Sete Dons do Espírito Santo

Os Sete Dons do Espírito Santo são os valores centrais que se procuram no culto ao Divino Espírito Santo na forma como é praticado entre os devotos do culto nos Açores e nas regiões das Américas onde se sente a influência da imigração açoriana. Apesar de terem a sua origem no culto e pensamento da Igreja Católica Romana, a forma como os dons do Espírito Santo são hoje encarados diferem marcadamente da ortodoxia católica e das raízes bíblicas subjacentes.

Coroa do Espírito santo usada pela Irmandade do Império da Vila Nova, Terceira.
A pomba, símbolo do Espírito Santo na forma como é celebrado nos Impérios.
O império da Feteira, ilha Terceira, um exemplar típico da arquitectura ligada às Irmandades do Espírito Santo (finais do século XIX).

Na realidade, os sete dons diferem marcadamente no seu conceito, e até em número, daqueles que são aceites pela generalidade das igrejas cristãs, já que na Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios (12.8-11), é dito que os dons do Espírito Santo são nove, e não sete como aceite no culto popular.

Longe das discussões teológicas e doutrinárias, os sete dons, associados à esperança da chegada de um novo mundo, mais justo e sábio, são o que une os devotos do culto do Divino Espírito Santo, num contínuo doutrinário que assenta no joaquimismo medieval, e hoje dá vida às Irmandades do Divino Espírito Santo.

A melhor definição destes dons é aquela que vem directamente do povo que os sente. Para isso vale a pena, recorrer ao depoimento de um lavrador já octogenário da ilha Terceira, Açores, chamado Gregório Machado Barcelos, recolhido em 1996 por José Orlando Bretão. Nele encontra-se, vertida no sabor do vernáculo popular e da tradição oral,[1] toda a súmula doutrinária e de bom comportamento social que tem por centro e por representação o Espírito Santo. Aquele idoso, quando lhe foi perguntado o que sabia acerca dos dons do Espírito Santo, utilizando a linguagem e os conceitos típicos do culto ao Divino nos Açores, respondeu[2]:

Este culto e estes conceitos, apesar de nem sempre terem tido uma convivência pacífica com a hierarquia católica nas ilhas, acabaram por ganhar aceitação generalizada, como aliás o demonstram a adesão popular às cerimónias do Espírito Santo e a crescente ligação entre estas e a igreja. Aliás, foi simbólico o facto do bispo de Angra, D. António de Sousa Braga, ter presidido em 1997 ao terço do Espírito Santo em São Carlos, dando simbolicamente àquele culto a sanção oficial da Igreja Católica.

Origem bíblicaEditar

Os Sete Dons do Espírito Santo, exactamente como são citados pela tradição católica e que se tornaram fonte de devoção popular, são enumerados na Bíblia no versículo 2 do capítulo 11 do Livro do Profeta Isaías: "Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, espírito de SABEDORIA e de ENTENDIMENTO, espírito de CONSELHO e de FORTALEZA, espírito de CIÊNCIA e de PIEDADE* e se alegrará no espírito de TEMOR DE DEUS" (*Vulgata). A lista de nove itens encontrada no versículo 22 do capítulo 5 da Epístola de Paulo aos Gálatas se refere aos frutos do Espírito: "Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança (autodomínio)". Nos versículos 8 a 10 do capítulo 12 da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios são enumerados nove dons do Espírito e no versículo 28 mais alguns. Numerosos hermeneutas e exegetas da Bíblia entendem que essas listas de enumerações são exemplificativas, que os dons do Espírito são de infinita diversidade, pois "há diversidade de dons e cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para o que for útil para todos" (cf. 1Cor 12, 4-7). Segundo esses estudiosos, o número sete no contexto bíblico significa universalidade, totalidade, perfeição; receber os sete dons do Espírito significa, portanto, receber todos os seus inúmeros dons.

Referências

  1. Luiz Fagundes Duarte, A influência de Joaquim de Flora em Portugal
  2. Hélder da Fonseca Mendes, Festas do Espírito Santo nos Açores - Proposta para uma leitura teológico-pastoral. Angra do Heroísmo, 2001: 90-91.

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar