Solidariedade social

Solidariedade social refere-se ao facto de quem a pratica integrar uma comunidade em que cada indivíduo se assume como interdependente. [1] A palavra “solidariedade” deriva do termo latino obligatio in solidum, que no direito romano significava o dever social, obrigação comunitária, ou seja, as responsabilidades que o indivíduo tem numa coletividade à qual pertence e da qual beneficia. A sua família, por exemplo, é uma pequena parte dessa comunidade.

Émile Durkheim (1858-1917), um dos fundadores da sociologia moderna, define o “facto social” como sendo uma entidade sui generis, não redutível à soma das suas partes, desenvolvendo o conceito de consciência coletiva. O seu trabalho vai muito para além desta disciplina, envolve-se nas ciências humanas, na filosofia, na antropologia, na economia, na linguística, na história. No seu livro Da Divisão do Trabalho Social (De la division du travail social) [2] defende o princípio que a sociedade se mantém coesa por duas forças unitárias. Uma delas é a relação entre pontos de vista semelhantes partilhados pelas pessoas, valores e crenças religiosas por exemplo, a que dá o nome de ‘solidariedade mecânica’, a outra consiste na divisão do trabalho em profissões especializadas, denominada ‘solidariedade orgânica’ [3] [4] [5].

Manifestação Internacional de Solidariedade em Kreuzberg, Alemanha

Solidariedade socialEditar

Implica também a solidariedade social a identidade ou semelhança psíquica e social dos indivíduos, e até mesmo física. Para manter a igualdade, necessária à sobrevivência do grupo, deve a coesão social recorrer à consciência coletiva. O progresso da divisão do trabalho faz com que a sociedade de solidariedade mecânica se transforme. [6]

Solidariedade orgânicaEditar

Durkheim entende que, à medida que as funções sociais se especializam e se diversificam, uma ‘solidariedade orgânica’ ocupará o lugar da ‘solidariedade mecânica’. Ao contrário desta, a solidariedade orgânica assenta numa diferenciação de tarefas envolvendo os indivíduos em elos de interdependência social. Nas sociedades modernas, os membros do grupo tanto são especializados como complementares.

À medida que as sociedades se tornam mais complexas, a divisão do trabalho e as consequentes diferenças entre os indivíduos conduzem a uma independência crescente das consciências. As sanções repressivas, que existiam ou ainda existem em sociedades "primitivas", são sustentadas hoje pelo Poder legislativo, que protege os valores da igualdade, liberdade, fraternidade e justiça. [7]

A divisão do trabalho, característica das sociedades mais desenvolvidas, gera um novo tipo de solidariedade, não mais baseado na semelhança entre os componentes (solidariedade mecânica) [8], mas na complementação de partes diversificadas. O encontro de interesses complementares cria um laço social novo, ou seja, um outro tipo de princípio de solidariedade, com moral própria, que dá origem a uma nova organização social, a uma solidariedade orgânica. Sendo seu fundamento a diversidade, a solidariedade orgânica implica maior autonomia, dando lugar a uma consciência individual muito mais livre.

Solidariedade e pazEditar

O problema da solidariedade, em paralelo com o da paz, é uma questão central no pensamento de gurus como Jiddu Krishnamurti e o Dalai Lama. É também preocupação maior do reputado filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, preocupação essa pela primeira vez expressa no seu livro Terre-Patrie (Terra-Pátria, de 1993), “a nossa casa e o nosso jardim”, pondo em destaque, a nível global, os perigos de políticas esquivas e não solidárias, como as de Donald Trump. [9] [10] [11] [12]

As 500 maiores empresas privadas têm um poder económico e político superior ao de qualquer estadista, líder imperial ou religioso. Formam uma ditadura global, impondo-se a qualquer Estado. [13] No ano de 2018, as Nações Unidas revelam que mais de 40 milhões de pessoas são vítimas de trabalho escravo. [14]. Esse cálculo confirma-se em dezembro de 2019 [15]

Temas relacionadosEditar

Referências

  1. HÖFFE, O. O que é justiça. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003
  2. De la division du travail social, de 1991, livro online
  3. A divisão do trabalho social – artigo de Juliana Bezerra, em Conteúdos escolares (Brasil)
  4. Resenha crítica da obra "Da divisão do trabalho social", de Émile Durkheim
  5. Division of labour in Durkheim, Marx and Honneth – paper de Luiz de Souza, Universidade Estadual de Campinas, 27/09/2018
  6. Reproduzido de Durkheim, E. "Solidarité mécanique ou par similitudes." In: De la division du travail social. 7.ª ed. Paris, PUF, 1960
  7. Lakatos, Eva Maria. Sociologia geral. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1985. p. 47-49
  8. Solidariedade mecânica e Solidariedade Orgânica
  9. Artigo em inglês de Edgar Morin intitulado The two humanisms (Os dois humanismos), pulicado no jornal Le Monde Diplomatique, outubro 2015
  10. HAVING TO BE – artigo de Ricardo Costa resumindo e clarificando o pensamento de Edgar Morin, dezembro 2019 (Ver ‘Notícias’ no final do texto)
  11. Entrevista em francês do jornal Le Monde Une polarisation politique de plus en plus préoccupante (Uma polarização cada vez mais preocupante), de Marc-Olivier Bherer, novembro 2012
  12. Os americanos que se preparam para um 'apocalipse' causado pela polarização política – artigo da BBC, 5 de dezembro 2019
  13. Christian Felber, Change Everything. Creating an Economy for the Common Good
  14. Mais de 40 milhões de pessoas ainda são vítimas de trabalho escravo no mundo
  15. ONU : mundo tem mais de 40 milhões de vítimas da escravidão moderna

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar