigótico. Foi o lendário "último rei dos godos". Historicamente, pouco pode ser dito com exatidão sobre o seu reinado, exceto que governou parte da Península Ibérica ao mesmo tempo em que seus adversários governavam o resto do território e que foi derrotado e morto pelos muçulmanos, que conquistariam a maior parte da Península.

Rodrigo
Rei dos Visigodos
“Don Rodrigo, rey de los visigodos”, pintura de Mariano de la Roca y Delgado, 1853, Museu do Prado
Reinado 710–711
Antecessor(a) Vitiza
Sucessor(a) fim do Reino Visigótico
Nascimento c. 687 / 688 ?
  Córdova
Morte 711
  Batalha de Guadalete ?
Sepultado em Viseu ?
esposa Égilo [es]
Pai Teodofredo [es]
(filho de Quindasvinto)
Mãe Riccilo
Religião cristianismo

BiografiaEditar

Segundo a Crónica de Afonso III, Rodrigo era filho de Teodofredo [es], filho do rei Quindasvinto, e de uma mulher chamada Riccilo. Sua data exata de nascimento é desconhecida, mas estima-se que tenha sido após 687, ano do casamento de seu pai durante seu exílio em Córdova após a ascensão do rei Égica.[4]

UsurpaçãoEditar

De acordo com a Crónica de 754, Rodrigo "tumultuosamente [tumultuose] invadiu o reino [regnum] com o incentivo do senado [senatus]."[5][6] Os historiadores têm debatido por muito tempo o significado exato destas palavras. O que é geralmente reconhecido é que não se tratou de um golpe palaciano típico, como havia ocorrido em ocasiões anteriores, e sim de uma invasão violenta do palácio, que dividiu o reino.

É provável que a "invasão" não tenha partido de fora do reino, já que a palavra regnum pode referir-se ao escritório do rei; é provável que Rodrigo tenha apenas usurpado o trono.[6] Entretanto, é possível também que Rodrigo fosse um comandante regional (duque da Bética segundo as lendas) ou até mesmo um exilado, quando ele forjou o golpe.[7][8]

O "tumulto" que envolveu esta usurpação foi provavelmente violento, embora as circunstâncias deste tem dividido os estudiosos. Alguns creem que envolveu a deposição ou o assassinato do rei legítimo, Vitiza, enquanto outros acreditam que foi uma consequência da morte natural do monarca.[nt 2] Outros acreditam que o rei Ágila II, que governou em oposição a Rodrigo, era de facto o filho e sucessor de Vitiza e que Rodrigo tinha tentado usurpar o trono dele.[9]

O senado com o qual Rodrigo planejou seu golpe era provavelmente composto de "líderes aristocratas e talvez também alguns bispos".[6] A participação de clérigos na revolta é contestada; alguns estudiosos argumentam que o apoio dos bispos não teria levado o ato a ser rotulado de usurpação. Thompson, por exemplo, acredita que o golpe tenha sido orquestrado apenas por palacianos.[5] O grupo de senhores seculares e eclesiásticos era determinante na sucessão visigótica desde o reinado de Recaredo I.[7] Algumas medidas foram tomadas nas últimas décadas do reino para tentar diminuir a influência dos palacianos, mas eles não foram muito afetados por tais medidas, como a participação deles num golpe em 711 indica.[5]

Divisão do reinoEditar

 
Províncias da Hispânia de 586 a 711. Rodrigo controlava a província da Lusitânia e parte da Cartaginense.

Após o golpe, o reino foi dividido em dois, com a parte sudoeste (a província de Lusitânia e a parte ocidental da província de Carthaginiensis, em redor de Toledo, capital do Reino Visigótico) controlada por Rodrigo e a parte nordeste (Tarraconense e Narbonense) controlada por Águila. Tal facto foi confirmado por evidências arqueológicas e numismáticas. As doze moedas ainda existentes do reinado de Rodrigo, todas com o nome de Rvdericvs, foram cunhadas em Toledo, provavelmente a capital do seu reino, e em Egitânia (provavelmente a atual freguesia de Idanha-a-Velha). As regiões onde as moedas foram encontradas não se sobrepõem, sendo altamente provável que os dois governantes reinavam em oposição um ao outro. Não se sabe com quem ficou o controlo das províncias dea Galécia e da Bética.[10] O facto de que Rodrigo e Águila provavelmente nunca se enfrentaram militarmente é melhor explicado pela preocupação de Rodrigo com as incursões sarracenas na Hispânia e não com a divisão formal do Reino Visigótico.[11]

Uma lista de sucessão real visigótica menciona que Rodrigo teria reinado por um período de sete anos e seis meses, enquanto duas continuações da “Chronicon regum Visigothorum” [es] regista que o governo de Águila durou três anos. Em contraste às listas de sucessão real, cuja data não pode ser determinada, a Crónica de 754, escrita em Toledo, atesta que Rodrigo reinou por um ano.[7] Especula-se que o reinado de Rodrigo tenha começado em 710 ou, mais comumente, em 711, e se tenha estendido até ao final de 711 ou 712. O reinado de Águila provavelmente começou pouco depois do de Rodrigo e durou até 713.

Guerra com os muçulmanosEditar

Segundo a “Crónica de 754”, imediatamente após garantir seu trono, Rodrigo reuniu forças para se opor aos árabes e berberes (Mauri), que estavam a invadir o sul da Península Ibérica e tinham destruído muitas cidades sob o comando de Tárique e outros generais muçulmanos.[8] Enquanto fontes posteriores de origem árabe apresentam a conquista da Hispânia como um evento singular realizado sob as ordens de Muça ibne Noçáir, governador de Ifríquia, de acordo com a Crónica de 754, que foi escrita numa época mais perto dos eventos que relata, os muçulmanos começaram sua incursão pela região com ataques desorganizados e só conseguiram conquistar a Península após a morte de Rodrigo e o colapso da nobreza visigótica. Segundo a Historia gentis Langobardorum, de Paulo, o Diácono, os sarracenos invadiram "toda a Hispânia" a partir de Septem (Ceuta).[12][13]

Rodrigo fez várias expedições contra os invasores antes de ser abandonado em batalha pelas suas tropas e morto em 712. O cronista de 754 afirma que alguns dos nobres que haviam acompanhado Rodrigo na sua última expedição decidiram abandoná-lo por "ambição pelo reino", talvez a sua intenção fosse deixá-lo morrer na batalha para que pudessem assegurar o trono para um deles. Quaisquer que tenham sido as intenções, a maioria deles teriam morrido na batalha também.[8] Outros historiadores sugerem que a baixa moral entre os soldados por causa da ascensão contestada de Rodrigo ao trono foi a causa da derrota.[13] A maioria dos soldados de Rodrigo seriam mal treinados e escravos indispostos à batalha; provavelmente haveria poucos homens livres lutando pelos godos.[14] O local da batalha é incerto. Provavelmente ocorreu perto da foz do rio Guadalete, daí seu nome, Batalha de Guadalete. De acordo com Paulo, o Diácono, o local era desconhecido.[13]

Segundo a Crónica de 754, os sarracenos conquistaram Toledo em 711 e executaram muitos nobres que ainda estavam na cidade sob o pretexto de que ajudariam na fuga de Oppas [es], filho de Égica.[8] Tendo isto acontecido, de acordo com o próprio texto, após a morte de Rodrigo, a derrota das tropas deste deve ser atrasada para 711 ou a conquista de Toledo deve ser adiada para 712; esta última hipótese é a preferida por Collins.[15] É possível que o Oppas, que fugiu de Toledo e era filho de um rei anterior, tenha sido a causa da "fúria interna" que arrasou a Hispânia na época narrada pela Crónica. Talvez Oppas tenha sido declarado rei em Toledo pelos rivais de Rodrigo e Águila antes da derrota de Rodrigo ou entre a morte dele e a conquista de Toledo pelos sarracenos.[11] Se assim for, os nobres que tinham "ambição pelo reino" podem ter sido os apoiantes de Oppas que foram mortos em Toledo pelos sarracenos logo após a batalha no sul.[15]

Segundo um relato do século IX, uma tumba com a inscrição Hic requiescit Rodericus, rex Gothorum ("aqui jaz Rodrigo, rei dos godos") foi encontrada em Egitânia (atual freguesia de Idanha-a-Velha, em Portugal). Segundo a Lenda da Nazaré, o rei fugiu do campo de batalha sozinho[13][nt 1] e refugiou-se temporariamente no Mosteiro de Cauliana [es], perto de Mérida, de onde fugiu pouco depois para o que é atualmente a Nazaré, na costa portuguesa. Depois disso foi para Viseu, onde morreu dois ou três anos depois, e onde teria sido sepultado.[3][16] Rodrigo deixou uma viúva, Égilo [es], que mais tarde se casaria com um dos governantes árabes da Hispânia.[13]

Na literaturaEditar

Rodrigo foi tema de várias obras literárias. O escrito escocês Walter Scott tratou poeticamente das lendas associadas a ele em The Vision of Don Roderick (1811), assim como o fizeram os escritores ingleses Walter Savage Landor e Robert Southey em Count Julian (1812) e Roderick, the Last of the Goths (1814), respectivamente.

O escritor norte-americano Washington Irving recontou as lendas de Rodrigo em Legends of the Conquest of Spain (1835), obra escrita enquanto o autor morou na Espanha. As lendas recontadas por ele no livro são Legend of Don Roderick, Legend of the Subjugation of Spain e Legend of Count Julian and His Family.

Rodrigo também foi tema de duas óperas: Rodrigo (1707), de Georg Friedrich Händel e Don Rodrigo (1964), de Alberto Ginastera.

Notas

  1. a b Embora muitos autores presumam que Rodrigo morreu na batalha de Guadalete, que provavelmente ocorreu no final de julho de 711,[1] outros referem que ele pode ter morrido no ano seguinte,[2] outros que simplesmente desapareceu a seguir à batalha[1] e há também fontes, de fiabilidade questionável, que referem que morreu dois ou três anos depois.[3]
  2. Collins acredita que Vitiza foi alvo do golpe.

Referências

  1. a b Gran enciclopèdia catalana
  2. Collins 1991, p. 22.
  3. a b Moreno de Vargas 2005, pp. 319–320.
  4. Collins 2004, p. 136.
  5. a b c Thompson 1969, p. 249.
  6. a b c Collins 2004, p. 113.
  7. a b c Collins 2004, p. 132.
  8. a b c d Collins 2004, p. 133.
  9. Bachrach 1973, p. 32.
  10. Collins 2004, p. 131.
  11. a b Collins 2004, p. 139.
  12. HL, VI, 46  [necessário esclarecer]
  13. a b c d e Thompson 1969, p. 250.
  14. Thompson 1969, p. 319.
  15. a b Collins 2004, p. 134.
  16. Navarro del Castillo 1964, pp. 513–517.

BibliografiaEditar

  • Bachrach, Bernard S. (fevereiro de 1973), «A Reassessment of Visigothic Jewish Policy, 589-711», Oxford University Press, The American Historical Review (em inglês), 78 (1): 11–34, doi:10.2307/1853939 
  • Collins, Roger (1989), The Arab Conquest of Spain, 710–797 (em inglês), Blackwell Publishing 
  • Collins, Roger (1991), La conquista árabe, 710-797 (em espanhol), traduzido por Míguez, Néstor, Grupo Planeta (GBS), consultado em 26 de novembro de 2021 
  • Collins, Roger (2004), Visigothic Spain, 409–711, ISBN 9780631181859 (em inglês), Blackwell Publishing 
  • Hodgkin, Thomas (abril de 1887), «Visigothic Spain», Oxford University Press, The English Historical Review (em inglês), 2 (6): 209–234, consultado em 26 de novembro de 2021 
  • Halsall, Paul (1996), Ibn Abd-el-Hakem: The Islamic Conquest of Spain (em inglês), Internet Medieval Sourcebook. Universidade Fordham. www.fordham.edu, consultado em 26 de novembro de 2021 . Parte de ibne Abde Aláqueme (1858), History of the Conquest of Spain, traduzido por Jones, John Harris, Gottingen: W. Fr. Kaestner, pp. 18-22 
  • Shaw, R. Dykes (abril de 1906), «The Fall of the Visigothic Power in Spain», Oxford University Press, The English Historical Review (em inglês), 21 (82): 209–228, consultado em 26 de novembro de 2021 
  • Moreno de Vargas, Bernabé (2005), Historia de la Ciudad de Mérida, ISBN 9788497612012 (em espanhol), Maxtor, consultado em 24 de novembro de 2021 
  • Navarro del Castillo, Vicente (1964), «El monasterio visigótico de Cauliana, hoy ermita de Santa María de Cubillana», Deputação Provincial de Badajoz, Revista de estudios extremeños, ISSN 0210-2854 (em espanhol), 20 (3): 513-531, consultado em 24 de novembro de 2021 
  • Thompson, Edward Arthur (1969), The Goths in Spain (em inglês), Clarendon Press 
  • «Roderic», Gran enciclopèdia catalana (em catalão), Fundació Enciclopèdia Catalana. Grup Enciclopèdia. www.enciclopedia.cat, consultado em 26 de novembro de 2021 

Ligações externasEditar

 
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