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Baixo-relevo funerário retratando a procissão de um cavaleiro sálio, século II
Denário de Pompeu com efígie de Numa Pompílio (r. 715–673 a.C.).

Sálio (em latim: Salius; pl. Salii), por vezes conhecido como sálio palatino (em latim: salius palatinus pl. salii palatini), na religião da Roma Antiga, era um "sacerdote saltador" (do verbo salio, "pular") que realizava cultos a Marte Gradivo que supostamente teria sido instituído pelo rei Numa Pompílio (r. 715–673 a.C.). Formava um sacerdócio composto por 12 sálios seleccionados entre os jovens patrícios.

Os sálios trajavam-se como guerreiros arcaicos (trábea, peitoral de bronze, paludamento, espada e ápex) e eram encarregados com a proteção dos doze escudos sagrados (ancilia) de Marte e da realização de um festival dedicado a divindade na qual andavam por Roma carregando os escudos, dançando e cantando. Sob Túlio Hostílio (r. 673–643 a.C.) um novo colégio de sálios, chamados sálios colinos, foi criado para adoração de Quirino no monte Quirinal.

Índice

OrigemEditar

Segundo autores antigos citados por Sérvio Honorato e Macróbio, os sálios teriam existido em Tibur, Túsculo e Veios antes de sua criação em Roma.[1][2] Segundo relatado por Tito Lívio, os sálios romanos foram criado pelo rei Numa Pompílio (r. 715–673 a.C.),[3] a quem também atribuiu-se a instituição de várias outras agremiações religiosas. Outras fontes gregas e latinas forneceram suas versões da origem dos sálios. Segundo os etruscos, atribuiu-se a fundação por Mórrio, rei de Veios. Para outros, os sálios estariam associados com Dardano e as Penates samotrácias, ou a Sálio, que teria vindo à Itália com Evandro e na Eneida competiu nos jogos fúnebres de Anquises.[4]

CaracterísticasEditar

 
Representação dos sálios carregando os escudos sagrados

Os sálios eram formados por 12 jovens patrícios eleitos por cooptação. Tinham como principal função a proteção dos doze escudos sagrados (ancilia) de Marte, que eram mantidos no sacrário de Marte situado no Palatino, o que teria originado o nome distintivo de sálios palatinos. Eles trajavam túnica bordada (trábea), peitoral de bronze, paludamento e ápex, também utilizada pelos flâmines. Eles carregaram uma espada e no lado direito utilizavam um lança ou cajado. Os sálios celebravam um festival dedicado a Marte durante vários dias desde 1 de março. Nesta ocasião eles perambulavam por Roma em suas vestimentas oficiais carregando os escudos sagrados sobre o ombro esquerdo enquanto dançavam e cantavam.[5]

Nessa dança, os sálios bateram os escudos com varas, de modo a manter o tempo com suas vozes e com os movimentos da dança. Os cantos ou hinos por eles executados (as canções sálias; em latim: saliaria carmina) eram chamadas Asamenta, Assamenta, ou Axamenta, das quais a etimologia é incerta. Nelas exortava-se os deuses do panteão romano e um certo Mamúrio Vetúrio, que é pensado como o armeiro que confeccionou as 11 cópias do escudo sagrado original que teria caído do céu. Posteriormente, contudo, Augusto (r. 27 a.C.–14 d.C.), Germânico e Lúcio Vero seriam incorporados ao cântico. Na conclusão do festival, os sálios costumavam participar de um esplêndido entretenimento no Templo de Marte, que foi proverbial por sua excelência.[6]

Interpretações dos rituaisEditar

Georges Dumézil interpreta o ritual dos sálios como marcando a abertura e fechamento da temporada anual de guerra. A abertura coincidiria com o dia do Agônio Marcial em 19 de março,[7] e o fechamento com o dia do Armilústrio em 19 de outubro. A primeira data também foi referida como "para mover os escudos sagrados" (ancilia movere), e a segunda como "para guardar (ou esconder) os escudos sagrados" (ancilia condere). Dumézil vê os dois grupos de sálios - um representando Marte e outro Quirino - como uma relação dialética mostrando a interdependência das funções econômica e militar na sociedade romana.[8][9][10][11]

O filologista clássico Georg Wissowa mantêm a posição que o ritual dos sálios é uma dança de guerra ou uma dança de espadas, com seus fantasias claramente indicando sua origem militar.[12] Com base no fato do calendário romano primitivo começar com o mês de março, Hermann Usener sugeriu que a cerimônia do ancilia movere foi um ritual de expulsão do ano velho, representada pela figura misteriosa de Mamúrio Vetúrio, para abrir caminho para o nascimento do seus Marte em 1 de março.[13][14] Nos idos de março, na Mamurália, um homem ritualmente chamado Mamúrio Vetúrio era espancado com longas varas brancas, o que na visão de Usener seria algum tipo de ritual com bode expiatório.[15][16][17][18]

Segundo Usener e Ludwig Preller,[19][20] Marte seria um deus da guerra e fertilidade, enquanto Mamúrio Vetúrio seria o Velho Marte. Marte é ele próprio um dançarino,[21] e o chefe dos sálios dançarinos. Wissowa compara os sálios com o jovem nobre que dança o Jogo de Troia (Lusus Troiae).[22] Outros estudiosos do século XIX tentaram comparar os rituais sálios com os mitos védicos de Indra e os Marutas.[23][24][25]

Colinos e virgensEditar

 
Túlio Hostílio derrota exército de Veios e Fidenas, óleo sobre madeira de Cavalier D'Arpino (ca. 1601), Petit Palais, Paris.

Segundo Tito Lívio, o rei Túlio Hostílio (r. 673–643 a.C.) teria estabelecido outro colégio de sálios em cumprimento de um voto que ele teria feito durante a segunda Guerra com Fidenas e Veios.[26] Eles também eram 12 em número, escolhidos entre os patrícios, e parecem ter sido dedicados ao serviço de Quirino. Eles seriam conhecidos como sálios colinos (em latim: salii collini), agonais (agonales) ou agonenses (agonenses).[27]

Festo em sua obra Sobre o significado das palavras afirma, citando Cíncio e Élio Estilão, que havia virgens sálias (saliae virgines).[28] Trajando o paludamento e ápex dos sálios,[29][30] essas moças eram "contratadas" para assistir os pontífices nos sacrifícios realizados na Régia. Tem sido sugerido, contudo, que a passagem de Festo descreve um ritual de iniciação travesti.[31] Uma explicação anterior alega que essas damas desempenharam o papel de guerreiros ausentes em algum tipo de sacrifício vicário.[32] O significado delas sendo "contratadas" é incerto.[33]

Referências

BibliografiaEditar

Fontes primáriasEditar

  • Ovídio (século I a.C.). Fastos 
  • Sérvio (século V). Comentário sobre a Eneida de Virgílio 

Fontes secundáriasEditar

  • Beard, Mary (1990). «Priesthood in the Roman Republic». Pagan Priests: Religion and Power in the Ancient World. Ítaca, Nova Iorque: Cornell University Press 
  • Deubner, L. (1922). Zur römischen Religionsgeschichte. 36–37. Bona: Rheinisches Museum 
  • Habinek, Thomas N. (2005). The World of Roman Song: From Ritualized Speech to Social Order. Baltimore, Marilândia: Johns Hopkins University Press 
  • Hillebrandt, A. (1902). Vedische mythologie: bd. Die Adityas. Savitṛ und die Ṛbhus. Indra und die Maruts (Vāyu, Vāta, etc.) Viṣṇu. Pūṣan. Açvins. Kleinere götter. Manen, dämonen, Asuras. 3. Breslávia: W. Koebner 
  • Oldenburg, H. (1894). Die Religion des Veda. Berlim: Verlag von Wilhelm Hertz 
  • Preller, Ludwig (1858). Roemische Mythologie. Berlim: Weidmannsche Buchhandlung 
  • Rykwert, Joseph (1988). The Idea of a Town: The Anthropology of Urban Form in Rome, Italy and the Ancient World. Cambridge, Massachusetts: MIT Press 
  • Schoeder, L. von (1908). Mysterium und Mimus im RigVeda. Lípsia: Hermann Haessel 
  • Torelli, M. (1984). Lavinio e Roma. Riti iniziatici e matrimonio tra acheologia e storia. Roma: Ed. Quasar 
  • Usener, Hermann (1913). Kleine Schriften. Lípsia e Berlim: Druck un Verlag von B.G. Teubner 
  • Versnel, H. S. (1994). Inconsistencies in Greek and Roman Religion: Transition and Reversal in Myth and Ritual. 2 2 ed. Leida e Nova Iorque: Brill 
  • Wissowa, G. (1902). Religion und Kultus der Römer. Munique: C.H. Beck