Sueli Carneiro

filósofa e ativista brasileira
 Nota: Não confundir com Simone Sueli Carneiro.

Aparecida Sueli Carneiro (São Paulo, 24 de junho de 1950) é uma filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro brasileiro.[1][2] Sueli Carneiro é fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil.[3][4] Possui doutorado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP).[2] Ela foi a primeira primeira mulher negra a receber o título de doutora honoris causa da Universidade de Brasília.[5]

Sueli Carneiro
Sueli Carneiro
Sueli Carneiro em 2021
Nome completo Aparecida Sueli Carneiro
Nascimento 24 de junho de 1950 (73 anos)
São Paulo, SP
Nacionalidade brasileira
Etnia afro-brasileira
Alma mater Universidade de São Paulo
Ocupação
Prêmios Diploma Bertha Lutz
2003

Biografia editar

Em 1983, o governo de São Paulo criou o Conselho Estadual da Condição Feminina, porém sem nenhuma mulher negra dentre as trinta e duas conselheiras. Sueli Carneiro foi uma das lideranças do movimento de mulheres negras que se engajou na campanha da radialista Marta Arruda pela abertura de uma vaga no conselho a uma mulher negra; campanha que logrou êxito.

Em 1988, fundou o Geledés — Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo. Meses depois, foi convidada para integrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, em Brasília. [6]

No mesmo ano, durante o Centenário da Abolição, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher criou sob a coordenação de Sueli, o Programa da Mulher Negra.[7]

Criou o programa SOS Racismo de Geledés, que redimensionou o racismo como violação aos direitos humanos.[8]

Em 1992, ela recebeu a visita de um grupo de cantores de rap da periferia da cidade, que queriam proteção porque eram vítimas frequentes de agressão policial. Sueli decidiu criar então o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e também multiplicadores da consciência de cidadania dos demais jovens.[9]

Em 1996, Sueli colaborou na redação do capítulo referente aos negros no Programa Nacional de Direitos Humanos por convite do próprio governo federal através do Ministério da Justiça. [7]

Ainda nos anos 90, a pensadora cria no Geledés um programa de saúde física e mental destinado às mulheres negras. [10]

Entre os anos 2008 e 2008, Sueli Carneiro escreveu mais de uma centena de artigos de opinião para o Correio Braziliense, muitos dos quais estão organizados no Acervo Sueli Carneiro. O livro Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil é uma compilação desses artigos. [11][12]

Em 2018, a filósofa política Djamila Ribeiro cria o selo editorial Sueli Carneiro, inaugurado com uma coletânea em sua homenagem, em reconhecimento à importância de suas ideias e atuação. [10]

Em 2021, Sueli Carneiro foi entrevistada pelo Museu da Pessoa, como parte da exposição "Vidas Negras". A filósofa conta sua história da infância à vida adulta e suas aproximações aos movimentos negros e formas de pensar fora do eurocentrismo. A respeito das motivações que levaram à criação do Geledés - Instituto da Mulher Negra, Sueli conta:

"O Geledés é uma coisa que surge da convicção de que a gente deveria ter um instrumento político de luta, para as mulheres negras. Uma organização política que amplificasse a voz das mulheres negras, que afirmasse essa voz na sociedade brasileira, que vocalizasse as questões específicas que as mulheres negras demandam, isso demanda atenção sobretudo das políticas públicas. Um instrumento político que nos situasse no contexto dos movimentos sociais da época, porque o movimento feminista, conduzido pelas mulheres brancas, não conseguia lidar, reconhecer as especificidades que mulheres de outros grupos étnicos, especialmente as mulheres negras. Esse feminismo negro é o princípio fundante do Geledés e o resto do temos feitos em 32 anos pra evidenciar, problematizar, fazer projetos e proposições políticas são desdobramentos dessas ideias."

-Sueli Carneiro


Entrevista para o Museu da Pessoa[13]

A construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser editar

A fundação do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser é o título da tese de doutorado em Filosofia da Educação na FFLCH - USP de Sueli Carneiro publicada em 2005. Nela, Carneiro usa os conceitos de Dispositivo e Biopoder de Michel Foucault para analisar as relações raciais no Brasil.

A partir disso, Carneiro constrói a noção de dispositivo racialidade/biopoder que busca dar conta de dois processos:

  • produção social e cultural da eleição e da subordinação raciais
  • produção de vitalismo e morte informados pela filiação racial

Da articulação do dispositivo de racialidade ao biopoder emerge um mecanismo da natureza de ambas tecnologias: o epistemicídio. A partir desse conceito de Boaventura de Sousa Santos, Carneiro discute o lugar que a educação ocupa na reprodução/manutenção de saberes, poderes, subjetividades e todos os “cídios” que o dispositivo racialidade/biopoder produz no Brasil.[14]

Prêmios e Honrarias editar

Obras editar

  • Escritos de uma vida (Editora Letramento, 2018). ISBN 978-85-9530-107-8
  • Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil (Selo Negro, 2011). ISBN 978-85-8747-874-0
  • Mulher negra: Política governamental e a mulher (1985), com Thereza Santos e Albertina de Oliveira Costa.
  • A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese (Doutorado em educação, 2005). Universidade de São Paulo, São Paulo.
  • Interseccionalidades: pioneiras do feminismo negro brasileiro (Editora Bazar do Tempo, 2020). ISBN 9786586719062
  • Pensamento Feminista: Conceitos Fundamentais (Editora Bazar do Tempo, 2019). ISBN 9788569924470
  • Pensamento Feminista Brasileiro: Formação e contexto (Editora Bazar do Tempo, 2019). ISBN 9788569924463
  • Pensée féministe décoloniale (Anacaona Editions, 2022). ISBN 978-2-490297-19-1
  • Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero (Takano Editora, 2003). [24]
  • Gênero, raça e ascensão (Centro de Filosofia e Ciências Humanas - UFSC, 1995). [25]
  • Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser (Editora Zahar, 2023)

Referências

  1. «Retratos do Brasil Negro – Palmares». www.palmares.gov.br. Consultado em 9 de março de 2017 
  2. a b «Doutora em Filosofia pela USP defende cotas para negros e lembra julgamento em que STF discutiu conceito de raça». Supremo Tribunal Federal. 5 de março de 2010. Consultado em 9 de março de 2017 
  3. «Dia das Mulheres Negras, Julho das Pretas: o tributo a Sueli Carneiro | CLAUDIA». CLAUDIA. 25 de julho de 2016 
  4. «O feminismo negro no Brasil | Cacheia!». Cacheia!. 10 de novembro de 2015 
  5. Rezende, Jáder (3 de setembro de 2021). «Filósofa Sueli Carneiro entra para a história da Universidade de Brasília». Ensino superior. Consultado em 17 de maio de 2023 
  6. «Mulher 500 Anos - Por trás dos panos». www.mulher500.org.br. Consultado em 9 de março de 2017. Cópia arquivada em 25 de agosto de 2011 
  7. a b «Sueli Carneiro ( 1950 – ) – Mulher 500 Anos Atrás dos Panos». Consultado em 18 de setembro de 2022 
  8. «Sueli Carneiro recebe prêmio da LASA por sua produção acadêmica». Consultado em 9 de março de 2021 
  9. «Sueli Carneiro – Palmares». Consultado em 26 de maio de 2021 
  10. a b «Sueli Carneiro | Enciclopédia de Antropologia». ea.fflch.usp.br. Consultado em 18 de setembro de 2022 
  11. «EXPOSIÇÃO VIRTUAL - Acervo Sueli Carneiro». acervo.casasuelicarneiro.org.br. Consultado em 17 de maio de 2023 
  12. Carneiro, Sueli (19 de abril de 2015). «Prefácio, por Edson Lopes Cardoso». Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. [S.l.]: Selo Negro 
  13. «História». Museu da Pessoa. Consultado em 26 de maio de 2023 
  14. CARNEIRO, Aparecida Sueli; FISCHMANN, Roseli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
  15. «DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO - Seção 1 | Nº 220, terça-feira, 21 de novembro de 2023». Imprensa Nacional. 21 de novembro de 2023. p. 11. Consultado em 25 de janeiro de 2024. Cópia arquivada em 21 de novembro de 2023 
  16. «Sueli Carneiro é primeira negra a ter título de honoris causa da UnB». Metrópoles. 19 de março de 2022. Consultado em 19 de março de 2022 
  17. «LASA2021 / Crisis global, desigualdades y centralidad de la vida». Latin American Studies Association (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2021 
  18. «Sobre esta Edição». Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Consultado em 16 de novembro de 2020 
  19. «Sueli Carneiro – Prêmio Itaú Cultural 30 Anos (2017)». Itaú Cultural. Consultado em 5 de julho de 2019 
  20. «Sueli Carneiro e Raquel Trindade recebem prêmio 'Benedito Galvão' da OAB-SP». Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial 
  21. Lopes, Nei (2006). Dicionário escolar afro-brasileiro (em portugués). [S.l.]: Selo Negro. 174 páginas. ISBN 978-858-747-829-0 
  22. «Lúcia Vânia destaca importância de Sueli Carneiro». Senado Federal. 27 de março de 2003. Consultado em 10 de março de 2017. Cópia arquivada em 10 de março de 2017 
  23. «Direitos Humanos». Folha de S.Paulo. 18 de dezembro de 1999. Consultado em 10 de março de 2017. Cópia arquivada em 10 de março de 2017 
  24. Negra, Geledés Instituto da Mulher (6 de março de 2011). «Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero». Geledés. Consultado em 18 de setembro de 2022 
  25. «Gênero, Raça e Ascensão Social». Observatório de Educação. Consultado em 18 de setembro de 2022 

Ligações externas editar

 
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